{"id":25566,"date":"2011-05-06T12:29:17","date_gmt":"2011-05-06T12:29:17","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=25566"},"modified":"2011-05-06T12:29:17","modified_gmt":"2011-05-06T12:29:17","slug":"o-avesso-e-a-alma-do-negocio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=25566","title":{"rendered":"O avesso \u00e9 a alma do neg\u00f3cio"},"content":{"rendered":"<p class=\"padrao\">J&aacute; presencie a proposi&ccedil;&atilde;o do fim da publicidade em alguns dos muitos debates sobre comunica&ccedil;&atilde;o dos quais participei. Apesar de entender as motiva&ccedil;&otilde;es, sempre achei a proposta exagerada. Tamb&eacute;m j&aacute; ouvi afirma&ccedil;&otilde;es de que com o fim do capitalismo a exist&ecirc;ncia da publicidade simplesmente perderia o sentido. Mesmo sendo socialista, n&atilde;o acho que a publicidade tenha que acabar e muito menos considero que ela sumir&aacute; com o fim do capitalismo. Mesmo com o fim da venda de mercadorias para a obten&ccedil;&atilde;o de lucro, campanhas de vacina&ccedil;&atilde;o e de preven&ccedil;&atilde;o de epidemias continuar&atilde;o sendo necess&aacute;rias em meios de comunica&ccedil;&atilde;o de massa.<\/p>\n<p>Proibir toda e qualquer publicidade n&atilde;o me parece razo&aacute;vel, mas podemos fazer como muitos pa&iacute;ses civilizados que regularam e regulamentaram a veicula&ccedil;&atilde;o de publicidade nos meios de comunica&ccedil;&atilde;o de massa. Proibir a publicidade feita com e para crian&ccedil;as, por exemplo, &eacute; algo totalmente fact&iacute;vel e razo&aacute;vel e por isso &eacute; praticado em v&aacute;rios pa&iacute;ses tidos como exemplos de desenvolvimento cultural. Entretanto no Brasil os grandes meios chamam isso de atentado a liberdade de express&atilde;o quando na verdade n&atilde;o querem dizer atentado a liberdade de explora&ccedil;&atilde;o. A lei atualmente permite que os canais de TV tenham no m&aacute;ximo 25% de publicidade em sua programa&ccedil;&atilde;o, entretanto n&atilde;o h&aacute; nada que regulamente o que &eacute; publicidade e o que &eacute; conte&uacute;do n&atilde;o publicit&aacute;rio. Isso faz com que as insuport&aacute;veis merchandisings se proliferem diante de nossos olhos tornando tudo o que se v&ecirc; e escuta em um cat&aacute;logo de super-mercado. N&atilde;o definir o que &eacute; publicidade cria aberra&ccedil;&otilde;es como os canais com 24 horas ininterruptas de tele vendas e mais nada.<\/p>\n<p>Comunica&ccedil;&atilde;o &eacute; persuas&atilde;o, todo ato de comunicar tenta necessariamente convencer algu&eacute;m de algo, independentemente das rela&ccedil;&otilde;es entre capital e trabalho, e a publicidade nada mais &eacute; do que um &oacute;timo instrumento para falar da forma mais eficiente poss&iacute;vel pra muitos e em pouco tempo ou em pouco espa&ccedil;o. Cuba que o diga: &quot;Uma revolu&ccedil;&atilde;o &eacute; uma for&ccedil;a mais poderosa que a natureza&quot; diz a frase de Fidel na fachada do centro de meteorologia na ilha socialista que tem de enfrentar todos os anos fortes furac&otilde;es.&nbsp; Marketing do bom.<\/p>\n<p>O problema &eacute; que muitos anos ininterruptos perseguindo o &uacute;nico objetivo de se vender mercadorias fez da publicidade um instrumento que reduz o cidad&atilde;o a condi&ccedil;&atilde;o de consumidor. N&atilde;o por acaso, chamamos a publicidade na TV de &quot;intervalo comercial&quot; ou de &ldquo;comercial&rdquo;. Esses comerciais muitas vezes criam necessidades que n&atilde;o existiam antes da veicula&ccedil;&atilde;o da propaganda e agregam caracter&iacute;sticas fantasiosas aos produtos os transformado em fetiches. Desta forma, bilh&otilde;es s&atilde;o gastos para convencer voc&ecirc; de que um sabonete &eacute; muito melhor que o outro por mais que todos os tipos sejam 98% feitos de banha. Qual das infind&aacute;veis estruturas de cabelo recriadas em 3D nas propagandas de condicionador &eacute; a verdadeira? Essas propagandas ainda nem s&atilde;o das piores, as que realmente me estarrecem s&atilde;o as que trabalham a alma do neg&oacute;cio capitalista tendo como miss&atilde;o vender a ideia de que o produto &eacute; exatamente o seu avesso. <\/p>\n<p>A propaganda do oposto &eacute; uma categoria da publicidade que figura entre as mais poderosas formas de persuas&atilde;o e por isso n&atilde;o s&atilde;o poupados recursos financeiros para a sua realiza&ccedil;&atilde;o. N&atilde;o por acaso tamb&eacute;m s&atilde;o as mais usadas em campanhas eleitorais. A propaganda do avesso tem que reverter por si s&oacute; e em poucos segundos a imagem que far&iacute;amos de um produto ou de um candidato se o analis&aacute;ssemos com o m&iacute;nimo de racioc&iacute;nio e calma. Por isso esse tipo de propaganda usa uma linguagem r&aacute;pida e emotiva para enfrentar os efeitos de uma an&aacute;lise racional mais aprofundada e cuidadosa. Na luta pela conquista de cora&ccedil;&otilde;es e mentes a vit&oacute;ria sobre o cora&ccedil;&atilde;o pode ser o suficiente.<\/p>\n<p>No Brasil temos exemplos formid&aacute;veis dessa categoria no hor&aacute;rio nobre da TV. Quem em s&atilde; consci&ecirc;ncia acha de fato que ao se tornar cliente de um banco privado vai ajudar a criar um mundo melhor? Certamente John Lennon se revirou no t&uacute;mulo ao ouvir sua m&uacute;sica Imagine na propaganda do Banco Ita&uacute;. Com ela o banco tenta demonstrar que est&aacute; em harmonia total com seus funcion&aacute;rios (os quais na realidade fazem greves constantemente) e que voc&ecirc; pode confiar o seu dinheiro aos acionistas da empresa para criar um mundo melhor. Ora, s&atilde;o justamente os bancos que financiam campanhas eleitorais milion&aacute;rias para poder cobrar que os candidatos eleitos continuem negando recursos para a sa&uacute;de e para a educa&ccedil;&atilde;o a fim de garantir seu lucro privado pelo pagamento dos juros da d&iacute;vida p&uacute;blica. O banco sabe que as pessoas sabem que ele n&atilde;o quer um mundo melhor que signifique a redu&ccedil;&atilde;o do seu lucro e por isso faz uma propaganda dizendo justamente o contr&aacute;rio: &ldquo;Antes dos meus interesses privados vem o interesse p&uacute;blico, vem o interesse comum&rdquo;.<\/p>\n<p>Pelo mesmo motivo a maior mineradora estatal brasileira, imediatamente depois de ter se desnacionalizado ao se transformar em uma multinacional privada, adotou como slogan: &ldquo;Vale: uma empresa cada vez mais verde e amarela&rdquo;. &Eacute; verdade que para vender a publicidade se vale de sonhos e n&atilde;o da realidade, mas quando o sonho &eacute; justamente o contr&aacute;rio do que acontecer&aacute; com a aquisi&ccedil;&atilde;o do produto isso &eacute; no m&iacute;nimo propaganda enganosa. Ou seja, quando voc&ecirc; assistir uma propaganda de carro dizendo patrioticamente que agora ele &eacute; feito no Brasil entenda que agora as remessas de lucro que chegam &agrave; matriz da multinacional tamb&eacute;m partem do Brasil. Se n&atilde;o fosse para consolidar uma imagem vend&aacute;vel que &eacute; o avesso da realidade, por que raz&atilde;o gastariam tanto dinheiro pra nos convencer de que um veneno que mata barata, um dos bichos mais resistentes do mundo, n&atilde;o faz mal para o bebezinho que engatinha pelo ch&atilde;o colocando tudo que v&ecirc; na boca?&nbsp; Ou por que n&atilde;o contratam atores e atrizes com barriga de cerveja para fazer propaganda de cerveja?<\/p>\n<p>O avesso &eacute; a alma do neg&oacute;cio capitalista. A propaganda &eacute; apenas publicidade.<\/p>\n<p><em><strong>Pedro Ekman<\/strong> &eacute; militante do Intervozes.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Comunica&ccedil;&atilde;o &eacute; persuas&atilde;o, independentemente das rela&ccedil;&otilde;es entre capital e  trabalho, e a publicidade nada mais &eacute; do que um &oacute;timo instrumento para  falar para muitos em pouco tempo ou em  pouco espa&ccedil;o<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[42],"tags":[363],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/25566"}],"collection":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=25566"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/25566\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=25566"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=25566"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=25566"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}