{"id":24976,"date":"2010-10-01T18:54:00","date_gmt":"2010-10-01T18:54:00","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=24976"},"modified":"2010-10-01T18:54:00","modified_gmt":"2010-10-01T18:54:00","slug":"vozes-da-montanha","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=24976","title":{"rendered":"Vozes da montanha"},"content":{"rendered":"<p class=\"padrao\">S&atilde;o necess&aacute;rias tr&ecirc;s horas de caminhada por trilhas &iacute;ngremes para chegar &agrave; comunidade Mag&ograve;, zona rural do munic&iacute;pio de P&ograve;dep&egrave;, Noroeste do Haiti. &Eacute; de l&aacute;, no topo da montanha mais alta da regi&atilde;o, contando com uma infra-estrutura que se resume a uma antena e uma casa com paredes de barro batido, que a r&aacute;dio comunit&aacute;ria Z&egrave;bt&egrave;nite trava sua luta para romper o isolamento imposto aos camponeses haitianos.<\/p>\n<p class=\"padrao\">&ldquo;A Z&egrave;bt&egrave;nite foi criada para reivindicar e defender a voz dos camponeses&rdquo;, afirma Crisman Estinord, rep&oacute;rter e um dos coordenadores da r&aacute;dio. Fundada em 1996 por fam&iacute;lias camponesas integrantes do movimento T&eacute;t Kole Ti Peyizan, a Z&egrave;bt&egrave;nite ocupa desde ent&atilde;o a freq&uuml;&ecirc;ncia 97.1FM e funciona seis dias por semana, com seis horas di&aacute;rias de programa&ccedil;&atilde;o. Ou melhor, funcionava.&nbsp; A passagem do Furac&atilde;o Hanna em 2008 avariou parte dos equipamentos de transmiss&atilde;o, al&eacute;m dos pain&eacute;is solares que disponibilizavam energia para a r&aacute;dio. Sem eles, foi preciso recorrer ao aluguel de geradores e o alto pre&ccedil;o da gasolina faz com que a Z&egrave;bt&egrave;nite amargure dias ininterruptos sem transmiss&atilde;o. <\/p>\n<p class=\"padrao\">Essas mesmas dificuldades s&atilde;o compartilhadas por boa parte das r&aacute;dios comunit&aacute;rias existentes no Haiti &ndash; que segundo dados da SAKS (Sociedade de Anima&ccedil;&atilde;o e Comunica&ccedil;&atilde;o Social) chegam atualmente a 30, instaladas principalmente nas comunidades rurais. Para compreender o porqu&ecirc; dessas dificuldades e o papel estrat&eacute;gico que esses meios comunit&aacute;rios jogam na conjuntura atual do Haiti, &eacute; preciso ir um pouco mais afundo.<\/p>\n<p class=\"padrao\"><strong>Predom&iacute;nio das r&aacute;dios<\/strong><\/p>\n<p class=\"padrao\">&ldquo;Hoje, e desde sempre, o meio de comunica&ccedil;&atilde;o mais importante no Haiti &eacute; a r&aacute;dio&rdquo;, informa Sony Est&eacute;us, jornalista e coordenador da SAKS. Isso se deve tanto a fatores culturais, como a tradi&ccedil;&atilde;o oral herdada da origem africana, como a fatores s&oacute;cio-econ&ocirc;micos, o alto n&iacute;vel de analfabetismo &ndash; que atinge 39% da popula&ccedil;&atilde;o &ndash; e a falta de infra-estrutura energ&eacute;tica. &ldquo;H&aacute; tamb&eacute;m a televis&atilde;o, sobretudo nas cidades, quando h&aacute; a eletricidade. Porque esse &eacute; um problema para a utiliza&ccedil;&atilde;o dos meios, o problema da energia. O que faz com que a televis&atilde;o n&atilde;o possa ser utilizada amplamente pela popula&ccedil;&atilde;o. H&aacute; a imprensa escrita, mas muito pequena. H&aacute; somente dois jornais com circula&ccedil;&atilde;o di&aacute;ria no Haiti. Esses s&atilde;o os tr&ecirc;s meios mais importantes, a r&aacute;dio, em primeiro lugar, depois a televis&atilde;o e a imprensa escrita&rdquo;, afirma Sony. A utiliza&ccedil;&atilde;o da internet como meio de comunica&ccedil;&atilde;o come&ccedil;a a surgir como horizonte, mas ainda &eacute; incipiente devido a pouca difus&atilde;o e dificuldade de acesso no meio popular. <\/p>\n<p class=\"padrao\">Segundo dados oficiais, existem em torno de 290 meios de comunica&ccedil;&atilde;o no Haiti, entre r&aacute;dios e emissoras de televis&atilde;o, com preval&ecirc;ncia absoluta das r&aacute;dios, cujo n&uacute;mero chega a 250. A capital Porto Pr&iacute;ncipe concentra 50 destas esta&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p class=\"padrao\">O surgimento das primeiras r&aacute;dios no Haiti ocorreu durante os anos 1920, sob os ausp&iacute;cios de uma minoria econ&ocirc;mica e comercial, &agrave; qual se somaram mais tarde os &oacute;rg&atilde;os estatais de propaganda oficial. Isso se manteve sem muitas altera&ccedil;&otilde;es nas d&eacute;cadas seguintes. At&eacute; que nos anos 90, as r&aacute;dios comunit&aacute;rias entram em cena. <\/p>\n<p class=\"padrao\">O golpe militar de 1991, que tirou do poder o Presidente Jean Bertrand Aristide e reprimiu duramente o movimento popular que se fortalecia desde a queda da ditadura Duvalier em 1986, fechou todas as r&aacute;dios comerciais que existiam no pa&iacute;s. Sob tal repress&atilde;o, e para furar o cerco da desinforma&ccedil;&atilde;o e marginaliza&ccedil;&atilde;o impostas &agrave; popula&ccedil;&atilde;o, um grupo de formadores e comunicadores progressistas inicia uma a&ccedil;&atilde;o conjunta com as organiza&ccedil;&otilde;es populares para desenvolver meios de comunica&ccedil;&atilde;o, sobretudo r&aacute;dios, nas bases, nas &aacute;reas rurais, nas comunidades mais distantes. Este grupo se denominou SAKS &#8211; Sociedade de Anima&ccedil;&atilde;o e Comunica&ccedil;&atilde;o Social. Por meio desta organiza&ccedil;&atilde;o, e junto &agrave; iniciativa dos movimentos sociais, foram constru&iacute;das as primeiras r&aacute;dios comunit&aacute;rias no Haiti, dentre elas a R&aacute;dio Z&egrave;bt&egrave;nite, nas montanhas de Mag&ograve;. <\/p>\n<p class=\"padrao\"><strong>Concentra&ccedil;&atilde;o<\/strong><\/p>\n<p class=\"padrao\">No entanto, apesar de todo esse esfor&ccedil;o, a maioria dos meios de comunica&ccedil;&atilde;o ainda se encontra nas m&atilde;os da elite econ&ocirc;mica. &ldquo;H&aacute; uma tend&ecirc;ncia atual &agrave; concentra&ccedil;&atilde;o desses meios&rdquo;, alerta Sony. &ldquo;Antes, os propriet&aacute;rios dos meios eram jornalistas ou agentes de comunica&ccedil;&atilde;o. Agora, a burguesia, os empres&aacute;rios, v&atilde;o pouco a pouco adquirindo esses meios. H&aacute;, por exemplo, o caso de um &uacute;nico empres&aacute;rio que possui mais de doze meios de comunica&ccedil;&atilde;o, entre r&aacute;dios e televis&atilde;o.&rdquo;<\/p>\n<p class=\"padrao\">Nessa conjuntura, ainda segundo Est&eacute;us, &ldquo;pode-se dizer que h&aacute; quatro correntes dividindo espa&ccedil;o no setor de comunica&ccedil;&atilde;o haitiano. H&aacute; os meios com objetivos exclusivamente comerciais, que servem para enriquecer seus propriet&aacute;rios, mas, paralelamente, jogam um papel muito ideol&oacute;gico em apoiar o setor privado, apoiar a manuten&ccedil;&atilde;o do <em>status quo<\/em> e a ideologia capitalista e neoliberal. H&aacute; uma outra corrente que &eacute; a religiosa. Ou seja, a Igreja Cat&oacute;lica, as Igrejas Protestantes t&ecirc;m seus pr&oacute;prios meios, que fazem a evangeliza&ccedil;&atilde;o, mas no mesmo sentido de manter o<em> status quo<\/em> na sociedade. H&aacute; os meios oficiais que fazem a propaganda pol&iacute;tica do governo. E por fim h&aacute; a corrente dos meios comunit&aacute;rios, que est&atilde;o mais dedicados &agrave; educa&ccedil;&atilde;o, sobretudo &agrave; educa&ccedil;&atilde;o popular. S&atilde;o meios que ap&oacute;iam a luta do povo, a luta das organiza&ccedil;&otilde;es, para a mudan&ccedil;a social, para a transforma&ccedil;&atilde;o da sociedade&rdquo;. <\/p>\n<p class=\"padrao\">N&atilde;o seria equivocado, todavia, inserir uma outra corrente nesta disputa: a MINUSTAH [Miss&atilde;o das Na&ccedil;&otilde;es Unidas para a Estabiliza&ccedil;&atilde;o do Haiti], que ocupa militarmente o pa&iacute;s desde 2004. Para fazer a propaganda e defesa de suas a&ccedil;&otilde;es, h&aacute; duas esta&ccedil;&otilde;es de r&aacute;dio que trabalham todos os dias exclusivamente para a MINUSTAH.<\/p>\n<p class=\"padrao\"><strong>P&oacute;s-terremoto&nbsp;&nbsp; &nbsp;<\/strong><\/p>\n<p class=\"padrao\">Este cen&aacute;rio se complicou ainda mais com o terremoto de 12 de Janeiro de 2010. Al&eacute;m da destrui&ccedil;&atilde;o de boa parte da infra-estrutura de muitas r&aacute;dios, os haitianos presenciaram a entrada de um novo protagonista na disputa pela hegemonia das comunica&ccedil;&otilde;es: a INTERNEWS.<\/p>\n<p class=\"padrao\">INTERNEWS &eacute; uma ONG norte-americana financiada pelo USAID [Ag&ecirc;ncia dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional]. Aos desavisados, n&atilde;o custa lembrar que a USAID &eacute; uma ag&ecirc;ncia governamental do governo estadunidense criada em 1961 com a miss&atilde;o de &ldquo;promover os interesses da pol&iacute;tica externa dos Estados Unidos na expans&atilde;o da democracia e dos mercados livres&rdquo;, segundo informa&ccedil;&otilde;es de sua p&aacute;gina oficial na internet. Com sede em Washington\/DC, seu trabalho ap&oacute;ia &ldquo;o crescimento econ&ocirc;mico e os avan&ccedil;os da pol&iacute;tica externa dos Estados Unidos&rdquo;. &nbsp;<\/p>\n<p class=\"padrao\">Presente no Iraque, no Afeganist&atilde;o e em todos os pa&iacute;ses onde os EUA fazem a guerra, a INTERNEWS aportou no Haiti dias ap&oacute;s o terremoto de janeiro. Sua miss&atilde;o &eacute; gerenciar e produzir para as Na&ccedil;&otilde;es Unidas e para o governo norte-americano tudo o que tenha a ver com comunica&ccedil;&atilde;o em territ&oacute;rio haitiano. &Eacute; a INTERNEWS, por exemplo, que produz o programa de not&iacute;cias difundido massivamente em todas as r&aacute;dios da ilha chamado &ldquo;Enf&ograve;masyon Nou Dwe Konnen&rdquo; (<em>Informa&ccedil;&otilde;es que n&oacute;s devemos saber<\/em>, no krey&ograve;l). Mas, como ressalta Sony Est&eacute;us, &ldquo;s&atilde;o informa&ccedil;&otilde;es que eles querem que n&oacute;s saibamos! &Eacute; uma situa&ccedil;&atilde;o muito complicada, porque est&atilde;o funcionando sem controle das autoridades. O Minist&eacute;rio da Comunica&ccedil;&atilde;o n&atilde;o tem nenhum controle sobre o que se faz na INTERNEWS, nem sobre o que se faz nas r&aacute;dios da MINUSTAH.&rdquo;<\/p>\n<p class=\"padrao\"><strong>Desafios<\/strong><\/p>\n<p class=\"padrao\">&ldquo;V&atilde;o fazer muito dinheiro&rdquo;, &eacute; o que responde o coordenador da SAKS ao ser indagado sobre o que se pode esperar dos meios de comunica&ccedil;&atilde;o comerciais no per&iacute;odo eleitoral que se avizinha. &ldquo;V&atilde;o fazer muito dinheiro com a publicidade para os candidatos e para o Conselho Eleitoral. V&atilde;o abrir seus microfones para todos os candidatos para que possam fazer suas pr&oacute;prias propagandas. Mas n&atilde;o podemos esperar an&aacute;lises ou posi&ccedil;&otilde;es cr&iacute;ticas aos programas ou ao processo eleitoral como um todo&rdquo;, conclui Sony. <\/p>\n<p class=\"padrao\">&Eacute; dentro desta perspectiva, tendo que superar os desafios da reconstru&ccedil;&atilde;o do pa&iacute;s p&oacute;s-terremoto e sob uma ocupa&ccedil;&atilde;o estrangeira militar e econ&ocirc;mica que se aTrrasta h&aacute; d&eacute;cadas, que se pode compreender o papel clave que os meios de comunica&ccedil;&atilde;o popular, em especial as r&aacute;dios comunit&aacute;rias, jogam no cen&aacute;rio atual do Haiti. <\/p>\n<p class=\"padrao\">Do alto das montanhas de Mag&ograve;, ao final de mais uma tarde de s&aacute;bado, durante a hora e meia de transmiss&atilde;o permitida pela escassa gasolina dos geradores, a R&aacute;dio Z&egrave;bt&egrave;nite toca m&uacute;sicas camponesas e populares, abre seus microfones para que um hougan [sacerdote da religi&atilde;o Vodou] comente sobre a atua&ccedil;&atilde;o in&oacute;cua do estado haitiano no atendimento &agrave;s v&iacute;timas do terremoto e transmite um programa produzido pela SAKS sobre as conquistas democr&aacute;ticas e a conjuntura das elei&ccedil;&otilde;es presidenciais de novembro. Quando o gerador para de funcionar e os equipamentos se apagam, de dentro do est&uacute;dio improvisado da r&aacute;dio comunit&aacute;ria o operador Momis Likanes desabafa: &ldquo;&Eacute; dif&iacute;cil, realmente&#8230; mas temos que lutar.&rdquo; &nbsp;<\/p>\n<p class=\"padrao\">&nbsp;<\/p>\n<p class=\"padrao\">Veja fotos <a href=\"http:\/\/www.flickr.com\/photos\/thallesgomes\/5001230955\/\" target=\"_blank\">aqui<\/a>  e <a href=\"http:\/\/www.flickr.com\/photos\/thallesgomes\/5001230943\/\" target=\"_blank\">aqui<\/a>. <\/p>\n<p class=\"padrao\">&nbsp;<\/p>\n<p class=\"padrao\"><em>* Cineasta, jornalista e membro da Brigada da V&iacute;a Campesina Brasileira, no Haiti<\/em> <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Segundo dados oficiais, existem em torno de 290 meios de comunica&ccedil;&atilde;o no  Haiti, entre r&aacute;dios e emissoras de televis&atilde;o, com preval&ecirc;ncia absoluta  das r&aacute;dios, cujo n&uacute;mero chega a 250<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[42],"tags":[211],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/24976"}],"collection":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=24976"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/24976\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=24976"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=24976"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=24976"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}