{"id":25950,"date":"2011-08-11T16:41:12","date_gmt":"2011-08-11T16:41:12","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=25950"},"modified":"2011-08-11T16:41:12","modified_gmt":"2011-08-11T16:41:12","slug":"plc-116-os-avancos-e-retrocessos-do-projeto-que-regulamenta-a-tv-por-assinatura","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=25950","title":{"rendered":"PLC 116: os avan\u00e7os e retrocessos do projeto que regulamenta a TV por assinatura"},"content":{"rendered":"<p class=\"padrao\">O Intervozes &ndash; Coletivo Brasil de Comunica&ccedil;&atilde;o acompanhou desde o in&iacute;cio o Projeto de Lei da C&acirc;mara 116 (antigo PL 29), sobre a abertura do mercado de televis&atilde;o por assinatura (TVA) para o setor de telecomunica&ccedil;&otilde;es, que atualmente tramita em regime de urg&ecirc;ncia no Senado Federal. Entre os principais aspectos do projeto est&atilde;o a abertura ao capital estrangeiro no servi&ccedil;o prestado por meio de cabos e o estabelecimento de cotas e mais recursos financeiros para a produ&ccedil;&atilde;o nacional, regional e independente. O projeto tamb&eacute;m prop&otilde;e que todo servi&ccedil;o que comercialize conte&uacute;do audiovisual por meio de canais, independente do meio usado para sua veicula&ccedil;&atilde;o e\/ou transmiss&atilde;o, receba o mesmo tratamento regulat&oacute;rio. Atualmente, h&aacute; diferentes normas a depender da tecnologia utilizada.<\/p>\n<p class=\"padrao\">Neste momento em que o projeto caminha para vota&ccedil;&atilde;o pelo plen&aacute;rio do Senado, nos parece importante avaliar alguns aspectos do texto que ser&aacute; apreciado, sem tomar uma posi&ccedil;&atilde;o pr&oacute; ou contra a aprova&ccedil;&atilde;o do PLC116. Por conta das contradi&ccedil;&otilde;es internas ao projeto e dos recuos que o texto sofreu durante sua tramita&ccedil;&atilde;o, nenhuma das op&ccedil;&otilde;es nos parece defens&aacute;vel neste momento. Explicamos por qu&ecirc;.<\/p>\n<p class=\"padrao\"><strong>Capital estrangeiro<\/strong><\/p>\n<p class=\"padrao\">Em rela&ccedil;&atilde;o ao PLC 116, um dos primeiros aspectos a se destacar &eacute; a total abertura que &eacute; concedida ao capital estrangeiro. Atualmente, a Lei 8.977\/95, conhecida como Lei do Cabo, limita a 49% a participa&ccedil;&atilde;o do capital estrangeiro nos servi&ccedil;os de TV comercializados a partir dessa tecnologia. Ao propor a revoga&ccedil;&atilde;o dos dispositivos desta lei, o PLC 116 favorece ainda mais as gigantes multinacionais que atuam no mercado brasileiro de telecomunica&ccedil;&otilde;es, j&aacute; livres para atuar nas tecnologias de sat&eacute;lite e MMDS. Esse &eacute; um fator cr&iacute;tico, n&atilde;o circunscrito apenas ao debate de TV por assinatura, mas &agrave;s telecomunica&ccedil;&otilde;es em geral, j&aacute; que esse &eacute; um setor altamente estrat&eacute;gico ao desenvolvimento e soberania nacional.<\/p>\n<p class=\"padrao\">Vale destacar, por&eacute;m, que a presen&ccedil;a massiva do capital estrangeiro no cabo j&aacute; existe por meio de brechas na lei e arranjos societ&aacute;rios dos grupos econ&ocirc;micos, como &eacute; o caso da participa&ccedil;&atilde;o da Embratel (propriedade do multimilion&aacute;rio mexicano Carlos Slim) na NET Servi&ccedil;os. Este &eacute; o exemplo mais emblem&aacute;tico de desrespeito frontal ao esp&iacute;rito da lei atual. Essa viola&ccedil;&atilde;o &eacute; ainda mais grave pelo fato de o setor das comunica&ccedil;&otilde;es n&atilde;o poder ser tratado como um segmento econ&ocirc;mico qualquer. Al&eacute;m da evas&atilde;o de bilh&otilde;es de d&oacute;lares ao ano, a presen&ccedil;a de capital estrangeiro neste setor tamb&eacute;m pode significar a perda do controle editorial da produ&ccedil;&atilde;o simb&oacute;lica do audiovisual nacional.<\/p>\n<p class=\"padrao\"><strong>Cotas e diversidade cultural<\/strong><\/p>\n<p class=\"padrao\">O maior problema do projeto &eacute; que desde o in&iacute;cio ele foi negociado para acomodar toda a gama de interesses comerciais envolvidos, tendo a defesa do interesse p&uacute;blico sido deixada em segundo plano ao longo da tramita&ccedil;&atilde;o. Ainda assim, ele manteve alguns avan&ccedil;os relevantes neste aspecto, com o aumento de recursos para a produ&ccedil;&atilde;o independente e regional e o estabelecimento de cotas nos canais e nos pacotes.<\/p>\n<p class=\"padrao\">As cotas, ao contr&aacute;rio do que bradam os grupos de m&iacute;dia, s&atilde;o instrumentos de valoriza&ccedil;&atilde;o da cultura nacional e de consolida&ccedil;&atilde;o da democracia, que s&oacute; existe de fato se a diversidade &eacute; contemplada nos conte&uacute;dos veiculados. Atualmente, a produ&ccedil;&atilde;o nacional e independente responde por uma &iacute;nfima parte do conte&uacute;do distribu&iacute;do nos pacotes da televis&atilde;o por assinatura brasileira. Dados da Ag&ecirc;ncia Nacional do Cinema (Ancine) apontam que apenas 1% do conte&uacute;do veiculado pelos principais canais de filmes, s&eacute;ries e desenhos &eacute; brasileiro* (&agrave; exce&ccedil;&atilde;o do Canal Brasil).<\/p>\n<p class=\"padrao\">A proposta estabelece 3h30 de conte&uacute;do nacional, sendo 1h45 de conte&uacute;dos nacionais independentes, respectivamente, em canais de conte&uacute;do qualificado**. &Eacute; importante ressaltar que no primeiro substitutivo ao projeto essas cotas eram de 7h e 3h30. Houve, portanto, um recuo consider&aacute;vel se analisarmos o percentual de conte&uacute;do nacional nos canais que agregam maior valor art&iacute;stico e cultural.<\/p>\n<p class=\"padrao\">Esse baixo impacto &eacute; contraposto pelas cotas de canais brasileiros nos pacotes comercializados. Pelo menos 1\/3 dos canais de conte&uacute;do qualificado deve ser nacional, sendo que dois deles devem ter pelo menos 12 horas de programa&ccedil;&atilde;o independente. Neste aspecto, o PLC 116 avan&ccedil;a consideravelmente ao fomentar o surgimento de novos canais com conte&uacute;do brasileiro e independente, combatendo a hegemonia de canais estrangeiros na TV por assinatura. De acordo com dados de 2010 da Ancine, 85 do total de canais oferecidos no Brasil s&atilde;o estrangeiros contra 16 canais brasileiros e 15 canais com capital misto (como &eacute; o caso dos canais Telecine).<\/p>\n<p class=\"padrao\">Contudo, o mesmo projeto que define cotas traz tamb&eacute;m uma grande limita&ccedil;&atilde;o para a sua efetividade, j&aacute; que os artigos 21 e 41 prev&ecirc;em um inaceit&aacute;vel relaxamento dessas obriga&ccedil;&otilde;es. O primeiro d&aacute; ao agente econ&ocirc;mico a possibilidade de solicitar dispensa para o cumprimento das mesmas. Ainda que a solicita&ccedil;&atilde;o tenha que ser justificada, abre-se um precedente grave para a perda de efeito desse importante mecanismo. O segundo, ainda mais absurdo, estabelece que todas as cotas deixar&atilde;o de viger ap&oacute;s doze anos da promulga&ccedil;&atilde;o da lei. N&atilde;o se sustenta a ideia de que o conte&uacute;do nacional e independente dependem apenas de um impulso para conquistar espa&ccedil;o. &Eacute; acreditar que ao longo deste per&iacute;odo as majors americanas, principais empresas de produ&ccedil;&atilde;o e distribui&ccedil;&atilde;o de conte&uacute;do no mundo, v&atilde;o deixar de ter como estrat&eacute;gia de neg&oacute;cio o escoamento de seus produtos em toneladas para pa&iacute;ses em desenvolvimento como o Brasil.<\/p>\n<p class=\"padrao\"><strong>Desagrega&ccedil;&atilde;o das redes e produ&ccedil;&atilde;o independente<\/strong><\/p>\n<p class=\"padrao\">Um ponto sempre defendido pelo Intervozes mas n&atilde;o contemplado por este projeto &eacute; a necessidade da desagrega&ccedil;&atilde;o das redes, que estabelece que quem possui a infraestrutura n&atilde;o pode prestar o servi&ccedil;o de distribui&ccedil;&atilde;o do conte&uacute;do (seja ele audiovisual, dados ou somente voz). Infelizmente o PLC 116 n&atilde;o trouxe essa perspectiva, mas ao menos prop&otilde;e limites a atua&ccedil;&atilde;o vertical das empresas nos diversos elos da cadeia produtiva.<\/p>\n<p class=\"padrao\">De acordo com o texto, empresas radiodifusoras, produtoras e programadoras n&atilde;o podem atuar diretamente no elo da distribui&ccedil;&atilde;o de conte&uacute;dos, mas podem deter at&eacute; 50% do capital das prestadoras de servi&ccedil;os de telecomunica&ccedil;&otilde;es. Estas, por sua vez, n&atilde;o podem prestar servi&ccedil;os de radiodifus&atilde;o de sons e imagens, produ&ccedil;&atilde;o e programa&ccedil;&atilde;o, ficando limitado a 30% a participa&ccedil;&atilde;o de seu capital em empresas com essas finalidades. Entre as limita&ccedil;&otilde;es verticais, estava previsto tamb&eacute;m um limite para as programadoras ligadas &agrave;s empresas de radiodifus&atilde;o n&atilde;o serem entendidas como produtoras independentes no setor de TV por assinatura, mas a &uacute;ltima vers&atilde;o d&aacute; espa&ccedil;o para que elas sejam enquadradas nessa categoria.<\/p>\n<p class=\"padrao\">De toda forma, o PLC amplia em mais de R$ 660 milh&otilde;es os recursos para a produ&ccedil;&atilde;o independente, al&eacute;m de aumentar as atribui&ccedil;&otilde;es regulat&oacute;rias da Ag&ecirc;ncia Nacional do Cinema (Ancine) sobre as empresas que comercializam canais de programa&ccedil;&atilde;o. Aspectos positivos, mas que demandam maior estrutura&ccedil;&atilde;o, acesso a mais dados sobre as obras financiadas e transpar&ecirc;ncia da ag&ecirc;ncia em seus processos &ndash; al&eacute;m de refor&ccedil;ar a necessidade da cria&ccedil;&atilde;o de mecanismos de participa&ccedil;&atilde;o popular em sua estrutura deliberativa.<\/p>\n<p class=\"padrao\"><strong>Saldo final<\/strong><\/p>\n<p class=\"padrao\">O Intervozes acredita que o PLC 116, dentro de um contexto de crescimento acelerado da TV por assinatura no Brasil, traz formula&ccedil;&otilde;es que enfrentam o desafio regulat&oacute;rio da converg&ecirc;ncia e colocam a cultura nacional e a diversidade como elementos centrais da constru&ccedil;&atilde;o simb&oacute;lica. Contudo, os enormes recuos ocorridos desde o in&iacute;cio da tramita&ccedil;&atilde;o tamb&eacute;m deixam claro que a queda de bra&ccedil;o entre o interesse p&uacute;blico e privado ainda se d&aacute; de forma bastante desigual no pa&iacute;s.<\/p>\n<p class=\"padrao\">Concretamente, o Senado Federal est&aacute; frente a um dilema sem boas sa&iacute;das: a aprova&ccedil;&atilde;o carrega consigo todos os avan&ccedil;os, mas todos os problemas do projeto. A n&atilde;o aprova&ccedil;&atilde;o significa deixar de lado os referidos avan&ccedil;os e provavelmente deixar esse setor &agrave; merc&ecirc; das vontades da Anatel, que j&aacute; d&aacute; sinais de querer regulamentar o servi&ccedil;o diretamente em termos bem piores do que os do PLC 116.<\/p>\n<p class=\"padrao\">Independentemente da escolha que ser&aacute; feita, &eacute; preciso urgentemente avan&ccedil;ar para um novo marco legal que abranja todo o setor de comunica&ccedil;&otilde;es, e se baseie na compreens&atilde;o das comunica&ccedil;&otilde;es como servi&ccedil;o p&uacute;blico, em seu papel estrat&eacute;gico para o desenvolvimento, a soberania nacional e a supera&ccedil;&atilde;o de desigualdades. Essa nova regulamenta&ccedil;&atilde;o deve reconhecer a import&acirc;ncia do pluralismo e da diversidade de conte&uacute;do para a democracia e a cultura nacional e &eacute; a oportunidade para que se supere, de uma vez por todas neste setor, a l&oacute;gica de pol&iacute;ticas p&uacute;blicas moldadas e aprovadas em nome de interesses privados.<\/p>\n<p class=\"padrao\">* ANCINE. <a href=\"http:\/\/www.ancine.gov.br\/oca\/rel_programacao.htm\" target=\"_blank\">TV PAGA &#8211; MAPEAMENTO<\/a> . Rio de Janeiro. ANCINE. 2010. RELAT&Oacute;RIO. TV PAGA. PROGRAMA&Ccedil;&Atilde;O 2010. Rio de Janeiro, 2011.<\/p>\n<p class=\"padrao\">** Canais de conte&uacute;do qualificado, de acordo com a defini&ccedil;&atilde;o do projeto, s&atilde;o aqueles que veiculem majoritariamente em hor&aacute;rio nobre conte&uacute;dos com maior valor art&iacute;stico. O projeto n&atilde;o define examente o que &eacute; conte&uacute;do qualificado, mas aqueles que n&atilde;o s&atilde;o: &ldquo;conte&uacute;dos religiosos ou pol&iacute;ticos, manifesta&ccedil;&otilde;es e eventos esportivos, concursos, publicidade, televendas, infomerciais, jogos eletr&ocirc;nicos, propaganda pol&iacute;tica obrigat&oacute;ria, conte&uacute;do audiovisual veiculado em hor&aacute;rio eleitoral gratuito, conte&uacute;dos jornal&iacute;sticos e programas de audit&oacute;rio ancorados por apresentador&rdquo;;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O projeto abre o setor ao capital  estrangeiro, estabelece cotas e mais recursos financeiros para a produ&ccedil;&atilde;o nacional, regional e  independente<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[42],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/25950"}],"collection":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=25950"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/25950\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=25950"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=25950"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=25950"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}