{"id":25935,"date":"2011-08-08T18:05:46","date_gmt":"2011-08-08T18:05:46","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=25935"},"modified":"2011-08-08T18:05:46","modified_gmt":"2011-08-08T18:05:46","slug":"globo-os-principios-a-credibilidade-e-a-pratica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=25935","title":{"rendered":"Globo: os princ\u00edpios, a credibilidade e a pr\u00e1tica"},"content":{"rendered":"<p><span class=\"padrao\">Deve ter sido coincid&ecirc;ncia. Todavia, n&atilde;o deixa de ser intrigante que os &ldquo;Princ&iacute;pios Editoriais das Organiza&ccedil;&otilde;es Globo&rdquo; tenham sido divulgados apenas algumas semanas ap&oacute;s o estouro do esc&acirc;ndalo envolvendo a News Corporation e um dia depois que um ex-jornalista da pr&oacute;pria Globo tenha postado em seu Blog &ndash; com grande repercuss&atilde;o na blogosfera &ndash; que havia uma orienta&ccedil;&atilde;o na TV Globo para tentar incompatibilizar o novo Ministro da Defesa com as For&ccedil;as Armadas.<strong><\/p>\n<p>Credibilidade: quest&atilde;o de sobreviv&ecirc;ncia<\/strong><\/p>\n<p>A credibilidade passou a ser um elemento absolutamente cr&iacute;tico no &ldquo;mercado&rdquo; da not&iacute;cia. O monop&oacute;lio dos velhos formadores de opini&atilde;o n&atilde;o existe mais. N&atilde;o &eacute; sem raz&atilde;o que as curvas de audi&ecirc;ncia e leitura da velha m&iacute;dia estejam em queda e o &ldquo;neg&oacute;cio&rdquo;, no seu formato atual, amea&ccedil;ado de sobreviv&ecirc;ncia.<\/p>\n<p>Na contemporaneidade, s&atilde;o muitas as fontes de informa&ccedil;&atilde;o dispon&iacute;veis para o cidad&atilde;o comum e as TICs ampliaram de forma exponencial as possibilidades de checagem daquilo que est&aacute; sendo noticiado. Sem credibilidade, a tend&ecirc;ncia &eacute; que os ve&iacute;culos se isolem e &ldquo;falem&rdquo;, cada vez mais, apenas para o segmento da popula&ccedil;&atilde;o que compartilha previamente de suas posi&ccedil;&otilde;es editoriais e busca confirma&ccedil;&atilde;o di&aacute;ria para elas, independentemente dos fatos.<\/p>\n<p>O esc&acirc;ndalo do &ldquo;News of the World&rdquo; explicitou formas criminosas de atua&ccedil;&atilde;o de um dos maiores conglomerados de m&iacute;dia do mundo, destruiu sua credibilidade e levantou a suspeita de que n&atilde;o &eacute; s&oacute; o grupo de Murdoch que pratica esse tipo de &ldquo;jornalismo&rdquo;. Al&eacute;m disso, a celebrada autorregulamenta&ccedil;&atilde;o existente na Inglaterra &ndash; por mais que o fato desagrade aos liberais nativos &ndash; comprovou sua total inefic&aacute;cia. As repercuss&otilde;es de tudo isso come&ccedil;am a aparecer. Inclusive na Terra de Santa Cruz.<\/p>\n<p><strong>Os Princ&iacute;pios da Globo<\/strong><\/p>\n<p>No Brasil ainda n&atilde;o existe sequer autorregulamenta&ccedil;&atilde;o e as Organiza&ccedil;&otilde;es Globo, o maior grupo de m&iacute;dia do pa&iacute;s, n&atilde;o tem um &uacute;nico Ombudsman em suas dezenas de ve&iacute;culos para acolher sugest&otilde;es e cr&iacute;ticas de seus &ldquo;consumidores&rdquo;. Neste contexto, a divulga&ccedil;&atilde;o de princ&iacute;pios editoriais &ndash; sejam eles quais forem &ndash; &eacute; uma refer&ecirc;ncia do pr&oacute;prio grupo em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; qual seu jornalismo pode ser avaliado. N&atilde;o deixa de ser um avan&ccedil;o.<\/p>\n<p>A quest&atilde;o, todavia, &eacute; que o hist&oacute;rico da Globo n&atilde;o credencia os Princ&iacute;pios divulgados. Em diferentes ocasi&otilde;es, ao longo dos &uacute;ltimos anos, coberturas tendenciosas que se tornaram cl&aacute;ssicas, foram documentadas. E alguns pontos reafirmados e\/ou ausentes dos Princ&iacute;pios agora divulgados refor&ccedil;am d&uacute;vidas. Lembro dois: a presun&ccedil;&atilde;o de inoc&ecirc;ncia e as liberdades &ldquo;absolutas&rdquo;.<\/p>\n<p><strong>Presun&ccedil;&atilde;o de inoc&ecirc;ncia<\/strong><\/p>\n<p>O C&oacute;digo de &Eacute;tica dos Jornalistas Brasileiros, adotado pela FENAJ, acolhe uma garantia constitucional (inciso LVII do artigo 5&ordm;) que tem origem na Revolu&ccedil;&atilde;o Francesa e reza em seu artigo 9&ordm;: &ldquo;a presun&ccedil;&atilde;o de inoc&ecirc;ncia &eacute; um dos fundamentos da atividade jornal&iacute;stica&rdquo;.<\/p>\n<p>N&atilde;o &eacute; necess&aacute;rio lembrar que o poder da velha m&iacute;dia continua avassalador quando atinge a esfera da vida privada, a reputa&ccedil;&atilde;o das pessoas, seu capital simb&oacute;lico. Algu&eacute;m acusado e &ldquo;condenado&rdquo; pela m&iacute;dia por um crime que n&atilde;o cometeu dificilmente se recupera. Os efeitos s&atilde;o devastadores. N&atilde;o h&aacute; indeniza&ccedil;&atilde;o que pague ou corrija os danos causados. Apesar disso, a aus&ecirc;ncia da presun&ccedil;&atilde;o de inoc&ecirc;ncia tem sido uma das caracter&iacute;sticas da cobertura pol&iacute;tica das Organiza&ccedil;&otilde;es Globo.<\/p>\n<p>Um exemplo: no auge da disputa eleitoral de 2006, diante da defesa que o PT fez de filiados seus que apareceram como suspeitos no esc&acirc;ndalo chamado de &ldquo;sanguessugas&rdquo;, o jornal &ldquo;O Globo&rdquo; publicou um box de &ldquo;Opini&atilde;o&rdquo; sob o t&iacute;tulo &ldquo;Coer&ecirc;ncia&rdquo; (12\/08\/2006, Caderno A pp.3\/4) no qual afirmava:<\/p>\n<p>&ldquo;N&atilde;o se pode acusar o PT de incoer&ecirc;ncia: se o partido protege mensaleiros, tamb&eacute;m acolhe sanguessugas. Sempre com o argumento maroto de que &eacute; preciso esperar o julgamento final. Maroto porque o julgamento pol&iacute;tico e &eacute;tico n&atilde;o se confunde com o veredicto da Justi&ccedil;a. (&#8230;) Na verdade, a esperan&ccedil;a do PT, e de outros partidos com postura id&ecirc;ntica, &eacute; que mensaleiros e sanguessugas sejam salvos pela lerdeza corporativista do Congresso e por chicanas jur&iacute;dicas. Simples assim.&rdquo;<\/p>\n<p>Em outras palavras, para O Globo, a presun&ccedil;&atilde;o de inoc&ecirc;ncia &eacute; uma garantia que s&oacute; existe no Judici&aacute;rio. A m&iacute;dia pode denunciar, julgar e condenar. N&atilde;o h&aacute; nada sobre presun&ccedil;&atilde;o de inoc&ecirc;ncia nos Princ&iacute;pios agora divulgados.<\/p>\n<p>Aparentemente, a postura editorial de 2006 continua a prevalecer nas Organiza&ccedil;&otilde;es Globo.<\/p>\n<p><strong>Liberdades absolutas?<\/strong><\/p>\n<p>Para as Organiza&ccedil;&otilde;es Globo a liberdade de express&atilde;o &eacute; um valor absoluto (Se&ccedil;&atilde;o I, letra h) e &ldquo;a liberdade de informar nunca pode ser considerada excessiva&rdquo; (Se&ccedil;&atilde;o III).<\/p>\n<p>Sem polemizar aqui sobre a diferen&ccedil;a entre liberdade de express&atilde;o e liberdade de imprensa &ndash; que n&atilde;o &eacute; mencionada sequer uma &uacute;nica vez nos Princ&iacute;pios &ndash; lembro que nem mesmo John Stuart Mill considerava a liberdade de express&atilde;o absoluta. Ela, como, ali&aacute;s, todas as liberdades, t&ecirc;m como limite a liberdade do outro.<\/p>\n<p>Em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; liberdade de informar, n&atilde;o foi exatamente o fato de &ldquo;nunca consider&aacute;-la excessiva&rdquo; que levou a News Corporation a violar a intimidade e a privacidade alheia e a cometer os crimes que cometeu?<\/p>\n<p><strong>O futuro dir&aacute;<\/strong><\/p>\n<p>Se haver&aacute; ou n&atilde;o altera&ccedil;&otilde;es na pr&aacute;tica jornal&iacute;stica &ldquo;global&rdquo;, s&oacute; o tempo dir&aacute;. Ao que parece, as resson&acirc;ncias do esc&acirc;ndalo envolvendo o grupo midi&aacute;tico do todo poderoso Rupert Murdoch e a incr&iacute;vel capilaridade social da blogosfera, inclusive entre n&oacute;s, j&aacute; atingiram o maior grupo de m&iacute;dia brasileiro.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span class=\"padrao\">A ver.<\/p>\n<p><em>* <strong>Ven&iacute;cio A. Lima<\/strong> &eacute; professor Titular de Ci&ecirc;ncia Pol&iacute;tica e Comunica&ccedil;&atilde;o da UnB (aposentado) e autor, dentre outros, de Regula&ccedil;&atilde;o das Comunica&ccedil;&otilde;es &ndash; Hist&oacute;ria, poder e direitos, Editora Paulus, 2011.<\/em><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p><span class=\"padrao\"> Ao longo dos &uacute;ltimos anos, coberturas tendenciosas  que se tornaram cl&aacute;ssicas. 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