{"id":24965,"date":"2010-09-29T11:43:58","date_gmt":"2010-09-29T11:43:58","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=24965"},"modified":"2010-09-29T11:43:58","modified_gmt":"2010-09-29T11:43:58","slug":"miro-teixeira-moleque-de-recados-da-midia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=24965","title":{"rendered":"Miro Teixeira, moleque de recados da m\u00eddia?"},"content":{"rendered":"\n<p style=\"margin-bottom: 0cm\"><span class=\"padrao\">A revista <em>Veja<\/em> publicou, em sua edi&ccedil;&atilde;o de 18\/9, entrevista com o deputado Miro Teixeira (PDT-RJ), que esteve &agrave; frente do Minist&eacute;rio das Comunica&ccedil;&otilde;es no in&iacute;cio do primeiro mandato presidencial de Lula. A finalidade da entrevista &eacute; legitimar a tese dos oligarcas da m&iacute;dia de que o governo e os movimentos sociais supostamente controlados por ele s&atilde;o uma amea&ccedil;a &agrave; liberdade de express&atilde;o no pa&iacute;s. <\/p>\n<p><\/span> <\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0cm\"><span class=\"padrao\">&ldquo;Governo n&atilde;o gosta de not&iacute;cia&rdquo; &eacute; o t&iacute;tulo da mat&eacute;ria, na qual Miro declara frases como 1) &ldquo;O governo apresenta faces autorit&aacute;rias&rdquo;; 2) &ldquo;N&atilde;o h&aacute; mal provocado ao Brasil pela imprensa. S&oacute; o bem&rdquo; e 3) a &ldquo;Confecom &eacute; ileg&iacute;tima&rdquo; e se suas propostas forem aprovadas, &ldquo;devem ser revogadas no Supremo Tribunal Federal, que j&aacute; demonstrou que o direito &agrave; informa&ccedil;&atilde;o n&atilde;o pode ser arranhado nem por emenda constitucional&rdquo;.<\/p>\n<p>Confecom, para quem n&atilde;o sabe, &eacute; a 1&ordf; Confer&ecirc;ncia Nacional de Comunica&ccedil;&atilde;o, realizada pelo governo Lula em dezembro de 2009. Reuniu milhares de pessoas de todo o Brasil em diferentes etapas e contou com a participa&ccedil;&atilde;o de movimentos sociais, diversos n&iacute;veis e esferas do poder p&uacute;blico e expressiva parcela do empresariado &#8213; embora a Associa&ccedil;&atilde;o Brasileira de Emissoras de R&aacute;dio e Televis&atilde;o (Abert), liderada pela TV Globo, a Associa&ccedil;&atilde;o Nacional de Jornais (ANJ) e outras entidades tenham-se recusado a participar. <\/p>\n<p>As mais de 600 propostas aprovadas pela Confecom resultaram de debate intenso e democr&aacute;tico e, em alguns casos, negocia&ccedil;&atilde;o entre os segmentos participantes. S&atilde;o medidas destinadas a desconcentrar e democratizar a comunica&ccedil;&atilde;o social no Brasil, v&aacute;rias delas relacionadas &agrave; regulamenta&ccedil;&atilde;o de dispositivos j&aacute; existentes na Constitui&ccedil;&atilde;o Federal mas nunca aplicados, como os artigos 220 e 221. <\/p>\n<p>O par&aacute;grafo 5&ordm; do artigo 220 estabelece: &ldquo;Os meios de comunica&ccedil;&atilde;o social n&atilde;o podem, direta ou indiretamente, ser objeto de monop&oacute;lio ou oligop&oacute;lio&rdquo;. O artigo 221, por sua vez, estipula: &ldquo;A produ&ccedil;&atilde;o e a programa&ccedil;&atilde;o das emissoras de r&aacute;dio e televis&atilde;o atender&atilde;o aos seguintes princ&iacute;pios: I &#8211; prefer&ecirc;ncia a finalidades educativas, art&iacute;sticas, culturais e informativas; II &#8211; promo&ccedil;&atilde;o da cultura nacional e regional e est&iacute;mulo &agrave; produ&ccedil;&atilde;o independente que objetive sua divulga&ccedil;&atilde;o; III &#8211; regionaliza&ccedil;&atilde;o da produ&ccedil;&atilde;o cultural, art&iacute;stica e jornal&iacute;stica, conforme percentuais estabelecidos em lei; IV &#8211; respeito aos valores &eacute;ticos e sociais da pessoa e da fam&iacute;lia&rdquo;.<\/p>\n<p>Nenhum desses princ&iacute;pios constitucionais &eacute; respeitado nos dias de hoje. O sistema de m&iacute;dia &eacute; oligopolizado, dominado nacionalmente por uma dezena de conglomerados empresariais (objeto de recente desabafo do presidente Lula), associados a grupos monopolistas regionais ou locais. As finalidades educativas, art&iacute;sticas, culturais e informativas s&atilde;o preteridas em favor das finalidades mercantis das emissoras. A diversidade regional &eacute; uma caricatura, e os valores &eacute;ticos e sociais s&atilde;o pisoteados por programas como &ldquo;BBB&rdquo; e muitos outros.<\/p>\n<p>Ecoando as cr&iacute;ticas feitas &agrave; Confecom pelos oligarcas da m&iacute;dia, Miro age como moleque de recados. &ldquo;O governo n&atilde;o pode reunir militantes, ditar uma pauta e afirmar com a cara mais limpa do mundo que, &lsquo;depois de ouvir a sociedade, chegamos a tais conclus&otilde;es&rsquo;. Quando o governo organiza um f&oacute;rum, ele n&atilde;o fala em nome da sociedade&rdquo;, declarou ele &agrave; revista <em>Veja<\/em>. O paladino da liberdade de express&atilde;o patronal demonstra, assim, desconhecer o processo de constru&ccedil;&atilde;o da Confer&ecirc;ncia, complexo e contradit&oacute;rio.<\/p>\n<p><\/span> <\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0cm\"><span class=\"padrao\">Munida de benevol&ecirc;ncia raramente vista com ex-ministros de Lula, sobre ele <em>Veja<\/em> relembrou docemente: &ldquo;Pautou seus nove mandatos pela defesa da liberdade de express&atilde;o. Uma a&ccedil;&atilde;o que ele impetrou levou o Supremo Tribunal Federal a revogar, em 2009, a Lei de Imprensa, institu&iacute;da pelo regime militar para manietar os jornalistas&rdquo;. Gra&ccedil;as a este not&aacute;vel gesto de Miro em prol da &ldquo;liberdade de express&atilde;o&rdquo; dos oligarcas da m&iacute;dia, que permitiu ao STF derrubar a Lei de Imprensa sem colocar nada em seu lugar, hoje n&atilde;o existe mais direito de resposta. Os donos dos meios de comunica&ccedil;&atilde;o est&atilde;o livres para publicar qualquer coisa, sabendo que n&atilde;o ter&atilde;o mais a obriga&ccedil;&atilde;o legal de dar espa&ccedil;o a contesta&ccedil;&otilde;es e r&eacute;plicas. <\/p>\n<p><\/span> <\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0cm\"><span class=\"padrao\">Ap&oacute;s informar que Miro &ldquo;v&ecirc; prosperar no governo que integrou e no Congresso do qual participa projetos de controle dos meios de comunica&ccedil;&atilde;o&rdquo;, <em>Veja <\/em>anuncia aos leitores, c&acirc;ndidamente, que o bravo deputado pedetista, disposto a combater essa perversa tend&ecirc;ncia, &ldquo;articula uma frente suprapartid&aacute;ria de defesa da liberdade&rdquo; (de imprensa?). <\/p>\n<p>De acordo com o parlamentar, &ldquo;os atuais ocupantes do Planalto tentam desacatar a Constitui&ccedil;&atilde;o&rdquo;. Em seguida, ele monta o script de uma pe&ccedil;a sobre um golpe de Estado, com pre&acirc;mbulo (&ldquo;O direito &agrave; informa&ccedil;&atilde;o &eacute; uma cl&aacute;usula p&eacute;trea da Carta. Sem liberdade de imprensa, n&atilde;o h&aacute; democracia&rdquo;) e v&aacute;rios atos: &ldquo;Ali&aacute;s, a primeira medida de uma ditadura &eacute; sempre a mesma: suprimir a liberdade de imprensa. Depois, fecha-se o Congresso. Sem imprensa, garante-se a falta de repercuss&atilde;o da segunda medida&rdquo;.<\/p>\n<p><\/span> <\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0cm\" class=\"padrao\">Miro deve ter-se esquecido, mas a Ditadura Militar instaurada em 1964 n&atilde;o precisou suprimir de imediato a liberdade de imprensa, ao menos para alguns ve&iacute;culos. Afinal, o golpe contou com apoio decidido de v&aacute;rios dos atuais denodados defensores da &ldquo;liberdade de express&atilde;o&rdquo;, como <em>O Globo<\/em>, O<em> Estado de S. Paulo<\/em> e a <em>Folha de S. Paulo<\/em>. <\/p>\n<p><em>Veja<\/em> tamb&eacute;m pediu a Miro que opinasse sobre os 224 projetos em tramita&ccedil;&atilde;o no Congresso que restringem a propaganda comercial (&ldquo;constituem uma amea&ccedil;a &agrave; imprensa?&rdquo;). O deputado desenvolve, ent&atilde;o, um racioc&iacute;nio tortuoso: &ldquo;A obsess&atilde;o pela restri&ccedil;&atilde;o &agrave; publicidade se confunde com a obsess&atilde;o pelo controle da imprensa pelo estado. Hoje, os governos t&ecirc;m um impacto pequeno sobre a receita dos principais ve&iacute;culos do Brasil &mdash; n&atilde;o mais que 8% do faturamento. Sem acesso a an&uacute;ncios privados, esses ve&iacute;culos passariam a depender da publicidade oficial. Mas n&atilde;o vejo possibilidade de essas iniciativas prosperarem, porque o Supremo estende &agrave; propaganda a prote&ccedil;&atilde;o que d&aacute; &agrave; imprensa&rdquo;.<\/p>\n<p>Portanto, a&iacute; est&aacute;. Como bem poderia dizer Carlos Lacerda, o udenista com quem Miro est&aacute; ficando assaz parecido: as &ldquo;amea&ccedil;as&rdquo; &agrave; imprensa e &agrave; propaganda comercial n&atilde;o podem existir; caso existam, n&atilde;o podem ser aprovadas no governo ou no Congresso; caso sejam aprovadas, ser&atilde;o derrubadas no STF. <\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0cm\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0cm\"><em class=\"padrao\">* Pedro Pomar &eacute; jornalista e editor da Revista Adusp, publicada pela Associa&ccedil;&atilde;o dos Docentes da USP. &Eacute; doutor em Ci&ecirc;ncias da Comunica&ccedil;&atilde;o pela USP. <\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p><span class=\"padrao\">Ecoando as cr&iacute;ticas feitas &agrave; Confecom pelos oligarcas da m&iacute;dia, o deputado federal e ex-ministro das Comunica&ccedil;&otilde;es de Lula, Miro Teixeira, age como moleque de recados<\/span><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[42],"tags":[1215],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/24965"}],"collection":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=24965"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/24965\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=24965"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=24965"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=24965"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}