{"id":25209,"date":"2010-12-27T17:27:00","date_gmt":"2010-12-27T17:27:00","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=25209"},"modified":"2010-12-27T17:27:00","modified_gmt":"2010-12-27T17:27:00","slug":"o-globo-distorce-wikileaks-para-atacar-reforma-agraria","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=25209","title":{"rendered":"&#8216;O Globo&#8217; distorce Wikileaks para atacar Reforma Agr\u00e1ria"},"content":{"rendered":"<p class=\"padrao\">O professor Clifford Andrew Welch, do curso de hist&oacute;ria da Universidade Federal de S&atilde;o Paulo (Unifesp), foi citado como fonte das informa&ccedil;&otilde;es de telegramas remetidos por diplomatas estadunidenses no Brasil aos Estados Unidos, divulgados pelo Wikileaks.<\/p>\n<p><span class=\"padrao\"><a href=\"http:\/\/oglobo.globo.com\/mundo\/mat\/2010\/12\/18\/mst-teria-espioes-no-incra-para-orientar-invasoes-revelam-telegramas-vazados-pelo-wikileaks-923322955.asp\" target=\"_blank\">O jornal O Globo publicou uma reportagem sobre esses telegramas<\/a>, no domingo passado (19\/12), dando destaque a exist&ecirc;ncia de espi&otilde;es do MST dentro do Incra e sobre uma suposta pr&aacute;tica dos assentados &ldquo;de alugar a terra de novo ao agroneg&oacute;cio&rdquo;.<\/span><\/p>\n<p><span class=\"padrao\">&ldquo;Nunca falei e jamais falaria algo assim. No primeiro lugar, a palavra &lsquo;espi&atilde;o&rsquo; &eacute; inven&ccedil;&atilde;o do Globo, porque n&atilde;o aparece nos relatos diplom&aacute;ticos disponibilizados pelos jornais&rdquo;, denuncia Welch.<\/span><\/p>\n<p><span class=\"padrao\">Em rela&ccedil;&atilde;o ao aluguel de &aacute;reas de assentados ao agroneg&oacute;cio, o professor da Unifesp destaca que a coordena&ccedil;&atilde;o nacional do MST &eacute; declaradamente contra a pr&aacute;tica e que a declara&ccedil;&atilde;o aparece sem contextualiza&ccedil;&atilde;o.<\/span><\/p>\n<p><span class=\"padrao\">&ldquo;Fora de contexto, assim como apresentado no despacho diplom&aacute;tico, o aluguel dos lotes parece ser de fato &ldquo;c&iacute;nico e ir&ocirc;nico.&rdquo; O relat&oacute;rio n&atilde;o contempla a press&atilde;o das usinas nos assentados, com oferta de dinheiro f&aacute;cil para o plantio da cana de a&ccedil;&uacute;car, que tem causado muitos problemas aos assentados, como demonstram v&aacute;rias pesquisas realizadas pela Unesp&rdquo;, pontua.<\/span><\/p>\n<p><span class=\"padrao\">Welch rebate tamb&eacute;m a tese de que os movimentos de sem-terra, especialmente o MST, entraram em decl&iacute;nio durante os oito anos do governo Lula, apresentando dados que demonstram que no caso das ocupa&ccedil;&otilde;es de terras e do n&uacute;mero de fam&iacute;lias envolvidas na luta pela terra, as estat&iacute;sticas dos governos FHC e Lula se equivalem.<\/span><\/p>\n<p><span class=\"padrao\">&ldquo;Durante os oito anos do governo Cardoso, 571.650 fam&iacute;lias participaram em 3.876 ocupa&ccedil;&otilde;es organizadas por mais que 20 movimentos. Os n&uacute;meros do governo Lula ainda n&atilde;o foram calculados totalmente, mas durante os primeiros sete anos, s&atilde;o registrados a participa&ccedil;&atilde;o de 480.214 fam&iacute;lias em 3.621 ocupa&ccedil;&otilde;es&rdquo;.<\/span><\/p>\n<p><span class=\"padrao\">Abaixo, leia esclarecimento do professor.<\/span><\/p>\n<p class=\"padrao\">&nbsp;<\/p>\n<p class=\"padrao\"><strong>Wikileaks, a imprensa, o MST e eu<\/strong><\/p>\n<p><span class=\"padrao\"><em>Por Clifford Andrew Welch<br \/>Prof. Dr. Ajunto do Curso de Hist&oacute;ria <br \/>da Universidade Federal de S&atilde;o Paulo<\/em><\/span><\/p>\n<p><span class=\"padrao\">Demorou. Em abril de 2007, pedi pessoalmente uma c&oacute;pia do relat&oacute;rio do investigador dos Estados Unidos da Am&eacute;rica que me entrevistou sobre o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). Pedi de novo por email em setembro, mas nem resposta recebi, muito menos o documento.<\/span><\/p>\n<p><span class=\"padrao\">Foi o grupo Wikileaks que recentemente revelou os resultados dos andamentos do agente estadunidense no Pontal do Paranapanema, S&atilde;o Paulo, e meu nome estava no meio das reportagens que sa&iacute;ram nos jornais nos dias 19 e 20 do m&ecirc;s atual.<\/span><\/p>\n<p><span class=\"padrao\">Como coordenador ajunto do N&uacute;cleo de Estudos, Pesquisas e Projetos de Reforma Agr&aacute;ria (Nera) da Universidade Estadual Paulista (Unesp) em abril de 2009, confesso que estava pouco animado com a visita do Vice Consul Benjamin A. LeRoy do Consulado Geral dos EUA, em S&atilde;o Paulo, quando nos pediu uma hora para &ldquo;conhecer o trabalho do Nera e aprender um pouco mais sobre reforma agr&aacute;ria e movimentos sociais de sem-terra,&rdquo; como nos escreveu a assistente de assuntos pol&iacute;ticos do consulado, Arlete Salvador.<\/span><\/p>\n<p><span class=\"padrao\">Como historiador especializado em estudos da pol&iacute;tica externa dos EUA na Am&eacute;rica Latina, j&aacute; conhecia figuras como LeRoy e seus relat&oacute;rios. Eram fontes importantes para entender a natureza da interfer&ecirc;ncia do imp&eacute;rio em sua esfera de influ&ecirc;ncia.&nbsp; Agora o disco virou e era eu a fonte. Fiquei assustado com os erros do relat&oacute;rio de Benjamin, a distor&ccedil;&atilde;o dos fatos interpretados pelo c&ocirc;nsul-geral Thomas White e, mais uma vez, preocupado com o m&eacute;todo emp&iacute;rico do historiador, que depende demais em documentos oficiais e notas jornal&iacute;sticas. <\/span><\/p>\n<p><span class=\"padrao\">Faz sentido confiar em um investigador que nem sabe onde estava ou com quem estava falando? O despacho que relata a investiga&ccedil;&atilde;o de Benjamin usa a sigla Uneste no lugar da sigla Unesp e d&aacute; como a minha afilia&ccedil;&atilde;o institucional a Universidade de Michigan, ambas afirma&ccedil;&otilde;es equivocadas.<\/span><\/p>\n<p><span class=\"padrao\">Pior, ainda, &eacute; a fala atribu&iacute;da a mim por Benjamin e relatado pelo White que ficou como manchete no Globo: &ldquo;MST teria espi&otilde;es no Incra para orientar invas&otilde;es&rdquo;. Nunca falei e jamais falaria algo assim. No primeiro lugar, a palavra &ldquo;espi&atilde;o&rdquo; &eacute; inven&ccedil;&atilde;o do Globo, porque n&atilde;o aparece nos relatos diplom&aacute;ticos disponibilizados pelos jornais.<\/span><\/p>\n<p><span class=\"padrao\">No &ldquo;telegrama&rdquo; em quest&atilde;o de 29 de maio, White escreveu que &ldquo;O MST segue uma metodologia programada em suas ocupa&ccedil;&otilde;es de terra que inclui a utiliza&ccedil;&atilde;o de contatos dentro do Incra para ajudar selecionar alvos, segundo [&#8230;] Welch.&rdquo; <\/span><\/p>\n<p><span class=\"padrao\">Em outro momento, o c&ocirc;nsul relata que eu o informei de que &ldquo;o MST aproveita contatos dentro do Incra para determinar qual ser&aacute; a pr&oacute;xima &aacute;rea sujeito a desapropria&ccedil;&atilde;o.&rdquo;&nbsp; Segundo o relato, &ldquo;Welch contou para Benjamin que o Incra n&atilde;o disponibiliza as informa&ccedil;&otilde;es ao p&uacute;blico e que o &uacute;nico jeito para o MST acessar os dados seria atrav&eacute;s de informantes dentro do Incra.&rdquo;<\/span><\/p>\n<p><span class=\"padrao\">O jeito como o c&ocirc;nsul interpretou o relato de Benjamin de coisas que n&atilde;o falei sobre as rela&ccedil;&otilde;es entre o MST e o Incra reflete mais do macartismo que a realidade do Brasil. Macartismo &eacute; a ideologia do &ldquo;medo vermelho&rdquo; que causou alarme nos EUA nos meados do s&eacute;culo passado quando foi alegado que espi&otilde;es russos infiltrados no setor p&uacute;blico estavam minando a seguran&ccedil;a nacional do pa&iacute;s.<\/span><\/p>\n<p><span class=\"padrao\">A atual situa&ccedil;&atilde;o no Brasil n&atilde;o tem nada ver com a Guerra Fria, obviamente. O dever constitucional do Incra &eacute; fazer reforma agr&aacute;ria. O MST procura pressionar para que o Incra realize a reforma agr&aacute;ria.<\/span><\/p>\n<p><span class=\"padrao\">&Eacute; bom lembrar, como falei para o Benjamin, que as informa&ccedil;&otilde;es do Incra s&atilde;o p&uacute;blicas para todo mundo. Me lembro que tentei explicar para o Benjamin que a maioria das ocupa&ccedil;&otilde;es do MST n&atilde;o foram realizadas em maneira aleat&oacute;ria, mas a partir de &aacute;reas com desapropria&ccedil;&atilde;o em andamento. Quer dizer, o movimento faz esfor&ccedil;o para colaborar com o processo constitucional de identifica&ccedil;&atilde;o de terras improdutivas ou sujeito a desapropria&ccedil;&atilde;o por violar as leis trabalhistas ou ambientalistas. &Eacute; o c&ocirc;nsul que inventou um sentido de clandestinidade.<\/span><\/p>\n<p><span class=\"padrao\">No mesmo documento de abril, que tem o titulo &ldquo;O m&eacute;todo do MST: Tira proveito do governo, alienar os vizinhos,&rdquo; o c&ocirc;nsul toma vantagem da investiga&ccedil;&atilde;o do Benjamin para alegar que membros do MST que ganham lotes de reforma agr&aacute;ria do Incra v&atilde;o acabar &ldquo;alugando ao agroneg&oacute;cio&rdquo; a terra &ldquo;numa pratica c&iacute;nica e ir&ocirc;nica.&rdquo; A fonte para esta informa&ccedil;&atilde;o parece ter sido &ldquo;um l&iacute;der do agroneg&oacute;cio&rdquo; em Presidente Prudente. <\/span><\/p>\n<p><span class=\"padrao\">Fora de contexto, assim como apresentado no despacho diplom&aacute;tico, o aluguel dos lotes parece ser de fato &ldquo;c&iacute;nico e ir&ocirc;nico.&rdquo;<\/span><\/p>\n<p><span class=\"padrao\"><br \/>O relat&oacute;rio n&atilde;o contempla a press&atilde;o das usinas nos assentados, com oferta de dinheiro f&aacute;cil para o plantio da cana de a&ccedil;&uacute;car, que tem causado muitos problemas aos assentados, como demonstram v&aacute;rias pesquisas realizadas pela UNESP. A coordena&ccedil;&atilde;o nacional do MST &eacute; declaradamente contra a pr&aacute;tica.<\/span><\/p>\n<p><span class=\"padrao\">S&atilde;o outros erros de fato e interpreta&ccedil;&atilde;o nos documentos e noticias. A Folha aproveitou o esvaziamento dos documentos para alegar que o MST est&aacute; em &ldquo;decl&iacute;nio,&rdquo; que a &ldquo;base do movimento encolheu.&rdquo; O Globo d&aacute; destaque para um suposto abandonou da causa da luta pela terra pelo presidente Lula, uma interpreta&ccedil;&atilde;o que apare&ccedil;a nos telegramas do White. <\/span><\/p>\n<p><span class=\"padrao\">Por&eacute;m, &eacute; dif&iacute;cil sustentar estes argumentos. De fato, os c&aacute;lculos das estat&iacute;sticas do governo Lula bem como os do Nera sustentam o contr&aacute;rio, mostrando de que Lula assentou mais fam&iacute;lias que o presidente Fernando Henrique Cardoso que declarou ter feito mais para reforma agr&aacute;ria que qualquer outro presidente brasileiro, mas o governo Lula defende que assentou 59 por cento dos benefici&aacute;rios de reforma agr&aacute;ria na hist&oacute;ria do Brasil.<\/span><\/p>\n<p><span class=\"padrao\">No caso das ocupa&ccedil;&otilde;es de terras e o n&uacute;mero de fam&iacute;lias envolvidas na luta pela terra, as estat&iacute;sticas s&atilde;o quase iguais. Durante os oito anos do governo Cardoso, 571.650 fam&iacute;lias participaram em 3.876 ocupa&ccedil;&otilde;es organizadas por mais que 20 movimentos. Os n&uacute;meros do governo Lula ainda n&atilde;o foram calculados totalmente, mas durante os primeiros sete anos, s&atilde;o registrados a participa&ccedil;&atilde;o de 480.214 fam&iacute;lias em 3.621 ocupa&ccedil;&otilde;es.<\/span><\/p>\n<p><span class=\"padrao\">Temos que agradecer Wikileaks por quebrar o sigilo que ainda reina nos c&iacute;rculos diplom&aacute;ticos d&eacute;cadas depois do final da Guerra Fria. Em meu caso, deu para desmentir fatos equivocados e desconstruir interpreta&ccedil;&otilde;es anacr&ocirc;nicas, inclusive das reportagens da grande imprensa.<br \/><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O professor Clifford Andrew Welch, do curso de hist&oacute;ria da Universidade Federal de S&atilde;o Paulo (Unifesp), foi citado como fonte das informa&ccedil;&otilde;es de telegramas remetidos por diplomatas estadunidenses no Brasil aos Estados Unidos, divulgados pelo Wikileaks. 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