{"id":25409,"date":"2011-03-11T14:53:44","date_gmt":"2011-03-11T14:53:44","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=25409"},"modified":"2015-08-30T15:09:18","modified_gmt":"2015-08-30T15:09:18","slug":"midia-e-democracia-o-desafio-do-novo-marco-regulatorio-brasileiro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=25409","title":{"rendered":"M\u00eddia e democracia: o desafio do novo marco regulat\u00f3rio brasileiro"},"content":{"rendered":"<p class=\"padrao\">Pela primeira vez na hist&oacute;ria, o Minist&eacute;rio das Comunica&ccedil;&otilde;es foi ocupado pelo representante de um partido de esquerda. Mesmo nos oito anos de governo Lula, o comando da pasta ficou a cargo de nomes indicados por legendas da base aliada, alguns deles com &iacute;ntima rela&ccedil;&atilde;o hist&oacute;rica com os grupos nacionais de radiodifus&atilde;o, como foi o caso de H&eacute;lio Costa. A chegada de Paulo Bernardo, com a experi&ecirc;ncia de j&aacute; ter sido titular da pasta do Planejamento, vem sendo cercada de expectativas.<\/p>\n<p>A principal delas &eacute; o encaminhamento da reforma da legisla&ccedil;&atilde;o da &aacute;rea. A aprova&ccedil;&atilde;o de um novo marco regulat&oacute;rio &eacute; demanda antiga de especialistas, sindicalistas e de v&aacute;rias entidades que lutam pela democratiza&ccedil;&atilde;o da comunica&ccedil;&atilde;o. No &uacute;ltimo ano do governo Lula, sua import&acirc;ncia foi percebida. No entanto, o tempo foi suficiente apenas para que um grupo comandado pela Secretaria de Comunica&ccedil;&atilde;o do Governo, com o ent&atilde;o ministro Franklin Martins &agrave; frente, elaborasse uma proposta como legado &agrave; nova gest&atilde;o do Executivo Federal.<\/p>\n<p>Parte do projeto j&aacute; veio &agrave; tona por meio da imprensa especializada. Fala-se em uma reorganiza&ccedil;&atilde;o institucional, cujo marco central seria a transforma&ccedil;&atilde;o da Ag&ecirc;ncia Nacional de Cinema em Ag&ecirc;ncia Nacional de Comunica&ccedil;&atilde;o. Ela teria atribui&ccedil;&otilde;es de fiscaliza&ccedil;&atilde;o dos conte&uacute;dos e das outorgas dadas aos entes privados que exploram servi&ccedil;os como r&aacute;dio e televis&atilde;o. Ainda na parte de conte&uacute;dos, seriam definidas regras para garantir a presen&ccedil;a de produ&ccedil;&atilde;o nacional, regional e independente nos ve&iacute;culos. Bem como medidas para proteger segmentos vulner&aacute;veis, como crian&ccedil;as.<\/p>\n<p>A proposta, de acordo com not&iacute;cias divulgadas, adotaria uma arquitetura convergente, tratando servi&ccedil;os de forma transversal &agrave;s plataformas. Isso significa que em vez de televis&atilde;o, r&aacute;dio, TV a Cabo, ter&iacute;amos tr&ecirc;s modalidades de servi&ccedil;os: de comunica&ccedil;&atilde;o social, de comunica&ccedil;&atilde;o eletr&ocirc;nica e de comunica&ccedil;&atilde;o em rede. No caso daqueles audiovisuais, haveria uma divis&atilde;o em lineares (programa&ccedil;&atilde;o de TV aberta, por exemplo) e n&atilde;o-lineares (v&iacute;deos n&atilde;o organizados em programa&ccedil;&otilde;es), abertos ou fechados. Em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; propriedade, seria mantido o limite de 30% ao capital estrangeiro e haveria uma divis&atilde;o entre as fases da cadeia: produ&ccedil;&atilde;o, programa&ccedil;&atilde;o e distribui&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p><strong>Al&eacute;m da t&eacute;cnica: que m&iacute;dia queremos?<\/strong><\/p>\n<p>O debate sobre o novo marco regulat&oacute;rio n&atilde;o pode ficar circunscrito aos gabinetes do governo federal, aos bancos acad&ecirc;micos ou &agrave;s rodas de especialistas e pesquisadores. &Eacute; preciso que sua carca&ccedil;a herm&eacute;tica seja despida, de modo a coloc&aacute;-lo sob a perspectiva essencial que possui. Que tipo de comunica&ccedil;&atilde;o queremos no Brasil? A resposta enseja um racioc&iacute;nio que identifique o que n&atilde;o atende aos interesses da popula&ccedil;&atilde;o e o que deve ser mudado. Elencamos aqui cinco n&oacute;s cr&iacute;ticos que precisam ser resolvidos nesse processo.<\/p>\n<p>O primeiro &eacute; o car&aacute;ter excessivamente comercial da nossa comunica&ccedil;&atilde;o. No caso da televis&atilde;o, por exemplo, as corpora&ccedil;&otilde;es controlam 80% das emissoras, 90% do financiamento e 95% da audi&ecirc;ncia. Enquanto isso, os meios p&uacute;blicos e comunit&aacute;rios lutam para sobreviver. No primeiro caso, a Empresa Brasil de Comunica&ccedil;&atilde;o avan&ccedil;ou, mas ainda est&aacute; longe de se consolidar como alternativa real junto &agrave; popula&ccedil;&atilde;o. No segundo caso, as r&aacute;dios comunit&aacute;rias continuam sendo perseguidas e as TVs comunit&aacute;rias permanecem relegadas &agrave; pris&atilde;o da TV a Cabo. O novo marco precisa, portanto, retirar essas modalidades da condi&ccedil;&atilde;o marginal, abrindo espa&ccedil;o no espectro para as emissoras, permitindo fontes de financiamento sustent&aacute;veis, ampliando radicalmente a participa&ccedil;&atilde;o e estabelecendo contornos de uma programa&ccedil;&atilde;o feita para, com e pelo p&uacute;blico.<\/p>\n<p>O segundo &eacute; o car&aacute;ter concentrado e verticalizado da m&iacute;dia brasileira. O modelo, baseado em poucos grupos estruturados em cabe&ccedil;as-de-rede e afiliadas, constitu&iacute;do no pa&iacute;s, faz com que, de Uruguaiana (RS) a Coari (AM), se veja e se ou&ccedil;a a perspectiva do eixo Rio-S&atilde;o Paulo. Sabe-se mais sobre o Leblon e a Vila Madalena do que sobre o Nordeste e o Norte do pa&iacute;s. Pesquisa do Observat&oacute;rio do Direito &agrave; Comunica&ccedil;&atilde;o em 11 capitais mostrou que as afiliadas exibem apenas 10% de conte&uacute;dos pr&oacute;prios. Assim, outro desafio do marco &eacute; quebrar essa estrutura de oligop&oacute;lio vertical, ampliando o n&uacute;mero de fontes de informa&ccedil;&atilde;o e determinando limites para garantir a exibi&ccedil;&atilde;o de conte&uacute;dos realizados nas cidades das emissoras.<\/p>\n<p>O terceiro, que deriva do anterior, &eacute; o cen&aacute;rio de faroeste no sistema de outorgas dos servi&ccedil;os de comunica&ccedil;&otilde;es. Na radiodifus&atilde;o, temos quase uma terra sem lei, em que os exploradores desrespeitam a constitui&ccedil;&atilde;o e a lei sem qualquer repres&aacute;lia. A posse de emissoras por pol&iacute;ticos, a exibi&ccedil;&atilde;o de publicidade al&eacute;m do limite de 25% e a veicula&ccedil;&atilde;o de conte&uacute;dos discriminat&oacute;rios s&atilde;o apenas alguns dos exemplos. Al&eacute;m disso, o poder p&uacute;blico peca pela falta de transpar&ecirc;ncia e se ausenta quase que integralmente da responsabilidade de fiscalizar essas concess&otilde;es. Por esses motivos, o novo marco deve tratar com aten&ccedil;&atilde;o o sistema de autoriza&ccedil;&otilde;es, definindo crit&eacute;rios que atendam os interesses dos cidad&atilde;os e fiscalizando frequentemente o seu cumprimento de forma transparente.<\/p>\n<p>O quarto n&oacute; cr&iacute;tico &eacute; a exclus&atilde;o no acesso aos servi&ccedil;os de comunica&ccedil;&atilde;o, em especial ao de telecomunica&ccedil;&otilde;es. Na telefonia m&oacute;vel, cobramos tarifas das mais altas do mundo. N&atilde;o por isso, temos mais de 190 milh&otilde;es de aparelhos, por&eacute;m, mais de 80% s&atilde;o pr&eacute;-pagos e com baixo consumo na liga&ccedil;&atilde;o. Na fixa, vivemos com uma taxa injustific&aacute;vel: a assinatura b&aacute;sica. A TV por assinatura chega a nove milh&otilde;es de lares apenas. Nossa internet &eacute;, segundo o pr&oacute;prio governo federal, cara, lenta e de m&aacute; qualidade. Embora pol&iacute;ticas de acesso n&atilde;o sejam exclusividade de normas, elas podem, sim, determinar a oferta aos cidad&atilde;os e as modalidades de servi&ccedil;o. Entre elas, por exemplo, definir que a internet em banda larga seja prestada em regime p&uacute;blico, tendo, portanto, obriga&ccedil;&otilde;es de universaliza&ccedil;&atilde;o e controle tarif&aacute;rio.<\/p>\n<p>O quinto obst&aacute;culo que precisa ser resolvido &eacute; a impermeabilidade dos &oacute;rg&atilde;os do poder p&uacute;blico &agrave; popula&ccedil;&atilde;o. Enquanto o Minist&eacute;rio das Comunica&ccedil;&otilde;es sempre foi a casa dos radiodifusores e a Ag&ecirc;ncia Nacional de Telecomunica&ccedil;&otilde;es (Anatel) mant&eacute;m abertura &agrave;s telef&ocirc;nicas e outras operadoras, sindicatos e ativistas sempre sofreram para realizar a interlocu&ccedil;&atilde;o. At&eacute; a Confer&ecirc;ncia Nacional de Comunica&ccedil;&atilde;o &ndash; evento proposto apenas para debate de id&eacute;ias &ndash; acabou seriamente amea&ccedil;ada pela resist&ecirc;ncia do setor empresarial em abrir a discuss&atilde;o sobre a &aacute;rea.<\/p>\n<p><strong>Problemas antigos e novas solu&ccedil;&otilde;es<\/strong><\/p>\n<p>O novo marco regulat&oacute;rio deve dar conta de uma extensa demanda democr&aacute;tica do s&eacute;culo XX, que passar basicamente por desconcentrar o setor, ampliar a pluralidade e diversidade, fortalecer m&iacute;dias p&uacute;blicas e comunit&aacute;rias e colocar os &oacute;rg&atilde;os p&uacute;blicos a servi&ccedil;o dos cidad&atilde;os. Mas precisa conjugar tais solu&ccedil;&otilde;es com os desafios da converg&ecirc;ncia de m&iacute;dias, que unifica servi&ccedil;os em plataformas e terminais e pressiona o setor para mais liberaliza&ccedil;&atilde;o e mais concentra&ccedil;&atilde;o, a despeito da aparente aura de amplia&ccedil;&atilde;o das fontes informativas.<\/p>\n<p>Tal cen&aacute;rio, repetimos, n&atilde;o deve colocar a primazia da t&eacute;cnica. Os objetivos sociais n&atilde;o mudam, mas assumem novas formas. Partindo dessa reflex&atilde;o, argumentamos que o novo marco precisa tomar como princ&iacute;pio a comunica&ccedil;&atilde;o como direito humano e a democracia como cerne transversal. A constru&ccedil;&atilde;o da arquitetura deve, destarte, basear-se na defini&ccedil;&atilde;o dos servi&ccedil;os, entendidos como as atividades relacionadas &agrave; comunica&ccedil;&atilde;o que impactam e servem aos cidad&atilde;os. Esses servi&ccedil;os t&ecirc;m de ser observados tanto da qualidade da presta&ccedil;&atilde;o, o que envolve medidas anti-concentra&ccedil;&atilde;o e de garantia de padr&otilde;es, quanto dos impactos que se pretende provocar.<\/p>\n<p>A primazia do interesse da popula&ccedil;&atilde;o sobre a t&eacute;cnica deve ser quest&atilde;o de m&eacute;rito, e tamb&eacute;m de m&eacute;todo. Por esta raz&atilde;o, esse novo marco precisa ser submetido a amplo debate, assim como ocorreu na Argentina. Como &eacute; conhecida a atua&ccedil;&atilde;o dos setores empresariais no Congresso, para que a(s) nova(s) lei(s) n&atilde;o seja(m) apenas um arranjo para distribuir o lucro do setor, ela precisa ser fruto de uma reflex&atilde;o coletiva e no seio da sociedade. Talvez assim seja poss&iacute;vel atacar de frente os n&oacute;s cr&iacute;ticos que impedem nossa comunica&ccedil;&atilde;o de alcan&ccedil;ar sua plenitude democr&aacute;tica.<\/p>\n<p class=\"padrao\"><em>* <strong>Jonas Valente<\/strong> &eacute; integrante da Coordena&ccedil;&atilde;o Executiva do Coletivo Brasil de Comunica&ccedil;&atilde;o Social (Intervozes), secret&aacute;rio-geral do Sindicato dos Jornalistas do Distrito Federal e pesquisador do Laborat&oacute;rio de Pol&iacute;ticas e Comunica&ccedil;&atilde;o da Unb (Lapcom).<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O novo marco regulat&oacute;rio deve dar conta de extensa demanda do s&eacute;culo XX, mas  precisa conjugar tais solu&ccedil;&otilde;es com os desafios da converg&ecirc;ncia de m&iacute;dias<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[42],"tags":[1833],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/25409"}],"collection":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=25409"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/25409\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":29045,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/25409\/revisions\/29045"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=25409"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=25409"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=25409"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}