{"id":26045,"date":"2011-08-30T15:28:19","date_gmt":"2011-08-30T15:28:19","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=26045"},"modified":"2011-08-30T15:28:19","modified_gmt":"2011-08-30T15:28:19","slug":"inovacao-em-verde-e-amarelo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=26045","title":{"rendered":"Inova\u00e7\u00e3o em verde e amarelo"},"content":{"rendered":"<p><span class=\"padrao\">Felipe Fonseca, o efeefe, participou de v&aacute;rios projetos de cultura digital e inclus&atilde;o digital. Entre outros, &eacute; integrante-fundador da MetaReciclagem, uma rede auto organizada de pessoas que prop&otilde;em a desconstru&ccedil;&atilde;o da tecnologia e seu uso para a transforma&ccedil;&atilde;o social. Ele reflete h&aacute; um bocado de tempo sobre as potencialidades e os rumos dessas iniciativas.<\/p>\n<p>Hoje, pesquisa como as redes digitais livres podem se apropriar da ideia de inova&ccedil;&atilde;o. Sempre se debateu este tema no Brasil, porque nosso investimento em pesquisa, desenvolvimento e inova&ccedil;&atilde;o &eacute; muito pequeno. Compramos tecnologias desenvolvidas em outros pa&iacute;ses. Em 2009, investimos somente cerca de 1,19% do Produto Interno Bruto em inova&ccedil;&atilde;o, de acordo com dados do Minist&eacute;rio da Ci&ecirc;ncia e Tecnologia &ndash; o equivalente a US$ 24,9 bilh&otilde;es. Nos Estados Unidos, por exemplo, esse investimento foi, em 2008, de US$ 398,2 bilh&otilde;es.<\/p>\n<p>Esse volume limitado de recursos &eacute; investido por governo e por empresas para gerar patentes, conhecimento propriet&aacute;rio, para explora&ccedil;&atilde;o comercial. E os lugares onde se faz essa inova&ccedil;&atilde;o, dentro desse modelo, s&atilde;o as empresas e universidades. Um espa&ccedil;o muito limitado, em um pa&iacute;s onde a popula&ccedil;&atilde;o tem uma tradi&ccedil;&atilde;o de empreendimento e inova&ccedil;&atilde;o: fazem parte dos tra&ccedil;os culturais presentes nas culturas brasileiras a ideia de gambiarra, a criatividade para resolver problemas do dia a dia, e o mutir&atilde;o, uma maneira de se organizar para resolver esses problemas coletivamente.<\/p>\n<p>Como juntar esses dois mundos distantes um do outro? Pensando em um tipo de inova&ccedil;&atilde;o com relev&acirc;ncia social e educacional. Baseada em tecnologias livres, produ&ccedil;&atilde;o aberta e em rede, afirma Felipe. Em um livro lan&ccedil;ado em maio de 2011, o Laborat&oacute;rios do P&oacute;s-Digital, livre para ser baixado na rede, ele discute essa ideia com maior profundidade. Nesta entrevista, explica como sua pesquisa pode se encontrar com o trabalho realizado em telecentros e Pontos de Cultura, e com as pessoas que inventam maneiras de se apropriar de tecnologia no Brasil.<\/p>\n<p><strong>Qual a sua vis&atilde;o sobre o papel da tecnologia para a inclus&atilde;o social?<\/strong><br \/>H&aacute; alguns anos critico as limita&ccedil;&otilde;es do conceito de inclus&atilde;o digital, que &eacute; muito simplista. Sugere que existe um jeito &ldquo;certo&rdquo; de usar as tecnologias. Eu acho que n&atilde;o existe esse jeito certo. Existem milhares de jeitos de usar tecnologias. Mas qual deles vai fazer mais sentido em sua comunidade? A gente fala em fazer cursos de editores de texto, de planilhas. Em muitos lugares, n&atilde;o faz o menor sentido. Tempos atr&aacute;s, muitos projetos de inclus&atilde;o digital proibiam as redes sociais. Proibiam Orkut, bate-papo, pois &ldquo;as pessoas tinham que usar as tecnologias de maneira mais s&eacute;ria&rdquo;. Na MetaReciclagem, a gente tentava chamar a aten&ccedil;&atilde;o para o fato de que o uso divertido, inclusive para armar balada, descobrir coisas, ajuda a construir o ferramental necess&aacute;rio para se apropriar das tecnologias. Usar o potencial pleno das tecnologias passa por apropriar-se delas. A gente sai do foco na m&aacute;quina, sai do foco espec&iacute;fico no dispositivo que est&aacute; usando, e passa a ter um foco em resolver problemas.<\/p>\n<p><strong>Os programas de forma&ccedil;&atilde;o de monitores orientados a projeto v&atilde;o nessa dire&ccedil;&atilde;o?<\/strong><br \/>Eles t&ecirc;m potencial, mas ficam formais quando adotam uma linguagem de gest&atilde;o de projeto corporativo, em vez de uma linguagem de mutir&atilde;o. As culturas populares brasileiras t&ecirc;m uma das melhores metodologias de solu&ccedil;&atilde;o de problemas, de gest&atilde;o aberta de projetos, que &eacute; a ideia do mutir&atilde;o. As pessoas identificam um objetivo comum, se juntam para resolver uma coisa, depois se separam. Acho que a forma&ccedil;&atilde;o orientada a projetos &eacute; extremamente positiva, um grande passo adiante da mera quest&atilde;o de usar coisas, do que a gente chama de &ldquo;forma&ccedil;&atilde;o de manobristas de mouse&rdquo;. Mas n&atilde;o d&aacute; para ficar somente nisso. Fui jurado de um desses programas, vi alguns projetos. Por conta at&eacute; de falta de repert&oacute;rio, os projetos s&atilde;o&nbsp; rudimentares, as pessoas acabam repetindo modelos. N&atilde;o h&aacute; uma forma&ccedil;&atilde;o de repert&oacute;rio orientada &agrave; inova&ccedil;&atilde;o aplicada ao cotidiano. E os projetos que surgem s&atilde;o mulheres online, terceira idade, educa&ccedil;&atilde;o ambiental, modelos sugeridos por quem est&aacute; fazendo aquilo. Claro que os problemas s&atilde;o parecidos em todos os lugares do Brasil e que qualquer espa&ccedil;o p&uacute;blico de inclus&atilde;o digital tem menos mulheres acessando. Portanto, fazer um projeto de mulheres online faz sentido. Mas h&aacute; um potencial criativo nas culturas populares, e a gente n&atilde;o est&aacute; atraindo as pessoas que t&ecirc;m esse potencial. Os espa&ccedil;os p&uacute;blicos de acesso &agrave; internet s&atilde;o um lugar ideal para desenvolver tecnologia socialmente relevante. A gente tem de atrair as pessoas certas e oferecer a elas desafios, n&atilde;o somente respostas. Os projetos de acesso &agrave; tecnologia est&atilde;o preocupados em dar respostas e n&atilde;o em fazer perguntas.<\/p>\n<p><strong>Na MetaReciclagem, voc&ecirc;s resgatam o mutir&atilde;o, a gambiarra. Como se d&aacute; o potencial criativo nessas iniciativas?<\/strong><br \/>Nas primeiras fases do debate sobre inclus&atilde;o digital dizia-se que o povo brasileiro n&atilde;o &eacute; inovador, n&atilde;o &eacute; empreendedor, porque as pessoas n&atilde;o abrem empresas, n&atilde;o seguem os modelos tidos como certos. Isso &eacute; um&nbsp; preconceito com as culturas populares, que sempre foram, por necessidade, extremamente criativas, inovadoras, empreendedoras. Tudo depende da leitura. Voc&ecirc; pode tratar um camel&ocirc; como um contraventor ou como um empreendedor que usa as possibilidades que tem &agrave; m&atilde;o. Desde o come&ccedil;o da MetaReciclagem, a gente teve a preocupa&ccedil;&atilde;o de valorizar o sotaque criativo t&iacute;pico do Brasil. A gente tamb&eacute;m dizia que n&atilde;o se tratava de as pessoas se adequarem aos modelos da sociedade superconectada, mas de transformar as tecnologias para que se adequem ao tipo de sociabilidade que existe no cotidiano. A gente come&ccedil;ou a identificar um tipo de sociabilidade radical no Brasil. Uma coisa mais din&acirc;mica, de certa forma superficial e tamb&eacute;m bastante acelerada de apropria&ccedil;&atilde;o de tecnologia. O Fotolog.net, na &eacute;poca, fechou o cadastro para brasileiros, que estavam usando aquilo como loucos. No Orkut, todo mundo come&ccedil;ou a reclamar que os brasileiros entravam em qualquer comunidade falando portugu&ecirc;s. Havia uma sociabilidade que poderia ser potencializada pela rede e era muito mais natural para brasileiros do que para outros povos.<\/p>\n<p><strong>Voc&ecirc;s foram aprendendo isso ao longo do tempo?<\/strong><br \/>Sim. E nesse movimento de identificar tra&ccedil;os da cultura brasileira descobrimos dois vetores. Um &eacute; o mutir&atilde;o, essa coisa din&acirc;mica e informal de juntar pessoas para resolver problemas. Isso se op&otilde;e ao grande v&iacute;cio do s&eacute;culo 20, que &eacute; a institucionaliza&ccedil;&atilde;o de ideias interessantes. O outro vetor &eacute; a&nbsp; gambiarra, que parte de uma invers&atilde;o de perspectiva em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; inova&ccedil;&atilde;o, que tamb&eacute;m emerge por conta de todo o hist&oacute;rico de precariedade, de escassez de recursos do Brasil. Eu tenho de resolver um problema e em vez de esperar ter os recursos, o conhecimento ou o tempo adequados, resolvo do jeito que d&aacute;. Olho para o mundo. A gambiarra faz essa invers&atilde;o, trata o mundo como um lugar cheio de recursos, abundante. E mesmo que eu n&atilde;o tenha as ferramentas certas, as pessoas necess&aacute;rias, vou fazer.<\/p>\n<p><strong>Voc&ecirc; falou da ideia da inova&ccedil;&atilde;o aplicada &agrave; solu&ccedil;&atilde;o de problemas do cotidiano. Mas a ideia de inova&ccedil;&atilde;o nunca foi muito usada, debatida, nos projetos de inclus&atilde;o ou de cultura digital. Por que?<\/strong><br \/>Porque a inclus&atilde;o digital tem esse v&iacute;cio de origem, no Brasil, de ir na linha de dar acesso a pessoas, reduzir a desigualdade. Muitos projetos s&atilde;o para corrigir diferen&ccedil;as hist&oacute;ricas, econ&ocirc;micas, sociais. Ficam no discurso de usu&aacute;rio. Fomos formados como consumidores. O Brasil foi formado como mercado, primeiro para os ingleses, para os poderes coloniais, depois para os Estados Unidos e o mercado globalizado. Da&iacute; o v&iacute;cio de tratar a inova&ccedil;&atilde;o como algo que sempre vem de fora, em uma caixa preta. Um dos fundamentos da MetaReciclagem &eacute; a desconstru&ccedil;&atilde;o. No come&ccedil;o, era uma met&aacute;fora de uma coisa mais concreta, de abrir o computador e ver como &eacute; feito, como se troca uma parte&#8230; Depois a gente entendeu que tem um gesto simb&oacute;lico nisso, que &eacute; desconstruir a ideia de tecnologia e entender por que aquela tecnologia existe, por que foi desenvolvida daquela maneira, por que vai ser usada.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span class=\"padrao\"><strong>&Eacute; o que vai acontecer com os tablets?<\/strong><br \/>A&iacute;, mais uma vez, &eacute; compra de inova&ccedil;&atilde;o pronta. Estamos vendo e dizendo: &ldquo;a gente tamb&eacute;m quer&rdquo;. D&aacute; para criar um paralelo com a declara&ccedil;&atilde;o do Gilberto Gil, quando era ministro, de que o povo sabe o que quer, mas tamb&eacute;m quer o que n&atilde;o sabe. Dizer &ldquo;eu tamb&eacute;m quero isso&rdquo; &eacute; importante, a gente n&atilde;o tem que ficar para tr&aacute;s. Mas h&aacute; outra quest&atilde;o, que &eacute; &ldquo;o que a gente vai querer depois&rdquo;. Comecei a pensar em como estimular esse tipo de inova&ccedil;&atilde;o. Como fazer para essa facilidade de criatividade, de solu&ccedil;&atilde;o de problemas n&atilde;o existir somente nas camadas populares, mas chegar &agrave;s universidades, &agrave;s pessoas que desenvolvem as tecnologias.<\/p>\n<p><strong>O desafio &eacute; juntar criatividade popular com desenvolvimento de tecnologias?<\/strong><br \/>Vejo uma mudan&ccedil;a, muito lenta, n&atilde;o nos programas de inclus&atilde;o digital de maneira estrutural, mas nas pessoas da ponta, que implementam projetos. Quando os Pontos de Cultura iniciaram, vimos que t&iacute;nhamos muito mais a aprender com aquelas pessoas do que a ensinar. H&aacute; maneiras de organizar o esfor&ccedil;o de uma comunidade, de fazer a informa&ccedil;&atilde;o circular, de criar engajamento e mobiliza&ccedil;&atilde;o que a gente n&atilde;o fazia ideia de que existiam. Esses conhecimentos s&atilde;o mais importantes do que saber usar um mouse, fazer tal software rodar. Quem est&aacute; nas pontas dos projetos come&ccedil;a a enxergar um universo de possibilidades e relacionar isso com um repert&oacute;rio de tecnologia. E tudo isso&nbsp; tem influ&ecirc;ncia das tecnologias livres e abertas. N&atilde;o s&oacute; software livre, mas conhecimento livre, &#8232;hardware livre.<\/p>\n<p><strong>E o que se pode fazer a partir disso?<\/strong><br \/>Tirar as tecnologias da rede e trazer para o cotidiano, a comunidade. Por exemplo: ter, aqui no meu bairro, em Ubatuba (SP), sensores de temperatura e press&atilde;o que avisam quando vai chover. Qualquer marinheiro sabe que, quando h&aacute; uma mudan&ccedil;a brusca de temperatura e press&atilde;o, vai chover. E a&iacute; entra o ponto de que o grande complexo corporativo, acad&ecirc;mico, dos pa&iacute;ses centrais, est&aacute; investindo em tecnologia propriet&aacute;ria. No Brasil, a gente tem essa inventividade cotidiana, essa sociabilidade e esse discurso do software livre est&aacute; assimilado pelos formadores alternativos de opini&atilde;o. Temos o potencial de juntar essas coisas e desenvolver caminhos livres. Um dos v&aacute;rios campos onde isso pode acontecer &eacute; a internet das coisas, a rede de dispositivos conectados. A gente fala para uma universidade brasileira sobre internet das coisas e eles pensam em celular conectado, celular na internet. N&atilde;o &eacute; s&oacute; isso, s&atilde;o sensores, ativadores, resultados aplicados no cotidiano. Automa&ccedil;&atilde;o de ilumina&ccedil;&atilde;o das cidades&#8230; quanto de dinheiro se gasta porque os sensores n&atilde;o s&atilde;o bem calibrados? V&aacute;rios usos positivos de tecnologia est&atilde;o sendo desenvolvidos por empresas para gerar tecnologia propriet&aacute;ria. Como a gente faz, no Brasil, para desenvolver alternativas livres para essas coisas, antes de alternativas propriet&aacute;rias dominarem o mercado?<\/p>\n<p><strong>Tem gente fazendo isso em outros lugares?<\/strong><br \/>No ano passado fui &agrave; Espanha, para um evento do MediaLab Prado, o Interactivos. O foco do evento era em ci&ecirc;ncia de bairro, que &eacute; uma amplia&ccedil;&atilde;o do conceito de ci&ecirc;ncia de garagem, do pessoal fazendo experimentos em casa. O que eles propuseram foi ampliar a ideia de ci&ecirc;ncia de garagem. Trazer essa facilidade de desenvolver experimentos cient&iacute;ficos para ter resultados positivos nas comunidades. Eles desenvolveram captadores solares, maneiras de acumular e distribuir energia. Um ingl&ecirc;s estava tentando transformar uma bact&eacute;ria em sensor de polui&ccedil;&atilde;o do mar &ndash; as bact&eacute;rias mudariam de cor quando houvesse polui&ccedil;&atilde;o. S&atilde;o coisas que surgem fora do ambiente esperado para a inova&ccedil;&atilde;o acontecer, que geralmente &eacute; a academia ou as empresas. Essa &eacute; uma inova&ccedil;&atilde;o com relev&acirc;ncia social, n&atilde;o tem amarras de lucratividade, n&atilde;o tem que gerar rentabilidade. E tem dinamismo que n&atilde;o existe na academia porque a informa&ccedil;&atilde;o circula, n&atilde;o est&aacute; restrita a autoridades e reconhecimento institucional.<\/p>\n<p><strong>Esse movimento existe aqui no Brasil?<\/strong><br \/>Come&ccedil;am a surgir aqui mais &#8232;hacker spaces organizados como tais, que se alimentam do referencial conceitual e pr&aacute;tico de &#8232;hacklabs, dos fablabs. O pessoal do Garoa, no subsolo da Casa de Cultura Digital, em S&atilde;o Paulo (SP), &eacute; um exemplo interessante. O Lab de Garagem, tamb&eacute;m de S&atilde;o Paulo. O Puraqu&eacute;, em Santar&eacute;m (PA). O pessoal de Fortaleza (CE), que estava fazendo esta&ccedil;&otilde;es de tocar m&uacute;sica com CD ROM de computadores velhos. Tamb&eacute;m gente ligada de maneira indireta &agrave; academia, n&uacute;cleos dentro das universidades que acabam dialogando com coisas fora. O Lab Debug, na Universidade Federal da Bahia. &Eacute; gente que tem forma&ccedil;&atilde;o t&eacute;cnica forte e est&aacute; se juntando, se aproximando de pessoas que atuam mais no campo simb&oacute;lico, de projetos pol&iacute;ticos, art&iacute;sticos, sociais. Pessoas de v&aacute;rias &aacute;reas querendo contribuir. Mas n&atilde;o h&aacute; apoio para fazer as coisas; o Brasil n&atilde;o tem como sustentar laborat&oacute;rios experimentais.<\/p>\n<p><strong>O que &eacute; um laborat&oacute;rio experimental?<\/strong><br \/>Nessa acep&ccedil;&atilde;o que gente est&aacute; usando, de laborat&oacute;rios experimentais de tecnologia livre, de polos de tecnologia livre, s&atilde;o espa&ccedil;os dedicados a cria&ccedil;&atilde;o, transforma&ccedil;&atilde;o, modifica&ccedil;&atilde;o, desenvolvimento e desconstru&ccedil;&atilde;o de tecnologias. O objetivo &eacute; juntar pessoas que t&ecirc;m interesse em desenvolver novas tecnologias e criar projetos e a&ccedil;&otilde;es, de prefer&ecirc;ncia colaborativas e livres. Laborat&oacute;rios experimentais onde seja poss&iacute;vel n&atilde;o s&oacute; debater mas fazer prot&oacute;tipos de tecnologias. Mais importante do que a infraestrutura &eacute; a liberdade de experimenta&ccedil;&atilde;o, devem ser espa&ccedil;os livres de objetivos predeterminados. N&atilde;o como uma universidade, uma empresa, uma escola, uma ONG, onde as pessoas precisam entrar j&aacute; sabendo o que v&atilde;o fazer. Um laborat&oacute;rio idealmente incorpora a liberdade de experimenta&ccedil;&atilde;o. A possibilidade do erro como resultado esperado. Isso &eacute; uma mudan&ccedil;a de paradigma. Para transformar um telecentro, um ponto de acesso p&uacute;blico, um laborat&oacute;rio de escola em um laborat&oacute;rio digital, n&atilde;o precisa de muito dinheiro, de muito equipamento, mas de uma mudan&ccedil;a de postura. Os laborat&oacute;rios n&atilde;o podem ser prestadores de servi&ccedil;os e as pessoas que atuam ali n&atilde;o podem estar dedicadas simplesmente a ensinar os outros a usar equipamentos, programas. &Eacute; necess&aacute;rio apoiar o trabalho experimental. Essa &eacute; uma dificuldade que eu sinto, quando converso com pessoal de telecentros. Sempre me perguntam qual ser&aacute; o resultado do projeto que eu proponho. A gente tem de ter essa possibilidade de criar experimenta&ccedil;&atilde;o e as pessoas inclusive serem remuneradas para fazer coisas experimentais, mesmo sem resultados objetivos.<\/p>\n<p><strong>Como o Minist&eacute;rio da Ci&ecirc;ncia e Tecnologia poderia estimular essas iniciativas?<\/strong><br \/>&Eacute; importante a aproxima&ccedil;&atilde;o do Minist&eacute;rio com o mundo livre, hacker, maker. Mas tenho medo de que fique uma coisa de lidar com isso como se fosse peculiar, &ldquo;olha que bonitinho que eles est&atilde;o fazendo&rdquo;&#8230; e continuem os 90% do or&ccedil;amento destinados&nbsp; &agrave; inova&ccedil;&atilde;o que vai gerar patentes. Quando a gente fala em modelos de futuro, modelos potenciais de atividade econ&ocirc;mica voltada &agrave; tecnologia e socialmente relevante, encontramos modelos que incorporam a facilidade que tem hoje de circular a informa&ccedil;&atilde;o e que liberam o conhecimento espec&iacute;fico para fazer as coisas. No FISL 12, Jon Philips apresentou o Milkymist, um hardware que faz efeitos em v&iacute;deo em tempo real. Esse cara, junto com um grupo de cinco ou seis pessoas, criou um projeto desse dispositivo novo, que &eacute; fabricado na &Aacute;sia. A equipe &eacute; pequena e funciona como uma butique criativa de dispositivos, manda fabricar nas mesmas plantas de fabrica&ccedil;&atilde;o que todo mundo manda, s&oacute; que a criatividade est&aacute; contida no trabalho deles. Todos os esquemas para fazer o dispositivo est&atilde;o na rede, para quem quiser fazer o equipamento sem precisar pagar, ou pagando quanto quiser. As caracter&iacute;sticas s&atilde;o essas:&nbsp; um grupo pequeno, altamente inovador e que promove a liberdade de multiplica&ccedil;&atilde;o, sem controle sobre quem vai fazer uso daquilo. Quanto mais gente usar, melhor. Eles podem inventar outro. N&atilde;o tem a gan&acirc;ncia da ind&uacute;stria baseada na propriedade intelectual.<\/p>\n<p><strong>Como isso se torna uma alternativa de desenvolvimento econ&ocirc;mico, social?<\/strong><br \/>O FCForum, f&oacute;rum de cultura livre de Barcelona, na Espanha, publicou o estudo Modelos Sustent&aacute;veis para Criatividade na Era Digital, onde aponta caminhos de sustentabilidade para a criatividade e para a inova&ccedil;&atilde;o. Os modelos do futuro n&atilde;o s&atilde;o os que a gente conhece, de uma grande ind&uacute;stria que domina a fabrica&ccedil;&atilde;o e cria um monop&oacute;lio tempor&aacute;rio. Em vez disso, o estudo trabalha com a ideia de sobreviver de generosidade, sobreviver em um mundo onde o conhecimento &eacute; abundante e n&atilde;o escasso. H&aacute; caminhos novos que a conversa com o MCT precisa incorporar. A ideia de software livre, de hardware livre e conhecimento livre pode ser aplicada a qualquer &aacute;rea &ndash; a mec&acirc;nica de carro &eacute; conhecimento que pode ser liberado&#8230; Nessa perspectiva de conhecimento abundante circulando, a gente tem de criar novos modelos de sustentabilidade. E esses modelos s&atilde;o ligados &agrave; maneira com que o pr&oacute;prio software livre &eacute; desenvolvido, em pequenos grupos, din&acirc;micos, conectados em rede. O processo criativo &eacute; aberto e livre, documentando todas as etapas e fontes. Isso &eacute; mais profundo do que simplesmente publicar o resultado final como livre. O MCT tem de entender o que &eacute; esse livre, como faz para publicizar todos os processos, em vez de cair naquela coisa de &ldquo;tem um instituto que vai criar tecnologia livre e est&aacute; resolvido o problema&rdquo;.<\/p>\n<p><strong>Voc&ecirc; acha poss&iacute;vel levar o modelo dos Pontos de Cultura para o Minist&eacute;rio da Ci&ecirc;ncia e Tecnologia?<\/strong><br \/>Sem d&uacute;vida. Muita gente que participou do projeto da cultura &eacute; mais ligada &agrave; tecnologia, &agrave; comunica&ccedil;&atilde;o. Entramos no Minist&eacute;rio da Cultura porque foi onde surgiu&nbsp; a brecha, por v&aacute;rias conflu&ecirc;ncias hist&oacute;ricas e, principalmente, pelo papel do Gil. A ideia de levar para o MCT a inova&ccedil;&atilde;o dispersa, distribu&iacute;da, funcionando em rede, mais informal, que reconhece os saberes tradicionais e as demandas locais faz todo o sentido. <\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Como aproximar o conceito de inova&ccedil;&atilde;o tecnol&oacute;gica, associado a  tecnologias propriet&aacute;rias e comerciais, &agrave; produ&ccedil;&atilde;o colaborativa e livre  da cultura digital? <\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[43],"tags":[1573],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/26045"}],"collection":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=26045"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/26045\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=26045"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=26045"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=26045"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}