{"id":25416,"date":"2011-03-15T12:08:21","date_gmt":"2011-03-15T12:08:21","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=25416"},"modified":"2011-03-15T12:08:21","modified_gmt":"2011-03-15T12:08:21","slug":"por-que-o-projeto-de-lei-do-fust-e-um-desastre","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=25416","title":{"rendered":"Por que o projeto de lei do Fust \u00e9 um desastre"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"padrao\">Est&aacute; em vias de aprova&ccedil;&atilde;o na C&acirc;mara dos Deputados um projeto de lei (PL 1481\/2007) que modifica a lei do Fundo de Universaliza&ccedil;&atilde;o dos Servi&ccedil;os de Telecomunica&ccedil;&otilde;es, o Fust (Lei 9998\/2000). Sob o v&eacute;u de agenda positiva, esconde-se um texto desastroso, anacr&ocirc;nico, que descaracteriza o fundo, configura um desvio de finalidade e promove uma imensa transfer&ecirc;ncia de renda dos consumidores para as empresas de telecomunica&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p>Ele vem no bojo de duas falsas premissas: 1) a de que a lei do Fust &eacute; ruim por n&atilde;o permitir o uso do fundo para a expans&atilde;o da banda larga; 2) a de que s&atilde;o necess&aacute;rias pol&iacute;ticas especiais do Fust para garantir a conectividade dos estabelecimentos de ensino. Os problemas em que se baseiam essas premissas s&atilde;o verdadeiros, as solu&ccedil;&otilde;es &eacute; que s&atilde;o p&eacute;ssimas.<\/p>\n<p>O Fust nasceu para financiar a universaliza&ccedil;&atilde;o dos servi&ccedil;os prestados em regime p&uacute;blico, que s&atilde;o aqueles que t&ecirc;m como objetivo serem universalizados &ndash; e assim deveria permanecer. Parece &oacute;bvio? Mas n&atilde;o &eacute;. A Lei Geral das Telecomunica&ccedil;&otilde;es (9472\/97) estabeleceu v&aacute;rios pontos relevantes para entendermos essa n&atilde;o-obviedade:<\/p>\n<p>1) Ela dividiu os servi&ccedil;os de telecomunica&ccedil;&otilde;es em servi&ccedil;os prestados em regime p&uacute;blico e em regime privado. No primeiro caso, encaixam-se todos aqueles prestados &ldquo;mediante concess&atilde;o ou permiss&atilde;o, com atribui&ccedil;&atilde;o a sua prestadora de obriga&ccedil;&otilde;es de universaliza&ccedil;&atilde;o e de continuidade&rdquo;. &lsquo;Regime p&uacute;blico&rsquo;, portanto, nada tem a ver com servi&ccedil;os de telecomunica&ccedil;&otilde;es prestados pelo Estado: significa, na pr&aacute;tica, apenas o reconhecimento daquele como um servi&ccedil;o p&uacute;blico (como &aacute;gua, luz etc.), a ser prestado por empresas privadas ou p&uacute;blicas;<\/p>\n<p>2) Cada modalidade de servi&ccedil;o pode ser prestada s&oacute; no regime p&uacute;blico, s&oacute; no regime privado ou concomitantemente nos dois regimes.<\/p>\n<p>3) O &uacute;nico servi&ccedil;o que a lei j&aacute; define como regime p&uacute;blico &eacute; o de telefonia fixa. &Eacute; o que fazia sentido &agrave; &eacute;poca (1997). Mas o artigo 18 diz claramente que cabe ao Poder Executivo, por meio de decreto, &ldquo;instituir ou eliminar a presta&ccedil;&atilde;o de modalidade de servi&ccedil;o no regime p&uacute;blico, concomitantemente ou n&atilde;o com sua presta&ccedil;&atilde;o no regime privado&rdquo;. Isto &eacute;, a qualquer momento qualquer outro servi&ccedil;o em regime p&uacute;blico pode ser criado, basta um decreto da Presid&ecirc;ncia da Rep&uacute;blica;<\/p>\n<p>4) Mas o ponto mais importante &eacute; que a lei diz claramente: <strong>&ldquo;n&atilde;o ser&atilde;o deixadas &agrave; explora&ccedil;&atilde;o apenas em regime privado as modalidades de servi&ccedil;o de interesse coletivo que, sendo essenciais, estejam sujeitas a deveres de universaliza&ccedil;&atilde;o&rdquo;.<\/p>\n<p><\/strong>Esse &eacute; o ponto chave. Se a banda larga &eacute; essencial e deve ser universalizada &ndash; e n&oacute;s acreditamos fielmente nisso &ndash; ent&atilde;o, segundo a lei, ela deve ser prestada em regime p&uacute;blico. Com isso, n&atilde;o se precisaria fazer nenhuma modifica&ccedil;&atilde;o na lei do Fust para que ele pudesse ser usado para esse servi&ccedil;o. E para fazer da banda larga um servi&ccedil;o em regime p&uacute;blico, bastaria um decreto.<\/p>\n<p>Mas por que seria importante transformar a banda larga em regime p&uacute;blico? i) porque &eacute; o reconhecimento de que ela &eacute; um servi&ccedil;o p&uacute;blico essencial a ser universalizado, com metas para isso (inexistentes no regime privado); ii) porque ela passa a ter obriga&ccedil;&atilde;o de continuidade; iii) porque ela viabiliza um controle efetivo das tarifas (no regime privado, as tarifas s&atilde;o livres); iv) porque ela cria bens revers&iacute;veis, ou seja, os bens essenciais &agrave; presta&ccedil;&atilde;o do servi&ccedil;o s&atilde;o devolvidos &agrave;&nbsp; Uni&atilde;o no final do contrato (analogamente: a empresa de luz n&atilde;o pode levar os fios e cabos com ela no final do contrato); v) porque o controle sobre as empresas e suas obriga&ccedil;&otilde;es de qualidade perante os usu&aacute;rios passa a ser muito maior.<\/p>\n<p>N&atilde;o &agrave; toa, na I Confer&ecirc;ncia Nacional de Comunica&ccedil;&atilde;o, a proposta de transformar a banda larga em servi&ccedil;o em regime p&uacute;blico foi aprovada por consenso, com apoio do poder p&uacute;blico e do conjunto da sociedade civil, inclusive do setor empresarial.<strong><\/p>\n<p>As armadilhas do projeto<\/p>\n<p><\/strong>O que o PL 1481 (esse que est&aacute; em vias de ser aprovado) faz &eacute; ampliar a possibilidade de uso do Fust. O texto atual da lei estabelece, coerentemente, que o fundo tem como finalidade &ldquo;proporcionar recursos destinados a cobrir a parcela de custo exclusivamente atribu&iacute;vel ao cumprimento das obriga&ccedil;&otilde;es de universaliza&ccedil;&atilde;o de servi&ccedil;os de telecomunica&ccedil;&otilde;es, que n&atilde;o possa ser recuperada com a explora&ccedil;&atilde;o eficiente do servi&ccedil;o&rdquo;. O PL inclui outro objetivo: &ldquo;financiar, de outras formas, iniciativas voltadas a ampliar o acesso da sociedade a servi&ccedil;os de telecomunica&ccedil;&otilde;es prestados em regime p&uacute;blico ou privado e suas utilidades, bem como programas, projetos e atividades governamentais que envolvam servi&ccedil;os de telecomunica&ccedil;&otilde;es&rdquo;.<\/p>\n<p>Isto &eacute;, o fundo de universaliza&ccedil;&atilde;o deixa de ser s&oacute; de universaliza&ccedil;&atilde;o. Ele passa a ser um fundo para financiar quaisquer iniciativas voltadas a ampliar o acesso, de servi&ccedil;os em regime p&uacute;blico ou privado. Pode parecer positivo &agrave; primeira vista, mas na pr&aacute;tica abre-se uma avenida para que recursos sejam usados para n finalidades e, mesmo assim, os servi&ccedil;os permane&ccedil;am n&atilde;o universalizados. At&eacute; porque o PL abre o uso do Fust para qualquer uso, ao retirar do caput do artigo que trata das finalidades a rela&ccedil;&atilde;o do seu uso com os planos gerais de metas de universaliza&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Esse desvio de finalidade &eacute; um risco real. A ideia de universaliza&ccedil;&atilde;o tem sido abandonada at&eacute; por quem deveria defend&ecirc;-la. O Programa Nacional de Banda Larga (PNBL), por exemplo, n&atilde;o trabalha em nenhum momento com a ideia de universaliza&ccedil;&atilde;o, mas sim de massifica&ccedil;&atilde;o. O documento base do PNBL, ao lado de v&aacute;rias propostas interessantes, cita como exemplo positivo de massifica&ccedil;&atilde;o a telefonia celular, que &eacute; denunciada por entidades de defesa do consumidor como um desastre &ndash; a m&eacute;dia de uso &eacute; dos pr&eacute;-pagos (mais de 80% da base) &eacute; de R$ 5, com uma das tarifas mais caras do mundo. Esses dados mostram que o aparelho pode at&eacute; estar universalizado, mas o servi&ccedil;o est&aacute; longe de ser. Se, para o programa de banda larga do Governo Federal, o exemplo positivo &eacute; esse, ent&atilde;o a ideia de universaliza&ccedil;&atilde;o precisa mesmo ser resgatada.<\/p>\n<p>A principal justificativa &lsquo;positiva&rsquo; para o projeto de mudan&ccedil;a na lei do Fust &eacute; que ele estabeleceria meta de universaliza&ccedil;&atilde;o da banda larga nas escolas p&uacute;blicas at&eacute; 2013. Mas &eacute; preciso dizer que, por conta de trocas de metas realizadas pela Ag&ecirc;ncia Nacional de Telecomunica&ccedil;&otilde;es (Anatel) com as empresas de telecomunica&ccedil;&otilde;es em 2006, esse objetivo j&aacute; foi garantido antes disso! O site do Minist&eacute;rio da Educa&ccedil;&atilde;o mostra como o processo est&aacute; avan&ccedil;ado, quase conclu&iacute;do. Al&eacute;m disso, a lei, em seu formato atual, j&aacute; estabelece que pelo menos 18% dos recursos do Fust devem ser aplicados em estabelecimentos p&uacute;blicos de ensino. Ent&atilde;o, mesmo se ainda faltar conex&atilde;o para um conjunto de escolas, h&aacute; grande quantidade de recursos para usar com essa finalidade. Na pr&aacute;tica, uma finalidade inegavelmente relevante tem sido usada como vitrine para um projeto que tem objetivos bem menos nobres.<\/p>\n<p>Para completar sua lista de problemas, o PL revoga o artigo da lei atual que determina que as empresas devolvam ao Fust a receita obtida em servi&ccedil;os prestados com recursos do fundo que for superior &agrave;quela estimada nos projetos.<\/p>\n<p>O &uacute;nico ponto positivo do projeto &eacute; que ele corrige uma distor&ccedil;&atilde;o da lei original, que ao dedicar pelo menos 30% dos recursos para a Amaz&ocirc;nia e o Nordeste, estabeleceu seu uso pelas concession&aacute;rias de telefonia fixa (que era, e segue sendo, o &uacute;nico servi&ccedil;o prestado em regime p&uacute;blico), o que se tornar&aacute; um limitante no momento em que se estabelecer o regime p&uacute;blico para a banda larga (se isso acontecer, &eacute; claro). Mas isso poderia ser feito de forma bem mais simples.<strong><\/p>\n<p>A quem interessa?<\/p>\n<p><\/strong>Mas, afinal, de quem &eacute; o interesse para a aprova&ccedil;&atilde;o desse projeto? As principais interessadas s&atilde;o as empresas de telecomunica&ccedil;&otilde;es. Elas, que j&aacute; faturavam R$ 180 bilh&otilde;es em 2009, querem morder os mais de 7 bilh&otilde;es de reais j&aacute; acumulados no Fust sem serem submetidas &agrave; metas de universaliza&ccedil;&atilde;o ou ao regime p&uacute;blico. Sem o regime p&uacute;blico, elas usar&atilde;o recursos do fundo para incrementar seu pr&oacute;prio patrim&ocirc;nio. Sem a reversibilidade dos bens, elas tornam-se propriet&aacute;rias de toda a infraestrutura adquirida com dinheiro p&uacute;blico, que em tese deveria garantir a universaliza&ccedil;&atilde;o dos servi&ccedil;os.<\/p>\n<p>De fato, o projeto prev&ecirc; possibilidade de subs&iacute;dios diretos &agrave;s empresas de telecomunica&ccedil;&otilde;es, depois de um processo p&uacute;blico de sele&ccedil;&atilde;o feito &ldquo;a partir de editais elaborados com base na pol&iacute;tica de universaliza&ccedil;&atilde;o e nas diretrizes do Minist&eacute;rio das Comunica&ccedil;&otilde;es&rdquo;. Se estamos falando de pol&iacute;tica de universaliza&ccedil;&atilde;o, n&atilde;o dever&iacute;amos falar de regime p&uacute;blico, como diz a Lei Geral de Telecomunica&ccedil;&otilde;es? Assim deveria ser, mas a proposta de modifica&ccedil;&atilde;o da lei do Fust n&atilde;o se inibe em ser completamente contradit&oacute;ria com a LGT.<\/p>\n<p>Outro poss&iacute;vel interessado na proposta &eacute; o Governo Federal, que enxerga nos recursos do fundo uma maneira de financiar o Programa Nacional de Banda Larga. De fato, seria muito positivo que esses recursos fossem utilizados para a universaliza&ccedil;&atilde;o da banda larga; mas n&atilde;o &eacute; isso que prev&ecirc; o Programa, que se restringe &agrave; ideia de massifica&ccedil;&atilde;o. Se quiser de fato universalizar a banda larga, em vez de modificar a lei do Fust e aplicar os recursos tendo como modelo a telefonia celular, basta ao governo publicar um decreto estabelecendo a banda larga como um servi&ccedil;o a ser prestado em regime p&uacute;blico. E a&iacute; o caminho estar&aacute; aberto para os recursos do fundo serem usados para financiar o PNBL.<\/p>\n<p>O &uacute;ltimo ponto a ser destacado, como ironia da hist&oacute;ria, &eacute; que parte da esquerda, ao apoiar este projeto, est&aacute; defendendo uma vis&atilde;o mais liberal que a dos ide&oacute;logos da privatiza&ccedil;&atilde;o tucana. A LGT, baseada em modelos do Banco Mundial, ainda preservava minimamente a ideia de servi&ccedil;o p&uacute;blico, e estabelecia o Fust como um instrumento para garantir pol&iacute;ticas de universaliza&ccedil;&atilde;o do servi&ccedil;o. Naquele momento, a ideia parecia um retrocesso. &Agrave; &eacute;poca, a Telebr&aacute;s tinha uma pol&iacute;tica de subs&iacute;dio cruzado, que fazia com que a receita das &aacute;reas e servi&ccedil;os mais lucrativos subvencionasse o servi&ccedil;o em &aacute;reas mais remotas e\/ou menos lucrativas. Com a privatiza&ccedil;&atilde;o, um fundo composto por v&aacute;rias receitas, principalmente pela cobran&ccedil;a de 1% sobre a receita operacional bruta das empresas, passou a cumprir esse papel.<\/p>\n<p>Agora, um projeto de lei pode fazer com esse fundo seja usado para fazer uma das maiores transfer&ecirc;ncias de renda j&aacute; vistas, com empresas privadas constituindo patrim&ocirc;nio pr&oacute;prio com dinheiro p&uacute;blico, sem obriga&ccedil;&otilde;es de universaliza&ccedil;&atilde;o e sem prestar um servi&ccedil;o p&uacute;blico. Oxal&aacute; os deputados ainda tenham tempo de perceber o tamanho do erro que est&atilde;o prestes a cometer.<\/p>\n<p class=\"padrao\">&nbsp;<\/p>\n<p><span class=\"padrao\">*<em> <strong>Jo&atilde;o Brant<\/strong> &eacute; membro da Coordena&ccedil;&atilde;o Executiva do Intervozes &#8211; Coletivo Brasil de Comunica&ccedil;&atilde;o Social <\/em><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Projeto que modifica o uso do Fundo de Universaliza&ccedil;&atilde;o dos Servi&ccedil;os de Telecomunica&ccedil;&otilde;es (Fust) promove transfer&ecirc;ncia de renda dos consumidores para as empresas<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[42],"tags":[363],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/25416"}],"collection":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=25416"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/25416\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=25416"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=25416"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=25416"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}