{"id":25184,"date":"2010-12-14T13:17:41","date_gmt":"2010-12-14T13:17:41","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=25184"},"modified":"2010-12-14T13:17:41","modified_gmt":"2010-12-14T13:17:41","slug":"wikiliquidacao-do-imperio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=25184","title":{"rendered":"Wikiliquida\u00e7\u00e3o do Imp\u00e9rio?"},"content":{"rendered":"<p><span class=\"padrao\">A divulga&ccedil;&atilde;o de centenas de milhares de documentos confidenciais, diplom&aacute;ticos e militares, pela Wikileaks acrescenta uma nova dimens&atilde;o ao aprofundamento contradit&oacute;rio da globaliza&ccedil;&atilde;o. A revela&ccedil;&atilde;o, num curto per&iacute;odo, n&atilde;o s&oacute; de&nbsp; documenta&ccedil;&atilde;o que se sabia existir mas a que durante muito tempo foi negado o acesso p&uacute;blico por parte de quem a detinha, como tamb&eacute;m de documenta&ccedil;&atilde;o que ningu&eacute;m sonhava existir, dramatiza os efeitos da revolu&ccedil;&atilde;o das tecnologias de informa&ccedil;&atilde;o (RTI) e obriga a repensar a natureza dos poderes globais que nos (des)governam e as resist&ecirc;ncias que os podem desafiar. O questionamento deve ser t&atilde;o profundo que incluir&aacute; a pr&oacute;pria Wikileaks: &eacute; que nem tudo &eacute; transparente na orgia de transpar&ecirc;ncia que a Wikileaks nos oferece.<\/span><span class=\"padrao\"><\/p>\n<p>A revela&ccedil;&atilde;o &eacute; t&atilde;o&nbsp; impressionante pela tecnologia como pelo conte&uacute;do. A t&iacute;tulo de exemplo, ouvimos horrorizados este di&aacute;logo &ndash; Good shooting. Thank you &ndash; enquanto caem por terra jornalistas da Reuters e crian&ccedil;as a caminho do col&eacute;gio, ou seja, enquanto se cometem crimes contra a humanidade. Ficamos a saber que o Ir&atilde;o &eacute; consensualmente uma amea&ccedil;a nuclear para os seus vizinhos e que, portanto, est&aacute; apenas por decidir quem vai atacar primeiro, se os EUA ou Israel. Que a grande multinacional famac&ecirc;utica, Pfizer, com a coniv&ecirc;ncia da embaixada dos EUA na Nig&eacute;ria, procurou fazer chantagem com o Procurador-Geral deste pa&iacute;s para evitar pagar indemniza&ccedil;&otilde;es pelo uso experimental indevido de drogas que mataram crian&ccedil;as. Que os EUA fizeram press&otilde;es ileg&iacute;timas sobre pa&iacute;ses pobres para os obrigar a assinar a declara&ccedil;&atilde;o n&atilde;o oficial da Confer&ecirc;ncia da Mudan&ccedil;a Clim&aacute;tica de Dezembro passado em Copenhaga, de modo a poderem continuar a dominar o mundo com base na polui&ccedil;&atilde;o causada pela economia do petr&oacute;leo barato. Que Mo&ccedil;ambique n&atilde;o &eacute; um Estado-narco totalmente corrupto mas pode correr o risco de o vir a ser. Que no &ldquo;plano de pacifica&ccedil;&atilde;o das favelas&rdquo; do Rio de Janeiro se est&aacute; a aplicar a doutrina da contra-insurg&ecirc;ncia desenhada pelos EUA para o Iraque e Afeganist&atilde;o, ou seja, que se est&atilde;o a usar contra um &ldquo;inimigo interno&rdquo; as t&aacute;cticas usadas contra um &ldquo;inimigo externo&rdquo;. Que o irm&atilde;o do &ldquo;salvador&rdquo; do Afeganist&atilde;o, Hamid Karzai, &eacute; um importante traficante de &oacute;pio. Etc., etc, num quarto de milh&atilde;o de documentos.<\/span><span class=\"padrao\"><\/p>\n<p>Ir&aacute; o mundo mudar depois destas revela&ccedil;&otilde;es?&nbsp; A quest&atilde;o &eacute; saber qual das globaliza&ccedil;&otilde;es em confronto&mdash;a globaliza&ccedil;&atilde;o hegem&oacute;nica do capitalismo ou a globaliza&ccedil;&atilde;o contra-hegem&oacute;nica dos movimentos sociais em luta por um outro mundo poss&iacute;vel&mdash;ir&aacute; beneficiar mais com as fugas de informa&ccedil;&atilde;o. &Eacute; previsivel que o poder imperial dos EUA aprenda mais rapidamente as li&ccedil;&otilde;es da Wikileaks que os movimentos e partidos que se lhe op&otilde;em em diferentes partes do mundo. Est&aacute; j&aacute; em marcha uma nova onda de&nbsp; direito penal imperial, leis &ldquo;anti-terroristas&rdquo; para tentar dissuadir os diferentes &ldquo;piratas&rdquo; inform&aacute;ticos (hackers), bem como novas t&eacute;cnicas para tornar o poder wikiseguro. Mas, &agrave; primeira vista, a Wikileaks tem maior potencial para favorecer as for&ccedil;as democr&aacute;ticas e anti-capitalistas. Para que esse potencial se concretize s&atilde;o necess&aacute;rias duas condi&ccedil;&otilde;es: processar o novo conhecimento adequadamente e transform&aacute;-lo em novas raz&otilde;es para mobiliza&ccedil;&atilde;o.<\/span><span class=\"padrao\"><\/p>\n<p>Quanto &agrave; primeira condi&ccedil;&atilde;o, j&aacute; sab&iacute;amos que os poderes pol&iacute;ticos e econ&oacute;micos globais mentem quando fazem apelos aos direitos humanos e &agrave; democracia, pois que o seu objectivo exclusivo &eacute; consolidar o dom&iacute;nio que t&ecirc;m sobre as nossas vidas, n&atilde;o hesitando em usar, para isso, os m&eacute;todos fascistas mais violentos. Tudo est&aacute; a ser comprovado, e muito para al&eacute;m do que os mais avisados poderiam admitir. O maior conhecimento cria exig&ecirc;ncias novas de an&aacute;lise e de divulga&ccedil;&atilde;o. Em primeiro lugar, &eacute; necess&aacute;rio dar a conhecer a dist&acirc;ncia que existe entre a autenticidade dos documentos e veracidade do que afirmam. Por exemplo, que o Ir&atilde;o seja uma amea&ccedil;a nuclear s&oacute; &eacute; &ldquo;verdade&rdquo; para os maus diplomatas que, ao contr&aacute;rio dos bons,&nbsp; informam os seus governos sobre o que estes gostam de ouvir e n&atilde;o sobre a realidade dos factos. Do mesmo modo, que a t&aacute;ctica norte-americana da contra-insurg&ecirc;ncia esteja a ser usada nas favelas &eacute; opini&atilde;o do Consulado Geral dos EUA no Rio. Compete aos cidad&atilde;os interpelar o governo nacional, estadual e municipal sobre a veracidade desta opini&atilde;o. Tal como compete aos tribunais mo&ccedil;ambicanos averiguar a alegada corrup&ccedil;&atilde;o no pa&iacute;s. O importante &eacute; sabermos divulgar que muitas das decis&otilde;es de que pode resultar a morte de milhares de pessoas e o sofrimento de milh&otilde;es s&atilde;o tomadas com base&nbsp; em mentiras e criar a revolta organizada contra tal estado de coisas.<\/span><span class=\"padrao\"><\/p>\n<p>Ainda no dom&iacute;nio do processamento do conhecimento, ser&aacute; cada vez mais crucial fazermos&nbsp; o que chamo uma sociologia das aus&ecirc;ncias: o que n&atilde;o &eacute; divulgado quando aparentemente tudo &eacute; divulgado. Por exemplo, resulta muito estranho que Israel, um dos pa&iacute;ses que mais poderia temer as revela&ccedil;&otilde;es devido &agrave;s atrocidades que tem cometido contra o povo palestiniano, esteja t&atilde;o ausente dos documentos confidenciais. H&aacute; a suspeita fundada de que foram eliminados por acordo entre Israel e Julian Assange. Isto significa que vamos precisar de uma Wikileaks alternativa ainda mais transparente. Talvez j&aacute; esteja em curso a sua cria&ccedil;&atilde;o.<\/span><span class=\"padrao\"><\/p>\n<p>A segunda condi&ccedil;&atilde;o (novas raz&otilde;es e motiva&ccedil;&otilde;es para a mobiliza&ccedil;&atilde;o) &eacute; ainda mais exigente. Ser&aacute; necess&aacute;rio establecer uma articula&ccedil;&atilde;o org&acirc;nica entre o fen&oacute;meno Wikileaks e os movimentos e partidos de esquerda at&eacute; agora pouco inclinados a explorar as novas possibilidades criadas pela RTI. Essa articula&ccedil;&atilde;o vai criar a maior disponibilidade para que seja revelada informa&ccedil;&atilde;o que particularmente interessa &agrave;s for&ccedil;as democr&aacute;ticas anti-capitalistas. Por outro lado, ser&aacute; necess&aacute;rio que essa articula&ccedil;&atilde;o seja feita com o Foro Social Mundial (FSM) e com os media alternativos que o integram. Curiosamente, o FSM foi a primeira novidade emancipat&oacute;ria da primeira d&eacute;cada do s&eacute;culo e a Wikileaks, se for aproveitada, pode ser a primeira novidade da segunda d&eacute;cada. Para que a articula&ccedil;&atilde;o se realize &eacute; necess&aacute;ria muita reflex&atilde;o inter-movimentos que permita identificar os des&iacute;gnios mais insidiosos e agressivos do imperialismo e do fascismo social globalizado, bem como as suas insuspeitadas debilidades a n&iacute;vel nacional, regional e global. &Eacute; preciso criar uma nova energia mobilizadora a partir da verifica&ccedil;&atilde;o aparentemente contradit&oacute;ria de que o poder capitalista global &eacute; simultaneamente mais esmagador do que pensamos e mais fr&aacute;gil&nbsp; do que o que podemos deduzir linearmente da sua for&ccedil;a. O FSM, que se reune em Fevereiro pr&oacute;ximo em Dakar, est&aacute; precisar de renovar-se e fortalecer-se, e esta pode ser uma via para que tal&nbsp; ocorra.<\/span><\/p>\n<p><em>* Boaventura de Sousa Santos nasceu em Coimbra, a 15 de Novembro de  1940. &Eacute; Doutorado em Sociologia do Direito pela Universidade de Yale  (1973), Professor Catedr&aacute;tico da Faculdade de Economia da Universidade  de Coimbra, Distinguished Legal Scholar da Universidade de  Wisconsin-Madison e Global Legal Scholar da Universidade de Warwick. &Eacute; Diretor do Centro de Estudos Sociais da Faculdade de Economia da  Universidade de Coimbra e do Centro de Documenta&ccedil;&atilde;o 25 de Abril da mesma  Universidade.<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p><span class=\"padrao\">A revela&ccedil;&atilde;o de documenta&ccedil;&atilde;o que durante muito tempo foi  negado o acesso p&uacute;blico dramatiza os efeitos da  revolu&ccedil;&atilde;o das tecnologias de informa&ccedil;&atilde;o<\/span><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[42],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/25184"}],"collection":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=25184"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/25184\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=25184"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=25184"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=25184"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}