{"id":25726,"date":"2011-06-22T13:05:58","date_gmt":"2011-06-22T13:05:58","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=25726"},"modified":"2011-06-22T13:05:58","modified_gmt":"2011-06-22T13:05:58","slug":"formacao-de-opiniao-cai-a-ficha-da-grande-midia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=25726","title":{"rendered":"Forma\u00e7\u00e3o de opini\u00e3o: cai a ficha da grande m\u00eddia"},"content":{"rendered":"<p><span class=\"padrao\">Um artigo de Soraya Aggege, sob o t&iacute;tulo &ldquo;O poder da maioria&rdquo;, recentemente publicado na CartaCapital (n. 644, de 4\/5\/2011), fez um interessante resumo de informa&ccedil;&otilde;es que t&ecirc;m circulado h&aacute; algum tempo sobre a impressionante ascens&atilde;o que a classe C teve em nosso pa&iacute;s, nos &uacute;ltimos anos. A revista se utiliza, sobretudo, de dados do instituto Data Popular, especializado em pesquisar esse segmento da popula&ccedil;&atilde;o que, em 2014, ser&aacute; majorit&aacute;rio e concentrar&aacute; 54% do eleitorado.<\/p>\n<p>Nada de novo. Apenas algumas confirma&ccedil;&otilde;es e, mais importante, algumas conseq&uuml;&ecirc;ncias.<\/p>\n<p><strong>&ldquo;Deslocando&rdquo; a forma&ccedil;&atilde;o da opini&atilde;o<\/strong><\/p>\n<p>A mat&eacute;ria afirma que &ldquo;no atual contexto, dizem os especialistas, o eixo da forma&ccedil;&atilde;o de opini&atilde;o deslocou-se dos pais, ou de velhas lideran&ccedil;as locais, como padres e representantes comunit&aacute;rios, para os filhos&rdquo;. E prossegue: &ldquo;Os dados revelam que, nesse segmento, o que mais vale n&atilde;o &eacute; o que diz a televis&atilde;o. Nada menos que 79% deles confiam mais nas recomenda&ccedil;&otilde;es dos parentes que na propaganda de tev&ecirc;. Para se ter uma ideia, no Nordeste, onde se deu a maior expans&atilde;o desse estrato social, 74% preferem se informar pelo boca a boca&rdquo;.<\/p>\n<p>Ao longo do texto alguns depoimentos colhidos de novos representantes da Classe C ratificam aquilo que as pesquisas revelam. Exemplo:<\/p>\n<p>&ldquo;Aos 20 anos, [Vanessa Antonio] integra a por&ccedil;&atilde;o jovem dos 31 milh&otilde;es de brasileiros rec&eacute;m-instalados no meio da pir&acirc;mide social, com renda familiar mensal entre 1,5 mil e 5 mil reais. [Ela] e outros milh&otilde;es de jovens das periferias come&ccedil;am a desempenhar o papel de principais formadores de opini&atilde;o da chamada &ldquo;nova classe m&eacute;dia&rdquo;. E mais: &ldquo;Para os jovens como [Vanessa], tr&ecirc;s fatores aumentaram seu poder de opini&atilde;o sobre a fam&iacute;lia e suas comunidades: emprego, estudos e o que eles chamam de &ldquo;nova bomba do mundo&rdquo;, a tecnologia. &ldquo;Temos computadores e celulares. Nossas fam&iacute;lias agora t&ecirc;m mais acesso &agrave; informa&ccedil;&atilde;o. Agente v&ecirc; as not&iacute;cias, compara na internet e conta para eles.&rdquo;<\/p>\n<p>Esse extraordin&aacute;rio fen&ocirc;meno de deslocamento do poder de constru&ccedil;&atilde;o da opini&atilde;o p&uacute;blica de seus &ldquo;formadores tradicionais&rdquo; (pais, padres, professores e colunistas da velha m&iacute;dia, dentre outros) para &ldquo;l&iacute;deres de opini&atilde;o&rdquo; das classes em ascens&atilde;o social, com acesso direto e\/ou indireto a fontes alternativas de informa&ccedil;&atilde;o, sobretudo &agrave; internet, j&aacute; havia sido identificado faz tempo e deu mostras inequ&iacute;vocas de seu poder pelo menos desde as elei&ccedil;&otilde;es de 2006 [cf. Ven&iacute;cio A. de Lima, A M&iacute;dia nas Elei&ccedil;&otilde;es de 2006, Perseu Abramo; 2007 e &ldquo;<a href=\"http:\/\/www.observatoriodaimprensa.com.br\/news\/view\/a-internet-e-os-novos-formadores-de-opiniao\">A Internet e os novos formadores de opini&atilde;o<\/a>&rdquo;].<\/p>\n<p>A grande m&iacute;dia brasileira, no entanto, fazia de conta que n&atilde;o via o que estava acontecendo no pa&iacute;s [ver &ldquo;<a href=\"http:\/\/www.observatoriodaimprensa.com.br\/news\/view\/a-velha-midia-finge-que-o-pais-nao-mudou\">A velha m&iacute;dia finge que o pa&iacute;s n&atilde;o mudou<\/a>&rdquo;].<\/p>\n<p><strong>A entrevista de Florisbal<\/strong><\/p>\n<p>Por total coincid&ecirc;ncia, alguns dias depois da mat&eacute;ria da CartaCapital, sob o sugestivo t&iacute;tulo &ldquo;Globo muda programa&ccedil;&atilde;o para atender a nova classe C&rdquo;, o portal UOL divulga uma longa entrevista com Octavio Florisbal, diretor-geral da Globo. O que diz ele? Vale a pena ler a entrevista na sua totalidade, mas reproduzo abaixo alguns highlights:<\/p>\n<p>Na introdu&ccedil;&atilde;o &agrave; entrevista Maur&iacute;cio Stycer escreve:<\/p>\n<p>&ldquo;A Rede Globo aprofundou um processo de modifica&ccedil;&otilde;es em sua programa&ccedil;&atilde;o para atender a uma nova clientela: a emergente classe C. As mudan&ccedil;as afetam as &aacute;reas de novelas, os programas de humor e o jornalismo. E objetivam deixar a programa&ccedil;&atilde;o mais popular. A nova classe C, na vis&atilde;o da emissora, quer se ver retratada nas telas.&rdquo;<\/p>\n<p>O diretor-geral da Globo afirma:<\/p>\n<p>&ldquo;Em dramaturgia, se voc&ecirc; voltar 20 anos, voc&ecirc; tinha alguns estere&oacute;tipos. A novela estava centrada nos Jardins, em S&atilde;o Paulo, ou na zona sul do Rio e tinha um n&uacute;cleo, aquele n&uacute;cleo alegre, de classe C, na periferia. Hoje, n&atilde;o. A gente come&ccedil;a a ver essas hist&oacute;rias trafegando mais na periferia.&rdquo;<\/p>\n<p>&ldquo;[A classe C] tem que estar mais bem representada e identificada na dramaturgia, no jornalismo. Antes, voc&ecirc; fazia uma coisa mais geral. Hoje, n&atilde;o. A gente tem que ir, principalmente nos telejornais locais, ao encontro deles. Eles t&ecirc;m que ver a sua realidade retratada nos telejornais. (&#8230;) No jornalismo &eacute; a mesma coisa. (&#8230;) Tem a reda&ccedil;&atilde;o m&oacute;vel, que vai nas periferias e faz de l&aacute;. Nos telejornais nacionais voc&ecirc; tamb&eacute;m tem que cuidar bem para n&atilde;o colocar em excesso certos temas que n&atilde;o atendem tanto.&rdquo;<\/p>\n<p>Aaahhh&#8230; Ent&atilde;o a classe C n&atilde;o estava sendo &ldquo;retratada nas telas&rdquo;, ausente no entretenimento e ausente no jornalismo? Uai&#8230; n&atilde;o era a exclus&atilde;o de alguns setores da popula&ccedil;&atilde;o da telinha &ndash; a aus&ecirc;ncia de pluralidade e diversidade na representa&ccedil;&atilde;o &ndash; exatamente o que cr&iacute;ticos da m&iacute;dia apontam h&aacute; anos?<\/p>\n<p>E continua o diretor-geral:<\/p>\n<p>&ldquo;No passado, a classe C seguia muito os padr&otilde;es das classes A e B. (&#8230;) Eram seguidores. (&#8230;) Houve uma mudan&ccedil;a de comportamento e de valores para estas pessoas. Acabamos de fazer uma pesquisa muito interessante de classe C que mostra isso. (&#8230;) Aquela divis&atilde;o de que 80% do p&uacute;blico &eacute; das classes C, D e E continua, mas eles t&ecirc;m mais presen&ccedil;a, mais opini&atilde;o. Eles ascenderam. T&ecirc;m um jeito pr&oacute;prio de ser. Voc&ecirc; tem que atend&ecirc;-los melhor.&rdquo;<\/p>\n<p>Aaahhh&#8230; quer dizer que a classe C n&atilde;o &eacute; mais seguidora, agora ela sabe o que quer. Talvez, quem sabe, tenha aprendido at&eacute; mesmo a votar, n&atilde;o &eacute; mesmo?<\/p>\n<p><strong>Mudan&ccedil;as inevit&aacute;veis?<\/strong><\/p>\n<p>Ao que parece, alguns princ&iacute;pios consagrados na Constitui&ccedil;&atilde;o de 1988, esperando h&aacute; mais de 22 anos para serem cumpridos, acabar&atilde;o acontecendo por for&ccedil;a das mudan&ccedil;as que ocorreram no pa&iacute;s, independente at&eacute; mesmo da regulamenta&ccedil;&atilde;o legal. Exemplo: a regionaliza&ccedil;&atilde;o da produ&ccedil;&atilde;o cultural, art&iacute;stica e jornal&iacute;stica.<\/p>\n<p>Da mesma forma, a sobreviv&ecirc;ncia no &ldquo;mercado&rdquo; talvez obrigue o jornalismo televisivo a operar mudan&ccedil;as n&atilde;o s&oacute; aos n&iacute;veis local e regional, mas tamb&eacute;m no nacional. Afinal, a classe C agora sabe o que quer, tem &ldquo;mais presen&ccedil;a, mais opini&atilde;o&rdquo; e &eacute; preciso atend&ecirc;-la.<\/p>\n<p>H&aacute; realmente momentos em que a realidade parece ser mais forte do que o status quo.<\/p>\n<p>A ver.<\/p>\n<p>*<em><strong>Ven&iacute;cio A. de Lima<\/strong> &eacute; professor Titular de Ci&ecirc;ncia Pol&iacute;tica e Comunica&ccedil;&atilde;o da UnB (aposentado) e autor, dentre outros, de Regula&ccedil;&atilde;o das Comunica&ccedil;&otilde;es &ndash; Hist&oacute;ria, poder e direitos, Editora Paulus, 2011. <\/em><\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Raras vezes a realidade fala mais alto e revela ter mais poder do que alguns atores tradicionais da grande m&iacute;dia brasileira<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[42],"tags":[1540],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/25726"}],"collection":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=25726"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/25726\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=25726"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=25726"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=25726"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}