{"id":25497,"date":"2011-04-07T18:24:21","date_gmt":"2011-04-07T18:24:21","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=25497"},"modified":"2011-04-07T18:24:21","modified_gmt":"2011-04-07T18:24:21","slug":"minc-e-a-reforma-da-lda-todos-estao-convidados","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=25497","title":{"rendered":"MinC e a reforma da LDA: todos est\u00e3o convidados?"},"content":{"rendered":"<p class=\"padrao\">O recente est&aacute;gio da discuss&atilde;o sobre a reforma da Lei de Direito Autoral (Lei 9.610\/98), encabe&ccedil;ada pelo MinC (Minist&eacute;rio da Cultura), suscita alguns questionamentos, qui&ccedil;&aacute; preocupa&ccedil;&otilde;es. Dentre os principais: quem de fato o Minist&eacute;rio da Cultura quer envolver nesse debate? Seu objetivo &eacute; ampliar ou reduzir o di&aacute;logo? Prop&otilde;e, o MinC, o movimento de expans&atilde;o da discuss&atilde;o a outros segmentos, igualmente atingidos pela legisla&ccedil;&atilde;o autoral, ou vai restringi-la apenas aos &ldquo;criadores&rdquo; e seus &ldquo;representantes&rdquo;?<\/p>\n<p>A d&uacute;vida &eacute; pertinente, pois se passaram mais de seis anos de constru&ccedil;&atilde;o coletiva do projeto de reforma da LDA, de debate p&uacute;blico efetivo acerca dos principais pontos e temas que deveriam ser nela abarcados. Constru&ccedil;&atilde;o coletiva por incluir v&aacute;rios segmentos historicamente negligenciados nesse processo, como o movimento de professores e estudantes, as organiza&ccedil;&otilde;es da sociedade civil ligadas &agrave; educa&ccedil;&atilde;o e &agrave; democratiza&ccedil;&atilde;o da comunica&ccedil;&atilde;o, os coletivos de cultura digital, as entidades de defesa do consumidor e os indiv&iacute;duos em geral, incentivados a participar, independentemente de qualquer requisito de institucionalidade. Isso tudo somado obviamente ao setor art&iacute;stico, criativo, autoral e da ind&uacute;stria cultural. Todos esses setores encorajados a participar pelo pr&oacute;prio Minist&eacute;rio da Cultura. Todos esses atores legitimados para opinar e devidamente ouvidos pelo governo.<\/p>\n<p>Ora, se a legisla&ccedil;&atilde;o autoral &eacute; fator preponderante para a concretiza&ccedil;&atilde;o de diversos outros direitos do cidad&atilde;o, como o acesso ao conhecimento, &agrave; informa&ccedil;&atilde;o e aos servi&ccedil;os e produtos culturais, constata-se: natural que esse debate seja o mais ampliado poss&iacute;vel. Essencial a inser&ccedil;&atilde;o de campos os mais diversos na elabora&ccedil;&atilde;o de uma nova lei. Importante que isso seja uma pol&iacute;tica de governo, fomentada pelo discurso dos governantes e por a&ccedil;&otilde;es pr&aacute;ticas, como a consulta p&uacute;blica, a qualifica&ccedil;&atilde;o do debate, com a realiza&ccedil;&atilde;o de semin&aacute;rios e encontros com interfaces diferentes, e a manuten&ccedil;&atilde;o de compromissos p&uacute;blicos assumidos.<\/p>\n<p>Ocorre que, hoje, vislumbra-se o movimento contr&aacute;rio por parte do Minist&eacute;rio da Cultura. Desde o in&iacute;cio do ano, a toada &eacute; de brecar o andamento do projeto de reforma da LDA, constru&iacute;do de forma democr&aacute;tica e transparente, com o pretexto de ouvir os artistas, os criadores, como se simplesmente eles n&atilde;o tivessem participado anteriormente desse processo.<\/p>\n<p>Com essa postura, o MinC simplesmente desconsidera que grande parte desse trabalho teve a imprescind&iacute;vel contribui&ccedil;&atilde;o da sociedade civil, da cultura e outros campos. &ldquo;Reabre&rdquo; a discuss&atilde;o, por&eacute;m, deixando muito claro que voz ter&aacute; mais peso a partir de agora. As aspas, logo atr&aacute;s, evidenciam isso: o anteprojeto da reforma foi (re)colocado no site do MinC, para essa nova &ldquo;audi&ccedil;&atilde;o&rdquo; dos artistas, mas o relat&oacute;rio com todas as contribui&ccedil;&otilde;es da popula&ccedil;&atilde;o, assimiladas ou rejeitadas no texto, at&eacute; agora n&atilde;o foi disponibilizado.<\/p>\n<p>Esse rein&iacute;cio de debate j&aacute; se d&aacute;, portanto, com falta de clareza, especialmente no que tange aos seus objetivos. A ideia de construir um projeto de revis&atilde;o da lei autoral que a torne compat&iacute;vel com outros diplomas legais e outros direitos de cidadania ser&aacute; mantida? Por exemplo, na rela&ccedil;&atilde;o com a defesa do consumidor. A LDA atual permite v&aacute;rios abusos aos direitos dos consumidores, como a possibilidade de inser&ccedil;&atilde;o de restri&ccedil;&otilde;es tecnol&oacute;gicas nos produtos culturais, como CDs e DVDs, que impedem a livre e integral frui&ccedil;&atilde;o do bem, j&aacute; adquirido, sem qualquer finalidade de lucro; impede a interoperabilidade, de maneira que o consumidor pratica um ato il&iacute;cito quando passa uma m&uacute;sica de seu computador pro tocador port&aacute;til; e impede a c&oacute;pia privada, por exemplo, de um livro, para uso dom&eacute;stico e para fins de estudo.<\/p>\n<p>Fala-se muito, hoje em dia, em economia da cultura. Nesse terreno, d&aacute;-se uma interconex&atilde;o muito clara entre a legisla&ccedil;&atilde;o autoral e o C&oacute;digo de Defesa do Consumidor (Lei 8.078\/90). Se &eacute; poss&iacute;vel falar em cadeias de produ&ccedil;&atilde;o e consumo culturais consolidados; ciclos diferenciados de cria&ccedil;&atilde;o, distribui&ccedil;&atilde;o, circula&ccedil;&atilde;o, difus&atilde;o e frui&ccedil;&atilde;o dos bens culturais; arranjos produtivos locais; sistemas e redes de trocas criativas; e novos modelos de comercializa&ccedil;&atilde;o digital. Se existe essa din&acirc;mica, e se ela &eacute; central para o desenvolvimento do pa&iacute;s, a ponto inclusive de e a rec&eacute;m-criada Secretaria de Economia da Cultura no MinC, essa din&acirc;mica possui fornecedores de produtos e servi&ccedil;os culturais e os seus destinat&aacute;rios: os consumidores da cultura. A parte hipossuficiente, por ess&ecirc;ncia, da rela&ccedil;&atilde;o, a ser protegida em todas as legisla&ccedil;&otilde;es que lidam com rela&ccedil;&otilde;es de consumo, como &eacute; o caso.<\/p>\n<p>Para que essa din&acirc;mica seja saud&aacute;vel e equilibrada, h&aacute; que se compatibilizar LDA e CDC.&nbsp; E, mais que isso, &eacute; imprescind&iacute;vel a presen&ccedil;a do Estado, como garantem os artigos 5&ordm;, XXXIII, e 170, V, da Constitui&ccedil;&atilde;o. Para a defesa do consumidor no mercado de consumo cultural, para impedir abusos, garantir a transpar&ecirc;ncia e evitar pr&aacute;ticas anticoncorrenciais, garantindo a liberdade de escolha, o CDC exige a supervis&atilde;o do Estado, corroborando a Constitui&ccedil;&atilde;o. A Lei de Direito Autoral, n&atilde;o. Inexiste nela esse di&aacute;logo com outros diplomas legais, o que coloca a LDA num patamar quase de direito absoluto &ndash; car&aacute;ter, inclusive, defendido pelas associa&ccedil;&otilde;es coletoras de direitos autorais, cuja atividade que n&atilde;o sofre qualquer tipo de controle social.<\/p>\n<p>O exemplo do consumidor evidencia o alcance da LDA em outros campos. Outros poderiam ser citados: a necessidade de permiss&atilde;o da digitaliza&ccedil;&atilde;o plena de acervos, para a educa&ccedil;&atilde;o e o patrim&ocirc;nio hist&oacute;rico; a pr&oacute;pria c&oacute;pia educacional, o xeroxn&atilde;o comercial, para universit&aacute;rios; uma licen&ccedil;a especial de execu&ccedil;&atilde;o de m&uacute;sicas para r&aacute;dios comunit&aacute;rias, na &aacute;rea da comunica&ccedil;&atilde;o; ou a previs&atilde;o de produ&ccedil;&atilde;o de obras com acessibilidade especial para pessoas com defici&ecirc;ncia.<\/p>\n<p>Tais demandas foram debatidas durante muitos anos e s&oacute; puderam ser incorporadas ao projeto de reforma da LDA pelo espa&ccedil;o aberto e pela disposi&ccedil;&atilde;o do governo ao di&aacute;logo amplo, para al&eacute;m da &ldquo;exclusiva&rdquo; aten&ccedil;&atilde;o ao segmento art&iacute;stico. O projeto, contudo, est&aacute; por hora encostado. A freada foi comemorada pelas associa&ccedil;&otilde;es coletoras de direitos autorais mundo afora, da qual fazem parte o Escrit&oacute;rio Central de Arrecada&ccedil;&atilde;o de Direitos Autorais (Ecad) e afins. E a Ministra tem recebido cumprimentos especiais da ind&uacute;stria fonogr&aacute;fica e do Minist&eacute;rio de Com&eacute;rcio Exterior dos Estados Unidos. Por aqui, n&atilde;o existem motivos pra comemorar.<\/p>\n<p>Aos consumidores, pessoas com defici&ecirc;ncia, estudantes, professores, bibliotec&aacute;rios, militantes da liberdade de express&atilde;o, artistas e autores, ficam as d&uacute;vidas: haver&aacute; a oportunidade de di&aacute;logo franco entre todas as &aacute;reas afetas aos direitos autorais? O novo projeto equilibrar&aacute; legisla&ccedil;&otilde;es e interesses diversos? A reabertura do processo de revis&atilde;o &eacute; real, pra faz&ecirc;-lo andar? Ou trata-se de um processo protocolar, de cunho protelat&oacute;rio? Est&atilde;o todos novamente convidados a participar ou apenas alguns s&atilde;o os leg&iacute;timos participantes do processo? Em suma, para todos aqueles que participaram efetivamente, durante esses anos, da constru&ccedil;&atilde;o colaborativa de uma nova e mais justa LDA, fica a interroga&ccedil;&atilde;o: que fim dar&aacute; a reforma?<\/p>\n<p class=\"padrao\"><em><strong>Guilherme Varella<\/strong> &eacute; advogado do Idec <\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Todos os segmentos  atingidos pela legisla&ccedil;&atilde;o autoral deve participar do debate e n&atilde;o apenas os  &ldquo;criadores&rdquo; e seus &ldquo;representantes&rdquo;.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[42],"tags":[1515],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/25497"}],"collection":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=25497"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/25497\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=25497"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=25497"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=25497"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}