{"id":26399,"date":"2011-11-30T16:56:13","date_gmt":"2011-11-30T16:56:13","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=26399"},"modified":"2011-11-30T16:56:13","modified_gmt":"2011-11-30T16:56:13","slug":"regulacao-da-midia-de-volta-ao-passado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=26399","title":{"rendered":"Regula\u00e7\u00e3o da m\u00eddia: de volta ao passado"},"content":{"rendered":"<p><span class=\"padrao\">O ministro Paulo Bernardo, em audi&ecirc;ncia p&uacute;blica da Comiss&atilde;o de Ci&ecirc;ncia e Tecnologia, Comunica&ccedil;&atilde;o e Inform&aacute;tica (CCTC&amp;I) da C&acirc;mara dos Deputados, realizada no dia 6 de mar&ccedil;o de 2011, afirmou que o projeto para um marco regulat&oacute;rio das comunica&ccedil;&otilde;es &quot;se centrar&aacute; em modernizar a legisla&ccedil;&atilde;o defasada e regulamentar os artigos da Constitui&ccedil;&atilde;o que tratam da comunica&ccedil;&atilde;o&quot; [ver aqui mat&eacute;ria da Ag&ecirc;ncia C&acirc;mara].<\/p>\n<p>A lembran&ccedil;a da afirma&ccedil;&atilde;o do ministro das Comunica&ccedil;&otilde;es, oito meses atr&aacute;s, vem a prop&oacute;sito de proposta que est&aacute; sendo feita pelo ex-ministro da SECOM-PR, Franklin Martins. Em semin&aacute;rio promovido pela AJURIS, em Porto Alegre [3 de novembro] e no semin&aacute;rio do Partido dos Trabalhadores em S&atilde;o Paulo [25 de novembro], ele reiterou: &ldquo;Podemos construir um terreno comum para o debate do marco regulat&oacute;rio das comunica&ccedil;&otilde;es no Brasil: a Constitui&ccedil;&atilde;o Federal. Podemos assumir o compromisso de n&atilde;o aprovar nenhuma regra que fira a Constitui&ccedil;&atilde;o e de n&atilde;o deixar de cumprir nenhum preceito constitucional. Nada aqu&eacute;m, nem nada al&eacute;m da Constitui&ccedil;&atilde;o&rdquo; <\/p>\n<p>Celebrando a CF88 como portadora de princ&iacute;pios e normas que, por &oacute;bvio, deveriam j&aacute; estar sendo cumpridos, se pensarmos em perspectiva hist&oacute;rica, n&atilde;o deixa de ser emblem&aacute;tico da situa&ccedil;&atilde;o em que nos encontramos que princ&iacute;pios e normas promulgados h&aacute; mais de 23 anos e, na sua maioria, n&atilde;o regulados &ndash; sejam ainda objeto de proposta para se constituir &ldquo;no terreno comum&rdquo; para um marco regulat&oacute;rio das comunica&ccedil;&otilde;es. <\/p>\n<p>N&atilde;o dever&iacute;amos estar hoje em outro patamar, tratando de regular as transforma&ccedil;&otilde;es tecnol&oacute;gicas e suas imensas implica&ccedil;&otilde;es para o setor nas &uacute;ltimas d&eacute;cadas?<\/p>\n<p><strong>O tamanho do atraso<\/strong><\/p>\n<p>Quando do pronunciamento do Ministro Paulo Bernardo na CCTC&amp;I, em artigo publicado no Observat&oacute;rio da Imprensa n&ordm; 637, comentei: &ldquo;regulamentar os artigos da Constitui&ccedil;&atilde;o j&aacute; seria um avan&ccedil;o importante (&#8230;) o atraso do Brasil no que se refere &agrave; regula&ccedil;&atilde;o do setor de comunica&ccedil;&otilde;es continua extraordin&aacute;rio. Tanto &eacute; verdade que apenas a regula&ccedil;&atilde;o de normas e princ&iacute;pios que est&atilde;o na Constitui&ccedil;&atilde;o h&aacute; mais de vinte e dois anos j&aacute; significaria um avan&ccedil;o importante&rdquo;.<\/p>\n<p>N&atilde;o se pode esquecer que as normas e princ&iacute;pios que est&atilde;o na CF88 foram resultado de um dific&iacute;limo embate entre os interesses em avan&ccedil;ar na democratiza&ccedil;&atilde;o do setor e aqueles que, &agrave;quela &eacute;poca e ainda hoje, defendem o status quo legal. Tanto isso &eacute; verdade que, na Constituinte, a Comiss&atilde;o onde estava o tema da comunica&ccedil;&atilde;o foi a &uacute;nica que n&atilde;o chegou a ter um relat&oacute;rio final. Os acertos para a reda&ccedil;&atilde;o do cap&iacute;tulo V (do T&iacute;tulo VIII) &ndash; Da Comunica&ccedil;&atilde;o Social &ndash; foram feitos j&aacute; no &acirc;mbito da comiss&atilde;o de sistematiza&ccedil;&atilde;o. <\/p>\n<p>Al&eacute;m disso, o que finalmente se conseguiu inscrever na CF88 em termos de avan&ccedil;o para a &aacute;rea, resultou de anos de articula&ccedil;&atilde;o da sociedade civil em torno de bandeiras concretizadas atrav&eacute;s de Emendas Populares e press&atilde;o diuturna durante todo o processo constituinte. Nada veio de gra&ccedil;a.<\/p>\n<p><strong>Existe &ldquo;consenso&rdquo; em torno da CF88?<\/strong><\/p>\n<p>A CF88 seria hoje aceita como um &ldquo;terreno comum&rdquo; pelos atores que tem sido determinantes na formula&ccedil;&atilde;o das pol&iacute;ticas p&uacute;blicas para o setor de comunica&ccedil;&otilde;es?<\/p>\n<p>O que tem acontecido em rela&ccedil;&atilde;o aos princ&iacute;pios e normas constitucionais nos &uacute;ltimos 23 anos?<\/p>\n<p>(1) A maioria das normas e princ&iacute;pios referentes &agrave;s comunica&ccedil;&otilde;es que est&atilde;o na CF88 n&atilde;o foram regulamentadas. A situa&ccedil;&atilde;o &eacute; t&atilde;o grave que, desde novembro de 2010, est&aacute; no Supremo Tribunal Federal uma A&ccedil;&atilde;o Direta de Inconstitucionalidade por Omiss&atilde;o (AD0) pedindo que se declare &ldquo;a omiss&atilde;o inconstitucional&rdquo; do Congresso Nacional.<\/p>\n<p>(2) O artigo 222 foi alterado em momento de crise dos grandes grupos de m&iacute;dia para atender a seus interesses, isto &eacute;, permitir a entrada de capital estrangeiro em at&eacute; 30% na propriedade de empresa jornal&iacute;stica e de radiodifus&atilde;o (EC n. 36\/2002).<\/p>\n<p>(3) Dispositivos regulamentados n&atilde;o s&atilde;o cumpridos. &Eacute; o caso do artigo 224 que prev&ecirc; a cria&ccedil;&atilde;o do Conselho de Comunica&ccedil;&atilde;o Social como &oacute;rg&atilde;o auxiliar do Congresso Nacional, regulamentado por lei em 1991 e que n&atilde;o vem sendo cumprido h&aacute; mais de cinco anos.<\/p>\n<p>(4) Dispositivos regulamentados s&atilde;o considerados &ndash; pasme-se &ndash; &ldquo;inconstitucionais&rdquo;. O exemplo emblem&aacute;tico &eacute; a &ldquo;classifica&ccedil;&atilde;o indicativa&rdquo;. <\/p>\n<p>O inciso I, do &sect; 3 ao artigo 220, diz: <\/p>\n<p>Compete &agrave; lei federal:<\/p>\n<p>Regular as divers&otilde;es e espet&aacute;culos p&uacute;blicos, cabendo ao Poder P&uacute;blico informar sobre a natureza deles, as faixas et&aacute;rias a que n&atilde;o se recomendam, locais e hor&aacute;rios em que sua apresenta&ccedil;&atilde;o se mostre inadequada (grifo meu).<\/p>\n<p>Al&eacute;m da CF88, a classifica&ccedil;&atilde;o indicativa se ap&oacute;ia no Estatuto da Crian&ccedil;a e do Adolescente (Lei 8.069\/90), nas Portarias MJ n&ordm; 1.100\/2006 [regulamenta a Classifica&ccedil;&atilde;o Indicativa de divers&otilde;es p&uacute;blicas, especialmente obras audiovisuais destinadas a cinema, v&iacute;deo, DVD, jogos eletr&ocirc;nicos e de interpreta&ccedil;&atilde;o (RPG)] e n&ordm; 1.220\/2007 e no Manual da Nova Classifica&ccedil;&atilde;o Indicativa &ndash; Portarias SNJ n&ordm; 8\/2006 e SNJ n&ordm; 14\/2009 [regulamentam as obras audiovisuais destinadas &agrave; televis&atilde;o].<\/p>\n<p>Apesar disso, o presidente do conselho editorial e vice-presidente das Organiza&ccedil;&otilde;es Globo afirma: &ldquo;ao longo dos anos, legisla&ccedil;&otilde;es infraconstitucionais e at&eacute; mesmo portarias ministeriais, ao vincular as faixas et&aacute;rias a hor&aacute;rios de exibi&ccedil;&atilde;o, tornam impositiva uma classifica&ccedil;&atilde;o que deveria ser indicativa. (&#8230;) &Eacute; verdade que o Minist&eacute;rio da Justi&ccedil;a aceitou um sistema de autoclassifica&ccedil;&atilde;o. (&#8230;) os encarregados do Minist&eacute;rio da Justi&ccedil;a de aceitar a classifica&ccedil;&atilde;o de programas ou de reclassific&aacute;-los se julgam sabedores do que &eacute; ou n&atilde;o tolerado pela sociedade, dentro de um padr&atilde;o estreito que em tudo faz lembrar a censura&rdquo; CONAR, &ldquo;Autorregulamenta&ccedil;&atilde;o e Liberdade de Express&atilde;o&rdquo;; 2011; p. 48).<\/p>\n<p>J&aacute; o diretor da Central Globo de Comunica&ccedil;&atilde;o &eacute; mais direto. Afirma ele: &ldquo;&Eacute; uma grande amea&ccedil;a &agrave; liberdade de express&atilde;o. O que foi feito &eacute; que deram um golpe ao se vincular classifica&ccedil;&atilde;o de idade com faixa hor&aacute;ria&rdquo;.<\/p>\n<p>(5) Alguns dispositivos ainda n&atilde;o regulamentados s&atilde;o implacavelmente combatidos pelos grupos de m&iacute;dia. Um exemplo &eacute; o &sect; 5&ordm; do artigo 220 que reza &ldquo;Os meios de comunica&ccedil;&atilde;o social n&atilde;o podem, direta ou indiretamente, ser objeto de monop&oacute;lio ou oligop&oacute;lio&rdquo;. <\/p>\n<p>Como se sabe, o caminho mais curto para a concentra&ccedil;&atilde;o da propriedade no setor &eacute; a &ldquo;propriedade cruzada&rdquo;. Sem a sua regulamenta&ccedil;&atilde;o, portanto, n&atilde;o haver&aacute; como impedir a continuidade da oligopoliza&ccedil;&atilde;o e\/ou da monopoliza&ccedil;&atilde;o, caracter&iacute;sticas hist&oacute;ricas do setor no nosso pa&iacute;s. No entanto, a principal associa&ccedil;&atilde;o representativa dos concession&aacute;rios de radiodifus&atilde;o, a ABERT, considera que, em rela&ccedil;&atilde;o ao marco regulat&oacute;rio, &ldquo;discutir (sic, discutir!) temas como propriedade cruzada, significaria um retrocesso&rdquo; [cf. ABERT, Contribui&ccedil;&otilde;es para o Semin&aacute;rio do PT; in Semin&aacute;rio &ldquo;Por um novo Marco regulat&oacute;rio para as Comunica&ccedil;&otilde;es: o PT convida ao debate&rdquo;; Partido dos Trabalhadores, 25\/11\/2011].<\/p>\n<p><strong>D&eacute;j&agrave; vu<\/strong><\/p>\n<p>Para muitos de n&oacute;s que participamos dos movimentos civis a favor da democratiza&ccedil;&atilde;o das comunica&ccedil;&otilde;es antes mesmo do processo Constituinte, retornar aos temas anteriores &agrave; Constitui&ccedil;&atilde;o de 1988 tem um desconfort&aacute;vel sentimento de d&eacute;j&agrave; vu. Reaviva-se o clima de intoler&acirc;ncia que caracterizou as disputas daquele per&iacute;odo e que, infelizmente, tem caracterizado boa parte dos raros debates em torno da formula&ccedil;&atilde;o de pol&iacute;ticas p&uacute;blicas com a participa&ccedil;&atilde;o dos grupos privados de m&iacute;dia, desde ent&atilde;o. Lembre-se, por exemplo, a retirada da maioria dos grupos empresariais da comiss&atilde;o de organiza&ccedil;&atilde;o da 1&ordf;. CONFECOM, e o boicote e a sataniza&ccedil;&atilde;o dela que se seguiram.<\/p>\n<p>De qualquer maneira, se o &ldquo;terreno comum&rdquo; poss&iacute;vel para a negocia&ccedil;&atilde;o democr&aacute;tica de um marco regulat&oacute;rio para as comunica&ccedil;&otilde;es for a CF88, que assim seja. <\/p>\n<p>O fundamental &eacute; que, a exemplo do que ocorre nas principais democracias contempor&acirc;neas, a sociedade brasileira tamb&eacute;m encontre seu caminho para a efetiva&ccedil;&atilde;o do direito &agrave; comunica&ccedil;&atilde;o, vale dizer, da presen&ccedil;a e da participa&ccedil;&atilde;o de mais vozes no espa&ccedil;o p&uacute;blico brasileiro.<\/p>\n<p>A ver.<\/p>\n<p><em>Ven&iacute;cio Lima &eacute; professor titular de Ci&ecirc;ncia Pol&iacute;tica e Comunica&ccedil;&atilde;o da UnB (aposentado) e autor, dentre outros, de Regula&ccedil;&atilde;o das Comunica&ccedil;&otilde;es &ndash; Hist&oacute;ria, poder e direitos, Editora Paulus, 2011.<br \/><\/em><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p><span class=\"padrao\">Para muitos de n&oacute;s que participamos dos movimentos civis a favor da democratiza&ccedil;&atilde;o das comunica&ccedil;&otilde;es, retornar aos temas anteriores &agrave; Constitui&ccedil;&atilde;o de 1988 tem um desconfort&aacute;vel sentimento de d&eacute;j&agrave; vu.<\/span><span style=\"color: #000000; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; font-size: 9px; font-style: normal; font-variant: normal; font-weight: normal; letter-spacing: normal; line-height: normal; orphans: 2; text-align: left; text-indent: 0px; text-transform: none; white-space: normal; widows: 2; word-spacing: 0px; background-color: #ffffff\"><br \/><\/span><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[42],"tags":[85],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/26399"}],"collection":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=26399"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/26399\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=26399"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=26399"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=26399"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}