{"id":25167,"date":"2010-12-09T12:52:19","date_gmt":"2010-12-09T12:52:19","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=25167"},"modified":"2010-12-09T12:52:19","modified_gmt":"2010-12-09T12:52:19","slug":"a-verdade-ganhara-sempre","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=25167","title":{"rendered":"A verdade ganhar\u00e1 sempre"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"padrao\">Em 1958 o jovem Rupert Murdoch, ent&atilde;o propriet&aacute;rio e editor de <em>The News<\/em> de Adelaide, escreveu: &ldquo;na corrida entre segredo e verdade, parece inevit&aacute;vel que a verdade ganhe sempre&rdquo;.<\/p>\n<p>A sua observa&ccedil;&atilde;o talvez reflectisse a revela&ccedil;&atilde;o do seu pai, Keith Murdoch, de que as tropas australianas estavam a ser sacrificadas desnecessariamente nas costas de Gallipoli por comandantes brit&acirc;nicos incompetentes. Os brit&acirc;nicos tentaram cal&aacute;-lo, mas Keith Murdoch n&atilde;o se deixou silenciar e os seus esfor&ccedil;os levaram ao fim da campanha desastrosa de Gallipoli.<\/p>\n<p>Quase um s&eacute;culo depois, a WikiLeaks est&aacute; tamb&eacute;m a publicar destemidamente fatos que precisam de ser publicados.<\/p>\n<p>Cresci numa cidade rural de Queensland, onde as pessoas diziam o que lhes ia na alma de forma franca. Desconfiavam dum governo grande, como algo que pode ser corrompido se n&atilde;o for vigiado cuidadosamente. Os dias negros da corrup&ccedil;&atilde;o no governo de Queensland, antes do inqu&eacute;rito Fitzgerald, s&atilde;o testemunho do que acontece quando os pol&iacute;ticos amorda&ccedil;am os meios de comunica&ccedil;&atilde;o para n&atilde;o informarem a verdade.<\/p>\n<p>Essas coisas calaram-me fundo. A WikiLeaks foi criada em torno desses valores centrais. A ideia, concebida na Austr&aacute;lia, era usar tecnologias Internet em novas formas de informar a verdade.<\/p>\n<p>A WikiLeaks cunhou um novo tipo do jornalismo: o jornalismo cient&iacute;fico. Trabalhamos com outros servi&ccedil;os informativos para trazer as not&iacute;cias &agrave;s pessoas, mas tamb&eacute;m para provar que &eacute; verdade. O jornalismo cient&iacute;fico permite-nos ler uma hist&oacute;ria nas not&iacute;cias, a seguir clicar online para ver o documento original em que &eacute; baseada. Dessa forma podemos ajuizar por n&oacute;s mesmos: a hist&oacute;ria &eacute; verdadeira? O jornalista informou-nos com precis&atilde;o?<\/p>\n<p>As sociedades democr&aacute;ticas precisam de meios de comunica&ccedil;&atilde;o fortes e a WikiLeaks &eacute; uma parte desses meios. Os meios de comunica&ccedil;&atilde;o ajudam a que o governo se mantenha honesto. A WikiLeaks revelou algumas verdades dif&iacute;ceis sobre as guerras do Iraque e do Afeganist&atilde;o e sobre hist&oacute;rias incompletas da corrup&ccedil;&atilde;o corporativa.<\/p>\n<p>Houve quem dissesse que sou anti-guerra: para que conste, n&atilde;o sou. &Agrave;s vezes as na&ccedil;&otilde;es t&ecirc;m de ir &agrave; guerra, e h&aacute; guerras justas. Mas n&atilde;o h&aacute; nada mais errado do que um governo mentir ao seu povo sobre essas guerras e depois pedir a esses mesmos cidad&atilde;os e cidad&atilde;s que arrisquem as suas vidas e os seus impostos com essas mentiras. Se uma guerra for justificada, ent&atilde;o digam a verdade e as pessoas decidir&atilde;o se a apoiam.<\/p>\n<p>Se voc&ecirc; tiver lido alguns dos di&aacute;rios de guerra do Afeganist&atilde;o ou do Iraque, algum dos telegramas da embaixada dos Estados Unidos ou alguma das hist&oacute;rias sobre as coisas que a WikiLeaks reportou, pondere como &eacute; importante para todos os meios de comunica&ccedil;&atilde;o serem capazes de informar estas coisas livremente.<\/p>\n<p>A WikiLeaks n&atilde;o &eacute; o &uacute;nico editor dos telegramas da embaixada dos Estados Unidos. Outros servi&ccedil;os informativos, incluindo o brit&acirc;nico <em>The Guardian<\/em>, o <em>The New York Times<\/em>, o <em>El Pais<\/em> em Espanha e a <em>Der Spiegel<\/em> da Alemanha publicaram os mesmos telegramas editados.<\/p>\n<p>Mas &eacute; a WikiLeaks, como coordenador desses outros grupos, que apanhou com os ataques e acusa&ccedil;&otilde;es mais maldosos do governo dos Estados Unidos e dos seus ac&oacute;litos. Fui acusado de trai&ccedil;&atilde;o, embora seja australiano, n&atilde;o um cidad&atilde;o dos EUA. Houve d&uacute;zias de apelos graves nos EUA para que eu fosse &ldquo;retirado&rdquo; por for&ccedil;as especiais dos Estados Unidos. Sarah Palin diz que devo ser &ldquo;acossado como Osama bin Laden&rdquo;, um projecto de lei republicano apresenta-se ao Senado dos Estados Unidos tentando que me declarem &ldquo;uma amea&ccedil;a transnacional&rdquo; e se desembaracem de mim consequentemente. Um conselheiro do gabinete do Primeiro-Ministro canadiano apelou &agrave; televis&atilde;o nacional para que eu fosse assassinado. Um blogger americano pediu que o meu filho de 20 anos, aqui na Austr&aacute;lia, fosse raptado e mal-tratado por mais nenhuma raz&atilde;o sen&atilde;o para apanharem-me.<\/p>\n<p>E os australianos devem observar sem qualquer orgulho a alcoviteirice ignominiosa desses sentimentos pela Primeira-Ministra Gillard e pela Secret&aacute;ria de Estado dos Estados Unidos Hillary Clinton, que n&atilde;o tiveram uma palavra de cr&iacute;tica para com os outros meios de comunica&ccedil;&atilde;o. Isto acontece porque o <em>The Guardian<\/em>, o <em>The New York Times<\/em> e a <em>Der Spiegel <\/em>s&atilde;o antigos e grandes, enquanto a WikiLeaks &eacute; ainda jovem e pequena.<\/p>\n<p>Somos os da m&oacute; de baixo. O governo de Gillard est&aacute; a tentar matar o mensageiro porque n&atilde;o quer a verdade revelada, incluindo a informa&ccedil;&atilde;o dos seu pr&oacute;prios feitos diplom&aacute;ticos e pol&iacute;ticos.<\/p>\n<p>Houve alguma resposta do governo australiano &agrave;s numerosas amea&ccedil;as p&uacute;blicas de viol&ecirc;ncia contra mim e outro pessoal da WikiLeaks? Poder-se-ia ter pensado que um primeiro-ministro australiano iria defendendo os seus cidad&atilde;os contra tais coisas, mas houve apenas reclama&ccedil;&otilde;es n&atilde;o inteiramente genu&iacute;nas de ilegalidade. Da Primeira-Ministra, e especialmente do Procurador-Geral, espera-se que tratem os seus deveres com dignidade e acima das querelas. Fiquem descansados, esses dois v&atilde;o tratar de salvar a sua pr&oacute;pria pele. N&atilde;o o far&atilde;o.<\/p>\n<p>Sempre que a WikiLeaks publica a verdade sobre abusos cometidos por ag&ecirc;ncias dos Estados Unidos, os pol&iacute;ticos australianos entoam um coro provavelmente falso com o Departamento de Estado: &ldquo;Vai arriscar vidas! Seguran&ccedil;a nacional! Vai p&ocirc;r as tropas em perigo!&rdquo; Depois dizem que n&atilde;o h&aacute; nada importante no que a WikiLeaks publica. N&atilde;o podem ser verdade ambas as coisas. Qual delas &eacute;?<\/p>\n<p>N&atilde;o &eacute; nenhuma. A WikiLeaks tem uma hist&oacute;ria de publica&ccedil;&atilde;o com quatro anos. Durante esse tempo mud&aacute;mos governos inteiros, mas nem uma pessoa, que se saiba, foi mal-tratada. Mas os EUA, com a coniv&ecirc;ncia do governo australiano, mataram milhares s&oacute; nestes &uacute;ltimos meses.<\/p>\n<p>O Secret&aacute;rio da Defesa dos Estados Unidos Robert Gates admitiu numa carta ao Congresso dos EUA que nenhuma fonte de informa&ccedil;&atilde;o ou m&eacute;todos sens&iacute;veis tinham ficado comprometidos pela revela&ccedil;&atilde;o dos di&aacute;rios de guerra afeg&atilde;os. O Pent&aacute;gono afirmou que n&atilde;o houve nenhuma prova de que os relat&oacute;rios da WikiLeaks tinham levado algu&eacute;m a ser mal-tratado no Afeganist&atilde;o. A NATO em Cabul disse &agrave; CNN que n&atilde;o p&ocirc;de encontrar nem uma pessoa que precisasse de protec&ccedil;&atilde;o. O Departamento Australiano de Defesa disse o mesmo. Nenhuma tropa australiana ou fontes foram prejudicadas por nada que tiv&eacute;ssemos publicado.<\/p>\n<p>Mas as nossas publica&ccedil;&otilde;es est&atilde;o longe de n&atilde;o ser importantes. Os telegramas diplom&aacute;ticos dos Estados Unidos revelam alguns factos alarmantes:<\/p>\n<p>&ndash; Os EUA pediram aos seus diplomatas que roubassem material humano pessoal e informa&ccedil;&atilde;o a funcion&aacute;rios da ONU e a grupos de direitos humanos, incluindo ADN, impress&otilde;es digitais, exames de &iacute;ris, n&uacute;meros de cart&atilde;o de cr&eacute;dito, senhas de Internet e fotos de identifica&ccedil;&atilde;o numa viola&ccedil;&atilde;o de tratados internacionais. Os diplomatas australianos da ONU presumivelmente podem ser visados tamb&eacute;m.<\/p>\n<p>&ndash; O rei Abdullah da Ar&aacute;bia Saudita pediu que os representantes dos Estados Unidos na Jord&acirc;nia e no Bahrain exigissem que o programa nuclear do Ir&atilde;o fosse detido por qualquer meio dispon&iacute;vel.<\/p>\n<p>&ndash; O inqu&eacute;rito brit&acirc;nico sobre o Iraque foi ajustado para proteger os &ldquo;interesses dos Estados Unidos&rdquo;.<\/p>\n<p>&ndash; A Su&eacute;cia &eacute; um membro encoberto da NATO e a partilha de informa&ccedil;&atilde;o de espionagem &eacute; escondida do parlamento.<\/p>\n<p>&ndash; Os EUA est&atilde;o a jogar duro para conseguir que outros pa&iacute;ses recebam detidos libertados da Ba&iacute;a Guant&aacute;namo. Barack Obama aceitou encontrar-se com o Presidente Esloveno apenas se a Eslov&eacute;nia recebesse um preso. Ao nosso vizinho do Pac&iacute;fico Kiribati foram oferecidos milh&otilde;es de d&oacute;lares para aceitar detidos.<\/p>\n<p>Na senten&ccedil;a que se tornou um marco sobre o caso dos Documentos do Pent&aacute;gono, o Supremo Tribunal dos Estados Unidos disse que &ldquo;s&oacute; uma imprensa livre e sem restri&ccedil;&otilde;es pode expor eficazmente as fraudes do governo&rdquo;. A tempestade que gira hoje em volta da WikiLeaks refor&ccedil;a a necessidade de defender o direito de todos os meios de comunica&ccedil;&atilde;o a revelar a verdade.<\/p>\n<p class=\"padrao\">&nbsp;<\/p>\n<p class=\"padrao\">&nbsp;<\/p>\n<p><span class=\"padrao\">*<em> Julian Assange &eacute; redator-chefe da WikiLeaks.<\/em><\/span>    <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A WikiLeaks cunhou um novo tipo do jornalismo: o jornalismo cient&iacute;fico.  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