{"id":25486,"date":"2011-04-05T15:28:10","date_gmt":"2011-04-05T15:28:10","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=25486"},"modified":"2011-04-05T15:28:10","modified_gmt":"2011-04-05T15:28:10","slug":"da-tv-educativa-a-tv-publica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=25486","title":{"rendered":"Da TV educativa \u00e0 TV p\u00fablica"},"content":{"rendered":"<p><span class=\"padrao\">Por meio da Portaria No 70, de 29 de mar&ccedil;o de 2011, o Minist&eacute;rio das Comunica&ccedil;&otilde;es colocou em consulta p&uacute;blica uma proposta de ato normativo que estabelece novos crit&eacute;rios para a concess&atilde;o de outorgas para a presta&ccedil;&atilde;o de servi&ccedil;os de televis&atilde;o educativa.<\/p>\n<p>O ato pretende instituir nas educativas um processo seletivo que j&aacute; &eacute; praticado no caso das emissoras comunit&aacute;rias. O Minicom soltaria um aviso de habilita&ccedil;&atilde;o em locais com canais dispon&iacute;veis e receberia as propostas dos interessados em prestar o servi&ccedil;o. Em 60 dias, a proposta deve ser apresentada, acompanhada de uma lista de documentos fixada no anexo da portaria.<\/p>\n<p>O ato refor&ccedil;a a prefer&ecirc;ncia a entes de direito p&uacute;blico interno prevista no artigo 34 da Lei 4.117 (o C&oacute;digo Brasileiro de Telecomunica&ccedil;&otilde;es), o que na pr&aacute;tica d&aacute; vantagem &agrave;s universidades. Embora isso j&aacute; existisse, tal dispositivo precisa ser cumprido na pr&aacute;tica, pois h&aacute; casos como na cidade de Goi&acirc;nia em que institui&ccedil;&otilde;es de ensino foram preteridas por funda&ccedil;&otilde;es ligadas &agrave; igrejas.<\/p>\n<p>O documento define os crit&eacute;rios de avalia&ccedil;&atilde;o dos candidatos. Dois dos mais importantes s&atilde;o a representatividade da institui&ccedil;&atilde;o de ensino &agrave; qual o proponente tem de estar vinculado e a participa&ccedil;&atilde;o de membros dessa institui&ccedil;&atilde;o na dire&ccedil;&atilde;o do ente concorrente. Concretamente, a nova regra obriga que os pleiteantes estejam associados a uma universidade &#8211; na forma de uma funda&ccedil;&atilde;o, por exemplo &#8211; , exig&ecirc;ncia que n&atilde;o existe hoje.<\/p>\n<p><strong>As outorgas educativas<\/strong><\/p>\n<p>O esfor&ccedil;o de racionalizar os procedimentos de an&aacute;lise das outorgas sinalizado pela nova gest&atilde;o do Minicom &eacute; louv&aacute;vel. Entidades da sociedade civil j&aacute; v&ecirc;m h&aacute; anos apontando o faroeste das concess&otilde;es de r&aacute;dio e TV e destacando a necessidade de garantir transpar&ecirc;ncia, democracia e agilidade ao processamento das autoriza&ccedil;&otilde;es. Mas, neste caso espec&iacute;fico, o Minicom peca por n&atilde;o ir fundo na solu&ccedil;&atilde;o necess&aacute;ria ao caso das educativas. Mas antes de maiores considera&ccedil;&otilde;es, vale recuperar o que s&atilde;o essas autoriza&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p>O servi&ccedil;o de televis&atilde;o com fins educativos foi criado no Decreto-Lei 236 de 1967. Ele aparece em um movimento de cria&ccedil;&atilde;o de emissoras que respondiam ao projeto dos militares de utilizar este meio como forma barata e segura de difus&atilde;o de conte&uacute;dos para uma popula&ccedil;&atilde;o com baixa instru&ccedil;&atilde;o e jogada como m&atilde;o-de-obra em um mercado em r&aacute;pida industrializa&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>O Artigo 13o, que trata da nova licen&ccedil;a, veda a publicidade, bem como qualquer tipo de patroc&iacute;nio, e define o escopo da programa&ccedil;&atilde;o: &ldquo;a televis&atilde;o educativa se destinar&aacute; &agrave; divulga&ccedil;&atilde;o de programas educacionais, mediante a transmiss&atilde;o de aulas, confer&ecirc;ncias, palestras e debates&rdquo;. Ou seja, essas emissoras tinham um limite muito claro como canais de transmiss&atilde;o de conte&uacute;dos que hoje conhecemos na forma de &ldquo;telecursos&rdquo; e outras formas de falas de personalidades ou discuss&otilde;es ancoradas.<\/p>\n<p>A primeira emissora educativa foi a TV Universit&aacute;ria de Pernambuco. Em seguida surgiram as educativas controladas pelos governos estaduais. J&aacute; o governo federal preferiu se reservar o papel de produtor, com a Funda&ccedil;&atilde;o Centro Brasileiro de Televis&atilde;o Educativa, que na d&eacute;cada de 1970 ganharia a responsabilidade pela gest&atilde;o da TVE.<\/p>\n<p>Inicialmente, a licen&ccedil;a educativa acabou atendendo &agrave; tentativa de constituir um meio massivo de qualifica&ccedil;&atilde;o profissional. Mas rapidamente passou a ser a forma pela qual se edificou o fr&aacute;gil &ldquo;sistema p&uacute;blico&rdquo; (de cunho claramente institucional governamental1) brasileiro. Mas isso n&atilde;o significa que a licen&ccedil;a s&oacute; possa ser obtida por entes de direito p&uacute;blico. Muito pelo contr&aacute;rio. E &eacute; a&iacute; que mora o v&iacute;cio de origem da TV Educativa.<\/p>\n<p>A licen&ccedil;a se estrutura a partir de uma finalidade (veicular conte&uacute;do educativo), e n&atilde;o de uma modalidade de radiodifus&atilde;o. Isso significa que ela pode ser dada a um ente privado, como acontece hoje com diversas funda&ccedil;&otilde;es vinculadas a igrejas que mant&eacute;m canais de TV em v&aacute;rios estados do pa&iacute;s. Com a Constitui&ccedil;&atilde;o Brasileira de 1988, essa contradi&ccedil;&atilde;o ficou mais evidente, uma vez que o Artigo 223 prev&ecirc; a complementaridade entre os sistemas p&uacute;blico, privado e estatal.<\/p>\n<p>Como esse cap&iacute;tulo nunca foi inteiramente regulamentado (&eacute; poss&iacute;vel falar em regulamenta&ccedil;&atilde;o parcial com a Lei 11.652, que criou a Empresa Brasil de Comunica&ccedil;&atilde;o), ficou a contradi&ccedil;&atilde;o de uma licen&ccedil;a baseada em uma finalidade e uma modalidade sem uma defini&ccedil;&atilde;o nem tipo de autoriza&ccedil;&atilde;o espec&iacute;fico. Soma-se a isso o fato da obriga&ccedil;&atilde;o de conte&uacute;dos educativos ter perdido validade na pr&aacute;tica. Desde praticamente o nascimento dessas emissoras elas veiculam outros tipos de programas e as sucessivas gest&otilde;es do Minist&eacute;rio das Comunica&ccedil;&otilde;es sempre permitiram essa pr&aacute;tica.<\/p>\n<p><strong>O problema &eacute; outro<\/strong><\/p>\n<p>Voltando &agrave; consulta do Minicom, a pondera&ccedil;&atilde;o central desse artigo &eacute;: que sentido faz racionalizar o procedimento de uma licen&ccedil;a inadequada tanto do ponto de vista da concep&ccedil;&atilde;o de uma arquitetura adequada do marco regulat&oacute;rio quanto da sua implementa&ccedil;&atilde;o pr&aacute;tica?<\/p>\n<p>Em vez disso, seria mais importante que o Minicom agilizasse a apresenta&ccedil;&atilde;o da proposta de reforma do marco regulat&oacute;rio e que, nela, mudasse as licen&ccedil;as de modo que elas reflitam as novas modalidades do sistema de m&iacute;dia, p&uacute;blico, privado e estatal.<\/p>\n<p>A autoriza&ccedil;&atilde;o para o sistema privado poderia ser obtida por empresas, mas tamb&eacute;m por entes privados sem fins lucrativos, como funda&ccedil;&otilde;es, associa&ccedil;&otilde;es, sindicatos etc&#8230;. a exemplo do que acontece na Argentina. Nos dois casos, deveriam ser respeitadas as regras de limita&ccedil;&atilde;o de propriedade (em especial que garantam o controle por brasileiros e a proibi&ccedil;&atilde;o de concentra&ccedil;&atilde;o em oligop&oacute;lios) e de obriga&ccedil;&otilde;es de conte&uacute;do, a partir da no&ccedil;&atilde;o de que esses entes prestam um servi&ccedil;o p&uacute;blico sob concess&atilde;o do Estado.<\/p>\n<p>A licen&ccedil;a para o sistema estatal seria dada para emissoras vinculadas a determinas institui&ccedil;&otilde;es dos poderes Executivo, Legislativo e Judici&aacute;rio, nas tr&ecirc;s esferas da Federa&ccedil;&atilde;o. Entrariam a&iacute; a NBR, a TV do Governo Federal, as TVs C&acirc;mara, Senado e Justi&ccedil;a, bem como os ve&iacute;culos de assembleias legislativas, c&acirc;maras de vereadores, prefeituras e afins.<\/p>\n<p>E a permiss&atilde;o para o Sistema P&uacute;blico seria concedida a entes estatais especificamente criados para esse fim que tivessem em sua estrutura inst&acirc;ncias controladas pela sociedade por meio de suas representa&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p>N&atilde;o queremos, com isso, desvalorizar os conte&uacute;dos educativos. Eles continuam importantes. E devem fazer parte das grades das emissoras, sejam elas p&uacute;blicas, estatais ou privadas. Mas conclu&iacute;mos reiterando que no cen&aacute;rio atual n&atilde;o contribui para uma arquitetura adequada do sistema de m&iacute;dia brasileiro a previs&atilde;o de emissoras voltadas exclusivamente a esse g&ecirc;nero informativo.<br \/><em><br \/>Para entender a concep&ccedil;&atilde;o de p&uacute;blico e estatal assumida neste artigo favor ver a disserta&ccedil;&atilde;o &ldquo;<a href=\"http:\/\/www.astralbrasil.org\/documentos\/ATVPublicanoBrasil.pdf\">TV P&uacute;blica no Brasil: o surgimento da TV Brasil e sua inser&ccedil;&atilde;o no modo de regula&ccedil;&atilde;o setorial da televis&atilde;o brasileira<\/a> &rdquo;, de nossa autoria.<\/p>\n<p><strong>Jonas Valente<\/strong> &eacute; integrante da Coordena&ccedil;&atilde;o Executiva do <\/em><\/span><span class=\"padrao\"><em>Intervozes &#8211; <\/em><\/span><span class=\"padrao\"><em>Coletivo Brasil de Comunica&ccedil;&atilde;o Social, secret&aacute;rio-geral do Sindicato dos Jornalistas do Distrito Federal e pesquisador do Laborat&oacute;rio de Pol&iacute;ticas e Comunica&ccedil;&atilde;o da Unb (Lapcom).<br \/><\/em><\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p><span class=\"padrao\">Que sentido faz racionalizar o procedimento de uma  licen&ccedil;a inadequada seja na sua legalidade quanto na sua implementa&ccedil;&atilde;o  pr&aacute;tica?<\/span><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[42],"tags":[363],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/25486"}],"collection":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=25486"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/25486\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=25486"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=25486"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=25486"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}