{"id":26009,"date":"2011-08-23T17:17:51","date_gmt":"2011-08-23T17:17:51","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=26009"},"modified":"2011-08-23T17:17:51","modified_gmt":"2011-08-23T17:17:51","slug":"regulacao-deve-comecar-pelas-concessoes-de-parlamentares","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=26009","title":{"rendered":"Regula\u00e7\u00e3o deve come\u00e7ar pelas concess\u00f5es de parlamentares"},"content":{"rendered":"<p><span class=\"padrao\">A vincula&ccedil;&atilde;o direta ou indireta de parlamentares a concess&otilde;es de r&aacute;dio e televis&atilde;o &eacute; mais uma das mazelas que impedem o exerc&iacute;cio do direito &agrave; comunica&ccedil;&atilde;o no Brasil (e em outros pa&iacute;ses). Por isso, neste momento em que a sociedade brasileira tenta construir um marco regulat&oacute;rio atualizado para as comunica&ccedil;&otilde;es, tal tema deve ser encarado, enfrentado e resolvido, instituindo-se uma proibi&ccedil;&atilde;o expl&iacute;cita nesse sentido. Afinal, atualizar a legisla&ccedil;&atilde;o de comunica&ccedil;&otilde;es no pa&iacute;s &eacute; mais do que levar em conta apenas a tecnologia. Deve constituir-se na oportunidade de sintonizar a m&iacute;dia com os ditames gerais de uma sociedade democr&aacute;tica como a que o Brasil sustenta dispor, onde a tecnologia &eacute; parte do todo social.<\/p>\n<p>Por isso, s&atilde;o conden&aacute;veis medidas como a recente aprova&ccedil;&atilde;o, pela Comiss&atilde;o de Ci&ecirc;ncia, Tecnologia, Inova&ccedil;&atilde;o, Comunica&ccedil;&atilde;o e Inform&aacute;tica (CCT) do Senado Federal, da renova&ccedil;&atilde;o das concess&otilde;es de r&aacute;dio outorgadas &agrave;s fam&iacute;lias do senador Edison Lob&atilde;o Filho (PMDB-MA) e do deputado federal Jos&eacute; Rocha (PR-BA). A renova&ccedil;&atilde;o em si das concess&otilde;es n&atilde;o apresenta novidade alguma &ndash; ali&aacute;s, muito pelo contr&aacute;rio: &eacute; a regra absoluta no Congresso Nacional. O emblem&aacute;tico &eacute; o momento em que estas renova&ccedil;&otilde;es ocorreram: no final de maio, o Minist&eacute;rio das Comunica&ccedil;&otilde;es (Minicom) havia publicizado, em seu portal na internet, a rela&ccedil;&atilde;o de s&oacute;cios e diretores das quase 10 mil concess&otilde;es de r&aacute;dio e TV comerciais distribu&iacute;das no pa&iacute;s, al&eacute;m da lista de emissoras por cidade e de dados gerais sobre as outorgas de radiodifus&atilde;o.<\/p>\n<p><strong>Senadores e deputados na lista<\/strong><\/p>\n<p>Um levantamento da Organiza&ccedil;&atilde;o N&atilde;o-Governamental Transpar&ecirc;ncia Brasil revela que 21% dos senadores e 10% dos deputados federais s&atilde;o concession&aacute;rios de radiodifus&atilde;o. Em seu projeto Excel&ecirc;ncias, a ONG identifica 69 parlamentares propriet&aacute;rios de emissoras, exclu&iacute;dos os que usam familiares ou laranjas para esconder a propriedade. Ou seja, o n&uacute;mero de senadores e deputados que controlam empresas de radiodifus&atilde;o &eacute; ainda maior. Os dados foram obtidos principalmente do cruzamento das declara&ccedil;&otilde;es de bens encaminhadas pelos parlamentares &agrave; Justi&ccedil;a Eleitoral com informa&ccedil;&otilde;es do pr&oacute;prio Congresso Nacional.<\/p>\n<p>Na lista da Transpar&ecirc;ncia Brasil, por exemplo, n&atilde;o aparece o senador A&eacute;cio Neves (PSDB-MG), que ainda aguarda posi&ccedil;&atilde;o do Minicom sobre sua inclus&atilde;o, junto &agrave; m&atilde;e e uma irm&atilde;, no quadro societ&aacute;rio de uma r&aacute;dio do munic&iacute;pio mineiro de Betim (mas com sede em Belo Horizonte). O senador Lob&atilde;o Filho, por sua vez, aparece na lista divulgada pelo Minist&eacute;rio das Comunica&ccedil;&otilde;es como um dos s&oacute;cios de uma r&aacute;dio de S&atilde;o Lu&iacute;s, no Maranh&atilde;o, posi&ccedil;&atilde;o que divide com outros familiares. Lob&atilde;o Filho &eacute; membro titular da CCT, que, ao lado da Comiss&atilde;o de Ci&ecirc;ncia e Tecnologia, Comunica&ccedil;&atilde;o e Inform&aacute;tica (CCTCI) da C&acirc;mara dos Deputados, e &eacute; respons&aacute;vel pela an&aacute;lise e aprova&ccedil;&atilde;o dos processos de outorga de concess&otilde;es de r&aacute;dio e televis&atilde;o no Brasil. Ele &eacute; filho do ex-governador do Maranh&atilde;o Edison Lob&atilde;o, de quem herdou a cadeira no Senado Federal, em fun&ccedil;&atilde;o do afastamento do pai para exercer o cargo de ministro de Minas e Energia. J&aacute; o deputado federal Jos&eacute; Rocha &eacute; casado com a m&eacute;dica Noelma Rocha, s&oacute;cia de r&aacute;dio da cidade baiana de Bom Jesus da Lapa, que teve a concess&atilde;o renovada pela CCT. Ela ainda aparece como s&oacute;cia de outras duas emissoras de r&aacute;dio da Bahia, enquanto Lob&atilde;o Filho tamb&eacute;m consta na lista do Minicom como concession&aacute;rio de TV.<\/p>\n<p><strong>Relat&oacute;rio de 2008 n&atilde;o foi apreciado<\/strong><\/p>\n<p>A propriedade de emissoras de televis&atilde;o e r&aacute;dio por pessoas que ocupam cargos pol&iacute;ticos compromete o jogo democr&aacute;tico e desrespeita a Constitui&ccedil;&atilde;o Federal. Quando um parlamentar se torna concession&aacute;rio de radiodifus&atilde;o, ele acumula o exerc&iacute;cio legislativo &agrave; atividade midi&aacute;tica, levando a distor&ccedil;&otilde;es na forma como o ve&iacute;culo publiciza os fatos sociais, agravando uma pr&aacute;tica presente nas ind&uacute;strias culturais em geral. Quando o congressista &eacute; membro titular da comiss&atilde;o que analisa as outorgas de concess&otilde;es, a concentra&ccedil;&atilde;o de poder nas suas m&atilde;os &eacute; ainda maior e fere de forma mais aguda a raz&atilde;o cr&iacute;tica e o equil&iacute;brio das institui&ccedil;&otilde;es sociais. Esta situa&ccedil;&atilde;o de subordina&ccedil;&atilde;o dos interesses p&uacute;blicos aos privados de um grupo de parlamentares &eacute; absolutamente antag&ocirc;nica ao direito &agrave; comunica&ccedil;&atilde;o e &agrave;s demandas de pluralidade e diversidade que deveriam nortear a atividade midi&aacute;tica.<\/p>\n<p>N&atilde;o h&aacute; justificativa para um parlamentar manter concess&atilde;o de r&aacute;dio ou TV, j&aacute; que ele disp&otilde;e da estrutura estatal para se comunicar com eleitores e cidad&atilde;os. Isto favorece a barganha pol&iacute;tica e a transforma&ccedil;&atilde;o das autoriza&ccedil;&otilde;es e renova&ccedil;&otilde;es em moeda de troca por votos, como historicamente tem ocorrido. O artigo 54 da Constitui&ccedil;&atilde;o Federal afirma que senadores e deputados federais n&atilde;o poder&atilde;o, desde a expedi&ccedil;&atilde;o do diploma, &ldquo;firmar ou manter contrato com pessoa jur&iacute;dica de direito p&uacute;blico, autarquia, empresa p&uacute;blica, sociedade de economia mista ou empresa concession&aacute;ria de servi&ccedil;o p&uacute;blico, salvo quando o contrato obedecer a cl&aacute;usulas uniformes&rdquo; e n&atilde;o poder&atilde;o exercer cargo, fun&ccedil;&atilde;o ou emprego remunerado nestas entidades; desde a posse, n&atilde;o poder&atilde;o &ldquo;ser propriet&aacute;rios, controladores ou diretores de empresa que goze de favor decorrente de contrato com pessoa jur&iacute;dica de direito p&uacute;blico, ou nela exercer fun&ccedil;&atilde;o remunerada&rdquo;. O artigo 55 estabelece que perder&aacute; o mandato o senador ou deputado &ldquo;que infringir qualquer das proibi&ccedil;&otilde;es estabelecidas no artigo anterior&rdquo;.<\/p>\n<p>A C&acirc;mara dos Deputados anunciou para ainda este ano a divulga&ccedil;&atilde;o p&uacute;blica dos processos de outorga de concess&atilde;o de r&aacute;dio e TV em tramita&ccedil;&atilde;o na casa. Neste ano, em maio, com validade a partir de junho, a CCT alterou (ainda que de modo acanhado) algumas regras da aprova&ccedil;&atilde;o de concess&otilde;es, entre as quais o impedimento de que o relator do processo seja representante do mesmo estado da empresa de radiodifus&atilde;o interessada, o que &eacute; importante pela forma como as outorgas servem de instrumento de negocia&ccedil;&atilde;o de apoios. Em abril de 2009, a Comiss&atilde;o de Constitui&ccedil;&atilde;o, Justi&ccedil;a e Cidadania (CCJ) do Senado afirmou que n&atilde;o era l&iacute;cito aos parlamentares figurarem como propriet&aacute;rios, controladores ou diretores de empresas que exploram servi&ccedil;os de radiodifus&atilde;o, e que os respectivos atos de outorga ou renova&ccedil;&atilde;o deveriam ser cancelados. Alguns meses antes, em dezembro de 2008, um relat&oacute;rio aprovado na C&acirc;mara tamb&eacute;m mencionava a m&aacute; aplica&ccedil;&atilde;o do artigo 54 quanto &agrave;s concess&otilde;es de r&aacute;dio e TV. Infelizmente, a recomenda&ccedil;&atilde;o da CCJ n&atilde;o foi apreciada em plen&aacute;rio.<\/p>\n<p><strong>Bom momento para intensificar o debate<\/strong><\/p>\n<p>De qualquer forma, posi&ccedil;&otilde;es como essas, tomadas no interior do Congresso Nacional, refor&ccedil;am a compreens&atilde;o h&aacute; anos levantada pelos movimentos sociais e ativistas da &aacute;rea da comunica&ccedil;&atilde;o de que o artigo 54 da Constitui&ccedil;&atilde;o pro&iacute;be parlamentares de serem concession&aacute;rios de emissoras de r&aacute;dio e televis&atilde;o. A Constitui&ccedil;&atilde;o n&atilde;o veta a propriedade ou o exerc&iacute;cio de fun&ccedil;&atilde;o de dire&ccedil;&atilde;o de concession&aacute;rias por familiares de parlamentares, mas, em um momento em que &eacute; articulada a constru&ccedil;&atilde;o de um marco regulat&oacute;rio das comunica&ccedil;&otilde;es audiovisuais, &eacute; imprescind&iacute;vel que se consolide a proibi&ccedil;&atilde;o legal de que congressistas controlem empresas que funcionem sob concess&atilde;o p&uacute;blica. Tal impedimento deve ser ampliado tamb&eacute;m para os familiares em linha reta, colaterais e por afinidade at&eacute; o terceiro grau, do mesmo modo que o adotado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) na s&uacute;mula vinculante que define e pro&iacute;be o nepotismo na administra&ccedil;&atilde;o p&uacute;blica.<\/p>\n<p>Demorou longas d&eacute;cadas, e houve at&eacute; uma tentativa frustrada, no in&iacute;cio de 2003, para que o cidad&atilde;o tivesse a oportunidade de acompanhar e fiscalizar a rela&ccedil;&atilde;o de propriet&aacute;rios e diretores de concess&otilde;es p&uacute;blicas de r&aacute;dio e televis&atilde;o, publicizadas agora pelo Minicom. Esta iniciativa t&atilde;o singela, de divulgar os nomes dos propriet&aacute;rios de empresas que lucram a partir do uso do espectro radioel&eacute;trico, um bem p&uacute;blico, j&aacute; &eacute; prevista na regula&ccedil;&atilde;o dos meios audiovisuais em pa&iacute;ses de tradi&ccedil;&atilde;o democr&aacute;tica da Europa e ganha agora ares na Am&eacute;rica Latina. &Eacute; um bom momento para que os movimentos sociais intensifiquem o debate (e as exig&ecirc;ncias) em torno de medidas de democratiza&ccedil;&atilde;o da comunica&ccedil;&atilde;o, de forma a incentivar o Minist&eacute;rio da &aacute;rea a demonstrar maior vontade de ouvir a sociedade civil organizada na constru&ccedil;&atilde;o do marco regulat&oacute;rio. Impedir legalmente que parlamentares e familiares controlem emissoras de televis&atilde;o e r&aacute;dio parece constituir um bom in&iacute;cio de caminhada.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em><span class=\"padrao\"><strong>Val&eacute;rio Cruz Brittos<\/strong> &eacute; professor titular no Programa de P&oacute;s-Gradua&ccedil;&atilde;o em Ci&ecirc;ncias da Comunica&ccedil;&atilde;o da Unisinos<br \/><\/span><strong><span class=\"padrao\">Luciano Gallas<\/span><\/strong><span class=\"padrao\"> &eacute; mestrando no mesmo programa <\/span><\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p><span class=\"padrao\">N&atilde;o h&aacute; justificativa para um parlamentar manter  concess&atilde;o de r&aacute;dio ou TV, j&aacute; que ele disp&otilde;e da estrutura estatal para se  comunicar com cidad&atilde;os<\/span><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[42],"tags":[1567],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/26009"}],"collection":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=26009"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/26009\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=26009"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=26009"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=26009"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}