{"id":26250,"date":"2011-10-18T14:11:35","date_gmt":"2011-10-18T14:11:35","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=26250"},"modified":"2011-10-18T14:11:35","modified_gmt":"2011-10-18T14:11:35","slug":"midia-regulacao-e-democracia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=26250","title":{"rendered":"M\u00eddia, regula\u00e7\u00e3o e democracia"},"content":{"rendered":"<p><span class=\"padrao\">H&aacute; temas malditos na m&iacute;dia. Um dos mais, a regula&ccedil;&atilde;o da m&iacute;dia. Ou a democratiza&ccedil;&atilde;o da m&iacute;dia. H&aacute; uma &oacute;bvia interdi&ccedil;&atilde;o do debate. Seja pelo sil&ecirc;ncio, que fala muito, seja pelo estardalha&ccedil;o, quando os grandes meios sentem amea&ccedil;as rondando seus privil&eacute;gios. A qualquer movimento da sociedade, que pretenda circunscrev&ecirc;-los ao Estado de Direito, submet&ecirc;-los &agrave;s regras democr&aacute;ticas, eles saltam como se fossem amantes da liberdade, e avessos a quaisquer autoritarismos. Como se regula&ccedil;&atilde;o democr&aacute;tica combinasse com restri&ccedil;&otilde;es antidemocr&aacute;ticas. Como se no resto do mundo democr&aacute;tico a regula&ccedil;&atilde;o fosse exce&ccedil;&atilde;o, e n&atilde;o regra, como de fato &eacute;.<\/p>\n<p>Esse tema maldito &eacute; o assunto do professor, soci&oacute;logo e jornalista Ven&iacute;cio Artur de Lima em seu livro Regula&ccedil;&atilde;o das Comunica&ccedil;&otilde;es &ndash; Hist&oacute;ria, Poder e Direitos. Ven&iacute;cio &eacute; dessa esp&eacute;cie de intelectual que come&ccedil;a a rarear &ndash; n&atilde;o sei se o denomino engajado, que me parece um termo muito antigo, ou se o chamo de intelectual org&acirc;nico, talvez uma conceitua&ccedil;&atilde;o mais acertada, at&eacute; por suas evidentes aproxima&ccedil;&otilde;es gramscianas, de onde prov&eacute;m o conceito. Poderia ainda recorrer a outro dito de Gramsci &ndash; pessimismo da intelig&ecirc;ncia, otimismo da vontade &ndash; para aproximar-me de sua posi&ccedil;&atilde;o diante do mundo.<\/p>\n<p>Se algu&eacute;m conversar com ele, e se ler o livro, observar&aacute; sempre essa atitude. Rigoroso no diagn&oacute;stico, ele n&atilde;o para nele. Desdobra seu racioc&iacute;nio na linha da interven&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica, a pol&iacute;tica pensada em sentido amplo. N&atilde;o embarca no territ&oacute;rio das perplexidades, do lamento diante das dificuldades. Quer enfrentar os desafios, e sabe que s&oacute; podem ser enfrentados pela pol&iacute;tica, pelo movimento da sociedade. N&atilde;o h&aacute; correla&ccedil;&atilde;o de for&ccedil;as imut&aacute;vel. Pode ser mudada se a sociedade se movimenta. Parece ser sempre esse o racioc&iacute;nio dele. E esse livro segue o mesmo caminho, persegue essa filosofia, digamos assim. Cham&aacute;-lo de um livro militante poderia parecer agressivo num tempo em que a palavra anda meio em desuso. Mas ouso faz&ecirc;-lo, no sentido de que trabalha, te&oacute;rica e praticamente, a favor da regula&ccedil;&atilde;o da m&iacute;dia, sempre fundado em argumentos s&oacute;lidos.<\/p>\n<p>Ven&iacute;cio nunca se esconde sob o manto da imparcialidade, que, costumo dizer, deve ser apan&aacute;gio dos deuses. Toma posi&ccedil;&atilde;o, sempre. E nesse livro toma a posi&ccedil;&atilde;o expl&iacute;cita de defender a import&acirc;ncia da regula&ccedil;&atilde;o da m&iacute;dia como requisito essencial para a afirma&ccedil;&atilde;o da democracia no Brasil. H&aacute; um &oacute;bvio d&eacute;ficit democr&aacute;tico no campo da m&iacute;dia no pa&iacute;s. Estamos atrasados em rela&ccedil;&atilde;o ao mundo, inclusive aos nossos parceiros mais pr&oacute;ximos da Am&eacute;rica Latina, como a Argentina, que muito recentemente aprovou a Lei de Meios Audiovisuais, que regulou democraticamente os meios de comunica&ccedil;&atilde;o, e o fez nos marcos do Estado de Direito.<\/p>\n<p><strong>Propriedade cruzada<\/strong><\/p>\n<p>Hist&oacute;ria. Poder. Direitos. S&atilde;o os t&iacute;tulos que marcam a divis&atilde;o das tr&ecirc;s partes do livro. Na primeira, o autor analisa o governo Lula e a pol&iacute;tica de comunica&ccedil;&otilde;es, o tratamento do tema na Constituinte de 1988 e, ainda, alguns casos exemplares na rela&ccedil;&atilde;o entre a imprensa e o poder pol&iacute;tico. Considera que o governo Lula n&atilde;o foi capaz de p&ocirc;r em pr&aacute;tica a maioria das pol&iacute;ticas p&uacute;blicas que a sociedade civil &ndash; ou &ldquo;n&atilde;o atores&rdquo; &ndash; avaliava como avan&ccedil;os no processo de democratiza&ccedil;&atilde;o. No entanto, reconhece alguns, como a cria&ccedil;&atilde;o da Empresa Brasil de Comunica&ccedil;&atilde;o (EBC), a realiza&ccedil;&atilde;o da 1&ordf; Confer&ecirc;ncia Nacional de Comunica&ccedil;&atilde;o, o lan&ccedil;amento do Plano Nacional de Banda Larga e a regionaliza&ccedil;&atilde;o das verbas de publicidade oficial.<\/p>\n<p>Na segunda parte, trata das concess&otilde;es de r&aacute;dio e TV (servi&ccedil;o p&uacute;blico versus interesse privado), do princ&iacute;pio da complementaridade, do coronelismo eletr&ocirc;nico de novo tipo, da rela&ccedil;&atilde;o entre a grande m&iacute;dia e a nova m&iacute;dia na pol&iacute;tica brasileira e, por &uacute;ltimo, da incapacidade do Estado brasileiro de disseminar informa&ccedil;&otilde;es corretas face ao sistema privado de comunica&ccedil;&atilde;o quando se trata, por exemplo, de um surto como o da febre amarela silvestre em 2007-2008. Destaco aqui o cap&iacute;tulo sobre o princ&iacute;pio da complementaridade entre o sistema privado, p&uacute;blico e estatal, previsto na Constitui&ccedil;&atilde;o (artigo 223), t&atilde;o pouco observado nas discuss&otilde;es sobre a m&iacute;dia no Brasil.<\/p>\n<p>N&atilde;o custa lembrar que a Constitui&ccedil;&atilde;o de 1988 &eacute; bastante avan&ccedil;ada no cap&iacute;tulo da Comunica&ccedil;&atilde;o. No entanto, como praticamente nada foi regulamentado, termina por ser letra morta. Ao menos at&eacute; o momento em que um novo marco regulat&oacute;rio se imponha. Ao final do governo Lula, o ent&atilde;o ministro Franklin Martins fez avan&ccedil;ar um anteprojeto de marco regulat&oacute;rio, hoje nas m&atilde;os do ministro Paulo Bernardo, que prometeu envi&aacute;-lo ao Congresso logo que a presidenta Dilma o examine. Ainda n&atilde;o sabemos quando isso ocorrer&aacute;. Tal marco &eacute; a esperan&ccedil;a dos que lutam pela democratiza&ccedil;&atilde;o da m&iacute;dia no Brasil.<\/p>\n<p>Na terceira e &uacute;ltima parte, Ven&iacute;cio Lima trata de comunica&ccedil;&atilde;o, poder e cidadania; do direito &agrave; comunica&ccedil;&atilde;o, cuja alternativa seria a pluralidade, e do direito &agrave; comunica&ccedil;&atilde;o no III Programa Nacional de Direitos Humanos (III PNDH), em que analisa a posi&ccedil;&atilde;o dos grupos de m&iacute;dia e a liberdade de express&atilde;o. Destaco aqui a pergunta feita por ele, ao final do livro, sobre quem amea&ccedil;a quem. Ser&aacute; o III PNDH que amea&ccedil;a a liberdade de express&atilde;o e os grupos dominantes da m&iacute;dia? Ou a amea&ccedil;a viria desses grupos dominantes que n&atilde;o aceitam nem os dispositivos constitucionais referentes ao tema e consideram o direito &agrave; comunica&ccedil;&atilde;o uma afronta a seus interesses, e por isso atacam qualquer tentativa de regulamenta&ccedil;&atilde;o?<\/p>\n<p>Ven&iacute;cio considera, acertadamente &ndash; e com essas formula&ccedil;&otilde;es finaliza seu belo trabalho &ndash;, que o direito &agrave; comunica&ccedil;&atilde;o significa hoje, al&eacute;m do direito &agrave; informa&ccedil;&atilde;o, garantir a circula&ccedil;&atilde;o da diversidade e da pluralidade de ideias existentes na sociedade, a universalidade da liberdade de express&atilde;o individual. Tal garantia deve ser buscada &ldquo;externamente&rdquo;, atrav&eacute;s da regula&ccedil;&atilde;o do mercado (sem propriedade cruzada e sem oligop&oacute;lios, dando prioridade &agrave; complementaridade do sistema p&uacute;blico, privado e estatal). E tamb&eacute;m &ldquo;internamente&rdquo; &agrave; m&iacute;dia, pelo cumprimento dos Manuais de Reda&ccedil;&atilde;o que prometem (mas n&atilde;o praticam) a imparcialidade e a objetividade jornal&iacute;stica.<\/p>\n<p><strong>Ferramenta te&oacute;rica<\/strong><\/p>\n<p>&ldquo;E tem tamb&eacute;m que ser buscada na garantia do direito de resposta como interesse difuso, no direito de antena e no acesso universal &agrave; internet, explorando suas imensas possibilidades de quebra da unidirecionalidade da m&iacute;dia tradicional pela interatividade da comunica&ccedil;&atilde;o dial&oacute;gica.&rdquo;<\/p>\n<p>Digo sem medo de errar: os que se interessam pela democracia em seu sentido substantivo, os que se preocupam com a natureza concentrada da m&iacute;dia no Brasil, os que esperam aprofundar os caminhos pelos quais se deva transitar para combater o monop&oacute;lio do discurso jornal&iacute;stico, os professores e estudantes de comunica&ccedil;&atilde;o, parlamentares devem ler o livro de Ven&iacute;cio. &Eacute; uma leitura indispens&aacute;vel. Como ferramenta te&oacute;rica. Como instrumento dessa luta &ndash; que &eacute; pol&iacute;tica.<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p><span class=\"padrao\">A qualquer movimento da sociedade que pretenda  circunscrever o<\/span><span class=\"padrao\">s grandes meios<\/span><span class=\"padrao\">, eles saltam como se fossem amantes da liberdade e avessos  a quaisquer autoritarismo<\/span><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[42],"tags":[1593],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/26250"}],"collection":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=26250"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/26250\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=26250"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=26250"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=26250"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}