{"id":25290,"date":"2011-01-31T12:34:28","date_gmt":"2011-01-31T12:34:28","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=25290"},"modified":"2011-01-31T12:34:28","modified_gmt":"2011-01-31T12:34:28","slug":"por-que-e-como-se-limita-a-propriedade-cruzada","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=25290","title":{"rendered":"Por que e como se limita a propriedade cruzada"},"content":{"rendered":"<p class=\"padrao\">Na &uacute;ltima semana, o jornal O Estado de S.Paulo publicou uma mat&eacute;ria na  qual dizia que o governo havia desistido de estabelecer limites &agrave;  propriedade cruzada. Para quem n&atilde;o sabe, propriedade cruzada &eacute; quando o  mesmo grupo controla diferentes m&iacute;dias, como TV, r&aacute;dios e jornais. Na  maior parte das democracias consolidadas, h&aacute; limites a essa pr&aacute;tica por  se considerar que ela afeta a diversidade informativa. No Brasil, n&atilde;o  existem limites, e justamente por isso esse &eacute; um dos temas em pauta no  debate sobre uma nova lei para os servi&ccedil;os de comunica&ccedil;&atilde;o audiovisual.<\/p>\n<p>Aparentemente n&atilde;o foi bem isso que o ministro Paulo Bernardo afirmou, o  que significa que o jornal resolveu dizer o n&atilde;o dito por conta pr&oacute;pria.  Curioso &eacute; que o mesmo jornal afirma regularmente ser a favor de medidas  anticoncentra&ccedil;&atilde;o da m&iacute;dia. Seria ent&atilde;o um alerta &agrave;s for&ccedil;as democr&aacute;ticas?  Durante o &uacute;ltimo processo eleitoral, o Estad&atilde;o declarou em editorial  estar &ldquo;de pleno acordo&rdquo; com a necessidade de se discutir os limites &agrave;  propriedade cruzada. E ainda: &ldquo;n&atilde;o &eacute; de hoje que o Estado critica a  concentra&ccedil;&atilde;o da propriedade na m&iacute;dia e as facilidades para que um  punhado de grupos econ&ocirc;micos controle, numa mesma pra&ccedil;a, emissoras e  publica&ccedil;&otilde;es&rdquo;.<\/p>\n<p>Em 2003, o jornal fez mais de um editorial criticando a &ldquo;carteliza&ccedil;&atilde;o da  m&iacute;dia&rdquo; nos EUA, que iria surgir como resultado de medidas propostas  pela FCC (Federal Communications Commission), &oacute;rg&atilde;o regulador das  comunica&ccedil;&otilde;es por l&aacute;. Aquele processo (e a revis&atilde;o seguinte, de 2007)  resultou num certo afrouxamento das regras norte-americanas, embora as  mudan&ccedil;as mais liberalizantes propostas pela FCC tenham sido barradas  pelo Poder Judici&aacute;rio e pelo Congresso &ndash; com votos contr&aacute;rios inclusive  dos republicanos &ndash;, ap&oacute;s uma grande mobiliza&ccedil;&atilde;o popular. Mas, afinal,  por que esses limites s&atilde;o t&atilde;o importantes a ponto de milh&otilde;es de pessoas,  em um pa&iacute;s ent&atilde;o governado por George W. Bush, terem se mobilizado para  defend&ecirc;-los?<\/p>\n<p><strong>Por qu&ecirc;<\/strong><\/p>\n<p>Historicamente, s&atilde;o duas as raz&otilde;es para se limitar a concentra&ccedil;&atilde;o de  propriedade nas comunica&ccedil;&otilde;es. A primeira &eacute; econ&ocirc;mica, e pode ser  entendida como tendo a mesma base das leis antitruste. A concentra&ccedil;&atilde;o em  qualquer setor &eacute; considerada prejudicial ao consumidor porque gera um  controle dos pre&ccedil;os e da qualidade da oferta por poucos agentes  econ&ocirc;micos, al&eacute;m de desestimular a inova&ccedil;&atilde;o. Em alguns mercados  entendidos como monop&oacute;lios naturais (como a de transmiss&atilde;o de energia,  de &aacute;gua ou telecomunica&ccedil;&otilde;es), a concentra&ccedil;&atilde;o &eacute; tolerada, mas para  combater seus efeitos s&atilde;o adotadas diversas medidas que evitam o  exerc&iacute;cio do &#39;poder de mercado significativo&#39; que tem aquela empresa.<\/p>\n<p>O segundo motivo tem mais a ver com quest&otilde;es sociais, pol&iacute;ticas e  culturais. Os meios de comunica&ccedil;&atilde;o s&atilde;o os principais espa&ccedil;os de  circula&ccedil;&atilde;o de ideias, valores e pontos de vista, e portanto s&atilde;o as  principais fontes dos cidad&atilde;os no processo di&aacute;rio de troca de informa&ccedil;&atilde;o  e cultura. Se este espa&ccedil;o n&atilde;o reflete a diversidade e a pluralidade de  determinada sociedade, uma parte das vis&otilde;es ou valores n&atilde;o circula, o  que &eacute; uma amea&ccedil;a &agrave; democracia. Assim, &eacute; preciso garantir pluralidade e  diversidade nas comunica&ccedil;&otilde;es para garantir a efetividade da democracia.<\/p>\n<p>Uma das maneiras mais efetivas de se conseguir pluralidade e diversidade  de conte&uacute;dos &eacute; garantindo que os meios de comunica&ccedil;&atilde;o estejam em m&atilde;os  de diferentes grupos, com diferentes interesses, que representem as  vis&otilde;es de diferentes segmentos da sociedade. Ainda que a pluralidade na  posse dos meios de comunica&ccedil;&atilde;o n&atilde;o reflita necessariamente a pluralidade  do conte&uacute;do veiculado, na maior parte dos exemplos estudados essa  correla&ccedil;&atilde;o &eacute; positiva, especialmente no tocante &agrave; diversidade de ideias e  pontos de vista (no caso da diversidade de tipos de programa, n&atilde;o  necessariamente).<\/p>\n<p><strong>Como<\/strong><\/p>\n<p>Limites &agrave; propriedade cruzada tem a ver fundamentalmente com essa  segunda justificativa. Pa&iacute;ses como Estados Unidos, Fran&ccedil;a e Reino Unido  adotam esses limites por entenderem que a concentra&ccedil;&atilde;o de vozes afeta  suas democracias. &Eacute; importante notar que nesses pa&iacute;ses esses limites s&atilde;o  antigos, mas t&ecirc;m sido revistos e, via de regra, mantidos &ndash; ainda que  relaxados, em alguns casos. Mesmo com todos os processos liberalizantes,  revis&otilde;es regulares de seus marcos regulat&oacute;rios e converg&ecirc;ncia  tecnol&oacute;gica, esses pa&iacute;ses seguem mantendo enxergando a propriedade  cruzada como um problema.<\/p>\n<p>O que aconteceu nas &uacute;ltimas d&eacute;cadas foi uma complexifica&ccedil;&atilde;o dos  crit&eacute;rios de an&aacute;lise adotados, incluindo alcance e audi&ecirc;ncia como  crit&eacute;rios definidores. Os Estados Unidos, por exemplo, tinham uma regra  cl&aacute;ssica de limite &agrave; concentra&ccedil;&atilde;o cruzada em &acirc;mbito local: nenhuma  emissora poderia ser dona de um jornal que circulasse na cidade em que ela atua.<\/p>\n<p>Essa regra foi levemente flexibilizada em 2007, quando se passou a levar  em conta o &iacute;ndice de audi&ecirc;ncia das emissoras e o n&uacute;mero de meios de  comunica&ccedil;&atilde;o independentes presentes naquela localidade. Mas essa  flexibiliza&ccedil;&atilde;o s&oacute; vale para as vinte maiores &aacute;reas de mercado dos EUA  (s&atilde;o 210 no total) e s&oacute; acontece se o canal de TV n&atilde;o est&aacute; entre os  quatro mais vistos e se restam pelo menos oito meios independentes. D&aacute;  para ver, portanto, que a flexibiliza&ccedil;&atilde;o &eacute; a exce&ccedil;&atilde;o, n&atilde;o a regra.<\/p>\n<p>Na Fran&ccedil;a, h&aacute; regras para propriedade cruzada em &acirc;mbito nacional e em  &acirc;mbito local. Em cada localidade, nenhuma pessoa pode deter ao mesmo  tempo licen&ccedil;as para TV, r&aacute;dio e jornal de circula&ccedil;&atilde;o geral distribu&iacute;dos  na &aacute;rea de alcance da TV ou da r&aacute;dio. No Reino Unido, nenhuma pessoa  pode adquirir uma licen&ccedil;a do Canal 3 (segundo maior canal de TV,  primeiro entre os canais privados) se ela det&eacute;m um ou mais jornais de  circula&ccedil;&atilde;o nacional que tenham juntos mais que 20% do mercado. Essa  regra vale tamb&eacute;m para o &acirc;mbito local. No caso brit&acirc;nico, h&aacute; outras  regras que utilizam um complexo sistema de pontua&ccedil;&atilde;o para sopesar o  impacto de licen&ccedil;as nacionais e locais de TV e r&aacute;dio e jornais de  circula&ccedil;&atilde;o local e nacional.<\/p>\n<p>Como se v&ecirc;, nem com as mais agressivas tentativas de liberaliza&ccedil;&atilde;o  conseguiu-se chegar perto da situa&ccedil;&atilde;o brasileira, que simplesmente n&atilde;o  prev&ecirc; limites &agrave; propriedade cruzada. Exemplos como o da Globo no Rio de  Janeiro, que controla a principal TV, as principais r&aacute;dios e o &uacute;nico  jornal da cidade voltado ao p&uacute;blico formador de opini&atilde;o (sem contar TV a  cabo, distribuidora de filmes etc.) s&atilde;o completamente impens&aacute;veis em  democracias avan&ccedil;adas. Assim, independentemente da f&oacute;rmula que ir&aacute;  adotar, se o Brasil quiser aprovar um novo marco regulat&oacute;rio para o  setor que seja de fato fortalecedor da diversidade informativa, e  portanto de nossa democracia, essa quest&atilde;o n&atilde;o pode estar ausente. A  despeito do que digam Estados e Globos.<\/p>\n<p class=\"padrao\">&nbsp;<\/p>\n<p class=\"padrao\"><em><strong>Jo&atilde;o Brant<\/strong>, <\/em><em>&eacute; coordenador do Intervozes &#8211; Coletivo Brasil de Comunica&ccedil;&atilde;o Social.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Na  maior parte das democracias consolidadas, h&aacute; limites a essa pr&aacute;tica por  se considerar que ela afeta a diversidade informativa<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[42],"tags":[363],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/25290"}],"collection":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=25290"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/25290\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=25290"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=25290"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=25290"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}