{"id":25845,"date":"2011-07-20T16:19:04","date_gmt":"2011-07-20T16:19:04","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=25845"},"modified":"2011-07-20T16:19:04","modified_gmt":"2011-07-20T16:19:04","slug":"direito-e-responsabilidade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=25845","title":{"rendered":"Direito e responsabilidade"},"content":{"rendered":"<p><span class=\"padrao\">A liberdade de express&atilde;o &eacute; um dos direitos fundamentais da pessoa humana proclamados pela ONU em 1948, sendo enfaticamente referida no artigo 19 da Declara&ccedil;&atilde;o Universal dos Direitos Humanos, onde se diz que &ldquo;toda pessoa humana tem direito &agrave; liberdade de opini&atilde;o e express&atilde;o, incluindo-se nesse direito a liberdade de, sem interfer&ecirc;ncias, ter opini&otilde;es e de procurar, receber e transmitir informa&ccedil;&otilde;es e ideias por quaisquer meios e independentemente de fronteiras&rdquo;.<\/p>\n<p>Para refor&ccedil;o da efic&aacute;cia jur&iacute;dica desse direito, e tamb&eacute;m para deixar expressa a exist&ecirc;ncia de limita&ccedil;&otilde;es que podem ser consideradas leg&iacute;timas, bem como para ressaltar que o exerc&iacute;cio desse direito implica deveres e responsabilidades, a ONU estabeleceu algumas regras b&aacute;sicas sobre o exerc&iacute;cio da liberdade de express&atilde;o no Pacto Internacional dos Direitos Civis e Pol&iacute;ticos, aprovado em 1966. No artigo 19 do Pacto, que est&aacute; em vigor no Brasil, com for&ccedil;a de lei, desde 24 de janeiro de 1992, disp&otilde;e-se que o exerc&iacute;cio desse direito implicar&aacute; deveres e responsabilidades especiais, acrescentando-se que ele poder&aacute; estar sujeito a certas restri&ccedil;&otilde;es, &ldquo;que devem ser expressamente previstas em lei e que se fa&ccedil;am necess&aacute;rias para assegurar o respeito dos direitos e da reputa&ccedil;&atilde;o das demais pessoas, ou para proteger a seguran&ccedil;a nacional, a ordem, a sa&uacute;de ou a moral p&uacute;blicas&rdquo;. Assim, pois, a liberdade de express&atilde;o, aqui inclu&iacute;da, obviamente, a liberdade de imprensa, &eacute; um direito fundamental e como tal deve ser assegurado e protegido, mas jamais poder&aacute; ser invocado como justificativa ou pretexto para a pr&aacute;tica de atos que ofendam outros direitos.<\/p>\n<p><strong>Direito da cidadania<\/strong><\/p>\n<p>Como tem sido muitas vezes proclamado em documentos internacionais, e &eacute; expressamente consagrado na Constitui&ccedil;&atilde;o brasileira, a liberdade de imprensa faz parte do aparato essencial do Estado Democr&aacute;tico de Direito. &Eacute; de interesse de todas as pessoas e de todo o povo que essa liberdade seja respeitada, mas &eacute; absolutamente necess&aacute;rio que ela seja concebida e usada como um direito da cidadania e n&atilde;o como um ap&ecirc;ndice do direito de empresa ou como privil&eacute;gio dos propriet&aacute;rios e dirigentes dos meios de comunica&ccedil;&atilde;o, ou, ainda, dos jornalistas e demais agentes que atuam no sistema. Fazem parte dessa liberdade o direito e o dever de respeitar as limita&ccedil;&otilde;es legais e de informar corretamente, o que implica fazer a divulga&ccedil;&atilde;o de fatos verdadeiros, sem distor&ccedil;&otilde;es, com imparcialidade e tamb&eacute;m sem ocultar fatos e circunst&acirc;ncias que s&atilde;o de interesse p&uacute;blico ou necess&aacute;rios para o correto conhecimento do que for divulgado.<\/p>\n<p>Essas considera&ccedil;&otilde;es tornam-se oportunas neste momento em que um farto notici&aacute;rio da imprensa informa sobre tremendos desvios &eacute;ticos, implicando ilegalidades de v&aacute;rias naturezas, praticados sob o comando de um famoso propriet&aacute;rio e dirigente de um poderoso sistema de comunica&ccedil;&otilde;es, incluindo jornais ingleses de grande circula&ccedil;&atilde;o e tendo ramifica&ccedil;&otilde;es em muitos outros pa&iacute;ses.<\/p>\n<p><strong>Abusos de um poderoso<\/strong><\/p>\n<p>Pelo que j&aacute; foi divulgado, esse personagem, o australiano Rupert Murdoch, estabeleceu sua base na Inglaterra e, ignorando barreiras &eacute;ticas e legais, tornou-se verdadeiro chefe de quadrilha, desenvolvendo um conglomerado de &ldquo;imprensa investigativa&rdquo;, organizando um sofisticado sistema de invas&atilde;o de aparelhos de comunica&ccedil;&atilde;o e de registro de dados confidenciais. E isso vem sendo utilizado h&aacute; muitos anos para a amplia&ccedil;&atilde;o de seus neg&oacute;cios, publicando informa&ccedil;&otilde;es escandalosas e confidenciais, conquistando um grande p&uacute;blico e, naturalmente, atraindo grande volume de publicidade e tamb&eacute;m a cumplicidade de grandes empres&aacute;rios.<\/p>\n<p>Levando ainda mais longe o abuso da liberdade de imprensa, Murdoch invadiu tamb&eacute;m a intimidade de pessoas e fam&iacute;lias, inclusive determinando que seus agentes fizessem a intercepta&ccedil;&atilde;o das comunica&ccedil;&otilde;es telef&ocirc;nicas da pr&oacute;pria fam&iacute;lia real inglesa, o que foi descoberto e levou um deles &agrave; pris&atilde;o. Mas desse modo, valendo-se do controle de uma grande rede de jornais e penetrando tamb&eacute;m na televis&atilde;o, Murdoch acabou criando um aparato de intimida&ccedil;&atilde;o que lhe deu a possibilidade de exercer muita influ&ecirc;ncia na vida pol&iacute;tica inglesa, pois, como tem sido noticiado, ele colocou agentes em postos-chaves do governo e assim at&eacute; mesmo os ocupantes do mais alto posto de governo da Inglaterra, que &eacute; o cargo de primeiro-ministro, passaram a temer seu corrupto sistema de imprensa.<\/p>\n<p><strong>Poder implica papel social<\/strong><\/p>\n<p>Os fatos ocorridos agora na Inglaterra devem servir de advert&ecirc;ncia. O extraordin&aacute;rio crescimento dos meios de comunica&ccedil;&atilde;o e de seu potencial de influ&ecirc;ncia social j&aacute; tem levado a liberdade de imprensa a ser usada como instrumento da corrup&ccedil;&atilde;o, a servi&ccedil;o dos interesses empresariais e tamb&eacute;m pol&iacute;ticos, ou de ambos conjuntamente. N&atilde;o h&aacute; d&uacute;vida de que modernamente a imprensa livre &eacute; requisito essencial para a exist&ecirc;ncia de uma sociedade livre e democr&aacute;tica, mas o gozo dessa liberdade implica uma responsabilidade social, sobretudo tendo em conta a enorme influ&ecirc;ncia que a imprensa exerce sobre a popula&ccedil;&atilde;o. Transmitindo informa&ccedil;&otilde;es, a imprensa pesa muito na forma&ccedil;&atilde;o das convic&ccedil;&otilde;es e pode ter um papel fundamental tanto para a consagra&ccedil;&atilde;o de posi&ccedil;&otilde;es favor&aacute;veis &agrave; dignidade e aos direitos fundamentais da pessoa humana, quanto para o estabelecimento e a alimenta&ccedil;&atilde;o de preconceitos, de atitudes discriminat&oacute;rias ou para a imposi&ccedil;&atilde;o e manuten&ccedil;&atilde;o de graves injusti&ccedil;as na organiza&ccedil;&atilde;o da sociedade e nas rela&ccedil;&otilde;es entre os seres humanos.<\/p>\n<p>A imprensa deve ter o direito de ser livre, a fim de que possa manter o povo informado de todos os fatos de alguma relev&acirc;ncia para as pessoas e a humanidade, que ocorrerem em qualquer parte do mundo, sem reservas ou discrimina&ccedil;&otilde;es. Na sociedade contempor&acirc;nea s&atilde;o muitas as atividades, &agrave;s vezes de grande import&acirc;ncia para muitas pessoas ou para grupos humanos, que dependem de informa&ccedil;&otilde;es corretas, atualizadas e, quanto poss&iacute;vel, precisas, cabendo &agrave; imprensa um papel relevante no atendimento dessa necessidade social. Bastam esses pontos para se concluir que as tarefas da imprensa configuram um servi&ccedil;o p&uacute;blico relevante. E por isso a Constitui&ccedil;&atilde;o proclama e garante a liberdade de imprensa como direito fundamental.<\/p>\n<p><strong>Deveres, n&atilde;o privil&eacute;gios<\/strong><\/p>\n<p>Mas &eacute; absolutamente necess&aacute;rio ter consci&ecirc;ncia de que esse direito e essa garantia n&atilde;o s&atilde;o outorgados como um favor ou privil&eacute;gio aos propriet&aacute;rios dos ve&iacute;culos de comunica&ccedil;&atilde;o de massa ou aos jornalistas e demais participantes do sistema, mas t&ecirc;m sua justificativa precisamente no car&aacute;ter de servi&ccedil;o p&uacute;blico relevante, da imprensa. Dos mesmos fundamentos que justificam o direito e a garantia de liberdade decorre o dever de informar honestamente, com imparcialidade, sem distor&ccedil;&otilde;es e tamb&eacute;m sem omiss&otilde;es maliciosas, sem a oculta&ccedil;&atilde;o deliberada de informa&ccedil;&otilde;es que possam influir sobre a forma&ccedil;&atilde;o da opini&atilde;o p&uacute;blica. Assim, a liberdade de imprensa enquadra-se na categoria de direito\/dever fundamental para a exist&ecirc;ncia de uma sociedade livre, democr&aacute;tica e justa.<\/p>\n<p><em>* <strong>Dalmo de Abreu Dallari<\/strong> &eacute; jurista e professor em&eacute;rito da Faculdade de Direito da Universidade de S&atilde;o Paulo<\/em><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p><span class=\"padrao\">A liberdade de imprensa &eacute; um direito fundamental e como tal  deve ser assegurado e protegido, mas jamais poder&aacute; ser invocado como  justificativa ou pretexto para a pr&aacute;tica de atos que ofendam outros  direitos<\/span><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[42],"tags":[1521],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/25845"}],"collection":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=25845"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/25845\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=25845"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=25845"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=25845"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}