{"id":25710,"date":"2011-06-17T15:39:33","date_gmt":"2011-06-17T15:39:33","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=25710"},"modified":"2011-06-17T15:39:33","modified_gmt":"2011-06-17T15:39:33","slug":"e-um-tapa-na-cara-de-quao-distante-de-um-jornalismo-independente-e-critico-a-gente-esta","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=25710","title":{"rendered":"&#8220;\u00c9 um tapa na cara, de qu\u00e3o distante de um jornalismo independente e cr\u00edtico a gente est\u00e1&#8221;"},"content":{"rendered":"<p><span class=\"padrao\">Surpreende o fato de que um Estado &aacute;rabe, mon&aacute;rquico, teocr&aacute;tico e ultra-conservador &eacute; o respons&aacute;vel pela maior experi&ecirc;ncia mundial de TV voltada para o interesse p&uacute;blico. Estamos falando da Al Jazeera, emissora estatal do Qatar, um pequeno e rico pa&iacute;s do Oriente M&eacute;dio. E quem nos conta detalhes sobre este projeto raro de jornalismo s&eacute;rio e independente &eacute; a jornalista Bia Barbosa, que passou um m&ecirc;s na reda&ccedil;&atilde;o de um dos canais da emissora. Atualmente ela integra o Coletivo Intervozes e colabora com ve&iacute;culos da imprensa alternativa. Para exemplificar o enfrentamento da Al Jazeera &agrave; l&oacute;gica dominante nos meios de comunica&ccedil;&atilde;o, Bia lembrou que todo o conte&uacute;do da rede &eacute; licenciado em creative commons, que dispensa qualquer t&iacute;tulo de propriedade sobre a informa&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p><strong>De onde surgiu essa ideia de ter uma experi&ecirc;ncia na Al Jazeera e como voc&ecirc; chegou at&eacute; l&aacute;?<\/strong><\/p>\n<p>Eu sempre acompanhei a Al Jazeera, todos n&oacute;s jornalistas da imprensa progressista e alternativa temos nela uma fonte de informa&ccedil;&atilde;o importante, e tive a felicidade da minha fam&iacute;lia morar em Doha por um ano. O meu pai est&aacute; trabalhando num projeto para o governo do Qatar. Quando eu decidi que ia para l&aacute; no final do ano passar f&eacute;rias, achei que era uma possibilidade interessante de tentar uma experi&ecirc;ncia na Al Jazeera. Ent&atilde;o entrei em contato com eles solicitando a possibilidade de fazer um est&aacute;gio.<\/p>\n<p>Meu objetivo n&atilde;o era fazer um trabalho remunerado e eles acharam interessante o meu curr&iacute;culo, e precisam sempre de gente l&aacute;. Eles t&ecirc;m v&aacute;rios canais e eu fiquei no canal de not&iacute;cias em ingl&ecirc;s. S&atilde;o 65 escrit&oacute;rios em pa&iacute;ses diferentes, mas a sede &eacute; em Doha, onde fica a maior parte da estrutura dos canais. O canal ingl&ecirc;s &eacute; como se fosse uma CNN, uma BBC, um canal de not&iacute;cias 24 horas. A Al Jazeera j&aacute; existia no pa&iacute;s mas virou uma televis&atilde;o internacional durante a guerra do Iraque, e o canal ingl&ecirc;s foi lan&ccedil;ado em 2006.&nbsp; Ele &eacute; voltado para o exterior, mas tamb&eacute;m passa na televis&atilde;o aberta do Qatar em ingl&ecirc;s. At&eacute; porque o Qatar &eacute; um pa&iacute;s que tem 2\/3 da sua popula&ccedil;&atilde;o de estrangeiros.<\/p>\n<p><strong>Eles est&atilde;o presentes em mais de 60 pa&iacute;ses com correspondentes?<\/strong><\/p>\n<p>O English Channel, como eles chamam, tem escrit&oacute;rios em 65 pa&iacute;ses e os dados oficiais falam em jornalistas em 60 pa&iacute;ses em todos os continentes, inclusive na Am&eacute;rica do Sul e &Aacute;frica. Eles t&ecirc;m um correspondente no Brasil, chamado Gabriel Elizondo, que fica em S&atilde;o Paulo mas viaja por todo o Brasil, cobre muito o Congresso tamb&eacute;m. Eles t&ecirc;m alguns colaboradores freelancers tamb&eacute;m. J&aacute; o canal de not&iacute;cias em &aacute;rabe, tamb&eacute;m 24 horas, n&atilde;o tem correspondente no Brasil. N&atilde;o me pe&ccedil;am para fazer uma avalia&ccedil;&atilde;o desse canal porque eu n&atilde;o falo &aacute;rabe (risos).<\/p>\n<p><strong>O que voc&ecirc; fez nesses 30 dias por l&aacute; em janeiro? Trabalhou como qualquer outra jornalista?<\/strong><\/p>\n<p>Trabalhei como jornalista. O English Channel da Al Jazeera tem dois grandes departamentos:&nbsp; o que a gente pode chamar de hard news e o de programas. Naquele s&atilde;o not&iacute;cias que v&atilde;o entrando 24 horas com um apresentador de est&uacute;dio, com not&iacute;cias que se repetem ao longo da programa&ccedil;&atilde;o. Essa parte &eacute; gerada por 4 pa&iacute;ses ao longo das 24h, de acordo com o fuso hor&aacute;rio: 12 horas s&atilde;o geradas da sede de Doha, no Qatar, e 4 horas de Kuala Lumpur (Mal&aacute;sia), 4 de Londres e 4 de Washington. Se eles quisessem poderiam manter um equipe 24h gerando isso de Doha, mas tem ai tamb&eacute;m uma quest&atilde;o de ter sedes em outros pa&iacute;ses e uma gera&ccedil;&atilde;o local desses centros de informa&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>O outro departamento &eacute; de programas de meia hora, veiculados ao longo do dia. A grade de programa&ccedil;&atilde;o &eacute; dividida entre meia hora de programa e meia hora de jornalismo ao vivo. Inclusive o padr&atilde;o de est&uacute;dio &eacute; muito parecido com esses grandes canais internacionais de jornalismo. Eu fiquei no departamento de programas, e senti que &eacute; onde a Al Jazeera mostra seu diferencial na cobertura jornal&iacute;stica, &agrave; exce&ccedil;&atilde;o da cobertura dos pa&iacute;ses &aacute;rabes, porque ali eles t&ecirc;m especialidade e muito mais equipes. Onde a Al Jazeera aprofunda os temas, &eacute; plural de forma mais expl&iacute;cita, faz um enfrentamento editorial nas pautas em que acha necess&aacute;rio, &eacute; nos programas jornal&iacute;sticos.<\/p>\n<p>Eu trabalhei para eles basicamente como auxiliar na elabora&ccedil;&atilde;o de um programa de economia sobre mercados emergentes. Eles queriam falar do Brasil, da China e da &Iacute;ndia. E estavam come&ccedil;ando a produzir um piloto desse programa que ainda n&atilde;o foi para o ar. Eu levantei informa&ccedil;&otilde;es e contribui um pouco para eles montarem esse programa de economia.<\/p>\n<p><strong>Voc&ecirc; tem algum exemplo latente para demonstrar o diferencial editorial dos programas?<\/strong><\/p>\n<p>Na &uacute;ltima semana em que estava l&aacute;, come&ccedil;ou a ocupa&ccedil;&atilde;o da Pra&ccedil;a Tahrir e os protestos contra Mubarak. Eles faziam esses programas de meia hora indo fundo na quest&atilde;o do Egito, muito al&eacute;m do que voc&ecirc; conseguia dar no notici&aacute;rio 24 horas. Nesses programas eles aprofundavam a hist&oacute;ria, as origens e consequ&ecirc;ncias dos protestos, e entrevistavam pessoas. Programas de debate, &eacute; uma coisa que a gente s&oacute; tem no Brasil na TV por assinatura para quem pode pagar, s&atilde;o muito comuns l&aacute;. Na grade de programa&ccedil;&atilde;o h&aacute; programas de debate sobre literatura, sobre conjuntura, uma s&eacute;rie de document&aacute;rios de meia hora, programas sobre a &Aacute;sia, etc.&nbsp; N&atilde;o &eacute; que n&atilde;o haja diferen&ccedil;a na cobertura do hard news, claro que h&aacute;, mas &eacute;&nbsp; nesses programas que eles conseguem mostrar um diferencial maior.<\/p>\n<p><strong>Saindo um pouco dessa quest&atilde;o jornal&iacute;stica, indo um pouco para a pol&iacute;tica, a Al Jazeera &eacute; uma TV estatal do governo do Qatar?<\/strong><\/p>\n<p>Ela &eacute; estatal porque &eacute; totalmente financiada pelo governo do Qatar, mas o ethos dela, se a gente pode falar assim, &eacute; p&uacute;blico. Ela n&atilde;o tem mecanismos de participa&ccedil;&atilde;o popular, mas a programa&ccedil;&atilde;o n&atilde;o &eacute; de uma emissora estatal, &eacute; de uma emissora p&uacute;blica. Eu n&atilde;o consegui avaliar a cobertura do canal &aacute;rabe, que &eacute; onde talvez a influ&ecirc;ncia do governo se manifeste de forma mais expl&iacute;cita porque &eacute; o canal diretamente voltado para a popula&ccedil;&atilde;o de l&aacute;. Mas no canal ingl&ecirc;s eu n&atilde;o senti na cobertura que era feita e nem nos programas onde eu estava qualquer inger&ecirc;ncia do Qatar. N&atilde;o tem propaganda. Nesse m&ecirc;s que eu fiquei l&aacute; s&oacute; vi uma mat&eacute;ria sobre o Qatar que falava de uma parceria do governo com os pa&iacute;ses &aacute;rabes para a explora&ccedil;&atilde;o de um po&ccedil;o de petr&oacute;leo descoberto no Golfo P&eacute;rsico.<\/p>\n<p>A rede tamb&eacute;m promove v&aacute;rios eventos p&uacute;blicos e debates sobre temas da conjuntura. Participei na &uacute;ltima semana em que estava l&aacute; de um f&oacute;rum sobre liberdade de express&atilde;o e jornalismo online. Eles estavam discutindo a conjuntura com blogueiros do mundo &aacute;rabe, a partir da quest&atilde;o das redes sociais que tinha sido utilizadas nos protestos no Egito e na Tun&iacute;sia; nos outros pa&iacute;ses ainda n&atilde;o tinha estourado as revolu&ccedil;&otilde;es. E eles levaram blogueiros de todos os pa&iacute;ses pr&oacute; e contra seus respectivos governos, e fizeram a transmiss&atilde;o ao vivo do evento no canal &aacute;rabe por dois dias inteiros. E houve cr&iacute;ticas ao governo do Qatar em rela&ccedil;&atilde;o a determinadas restri&ccedil;&otilde;es da liberdade de imprensa no pa&iacute;s em outros ve&iacute;culos, e os dois dias do evento foram transmitidos ao vivo sem nenhum tipo de corte.<\/p>\n<p>A Al Jazeera compra um tipo de enfrentamento pol&iacute;tico com v&aacute;rios governos da regi&atilde;o, com uma autoridade jornal&iacute;stica maior porque tem gente in loco e conhecimento maior do que CNN e BBC para cobrir essas quest&otilde;es. Em v&aacute;rios pa&iacute;ses as equipes da Al Jazeera j&aacute; foram expulsas por denunciarem fatos e informa&ccedil;&otilde;es que desagradam politicamente os governos dos pa&iacute;ses &aacute;rabes. A Al Jazeera &eacute; adorada pelo povo e muitas vezes detestada pelos governantes.<\/p>\n<p><strong>Essa linha editorial de enfrentamento a outros governos &aacute;rabes &eacute; uma coisa da reda&ccedil;&atilde;o ou uma orienta&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica pelas rela&ccedil;&otilde;es que o governo do Qatar tem com outros pa&iacute;ses na regi&atilde;o?<\/strong><\/p>\n<p>O pouco tempo que eu fiquei l&aacute; e o contato que tive com a dire&ccedil;&atilde;o da empresa n&atilde;o me permitem responder isso com certeza. A minha avalia&ccedil;&atilde;o pessoal &eacute; que n&atilde;o. Acho que n&atilde;o &eacute; orienta&ccedil;&atilde;o do governo do Qatar, &eacute; jornal&iacute;stica. Inclusive porque n&atilde;o &eacute; um tipo de jornalismo meio fact&oacute;ide, &eacute; uma cobertura da realidade, do que est&aacute; acontecendo. Ent&atilde;o se o pa&iacute;s est&aacute; em greve, se os sindicatos est&atilde;o nas ruas, se a popula&ccedil;&atilde;o est&aacute; protestando contra alguma coisa, se est&aacute; morrendo gente nos hospitais, tem fatos ali que precisam ser mostrados e eu sinto que a Al Jazeera n&atilde;o se nega a mostrar isso independente de diverg&ecirc;ncias pol&iacute;ticas que ela vai ter com o governo desses pa&iacute;ses.<\/p>\n<p>Se a gente for olhar, &eacute; claro que tem contradi&ccedil;&otilde;es no governo do Qatar. Por isso n&atilde;o posso dizer n&atilde;o h&aacute; inger&ecirc;ncia editorial. A Al Jazeera&nbsp; &eacute; uma emissora muito cr&iacute;tica no seu jornalismo ao governo dos Estados Unidos, da&iacute; inclusive o espa&ccedil;o que ela ocupou internacionalmente, al&eacute;m de ter informa&ccedil;&otilde;es que grandes emissoras internacionais de not&iacute;cias n&atilde;o t&ecirc;m. Mas se voc&ecirc; for olhar, o governo do Qatar abriga uma base de soldados americanos no seu territ&oacute;rio, tem uma cidade no norte do Qatar que &eacute; base deles no Golfo, o que mostra que tem interesses de governo em manter algum tipo de alian&ccedil;a com o governo dos EUA. Mas se a gente for olhar a cobertura da Al Jazeera &eacute; quase como se fosse de um governo inimigo do governo dos Estados Unidos, porque ela &eacute; muito cr&iacute;tica.<\/p>\n<p>A quest&atilde;o econ&ocirc;mica e militar geralmente prevalece sobre a quest&atilde;o jornal&iacute;stica, ou seja, no caso da Venezuela eles metem o pau mas n&atilde;o param de vender petr&oacute;leo para os EUA.<\/p>\n<p>Mas isso tamb&eacute;m nos d&aacute; uma boa medida para a gente fazer uma avalia&ccedil;&atilde;o sobre se h&aacute; inger&ecirc;ncia. A quest&atilde;o da liberdade jornal&iacute;stica atrai muito os jornalistas que v&atilde;o trabalhar l&aacute;, e no English Channel a imensa maioria dos que trabalham na sede de Doha j&aacute; passou por outros ve&iacute;culos, como CNN e BBC. Ent&atilde;o o fato de ser uma cadeia gigante, porque a Al Jazeera n&atilde;o &eacute; s&oacute; o jornalismo, o fato dela ser totalmente financiada pelo governo do Qatar n&atilde;o impede, n&atilde;o sei se contraditoriamente, que esses jornalistas trabalhem com mais liberdade do que a que eles t&ecirc;m dada pelo mercado.<\/p>\n<p><strong>E qual a abrang&ecirc;ncia da Al Jazeera?<\/strong><\/p>\n<p>Os n&uacute;meros oficiais s&atilde;o de 220 milh&otilde;es de casas recebendo o sinal da emissora em mais de 100 pa&iacute;ses. A rede Al Jazeera tem 3 mil funcion&aacute;rios, dos quais 400 jornalistas, nesses 65 pa&iacute;ses. A maior parte desses escrit&oacute;rios est&aacute; no hemisf&eacute;rio sul. Eles t&ecirc;m uma op&ccedil;&atilde;o de cobrir mais o sul mas cobrem muito bem o norte, tanto que geram conte&uacute;do a partir de Washington e Londres. Esses funcion&aacute;rios fazem parte de uma rede que n&atilde;o atende somente ao English Channel ou ao canal &aacute;rabe. Um passa o campeonato espanhol de futebol, o outro o brasileiro, outro ingl&ecirc;s&hellip; Eu assisti jogo do Palmeiras l&aacute;. Os canais de esportes s&atilde;o promotores de eventos. Antes dos jogos da Copa da &Aacute;sia, que aconteceu em Doha,&nbsp;&nbsp; havia shows de cantores &aacute;rabes com banners da Al Jazeera no palco e gente distribuindo brinde da emissora pro povo. Ent&atilde;o se voc&ecirc; pensar em termos de marketing de televis&atilde;o, a Al Jazeera &eacute; muito mais poderosa do que a nossa Globo aqui, por exemplo.<\/p>\n<p><strong>Tem muita gente do ocidente na produ&ccedil;&atilde;o da Al Jazeera, ent&atilde;o o oriente acaba sendo visto pelo ponto de vista ocidental. N&atilde;o rola uma disputa de linguagem?<\/strong><\/p>\n<p>O English Channel n&atilde;o se apresenta como um canal oriental, ele n&atilde;o afirma isso na sua linguagem. Eles se reivindicam uma emissora internacional de jornalismo. Eles falam que t&ecirc;m a maior expertise para cobrir a diversidade do mundo, &eacute; por isso que eles t&ecirc;m muitos correspondentes na &Aacute;sia, &Aacute;frica e no mundo &Aacute;rabe como um todo. Mas eles trabalham com jornalistas locais. Em Washington rep&oacute;rteres americanos que trabalham na Al Jazeera, que est&atilde;o l&aacute; para ouvir a posi&ccedil;&atilde;o dos Estados Unidos.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span class=\"padrao\"><strong>Voc&ecirc; teve contato com os jornalistas ou pessoas l&aacute;, a ponto de sentir como eles percebem a apresenta&ccedil;&atilde;o do Oriente pela m&iacute;dia internacional?<\/strong><\/p>\n<p>Eu trabalhei diretamente com uma sulafricana e outra inglesa que tinha trabalhado na BBC, e muita gente de origem e fam&iacute;lia &aacute;rabe. Mesmo que as pessoas sejam de outros pa&iacute;ses, se voc&ecirc; tem algum tipo de v&iacute;nculo com o mundo &aacute;rabe isso te favorece de alguma forma no processo de sele&ccedil;&atilde;o para trabalhar l&aacute;. O que eu senti &eacute; que eles t&ecirc;m um conhecimento muito maior que o das outras emissoras internacionais para falar da realidade do Oriente. E o que eles buscam fazer &eacute; justamente ouvir a popula&ccedil;&atilde;o. &Eacute; uma rede internacional mas com um olhar local, feita a partir do locus original.<\/p>\n<p><strong>Ent&atilde;o tem muitos estrangeiros na reda&ccedil;&atilde;o?<\/strong><\/p>\n<p>No canal &aacute;rabe s&atilde;o todos &aacute;rabes, de v&aacute;rios pa&iacute;ses da regi&atilde;o. Mas como eu n&atilde;o fiquei na reda&ccedil;&atilde;o, n&atilde;o sei dizer se a maioria era de qataris. J&aacute; entre os jornalistas a maioria era de estrangeiros. As pessoas do pa&iacute;s eram assim mais a secret&aacute;ria, os funcion&aacute;rios. Tinha um jornalista de origem &aacute;rabe que veio do Canad&aacute;, tinha gente da Palestina, do Iraque, gente muito boa. Conheci um cameraman que cobriu a gerra do Iraque. Ele at&eacute; virou blogueiro, esteve na batalha de Falluja, em 2003, um dos massacres da Guerra do Iraque. A cidade ficou cercada e s&oacute; tinha dois c&acirc;meras l&aacute; dentro, e ele foi um deles.<\/p>\n<p><strong>A Al Jazeera &eacute; s&oacute; TV?<\/strong><\/p>\n<p>N&atilde;o. A rede tem um site com produ&ccedil;&atilde;o pr&oacute;pria, com v&aacute;rias mat&eacute;rias e uma se&ccedil;&atilde;o de an&aacute;lise com uma equipe pr&oacute;pria. N&atilde;o h&aacute; ve&iacute;culos impressos na Rede. Em rela&ccedil;&atilde;o ao r&aacute;dio, n&atilde;o ouvi falar, mas como a rede &eacute; de &ldquo;broadcast&rdquo; (radiodifus&atilde;o), &eacute; poss&iacute;vel que tenham alguma emissora. Na internet voc&ecirc; pode assistir ao vivo a programa&ccedil;&atilde;o do English Channel e do canal &aacute;rabe. Eu perguntei por que o canal internacional n&atilde;o passava no Brasil, e eles responderam: &eacute; uma boa pergunta! Deu a entender que existe uma dificuldade em fun&ccedil;&atilde;o da concentra&ccedil;&atilde;o das empresas que controlam a TV por assinatura no Brasil, mas ningu&eacute;m me falou isso oficialmente. Mas a Al Jazeera faz uma campanha para ampliar seu alcance no mundo. H&aacute; uma campanha no site deles para voc&ecirc;, se for cidad&atilde;o americano, pedir a transmiss&atilde;o da Al Jazeera nos Estados Unidos, porque ela n&atilde;o passa em algumas cidades. Na Am&eacute;rica Latina s&oacute; tem na Argentina.<\/p>\n<p><strong>Voc&ecirc; falou que o povo gosta muito da Al Jazeera, o povo tem voz na emissora?<\/strong><\/p>\n<p>N&atilde;o tem mecanismos diretos de participa&ccedil;&atilde;o popular, mas conversando com os jornalistas, eles contam que, em campo, sentem uma receptividade muito grande. Uma jornalista brasileira esteve na Jord&acirc;nia, num F&oacute;rum de comunica&ccedil;&atilde;o, e contou que todos os jornalistas que estavam l&aacute; falavam diziam que o povo &aacute;rabe gosta muito da Al Jazeera, porque ela fala a verdade sobre os governos que as respectivas emissoras estatais n&atilde;o deixam vir &agrave; tona. Ela compra esse tipo de enfrentamento.<\/p>\n<p>Quando eu estava l&aacute;, a Al Jazeera divulgou uma s&eacute;rie de documentos que revelavam segredos da negocia&ccedil;&atilde;o da Autoridade Palestina com o governo de Israel. O caso foi chamado de &ldquo;Palestina Papers&rdquo;, um vazamento de documentos que mostravam que a Autoridade Palestina estava entregando o jogo para o governo de Israel. E a Al Jazeera tem um posicionamento institucional em defesa da causa palestina, eles cobrem sistematicamente, mostram todos os massacres feitos por Israel.<\/p>\n<p><strong>Qual &eacute; a desse governo do Qatar? Que pa&iacute;s &eacute; esse politicamente falando?<\/strong><\/p>\n<p>O emir que dirige o Qatar &eacute; filho do emir anterior. L&aacute; &eacute; uma monarquia, o pa&iacute;s &eacute; um emirado. &Eacute; um Estado isl&acirc;mico, que tem na sua constitui&ccedil;&atilde;o a religi&atilde;o. E n&atilde;o h&aacute; um questionamento da monarquia, j&aacute; &eacute; fato que vai haver um herdeiro, tudo &eacute; a fam&iacute;lia real que decide. N&atilde;o h&aacute; congresso, n&atilde;o h&aacute; representantes eleitos pelo povo, e o filho mais velho do emir vai ser o pr&oacute;ximo emir. Tanto que nos grandes eventos, como quando o Qatar ganhou a Copa, a cidade ficou enfeitada de fotos do emir com o filho dele carregando a ta&ccedil;a.<\/p>\n<p>O emir tem mais de 20 filhos com tr&ecirc;s esposas, cada um deles &eacute; ministro de alguma coisa. Por que o pai desse emir saiu antes de morrer? Porque come&ccedil;ou a haver um tipo de enfrentamento mais duro aos Estados Unidos pelo Qatar nos anos 90, de questionar posturas e falar publicamente contra, e havia suspeitas de corrup&ccedil;&atilde;o e de desvio de recursos para fora do governo. Essas duas coisas se somaram e os Estados Unidos mandaram um recado: &ldquo;voc&ecirc; sai do governo ou a gente n&atilde;o vai mais considerar o Qatar um pa&iacute;s parceiro&rdquo;. E o atual emir se aliou com os Estados Unidos para derrubar o pr&oacute;prio pai em 1995. Ent&atilde;o o atual chefe de Estado chega ao poder com um apoio consider&aacute;vel dos EUA, que, em fun&ccedil;&atilde;o do recrudescimento da posi&ccedil;&atilde;o dos Estados Unidos no Golfo P&eacute;rsico, vai diminuindo. Depois de 1995 houve a guerra do Kwait, do Iraque, a quest&atilde;o de Israel e Palestina se intensificou, ent&atilde;o houve uma diminui&ccedil;&atilde;o dessa parceria. Ainda mais agora com esses conflitos todos.<\/p>\n<p>Por outro lado o Qatar tem seus interesses tamb&eacute;m, a ponto de fazer uma alian&ccedil;a com a Otan para tirar o Kadaf da L&iacute;bia, por exemplo. Ent&atilde;o se voc&ecirc; me perguntar se &eacute; um governo progressista, n&atilde;o &eacute;, mas&nbsp; &eacute; um governo mais progressista que a sociedade. Tem v&aacute;rias quest&otilde;es de cultura isl&acirc;mica muito arraigadas na sociedade que o governo tenta mudar e encontra uma resist&ecirc;ncia muito grande. A sociedade &eacute; mais conservadora que o governo. O maior problema do Qatar na minha avalia&ccedil;&atilde;o, &eacute; a quest&atilde;o dos trabalhadores migrantes. Como o pa&iacute;s n&atilde;o tem m&atilde;o de obra e est&aacute; crescendo, &eacute; o segundo maior exportador de g&aacute;s do mundo, com a constru&ccedil;&atilde;o civil bombando, e os qataris se recusam a fazer o trabalho bra&ccedil;al, eles chamam gente de fora. N&atilde;o tem trabalhador clandestino. Entra todo mundo com visto de trabalho, com moradia, com contrato definido, s&oacute; que h&aacute; uma explora&ccedil;&atilde;o brutal desses trabalhadores. S&atilde;o pessoas de v&aacute;rias partes, mas a maioria de pa&iacute;ses &aacute;rabes e do sudeste asi&aacute;tico.<\/p>\n<p><strong>Mas por outro lado o pa&iacute;s n&atilde;o tem mis&eacute;ria?<\/strong><\/p>\n<p>N&atilde;o tem mis&eacute;ria, n&atilde;o tem ningu&eacute;m morando na rua, sem trabalho ou passando fome. Inclusive eles t&ecirc;m moradia, alimenta&ccedil;&atilde;o e transporte pagos pelas empresas, eles t&ecirc;m essas garantias. S&oacute; que &eacute; um trabalho quase escravo, porque se eles quiserem ir embora antes do contrato final de trabalho, por exemplo, a empresa ret&eacute;m o passaporte dos trabalhadores. O governo come&ccedil;ou a consultar a popula&ccedil;&atilde;o, abrir di&aacute;logos p&uacute;blicos, sobre a flexibiliza&ccedil;&atilde;o da chamada &ldquo;lei de patroc&iacute;nio&rdquo; a ida dessas pessoas para o pa&iacute;s, e 80% da popula&ccedil;&atilde;o qatari &eacute; contra mudar a lei. Porque, afinal, eles v&atilde;o perder os seus escravos particulares.<\/p>\n<p><strong>O que voc&ecirc;, como militante pela democratiza&ccedil;&atilde;o da comuni&ccedil;&atilde;o, acha disso e o que podemos fazer aqui no Brasil?<\/strong><\/p>\n<p>O modelo da Al Jazeera &eacute; muito diferente. Ela nasce como uma empresa estatal e o fato de voc&ecirc; ter o governo do Qatar botando dinheiro nisso para levar seu sinal para o mundo inteiro, inclusive com essa campanha de pedir para a Al Jazeera passar nos Estados Unidos, &eacute; algo muito diferente do que temos aqui. Por mais que a Telesur, por exemplo, tenha buscado a parceria dos outros governos para fazer esse tipo de enfrentamento ela n&atilde;o encontrou respostas no Brasil. A gente ainda est&aacute; engatinhando em rela&ccedil;&atilde;o a isso, estamos lutando para conseguir ter uma televis&atilde;o p&uacute;blica nacional de fato. Uma TV com participa&ccedil;&atilde;o popular e que reflita os anseios da popula&ccedil;&atilde;o brasileira em termos do seu exerc&iacute;cio do direito &agrave; comunica&ccedil;&atilde;o. A Al Jazeera vai ser sempre uma inspira&ccedil;&atilde;o para a gente, n&atilde;o para copiar um modelo, porque isso nunca vai acontecer aqui, de o Estado brasileiro colocar recursos desta ordem numa emissora, nem acho que esse deveria ser o caminho, mas uma inspira&ccedil;&atilde;o pelo seu jornalismo.<\/p>\n<p>Eu acho que assistir ao jornalismo que a Al Jazeera faz nessas 24 horas por dia &eacute; um tapa na cara, de qu&atilde;o distante de um jornalismo independente e cr&iacute;tico a gente est&aacute;. E acho que &eacute; para a gente assistir e ver como &eacute; poss&iacute;vel fazer um jornalismo diferente. Um jornalismo cr&iacute;tico e que provoque o telespectador a pensar, e isso inspira a gente a seguir lutando por transforma&ccedil;&otilde;es no Brasil.<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A Al Jazeera, emissora mantida pelo governo do Qatar, est&aacute; mostrando para o mundo como fazer jornalismo de interesse p&uacute;blico<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[43],"tags":[1536,1537],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/25710"}],"collection":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=25710"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/25710\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=25710"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=25710"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=25710"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}