{"id":25364,"date":"2011-02-21T15:42:38","date_gmt":"2011-02-21T15:42:38","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=25364"},"modified":"2011-02-21T15:42:38","modified_gmt":"2011-02-21T15:42:38","slug":"os-nacionalistas-da-cultura","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=25364","title":{"rendered":"Os nacionalistas da cultura"},"content":{"rendered":"<p><span class=\"padrao\">A ascens&atilde;o de Ana de Holanda para o Minist&eacute;rio da Cultura com a promessa de reavaliar a revis&atilde;o da lei de direitos autorais &ldquo;em defesa dos autores&rdquo; gerou um acirrado debate que tem animado as p&aacute;ginas dos cadernos de cultura. No debate, tem aparecido com orquestrada frequ&ecirc;ncia uma curiosa tese: os cr&iacute;ticos da nova pol&iacute;tica do minist&eacute;rio s&atilde;o ing&ecirc;nuos manipulados pelas grandes empresas de Internet que querem se apropriar da cultura brasileira sem pagar pelo conte&uacute;do. A revis&atilde;o da lei de direitos autorais ampliando exce&ccedil;&otilde;es e limita&ccedil;&otilde;es, a supervis&atilde;o estatal das sociedades de gest&atilde;o coletiva (como o ECAD) e o est&iacute;mulo ao licenciamento livre (por meio de licen&ccedil;as como as Creative Commons) causariam apenas preju&iacute;zo aos autores brasileiros. As grandes corpora&ccedil;&otilde;es do mundo digital, ao contr&aacute;rio, seriam as grandes beneficiadas, j&aacute; que explorariam o acesso livre a esses conte&uacute;dos por meio de publicidade. Contra essas pol&iacute;ticas inovadoras, seria preciso manter as regras e pol&iacute;ticas de direito autoral atualmente em vigor que protegem razoavelmente bem os autores e s&atilde;o uma plataforma adequada para a proje&ccedil;&atilde;o internacional da cultura brasileira.<\/p>\n<p>A linguagem anti-imperialista surpreende, vindo de onde vem. Os defensores da tese s&atilde;o os s&oacute;cios locais da ind&uacute;stria cultural internacional, sobretudo do setor fonogr&aacute;fico &ndash; empresas nada nacionais como a Warner, a Sony, a EMI e a Universal. Obviamente, a acusa&ccedil;&atilde;o &eacute; apenas um jogo ret&oacute;rico, mas como tem encontrado algum eco, n&atilde;o seria despropositado relembrar alguns fatos b&aacute;sicos.<\/p>\n<p>No mercado de m&uacute;sica brasileiro, os autores s&atilde;o brasileiros, mas as empresas s&atilde;o estrangeiras. O discurso pseudo-nacionalista s&oacute; pode funcionar porque o Brasil tem uma situa&ccedil;&atilde;o &iacute;mpar: &eacute; o &uacute;nico pa&iacute;s, fora os Estados Unidos, onde o consumo de m&uacute;sica nacional &eacute; superior ao de m&uacute;sica estrangeira. No entanto, essa m&uacute;sica nacional &eacute; explorada por empresas majoritariamente estrangeiras: a Warner, a Sony, a EMI e a Universal. O que temos, portanto, &eacute; uma associa&ccedil;&atilde;o entre os grandes autores nacionais (os velhos nomes da MPB e os novos nomes do pop e do sertanejo) e as grandes empresas internacionais.<\/p>\n<p>Os intermedi&aacute;rios, em boa parte estrangeiros, se apropriam de mais de 50% do direito autoral. A venda de discos e a execu&ccedil;&atilde;o p&uacute;blica (r&aacute;dio, TV e shows) movimentam juntos pelo menos 400 milh&otilde;es de reais anuais em direito autoral. Esses valores s&atilde;o distribu&iacute;dos para os atores da cadeia produtiva da m&uacute;sica: de um lado, criadores strictu sensu como compositores, arranjadores, int&eacute;rpretes e m&uacute;sicos e, de outro, intermedi&aacute;rios como empresas fonogr&aacute;ficas, associa&ccedil;&otilde;es de autores, produtores e o escrit&oacute;rio de arrecada&ccedil;&atilde;o (ECAD). Na divis&atilde;o dos recursos do direito autoral, os intermedi&aacute;rios ficam com 51% e a menor parte dos recursos &eacute; dividida entre os criadores.<\/p>\n<p>O Brasil &eacute; altamente deficit&aacute;rio em direito autoral. Se h&aacute; ainda alguma d&uacute;vida que a explora&ccedil;&atilde;o do direito autoral &eacute; interesse estrangeiro, basta olhar a balan&ccedil;a comercial de direito autoral do pa&iacute;s com os Estados Unidos. Todos os anos enviamos mais de 2 bilh&otilde;es de d&oacute;lares como pagamento de direito autoral (em todos os setores &ndash; n&atilde;o apenas m&uacute;sica). Os americanos, por sua vez, nos pagam apenas 25 milh&otilde;es.<\/p>\n<p>A remunera&ccedil;&atilde;o aos autores brasileiros &eacute; concentrada, distorcida e segue crit&eacute;rios obscuros. A distribui&ccedil;&atilde;o dos recursos de direito autoral no Brasil &eacute;, antes de tudo, distorcida pelo jab&aacute;, mecanismo pelo qual as empresas pagam para ter a m&uacute;sica executada nas r&aacute;dios e TVs para depois receberem o direito autoral de execu&ccedil;&atilde;o e vendas como &ldquo;retorno&rdquo;. Al&eacute;m disso, o escrit&oacute;rio de arrecada&ccedil;&atilde;o tem procedimentos obscuros que n&atilde;o podem ser auditados e que concentram a distribui&ccedil;&atilde;o em muito poucos autores.<\/p>\n<p>O que temos ent&atilde;o &eacute; uma ind&uacute;stria predominantemente estrangeira que se apropria da maior parte dos recursos de direito autoral em detrimento dos verdadeiros criadores e os remete ao exterior para as matrizes. No entanto, como remunera bem alguns poucos autores brasileiros segundo procedimentos obscuros, estes agem como porta-vozes nacionais desta estrutura internacional de explora&ccedil;&atilde;o da cultura brasileira.<\/p>\n<p>Se tudo isso ainda n&atilde;o &eacute; suficiente, uma &uacute;ltima e conclusiva evid&ecirc;ncia pode ser encontrada na contribui&ccedil;&atilde;o da IIPA (International Intellectual Property Alliance) para o relat&oacute;rio 301. O relat&oacute;rio 301 &eacute; um mecanismo comercial do governo americano por meio do qual tenta interferir nas pol&iacute;ticas de direito autoral de &ldquo;pa&iacute;ses em desenvolvimento&rdquo;. Esse relat&oacute;rio avalia se a pol&iacute;tica de direito autoral desses pa&iacute;ses, no entender dos Estados Unidos, &eacute; adequada &ndash; e se ele considerar que a de algum pa&iacute;s n&atilde;o &eacute;, pode punir com san&ccedil;&otilde;es comerciais unilaterais. A IIPA que &eacute; uma organiza&ccedil;&atilde;o que re&uacute;ne as ind&uacute;strias do software, do disco, do filme, do livro e dos games nos Estados Unidos, no seu &uacute;ltimo relat&oacute;rio defende exatamente as mesmas posi&ccedil;&otilde;es quanto &agrave; reforma da lei de direito autoral que o atual minist&eacute;rio da cultura &ndash; motivo pelo qual as posi&ccedil;&otilde;es da ministra s&atilde;o diretamente elogiadas.<\/p>\n<p>&Eacute; no m&iacute;nimo curioso que agentes das grandes multinacionais utilizem um discurso nacionalista e at&eacute; anti-imperialista para atacar os ativistas da cultura livre. &Eacute; evidente que se trata de m&aacute;-f&eacute; orientada a atingir resultados pol&iacute;ticos. Mas como a mentira e a m&aacute;-f&eacute; se disseminam talvez valha a pena esclarecer algumas coisas:<\/p>\n<p>O movimento de cultura livre defende a independ&ecirc;ncia dos criadores, n&atilde;o a ind&uacute;stria &ndash; nova ou velha. Embora o movimento seja uma rede mais ou menos solta de ativistas, sem um programa expl&iacute;cito, me parece claro um objetivo comum: o de produzir uma nova economia da cultura, na qual os criadores e n&atilde;o os intermedi&aacute;rios sejam os principais benefici&aacute;rios dos dividendos econ&ocirc;micos e na qual os bens culturais possam circular livremente sem barreiras de direito autoral, permitindo o acesso de todos ao patrim&ocirc;nio cultural. A cultura que se vislumbra &eacute; uma cultura na qual os criadores sejam remunerados e, simultaneamente, o p&uacute;blico tenha acesso &agrave;s obras. H&aacute; v&aacute;rias experi&ecirc;ncias bem sucedidas em curso sobre como realizar esse objetivo &ndash; principalmente aquelas na qual h&aacute; deslocamento da fonte de remunera&ccedil;&atilde;o do criador, do direito autoral para servi&ccedil;os, como shows e apresenta&ccedil;&otilde;es ao vivo. Esse movimento n&atilde;o pretende que os intermedi&aacute;rios da velha ind&uacute;stria (gravadoras, editoras, etc.) sejam simplesmente substitu&iacute;dos por novos intermedi&aacute;rios (empresas de Internet, editoras digitais, etc.), nem que os criadores n&atilde;o sejam remunerados. O movimento de cultura livre defende um modo de produzir cultura descentralizado, diverso, esteticamente aut&ocirc;nomo, economicamente sustent&aacute;vel e no qual os bens culturais sejam acess&iacute;veis a todos.<\/p>\n<p>O mundo que os novos intermedi&aacute;rios vislumbram &eacute; diferente. &Eacute; um mundo no qual o acesso &agrave;s obras, gratuito ou apenas mais barato, &eacute; organizado por grandes empresas que comandam indiretamente a cadeia produtiva e geram dividendos com a venda da privacidade dos usu&aacute;rios para publicidade dirigida. &Eacute; um mundo onde se pode ler livros ou escutar m&uacute;sica na Internet gratuitamente sacrificando a privacidade pessoal para a venda de publicidade. Esse modelo traz grandes riscos para uma liberdade civil fundamental que &eacute; a privacidade, coloca em risco a autonomia econ&ocirc;mica e est&eacute;tica dos criadores e amea&ccedil;a a diversidade de oferta de obras para os consumidores.<\/p>\n<p>Como se v&ecirc;, o programa dos defensores da cultura livre &eacute; muito diferente do programa da nova ind&uacute;stria cultural. Mesmo assim, os defensores do velho modo industrial de produ&ccedil;&atilde;o da cultura tentam desqualificar o movimento de cultura livre apresentando-o como agente das novas empresas.<\/p>\n<p>N&atilde;o podemos ficar presos, no entanto, a duas alternativas corporativas, que subtraem, cada uma a seu modo, a autonomia de criadores e consumidores. O processo de mudan&ccedil;as nos modos de produ&ccedil;&atilde;o da cultura n&atilde;o nos leva a ter que escolher entre a EMI e a Google. Ele abre uma janela de oportunidades para novas pr&aacute;ticas e novas pol&iacute;ticas que emancipem e protejam os autores frente ao poder econ&ocirc;mico dos grandes intermedi&aacute;rios e que apoiem as potencialidades de acesso &agrave; cultura trazidas pelas novas tecnologias. &Eacute; esse tipo de vis&atilde;o que esperamos do Minist&eacute;rio da Cultura.<br \/><em><br \/><strong>Pablo Ortellado<\/strong> &eacute; professor Doutor na Escola de Comunica&ccedil;&atilde;o e Artes da Universidade de S&atilde;o Paulo<\/em><\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No mercado de m&uacute;sica brasileiro, os autores s&atilde;o brasileiros, mas as empresas s&atilde;o estrangeiras<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[42],"tags":[1492],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/25364"}],"collection":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=25364"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/25364\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=25364"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=25364"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=25364"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}