{"id":25348,"date":"2011-02-15T17:13:12","date_gmt":"2011-02-15T17:13:12","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=25348"},"modified":"2011-02-15T17:13:12","modified_gmt":"2011-02-15T17:13:12","slug":"a-midia-hegemonica-esta-mais-agressiva","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=25348","title":{"rendered":"&#8220;A m\u00eddia hegem\u00f4nica est\u00e1 mais agressiva&#8221;"},"content":{"rendered":"<p><span class=\"padrao\">Professor de Comunica&ccedil;&atilde;o da UFRJ, Marcos Dantas &eacute; um respeitado te&oacute;rico da comunica&ccedil;&atilde;o e tem uma rica trajet&oacute;ria ativista. Nesta entrevista exclusiva ao Vermelho, ele nos fala da luta pela democratiza&ccedil;&atilde;o das comunica&ccedil;&otilde;es no Brasil de hoje.<\/p>\n<p>Filho de um veterano comunista, o militar da Aeron&aacute;utica Sebasti&atilde;o Dantas, j&aacute; falecido, Marcos Dantas desde cedo se interessou por pol&iacute;tica. Iniciou sua milit&acirc;ncia no PCB, indo pouco depois para a Dissid&ecirc;ncia da Guanabara (DI-GB) que mais tarde seria rebatizada de MR-8.<\/p>\n<p>Come&ccedil;a a trabalhar como jornalista em 1970, sem ter sequer, devido &agrave;s circunst&acirc;ncias militantes da &eacute;poca, conclu&iacute;do um curso superior, como gosta de frisar. Passou por alguns dos mais importantes jornais do Brasil, dentre estes o Jornal do Com&eacute;rcio, onde trabalhou com Aloysio Biondi, e O Globo.<\/p>\n<p>Dantas orgulha-se, particularmente, de ter escrito, com ajuda do ent&atilde;o presidente do Sindicato dos Engenheiros do Rio de Janeiro, o hoje deputado federal Jorge Bittar (PT-RJ) e do engenheiro e sindicalista Paulo Eduardo Gomes, hoje vereador em Niter&oacute;i (RJ) pelo PSOL, o artigo que estabelecia o monop&oacute;lio da Telebr&aacute;s sobre as telecomunica&ccedil;&otilde;es, depois revogado no governo FHC. &ldquo;Tenho &oacute;dio eterno de FHC&rdquo;, diz ele. &ldquo;Imagina o orgulho que voc&ecirc; pode sentir, ao abrir o livrinho da Constitui&ccedil;&atilde;o e poder dizer, &#39;este artigo fui eu que escrevi&#39;&rdquo;.<\/p>\n<p>Em 2001, defende tese de doutoramento na Engenharia de Produ&ccedil;&atilde;o da COPPE-UFRJ, intitulada Os significados do trabalho. Toda sua investiga&ccedil;&atilde;o acad&ecirc;mica sempre buscou relacionar os referenciais marxistas &agrave;s transforma&ccedil;&otilde;es do capitalismo contempor&acirc;neo. Nesse entretempo, associando os compromissos pol&iacute;ticos com as inevit&aacute;veis necessidades da sobreviv&ecirc;ncia, p&ocirc;de participar de alguns momentos legislativos marcantes. Representando a Cobra (empresa de inform&aacute;tica), esteve ativamente presente nos trabalhos da Constituinte de 1988, ajudando, junto com outros t&eacute;cnicos e professores, a redigir o cap&iacute;tulo sobre Ci&ecirc;ncia, Tecnologia e Comunica&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Hoje Marcos Dantas &eacute; uma das principais refer&ecirc;ncias do campo popular na luta pela democratiza&ccedil;&atilde;o das comunica&ccedil;&otilde;es, tendo representado a sociedade civil n&atilde;o-empresarial na 1&ordf; Confer&ecirc;ncia Nacional de Comunica&ccedil;&atilde;o (Confecom), como delegado do Estado do Rio. Clique aqui para conhecer um pouco mais sobre a trajet&oacute;ria de Marcos Dantas.<\/p>\n<p><strong>Vermelho &#8211; A m&iacute;dia hoje est&aacute; mais agressiva em defesa dos seus interesses?<\/strong><br \/>Marcos Dantas &#8211; A m&iacute;dia hegem&ocirc;nica est&aacute; quantitativamente mais agressiva. &Eacute; que a estrutura corporativa que temos hoje, no Brasil, consolidou-se por volta dos anos 1970, na esteira de importantes transforma&ccedil;&otilde;es pelas quais passava a sociedade brasileira &agrave;quela &eacute;poca. A sociedade est&aacute; passando por novas e grandes mudan&ccedil;as pol&iacute;ticas, econ&ocirc;micas, tecnol&oacute;gicas, culturais, que n&atilde;o podem ser atendidas por aquela estrutura. Ela n&atilde;o est&aacute; sabendo acompanhar as mudan&ccedil;as. Ent&atilde;o reage parecendo fera acuada. Mas, ao longo da hist&oacute;ria, ela sempre atuou como bloco. No per&iacute;odo pr&eacute;-64, por exemplo, toda a chamada &ldquo;grande imprensa&rdquo; (O Globo, Estado de S. Paulo, Folha de S. Paulo, etc.) apoiou o golpe. A &uacute;nica vez que a imprensa rachou foi na revolu&ccedil;&atilde;o de 1930, mas isso aconteceu porque a elite estava dividida e a imprensa expressou esse momento. Fora isso, a imprensa sempre atuou em bloco.<\/p>\n<p><strong>Muito se fala do poder de mobiliza&ccedil;&atilde;o das novas ferramentas de comunica&ccedil;&atilde;o. Alguns chegam a dizer que o que est&aacute; acontecendo no Egito &eacute; a &ldquo;revolu&ccedil;&atilde;o do twitter&rdquo;. Como voc&ecirc; v&ecirc; esta quest&atilde;o?<\/strong><br \/>No Manifesto Comunista de 1848, Marx e Engels escreveram que o tel&eacute;grafo, ent&atilde;o rec&eacute;m-inventado, seria um grande instrumento nas m&atilde;os do proletariado. Ou seja, cada vez que surge um meio novo e mais r&aacute;pido de comunica&ccedil;&otilde;es, surgem tamb&eacute;m essas esperan&ccedil;as revolucion&aacute;rias. Evidentemente, Marx n&atilde;o era inocente. O que ele quis dizer &eacute; que quem inventou a telegrafia foi o capital, mas no momento em que essa tecnologia fica dispon&iacute;vel, tamb&eacute;m as comunica&ccedil;&otilde;es contra-hegem&ocirc;nicas podem ficar mais r&aacute;pidas e mais baratas. O sujeito n&atilde;o precisava mais ir a p&eacute; ou a cavalo, de uma cidade para outra, para convocar os camaradas &agrave; luta. Tinha o tel&eacute;grafo, tinha a ferrovia. Mas na mesma hora, claro, tamb&eacute;m tem a pol&iacute;cia esperando o militante na esta&ccedil;&atilde;o ferrovi&aacute;ria. O meio continua nas m&atilde;os do capital! No caso do tel&eacute;grafo, o que a burguesia fez? Adotou, em todos os principais pa&iacute;ses, leis que davam poder de censura ao funcion&aacute;rio dos correios, na ponta. Ele podia censurar uma mensagem se desconfiasse de alguma frase&#8230;<\/p>\n<p>Na minha avalia&ccedil;&atilde;o, a internet &eacute; o mais extraordin&aacute;rio pan&oacute;ptico que o capital j&aacute; inventou. Tudo o que voc&ecirc; escreve ali, pode ser visto por quem queira ver. Servidores de organiza&ccedil;&otilde;es como Google, Facebook e outras podem armazenar qualquer informa&ccedil;&atilde;o a respeito de qualquer internauta. &Eacute; claro que eles preferem saber dos seus gostos e h&aacute;bitos para lhe vender produtos e servi&ccedil;os. Mas talvez o FBI ou a CIA tamb&eacute;m gostem de saber dos seus gostos e h&aacute;bitos&#8230; H&aacute; poucos anos, aconteceu um esc&acirc;ndalo mundial, pouco divulgado no Brasil, devido a um sistema inventado pelos estadunidenses, denominado &ldquo;Echelon&rdquo;, pelo qual as suas grandes corpora&ccedil;&otilde;es podiam acompanhar as comunica&ccedil;&otilde;es dos concorrentes e, com base nelas, tomar as decis&otilde;es mais vantajosas.<\/p>\n<p>Dizem que os EUA ganharam a licita&ccedil;&atilde;o para montar o Sivam no Brasil gra&ccedil;as a informa&ccedil;&otilde;es sobre os concorrentes obtidas via &ldquo;Echelon&rdquo;. Sei l&aacute; o que pode estar acontecendo agora nessa disputa pelos ca&ccedil;as da FAB, mas eu n&atilde;o me admiraria em saber que as autoridades brasileiras, nas suas conversas a respeito, usam o Outlook Express, ou Gmail, ou Internet Explorer&#8230; Se voc&ecirc; quer realizar uma revolu&ccedil;&atilde;o para valer, a primeira coisa a fazer &eacute; n&atilde;o usar internet. Nem celular. Os russos acertaram a cabe&ccedil;a de um l&iacute;der checheno com um m&iacute;ssil guiado pelas frequ&ecirc;ncias do seu telefone celular.<\/p>\n<p>No fundo, essa prometida liberdade &eacute; um grande mecanismo de controle. Ela serve principalmente para falar muita abobrinha e, claro, para induzir comportamentos de consumo, como qualquer outro meio de comunica&ccedil;&atilde;o. Mas isto n&atilde;o significa menosprezar ou desqualificar a internet. Uso muito, sou mesmo pioneiro (desde 1992, com linha discada) e j&aacute; estudava o conceito de &ldquo;&aacute;gora informacional&rdquo; antes que a internet, enquanto tal, tivesse virado um fen&ocirc;meno de massa no Brasil, depois de, n&atilde;o por acaso, ser apresentada ao pa&iacute;s por uma novela da Globo. Certamente, o Google &eacute; uma extraordin&aacute;ria ferramenta de pesquisa. A minha velha Mirador, hoje em dia, apenas serve como belo enfeite de estante.<\/p>\n<p>Trocar ideias pelo Twitter &eacute; muito interessante e divertido. &Eacute; como uma reuni&atilde;o de amigos e amigas numa mesa de bar, todo mundo falando quase ao mesmo tempo frases entrecortadas, s&oacute; que eu estou na minha casa, o outro no seu escrit&oacute;rio de trabalho, um outro pode estar na Bahia ou Santa Catarina, at&eacute; no Jap&atilde;o (se resistir ao fuso hor&aacute;rio&#8230;). Aprende-se muito. A partir da&iacute;, penso que devemos disputar a internet, como tamb&eacute;m dev&iacute;amos ter disputado o tel&eacute;grafo ou a radiodifus&atilde;o. Mas n&atilde;o &eacute; a internet que est&aacute; moldando ou vai moldar a sociedade. &Eacute; a sociedade, no bojo da luta de classes, que decidir&aacute; os rumos da internet. Sem essa consci&ecirc;ncia, a internet ser&aacute; aquilo que o capital quer que ela seja: um meio para acelerar neg&oacute;cios e, se necess&aacute;rio, de controle social. &Eacute; fundamental disputar a democracia na internet, mas o discurso apolog&eacute;tico acr&iacute;tico conduz ao idealismo e n&atilde;o leva a nada realmente transformador.<\/p>\n<p><strong>No governo Lula foram poucos os avan&ccedil;os na comunica&ccedil;&atilde;o. Em rela&ccedil;&atilde;o a esta &aacute;rea, qual a sua expectativa em rela&ccedil;&atilde;o ao governo Dilma?<\/strong><br \/>Eu sou moderadamente otimista. Eu acho que &eacute; uma mudan&ccedil;a grande colocar o Paulo Bernardo no Minist&eacute;rio das Comunica&ccedil;&otilde;es. Mostra que esse Minist&eacute;rio ter&aacute; no governo Dilma, uma dimens&atilde;o estrat&eacute;gica que infelizmente n&atilde;o teve no governo Lula.<\/p>\n<p>A quest&atilde;o &eacute;: qual roteiro vai seguir?<\/p>\n<p>Ainda n&atilde;o ouvimos uma declara&ccedil;&atilde;o program&aacute;tica do ministro. Ele parece estar, aqui e ali, soltando umas ideias para sentir como repercute. Pelo que est&aacute; dito, banda larga e marco regulat&oacute;rio ser&atilde;o suas principais preocupa&ccedil;&otilde;es. Sobre a pol&iacute;tica de banda larga, sabemos o que o governo Lula deixou. Sobre o marco regulat&oacute;rio, sabemos que o governo Lula deixou algo, mas n&atilde;o sabemos o qu&ecirc;. Mas, sobre qualquer coisa, como o ministro integra o &ldquo;n&uacute;cleo duro&rdquo; do governo, as decis&otilde;es ser&atilde;o de governo, isto &eacute;, ser&atilde;o firmes, consistentes, duradouras (ao contr&aacute;rio, por exemplo, das decis&otilde;es sobre TV digital no governo Lula), mas ainda n&atilde;o d&aacute; para termos clareza sobre os rumos.<\/p>\n<p>No momento, a sensa&ccedil;&atilde;o que eu tenho &eacute; que o ministro Paulo Bernardo est&aacute; ouvindo a todos. Isso &eacute; muito positivo, mas isso &eacute; uma caracter&iacute;stica do PT: ele ouve as for&ccedil;as pol&iacute;ticas sociais, escuta o movimento social. O movimento popular tem um canal de interlocu&ccedil;&atilde;o. Mas n&atilde;o podemos esquecer que as comunica&ccedil;&otilde;es envolvem interesses poderosos, o ministro tamb&eacute;m est&aacute; ouvindo e n&atilde;o pode deixar de ouvir essas outras for&ccedil;as. O empresariado chega l&aacute; com propostas muito concretas, com temas objetivos. O movimento popular costuma chegar com bandeiras. Agora &eacute; hora de propostas, e propostas fact&iacute;veis. &Eacute; um cabo de guerra e n&atilde;o d&aacute; para saber ainda quem vai levar vantagem nisso.<\/p>\n<p><strong>Do ponto de vista da luta pela democratiza&ccedil;&atilde;o da m&iacute;dia, qual o tema mais importante hoje no Governo Dilma?<\/strong><br \/>Sem d&uacute;vida, o marco regulat&oacute;rio &eacute; o debate mais importante. Todo mundo sabe, acho que isso j&aacute; &eacute; consenso, que h&aacute; um caos normativo no Brasil hoje em dia. Precisamos de uma legisla&ccedil;&atilde;o que contemple os avan&ccedil;os econ&ocirc;micos e tecnol&oacute;gicos dos &uacute;ltimos anos mas, ao mesmo tempo, introduza princ&iacute;pios democr&aacute;ticos e p&uacute;blicos. Toda reforma normativa no mundo tem sido feita em detrimento dos interesses p&uacute;blicos, conduzida pelas for&ccedil;as do capital. O Brasil, por suas caracter&iacute;sticas econ&ocirc;micas e pol&iacute;ticas, poderia inovar a&iacute;, dando algumas aulas ao mundo. Mas isto vai necessitar, inclusive, de constru&ccedil;&atilde;o te&oacute;rica, n&atilde;o apenas jur&iacute;dica. Ao contr&aacute;rio do governo Lula, trata-se justamente de n&atilde;o fazer o &oacute;bvio.<\/p>\n<p>No que consiste, a seu ver, a principal contradi&ccedil;&atilde;o entre as teles (empresas de telecomunica&ccedil;&atilde;o como Oi, Telef&ocirc;nica, Sky) e as radiodifusoras (Globo, Bandeirantes, etc).<\/p>\n<p>A principal contradi&ccedil;&atilde;o &eacute; a pr&oacute;pria mudan&ccedil;a no padr&atilde;o de acumula&ccedil;&atilde;o nas comunica&ccedil;&otilde;es. H&aacute; um modelo decadente, esse da radiodifus&atilde;o aberta, e outro ascendente, o dos &ldquo;jardins murados&rdquo;. Aquele se apoia na escassez de espectro, verdade at&eacute; os anos 1970. Este se apoia no espectro ilimitado, na multiplica&ccedil;&atilde;o ad infinitum de canais audiovisuais, no cabo, na atmosfera, no sat&eacute;lite, gra&ccedil;as &agrave;s tecnologias digitais. Se o objetivo &eacute; o lucro e se o lucro est&aacute; na produ&ccedil;&atilde;o e programa&ccedil;&atilde;o de conte&uacute;dos, a apropria&ccedil;&atilde;o desse lucro s&oacute; &eacute; poss&iacute;vel atrav&eacute;s de um novo modelo de neg&oacute;cios, baseado na assinatura ou no pagamento direto por servi&ccedil;o (pay per view).<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span class=\"padrao\">A&iacute; entram as teles: elas controlam a bilheteria de acesso aos &ldquo;jardins&rdquo;. N&atilde;o &eacute; somente Oi ou Telef&ocirc;nica. As operadoras de celular est&atilde;o vendendo conte&uacute;do e somente conte&uacute;do, elas n&atilde;o prestam mais um mero servi&ccedil;o telef&ocirc;nico. No entanto, s&atilde;o reguladas como operadoras de telecomunica&ccedil;&otilde;es, n&atilde;o como provedoras de audiovisual. O problema dos radiodifusores &eacute; a amea&ccedil;a de migra&ccedil;&atilde;o da audi&ecirc;ncia, da TV aberta para a TV por assinatura e internet.<\/p>\n<p>O que acontece em todo o mundo mostra que essa TV aberta, generalista, que foi dominante na maior parte do s&eacute;culo passado, est&aacute; em decad&ecirc;ncia. No entanto, esse sistema, porque se apoiava num recurso escasso, era definido como servi&ccedil;o p&uacute;blico, era publicamente regulado, dava ao Estado e &agrave; sociedade, nem que fosse teoricamente, um certo poder para influenciar nas elabora&ccedil;&atilde;o de regras, inclusive regras quanto &agrave; miss&atilde;o cultural e educacional dos produtores e programadores. Por isso, temos os artigos da nossa Constitui&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>J&aacute; os &ldquo;jardins murados&rdquo; s&atilde;o completamente controlados pelo capital financeiro. S&atilde;o vistos como investimento privado e externo a controles p&uacute;blicos. Assim, todos os princ&iacute;pios culturais, educacionais, &eacute;ticos que devem condicionar a produ&ccedil;&atilde;o e programa&ccedil;&atilde;o de conte&uacute;dos deixam de estar subordinados a qualquer regula&ccedil;&atilde;o p&uacute;blica. Isso virou um neg&oacute;cio exclusivamente privado. Se o movimento popular e democr&aacute;tico quiser intervir nessa situa&ccedil;&atilde;o tem que denunciar essa l&oacute;gica e propor normas alternativas. Este &eacute; o nosso grande desafio. A cultura, a produ&ccedil;&atilde;o audiovisual e o entretenimento precisam continuar a ser regulados por crit&eacute;rios p&uacute;blicos, n&atilde;o importa se nos sete canais do VHF ou nos 300 canais do sat&eacute;lite.<\/p>\n<p><strong>Qual seria ent&atilde;o, a principal bandeira?<\/strong><br \/>A minha proposta, considerando a atual correla&ccedil;&atilde;o de for&ccedil;as, &eacute; estabelecer uma r&iacute;gida separa&ccedil;&atilde;o entre quem transporta o sinal e quem produz ou programa o conte&uacute;do. &Eacute; at&eacute; poss&iacute;vel defender isso porque &eacute; algo parecido com o modelo ingl&ecirc;s e da maior parte dos pa&iacute;ses europeus. Na Gr&atilde;-Bretanha, a BBC n&atilde;o &eacute; &ldquo;dona&rdquo; da frequ&ecirc;ncia de transmiss&atilde;o. A transmiss&atilde;o &eacute; feita por uma empresa operadora, contratada por licita&ccedil;&atilde;o, de nome Crown Castle.<\/p>\n<p>Essa separa&ccedil;&atilde;o, tanto no ar, quanto no cabo ou no sat&eacute;lite, permite que voc&ecirc; defina regras assegurando o uso das vias tamb&eacute;m pelos produtores p&uacute;blico-estatais e pelos demais agentes n&atilde;o-comerciais (sindicatos, associa&ccedil;&otilde;es comunit&aacute;rias, etc.). E permite multiplicar as vias para os canais comerciais, abrindo espa&ccedil;o tamb&eacute;m para pequenos neg&oacute;cios regionais e locais. Na outra ponta, a produ&ccedil;&atilde;o e a programa&ccedil;&atilde;o poder&atilde;o ser alvo de regula&ccedil;&atilde;o pr&oacute;pria, nelas aplicando-se os princ&iacute;pios da nossa Constitui&ccedil;&atilde;o. Trata-se de acabar com essa divis&atilde;o &ldquo;radiodifus&atilde;o&rdquo;\/&ldquo;telecomunica&ccedil;&otilde;es&rdquo;, introduzindo outra, mais adequada aos novos tempos, &ldquo;conte&uacute;do&rdquo;\/&ldquo;continente&rdquo;.<\/p>\n<p><strong>O Minist&eacute;rio das Comunica&ccedil;&otilde;es vem dando grande destaque ao Plano Nacional de Banda Larga. Do que at&eacute; agora tem sido divulgado, qual sua opini&atilde;o sobre o PNBL?<\/strong><br \/>Com todo o respeito ao C&eacute;sar Alvarez (secret&aacute;rio-executivo do Minist&eacute;rio das Comunica&ccedil;&otilde;es e um dos principais formuladores do PNBL) e ao Rog&eacute;rio Santana (presidente da Telebr&aacute;s), eu tenho sido um cr&iacute;tico desse plano. N&atilde;o somente porque 512 kbps n&atilde;o &eacute; verdadeiramente banda larga. &Eacute; a sua pr&oacute;pria concep&ccedil;&atilde;o que eu critico. Vai se repetir a&iacute; o que j&aacute; acontece em outros servi&ccedil;os, no Brasil: uma solu&ccedil;&atilde;o ruim para os pobres e outra, mais ou menos boa, para quem pode pagar. &Eacute; a mesma coisa na educa&ccedil;&atilde;o, na sa&uacute;de&#8230; Quem puder pagar para ter a banda larga da Oi, da Telef&ocirc;nica, da Net, da TIM, vai continuar pagando, quem n&atilde;o puder, mas tiver pelo menos 30 reais sobrando por m&ecirc;s, contente-se com 512 kbps.<\/p>\n<p>Precisamos entender que a banda larga, por ar, cabo ou sat&eacute;lite ser&aacute; a futura infraestrutura de comunica&ccedil;&atilde;o. O telefone de par tran&ccedil;ado, o telefone fixo que s&oacute; serve para voz ou fax, vai desaparecer daqui a pouco. Pela banda larga vai passar internet e televis&atilde;o digital. Por isso, essa infraestrutura precisa ser universalizada. Isto n&atilde;o &eacute; o mesmo que massificar. Massificar significa estender o servi&ccedil;o ao m&aacute;ximo para quem pode pagar. Universalizar &eacute; determinar que, ao cabo de um certo per&iacute;odo de tempo, digamos cinco anos, dez anos, com investimento p&uacute;blico ou privado, dentro de um cronograma de m&eacute;dio e longo prazos, todos e todas ter&atilde;o direito &agrave; banda larga, conforme um determinado padr&atilde;o de qualidade e por um certo pre&ccedil;o regulado.<\/p>\n<p>O governo, nos termos da lei atual, precisaria criar um servi&ccedil;o em regime p&uacute;blico. A Confer&ecirc;ncia Nacional de Comunica&ccedil;&otilde;es defendeu isso, com voto at&eacute; do empresariado. At&eacute; do ponto de vista pol&iacute;tico-filos&oacute;fico, trata-se de resgatar o princ&iacute;pio do servi&ccedil;o p&uacute;blico, como eu discuti mais em cima. &Eacute; isso que se espera de um governo de esquerda.<\/p>\n<p><strong>Como voc&ecirc; v&ecirc; o desenvolvimento futuro de uma m&iacute;dia contra-hegem&ocirc;nica?<\/strong><br \/>Voc&ecirc; est&aacute; falando de imprensa ou de &ldquo;m&iacute;dia&rdquo;? Se &ldquo;m&iacute;dia&rdquo;, isto engloba not&iacute;cia, cultura, entretenimento, etc. Voc&ecirc; quer um jornal para ser lido somente pela vanguarda, ou que tenha express&atilde;o na massa? Voc&ecirc; quer um canal de TV que nem quem faz assiste, ou um canal para qualquer dona de casa assistir? A &uacute;nica vez que o nosso pa&iacute;s contou com um poderoso jornal contra-hegem&ocirc;nico foi no governo Get&uacute;lio Vargas, que bancou a &Uacute;ltima Hora. Como tinha dinheiro, a &Uacute;ltima Hora p&ocirc;de contratar os melhores profissionais da &eacute;poca.<\/p>\n<p>&Uacute;ltima Hora era um jornal igual aos outros: tinha esportes, pol&iacute;cia, espet&aacute;culos, coluna social, coluna de mulher &ldquo;boa&rdquo; (que fez a fama do Stanislaw Ponte Preta), tudo o que um jornal tem que ter para atrair o leitor comum, o leitor que n&atilde;o p&otilde;e a pol&iacute;tica no primeiro lugar das suas preocupa&ccedil;&otilde;es, exceto em dia de elei&ccedil;&otilde;es. Sem preconceitos. Ou com todos os preconceitos, se quiserem&#8230; (risos) Como era muito bem feito, foi um sucesso. Alcan&ccedil;ou tiragens maiores do que os outros grandes jornais da &eacute;poca. Entretanto, o seu notici&aacute;rio &ldquo;s&eacute;rio&rdquo;, vamos dizer assim, destoava do resto.<\/p>\n<p>Na pol&iacute;tica e na economia (esta, &agrave; &eacute;poca, pouco importante no jornalismo), dava destaque para as not&iacute;cias que interessavam ao governo e &agrave;s for&ccedil;as que o apoiavam. Suas manchetes, t&iacute;tulos e lides, ou seja a t&eacute;cnica jornal&iacute;stica, eram usados para valorizar o que o restante da imprensa queria desvalorizar, para noticiar o que o restante da imprensa gostaria de esconder.<\/p>\n<p>No entanto, apesar da sua enorme audi&ecirc;ncia, logo influ&ecirc;ncia na forma&ccedil;&atilde;o da opini&atilde;o p&uacute;blica, o jornal nunca foi um sucesso financeiro. Os grandes anunciantes o boicotavam. Sempre dependeu do apoio do governo e de alguns empres&aacute;rios que sustentavam a pol&iacute;tica de Vargas. Com o golpe de 1964, n&atilde;o demoraria a acabar. Talvez, hoje, com um governo de esquerda e, al&eacute;m disso, com os recursos que os sindicatos possuem, al&eacute;m de algumas alian&ccedil;as empresariais que podem ser feitas, talvez fosse poss&iacute;vel edificar um jornal assim, ou melhor, um canal de TV assim, ou melhor ainda, um portal de internet assim, ou at&eacute; tudo ao mesmo tempo, agora. No entanto, considerando as pr&aacute;ticas corporativas dominantes, a mesquinharia da pequena pol&iacute;tica, o amadorismo, n&atilde;o vislumbro muito essa possibilidade no Brasil atual.<\/p>\n<p>Vamos ter que continuar convivendo com jornais, revistas, s&iacute;tios de internet feitos por n&oacute;s para n&oacute;s mesmos. Alguns at&eacute; s&atilde;o bons, mas mesmo estes s&atilde;o mais opinativos do que informativos. O cidad&atilde;o comum quer informa&ccedil;&atilde;o, mesmo que com algum tempero de opini&atilde;o. Pode ser informa&ccedil;&atilde;o sobre a reuni&atilde;o ministerial de ontem, sobre o treino do Ronaldinho, sobre o pared&atilde;o do BBB (arghh!!) ou sobre uma boa receita para o almo&ccedil;o de domingo, sem falar de filmes e espet&aacute;culos em cartaz. &Eacute; informa&ccedil;&atilde;o que vende jornal, atrai audi&ecirc;ncia para a TV. Se quisermos construir uma m&iacute;dia alternativa, temos que perder essa mania de ter opini&atilde;o formada sobre tudo&#8230; (risos)<\/p>\n<p><strong>Para terminar, Dilma vai ou n&atilde;o enfrentar a m&iacute;dia hegem&ocirc;nica?<\/strong><br \/>Coragem ela tem. &Eacute; determinada, racional. Mas, no governo, sabemos que pode n&atilde;o ser interessante acirrar os &acirc;nimos, muito menos agora, quando ela mal come&ccedil;ou. Ela precisa de certa estabilidade. E precisa de apoio pol&iacute;tico. Na Argentina, Cristina Kirchner p&ocirc;de fazer uma nova lei democr&aacute;tica, n&atilde;o porque vivia &agrave;s turras com El Clarin, mas porque tinha povo na rua (eu disse, na rua, n&atilde;o no Twitter) e maioria real, n&atilde;o fisiol&oacute;gica, no Parlamento. Penso que a presidenta n&atilde;o colocou Paulo Bernardo no Minist&eacute;rio das Comunica&ccedil;&otilde;es, &agrave; toa.<\/p>\n<p>O governo ter&aacute; uma pol&iacute;tica de governo, n&atilde;o de ministro, como era no tempo de Lula. Quero acreditar que ela, com o seu ministro, vai conduzir um reordenamento muito importante nas comunica&ccedil;&otilde;es. O resultado vai depender de como o movimento popular vai conseguir intervir. Temos boas condi&ccedil;&otilde;es de formular propostas construtivas para ajudar o governo a enfrentar essa batalha mas, acho, que ainda falta melhor organiza&ccedil;&atilde;o no nosso campo.<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p><span class=\"padrao\">A sociedade est&aacute; passando por novas e grandes  mudan&ccedil;as pol&iacute;ticas, econ&ocirc;micas, tecnol&oacute;gicas, culturais, que n&atilde;o podem  ser atendidas por uma estrutura corporativa<br \/><\/span><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[43],"tags":[1491],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/25348"}],"collection":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=25348"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/25348\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=25348"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=25348"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=25348"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}