{"id":26379,"date":"2011-11-23T15:44:59","date_gmt":"2011-11-23T15:44:59","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=26379"},"modified":"2011-11-23T15:44:59","modified_gmt":"2011-11-23T15:44:59","slug":"a-falsa-disputa-entre-liberdade-versus-censura","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=26379","title":{"rendered":"A falsa disputa entre liberdade versus censura"},"content":{"rendered":"<p><span class=\"padrao\">[T&iacute;tulo original: A grande m&iacute;dia e a falsa disputa entre liberdade vs. censura}<\/p>\n<p>Diante da feroz rea&ccedil;&atilde;o da grande m&iacute;dia &agrave;s propostas apresentadas (e &agrave;quelas que sequer foram apresentadas) no IV Congresso Extraordin&aacute;rio do Partido dos Trabalhadores, relativas a um Marco Regulat&oacute;rio para as Comunica&ccedil;&otilde;es, escrevi no Observat&oacute;rio da Imprensa n&ordm; 658: A sa&iacute;da parece ser colocar imediatamente para o debate p&uacute;blico um projeto de marco regulat&oacute;rio. (&#8230;) Diante de uma proposta concreta de regula&ccedil;&atilde;o democr&aacute;tica &ndash; a exemplo do que acontece nos pa&iacute;ses civilizados &ndash; seus eternos opositores ter&atilde;o que mostrar objetivamente onde de fato est&aacute; a defesa da censura e onde se postula o controle autorit&aacute;rio da m&iacute;dia. N&atilde;o h&aacute; alternativa.<\/p>\n<p>Menos de tr&ecirc;s meses depois, o fato de o Governo Dilma n&atilde;o haver ainda apresentado um projeto de Marco Regulat&oacute;rio, aliado &agrave; incapacidade dos &ldquo;n&atilde;o-atores&rdquo; [organiza&ccedil;&otilde;es da sociedade civil; entidades representativas da m&iacute;dia p&uacute;blica (comunit&aacute;ria) e o pr&oacute;prio Minist&eacute;rio P&uacute;blico] de interferir efetivamente na defini&ccedil;&atilde;o da agenda p&uacute;blica e, mais do que isso, no enquadramento dos temas dessa agenda, vai aos poucos consolidando um falso cen&aacute;rio (&ldquo;communication environment&rdquo;) em rela&ccedil;&atilde;o ao que de fato est&aacute; em jogo.<\/p>\n<p>A grande m&iacute;dia est&aacute; vencendo a &ldquo;batalha das id&eacute;ias&rdquo; e tem conseguido construir como significa&ccedil;&atilde;o dominante no espa&ccedil;o p&uacute;blico que a sociedade brasileira estaria diante de uma disputa entre liberdade (liberdade de express&atilde;o) e censura do estado (regula&ccedil;&atilde;o, autoritarismo).<\/p>\n<p><strong>Quem &eacute; contra a liberdade?<br \/><\/strong><br \/>Na verdade esta &eacute; uma velha e conhecida t&aacute;tica utilizada por certos setores da sociedade brasileira. Escolhe-se um princ&iacute;pio sobre o qual existe amplo consenso e desloca-se a quest&atilde;o em disputa para seu campo de significa&ccedil;&atilde;o. Como em pol&iacute;tica, apoiar uma posi&ccedil;&atilde;o significa estar contra outras, &eacute; preciso identificar um advers&aacute;rio, no caso, os inimigos da liberdade. A quem se convenceria se ningu&eacute;m defendesse a posi&ccedil;&atilde;o contr&aacute;ria? &Eacute; necess&aacute;rio, portanto, que a grande m&iacute;dia conven&ccedil;a a maioria da popula&ccedil;&atilde;o de que &ldquo;algu&eacute;m&rdquo; &eacute; contra a liberdade &ndash; mesmo que nossa hist&oacute;ria pol&iacute;tica, em v&aacute;rias ocasi&otilde;es, revele exatamente o inverso. Como a grande m&iacute;dia (ainda) tem o poder de construir a agenda p&uacute;blica e enquadr&aacute;-la, repete exaustivamente a &ldquo;invers&atilde;o&rdquo; at&eacute; criar um ambiente falso no qual ela &ndash; a grande m&iacute;dia &ndash; se apresenta como a grande defensora da liberdade. Resultado: se interdita a possibilidade de um debate racional do que de fato est&aacute; em jogo.<\/p>\n<p>Manuel Castells &ndash; um dos maiores estudiosos da comunica&ccedil;&atilde;o nas &ldquo;sociedades em rede&rdquo; globalizadas &ndash; explica que o poder &eacute; exercido atrav&eacute;s da constru&ccedil;&atilde;o de significados na base dos discursos que orientam a a&ccedil;&atilde;o dos atores sociais. E, claro, o significado &eacute; constru&iacute;do pelo processo de &ldquo;a&ccedil;&atilde;o comunicativa&rdquo; na esfera p&uacute;blica, isto &eacute;, na rede (network) de comunica&ccedil;&atilde;o, informa&ccedil;&atilde;o e pontos de vista [cf. &ldquo;Communication Power&rdquo;, Oxford, pbk. 2011].<\/p>\n<p>Liberdade tem sido um dos termos mais problem&aacute;ticos e difundidos do pensamento moderno, tanto na consci&ecirc;ncia popular quanto na conceitua&ccedil;&atilde;o de &ldquo;experts&rdquo;. Junto com outros termos como desenvolvimento e democracia, &eacute; parte da hist&oacute;ria da modernidade que tem dominado o pensamento ocidental pelos &uacute;ltimos tr&ecirc;s s&eacute;culos. Durante a Guerra Fria, liberdade serviu como argumento central na disputa ideol&oacute;gica entre o ocidente e o oriente e, em parte, tamb&eacute;m contra o &ldquo;Terceiro Mundo&rdquo;. Com o fim da Uni&atilde;o Sovi&eacute;tica, o uso ideol&oacute;gico da liberdade ganha novas dimens&otilde;es e contornos [cf. K. Nordenstreng, &ldquo;Myths about press freedom&rdquo;, Brazilian Journalism Research, vol. 3, n&ordm; 1, 2007; p. 15 e segs.].<\/p>\n<p><strong>Censura vs. liberdade de express&atilde;o<\/strong><\/p>\n<p>Nesse contexto, n&atilde;o basta comprovar que a m&iacute;dia &eacute; regulada nas democracias mais avan&ccedil;adas do mundo; n&atilde;o basta propor que as normas e princ&iacute;pios j&aacute; constantes da Constitui&ccedil;&atilde;o de 88 sejam o &ldquo;terreno comum&rdquo; para as negocia&ccedil;&otilde;es (como fez o ex-ministro Franklin Martins recentemente em Porto Alegre); n&atilde;o basta mostrar que as mudan&ccedil;as tecnol&oacute;gicas exigem uma atualiza&ccedil;&atilde;o da legisla&ccedil;&atilde;o; n&atilde;o basta reiterar compromissos com a Constitui&ccedil;&atilde;o Federal e com a liberdade de express&atilde;o. Nada &eacute; suficiente.<\/p>\n<p>O vazio provocado pela aus&ecirc;ncia de propostas concretas do governo e a incapacidade dos &ldquo;n&atilde;o-atores&rdquo;, faz com que o campo de significa&ccedil;&otilde;es sobre o que constitui um Marco Regulat&oacute;rio das Comunica&ccedil;&otilde;es esteja sob o controle daqueles que s&atilde;o contr&aacute;rios a ele.<\/p>\n<p>Essa &eacute; a situa&ccedil;&atilde;o em que nos encontramos hoje.<\/p>\n<p><strong>O que fazer?<\/strong><\/p>\n<p>&Eacute; poss&iacute;vel alterar &ldquo;o ambiente de comunica&ccedil;&atilde;o&rdquo; vigente e recolocar o debate em termos compat&iacute;veis com a conviv&ecirc;ncia democr&aacute;tica entre opini&otilde;es e id&eacute;ias divergentes?<\/p>\n<p>Para os &ldquo;n&atilde;o-atores&rdquo; e os partidos pol&iacute;ticos que agora se comprometem diretamente com essa bandeira, n&atilde;o existe outra forma sen&atilde;o pressionar o Governo para que torne p&uacute;blico &ldquo;um&rdquo; Projeto de Lei e insistir, atrav&eacute;s de todos os recursos alternativos existentes &ndash; e aqui as novas TICs desempenham um papel fundamental &ndash; que um Marco Regulat&oacute;rio para as Comunica&ccedil;&otilde;es significa, de fato, a garantia de que mais vozes se expressem no debate p&uacute;blico, que haja mais participa&ccedil;&atilde;o, mais pluralidade, mais diversidade, isto &eacute;, mais &ndash; e n&atilde;o menos &ndash; liberdade.<\/p>\n<p>&Eacute; exatamente a possibilidade de amplia&ccedil;&atilde;o da democracia que contraria os (ainda) poderosos interesses dos poucos grupos que, ao longo de nossa hist&oacute;ria, tem entendido, praticado e defendido a liberdade de express&atilde;o como se ela fosse somente sua e impedido que a voz da imensa maioria da popula&ccedil;&atilde;o seja ouvida.<\/p>\n<p>A ver.<\/p>\n<p><em>Ven&iacute;cio Lima &eacute; professor Titular de Ci&ecirc;ncia Pol&iacute;tica e Comunica&ccedil;&atilde;o da UnB (aposentado) e autor, dentre outros, de Regula&ccedil;&atilde;o das Comunica&ccedil;&otilde;es &ndash; Hist&oacute;ria, poder e direitos, Editora Paulus, 2011.<\/em><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A grande m&iacute;dia est&aacute; vencendo a &ldquo;batalha das id&eacute;ias&rdquo; e tem conseguido construir como significa&ccedil;&atilde;o dominante no espa&ccedil;o p&uacute;blico a disputa entre liberdade (liberdade de express&atilde;o) e censura do estado (regula&ccedil;&atilde;o).<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[42],"tags":[85],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/26379"}],"collection":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=26379"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/26379\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=26379"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=26379"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=26379"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}