{"id":24960,"date":"2010-09-27T16:05:12","date_gmt":"2010-09-27T16:05:12","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=24960"},"modified":"2010-09-27T16:05:12","modified_gmt":"2010-09-27T16:05:12","slug":"a-midia-sob-profundo-impacto-de-mudancas-meteoricas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=24960","title":{"rendered":"A &#8216;m\u00eddia&#8217; sob profundo impacto de mudan\u00e7as mete\u00f3ricas"},"content":{"rendered":"<p class=\"padrao\">Nascido por volta de 1870 para dar voz ao crescente movimento republicano das oligarquias cafeeiras paulistas, o <em>Estado (ent&atilde;o Prov&iacute;ncia) de S&atilde;o Paulo<\/em> somente iria aderir ao movimento Abolicionista quando a Aboli&ccedil;&atilde;o j&aacute; se tornara inevit&aacute;vel. Nascida por volta de 1950, da iniciativa de um imigrante &iacute;talo-americano ligado aos interesses de Walt Disney (e sabe-se l&aacute; a que outros interesses), a Editora Abril (irm&atilde; da Editorial Abril que o irm&atilde;o daquele imigrante, na mesma &eacute;poca iria criar em Buenos Aires), depois de fomentar o <em>american way of life<\/em> entre n&oacute;s, atrav&eacute;s de revistas como <em>Pato Donald<\/em> e <em>Claudia<\/em>, iria praticamente conquistar, com<em> Veja<\/em>, o monop&oacute;lio do mercado das revistas semanais de informa&ccedil;&atilde;o, n&atilde;o por acaso durante o auge da ditadura militar. Nascida nos agitados anos 1920, com o jornal <em>O Globo<\/em>, as Organiza&ccedil;&otilde;es de mesmo nome, aliadas de primeir&iacute;ssima hora do golpe de 1964, conquistariam, tamb&eacute;m durante a ditadura, tanto o monop&oacute;lio da televis&atilde;o em todo o pa&iacute;s, quanto o da imprensa escrita na cidade do Rio de Janeiro, na medida em que os ditadores deram decisiva contribui&ccedil;&atilde;o para a decad&ecirc;ncia e morte de muitos outros importantes &oacute;rg&atilde;os de imprensa escrita que ent&atilde;o disputavam leitores na ex-capital federal, entre eles, os<em> Correio da Manh&atilde;, &Uacute;ltima Hora, Di&aacute;rio de Not&iacute;cia<\/em>s e, por fim, recentemente mas depois de longa agonia que teve in&iacute;cio naqueles tempos, o <em>Jornal do Brasil<\/em>.<\/p>\n<p class=\"padrao\">Se a imprensa (hoje, em dia, chamada &ldquo;m&iacute;dia&rdquo;) chegou dividida &agrave; Revolu&ccedil;&atilde;o de 1930, apoiada por Marinho e Chateaubriand mas encarni&ccedil;adamente combatida pelo<em> Estad&atilde;o<\/em>, desde ent&atilde;o tem agido como bloco &uacute;nico, no Brasil. Derrubou Vargas duas vezes, na segunda levando-o ao suic&iacute;dio. Op&ocirc;s-se, como p&ocirc;de, aos governos JK e Jo&atilde;o Goulart. Apoiou e estimulou todos os golpistas de ocasi&atilde;o. Colocou-se contra a &uacute;ltima ditadura &ndash; depois de ter a ela servido, inclusive fornecendo caminh&otilde;es para a Oban &ndash; s&oacute; quando o conjunto da burguesia achou que era chegada a hora de mudar para, lampedusamente, tudo continuar como sempre esteve&#8230;<\/p>\n<p class=\"padrao\">Agora, coerente com a sua hist&oacute;ria, quer derrubar o governo altamente popular do Presidente Lula.<\/p>\n<p class=\"padrao\">Como explicar a atual posi&ccedil;&atilde;o da imprensa?, perguntou outro dia o professor Venicio Lima.<\/p>\n<p class=\"padrao\">Certamente, muitas pesquisas precisar&atilde;o ser feitas para explicar o atual comportamento dos meios de comunica&ccedil;&atilde;o no Brasil. Se toda unanimidade &eacute; burra, como dizia Nelson Rodrigues, estamos diante de um caso que j&aacute; se configura paradigm&aacute;tico. Somente idiossincrasias e preconceitos n&atilde;o explicam a posi&ccedil;&atilde;o da imprensa nesta campanha, posi&ccedil;&atilde;o que n&atilde;o &eacute; somente a dos &ldquo;donos dos jornais&rdquo;, nem apenas a de alguns e algumas importantes e hiper bem remunerados colunistas, mas a de ampla maioria dos profissionais que se dizem &ldquo;jornalistas&rdquo; &ndash; todos diplomados. Servem com denodo, dedica&ccedil;&atilde;o e at&eacute; alegria aos seus patr&otilde;es assim com os soldados SS serviam a Hitler&#8230; &Eacute; mais do que meramente &ldquo;cumprir ordens&rdquo;. &Eacute; acreditar nelas. &Eacute; se querer reconhecido e recompensado por cotidiana, di&aacute;ria, contumaz demonstra&ccedil;&atilde;o de absoluta fidelidade a elas. Nas palavras de Serge Halimi, s&atilde;o os novos &ldquo;c&atilde;es de guarda&rdquo;.<\/p>\n<p class=\"padrao\">Diante da pergunta, arrisquemos alguma hip&oacute;tese. N&atilde;o &eacute; poss&iacute;vel dissociar o papel pol&iacute;tico-ideol&oacute;gico da &ldquo;m&iacute;dia&rdquo;, de sua organiza&ccedil;&atilde;o enquanto empreendimento capitalista e do seu lugar na reprodu&ccedil;&atilde;o do sistema do capital. E, considerando a condi&ccedil;&atilde;o perif&eacute;rica do capitalismo brasileiro, qualquer reflex&atilde;o nos obriga a tentar entender o papel dessa &ldquo;m&iacute;dia&rdquo; na reprodu&ccedil;&atilde;o de 500 anos de periferia.<\/p>\n<p class=\"padrao\">A partir dos anos 1950, em parte devido a for&ccedil;as sociais end&oacute;genas mas em boa parte devido &agrave; configura&ccedil;&atilde;o internacional do capitalismo sob lideran&ccedil;a econ&ocirc;mica, cultural e militar dos Estados Unidos, o Brasil, como muitos outros pa&iacute;ses, ingressou na &eacute;poca de sua industrializa&ccedil;&atilde;o e urbaniza&ccedil;&atilde;o desenvolvimentista. Tratava-se de expandir aqui dentro uma sociedade de consumo similar &agrave; estadunidense. No entanto, como as for&ccedil;as econ&ocirc;micas que comandavam essa expans&atilde;o nos eram externas, a concentra&ccedil;&atilde;o de renda era uma condi&ccedil;&atilde;o <em>sine qua non<\/em> de exporta&ccedil;&atilde;o de parte do excedente internamente gerado pelo pr&oacute;prio desenvolvimento, da&iacute; havendo-se que bloquear as possibilidades de sua melhor distribui&ccedil;&atilde;o social. A sociedade do consumo a brasileira, ao contr&aacute;rio do que acontecia no &ldquo;fordismo&rdquo; estadunidense, n&atilde;o poderia estender-se para todos. Foi essa a natureza do debate, nos anos 1950. Para Celso Furtado e os desenvolvimentistas isebianos de esquerda, nacionalistas por obriga&ccedil;&atilde;o e op&ccedil;&atilde;o, a industrializa&ccedil;&atilde;o precisaria, principalmente, servir para a oferta e consumo de bens de sal&aacute;rio. Para Roberto Campos e os desenvolvimentistas de direita, entreguistas por op&ccedil;&atilde;o, a industrializa&ccedil;&atilde;o somente deveria servir para a oferta e consumo de bens &ldquo;sup&eacute;rfluos&rdquo;.<\/p>\n<p class=\"padrao\">Para a &ldquo;m&iacute;dia&rdquo; brasileira perif&eacute;rica, a segunda op&ccedil;&atilde;o seria natural. Vendendo marcas, estilo de vida, valores consumistas, ascens&atilde;o social, status, isto &eacute;, sustentada pela ind&uacute;stria automobil&iacute;stica, eletro-eletr&ocirc;nica, cosm&eacute;tica e similares estrangeiras, a imprensa se colocaria contra o projeto de desenvolvimento que, nas condi&ccedil;&otilde;es da &eacute;poca, exigiria reter a expans&atilde;o acelerada do consumo consp&iacute;cuo, de modo a favorecer, em primeiro lugar, a expans&atilde;o do consumo b&aacute;sico, da&iacute; permitindo a inclus&atilde;o social da maioria menos favorecida. Ela s&oacute; podia falar para a classe m&eacute;dia consumista, n&atilde;o para os pobres &ndash; ou, para estes, somente falava de crimes, atrav&eacute;s dos famosos jornais &ldquo;espreme\/sai sangue&rdquo;. Falava para a Zona Sul do Rio de Janeiro; para o Morumbi, em S&atilde;o Paulo. Precisava identificar-se com os temores, preconceitos, senso comum, arrog&acirc;ncia, identidade elitista dessa classe m&eacute;dia, para conquistar os n&uacute;meros de circula&ccedil;&atilde;o que lhe permitiria angariar anunciantes. Por isso, expressando a maneira de pensar desse seu p&uacute;blico, colocava-se radicalmente contra qualquer proposta que pudesse cheirar a &ldquo;populismo&rdquo;. E para escrever seus editoriais, suas colunas, suas reportagens podia contar com bons jornalistas egressos cultural e intelectualmente do mesmo meio social. Logo, com os mesmos preconceitos e as mesmas ambi&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p class=\"padrao\">Para enfrentar tal fogo de barragem, Getulio Vargas pensou em usar a mesma artilharia. Capitalizou Samuel Wainer para que criasse um jornal de alta qualidade que, na forma, na linguagem, nas se&ccedil;&otilde;es editoriais se mostrasse similar ao que melhor se poderia fazer na &ldquo;m&iacute;dia&rdquo; de ent&atilde;o (inclusive com coluna de &ldquo;mulher boa&rdquo;), mas politicamente engajado, seja pelos editoriais, seja por op&ccedil;&otilde;es na pauta e nos lides, com o seu projeto nacionalista popular. A <em>&Uacute;ltima Hora<\/em> de Wainer obteve um estrondoso sucesso. Em poucos meses, superou a circula&ccedil;&atilde;o individual dos seus principais concorrentes. Em princ&iacute;pio, pela l&oacute;gica da audi&ecirc;ncia, deveria atrair copioso faturamento publicit&aacute;rio. N&atilde;o atraiu. Foi sempre um empreendimento deficit&aacute;rio apesar do sucesso de p&uacute;blico. &Eacute; que sua fachada de ind&uacute;stria cultural n&atilde;o conseguia disfar&ccedil;ar a sua condi&ccedil;&atilde;o de imprensa pol&iacute;tica, ao n&atilde;o submeter tamb&eacute;m o seu conte&uacute;do noticioso e editorial &agrave;quilo que a &ldquo;m&iacute;dia&rdquo; (e, no caso, a &ldquo;m&iacute;dia&rdquo; perif&eacute;rica), bem como as ag&ecirc;ncias de publicidade, considerariam &ldquo;objetivo&rdquo;, &ldquo;neutro&rdquo;, &ldquo;independente&rdquo;.<\/p>\n<p class=\"padrao\">O golpe de 1964 iria consolidar, de vez, essa rela&ccedil;&atilde;o entre uma sociedade de consumo excludente para uma &ldquo;m&iacute;dia&rdquo; exclusiva, e uma &ldquo;m&iacute;dia&rdquo; exclusiva para uma sociedade de consumo excludente. A estreita classe m&eacute;dia consumista, encurralada por tr&aacute;s dos muros de seus condom&iacute;nios de elite apartada, confirmou-se como base econ&ocirc;mica, cultural e ideol&oacute;gica de uma &ldquo;m&iacute;dia&rdquo; tamb&eacute;m estreita, aglomerada em seus poucos e imponentes canais oligopolistas de veicula&ccedil;&atilde;o. &Eacute; um mercado onde s&oacute; cabe uma grande revista semanal de grande circula&ccedil;&atilde;o; um ou dois jornais importantes nas grandes capitais, quaisquer deles com circula&ccedil;&atilde;o, convenhamos, rid&iacute;cula; n&atilde;o mais que 400 livrarias em todo o pa&iacute;s vendendo <em>best-sellers<\/em> e auto-ajuda (o mesmo que existe apenas em Buenos Aires, vendendo livros da melhor qualidade); principalmente, duas ou tr&ecirc;s grandes redes nacionais de televis&atilde;o.<\/p>\n<p class=\"padrao\">E assim deveria seguir o mundo. Pelo menos, o Brasil.<\/p>\n<p class=\"padrao\">Mas o Brasil decidiu diferente. Por um conjunto grande de fatores, n&atilde;o apenas devido aos dois mandatos de Lula, mas tamb&eacute;m a eles, o pa&iacute;s realmente mudou. Aquela classe m&eacute;dia estreita e elitista viu-se superada quantitativa e qualitativamente por uma nova classe m&eacute;dia, mais popular pelas suas origens, consumista tamb&eacute;m, mas desconectada e desinteressada da opini&atilde;o publicada da grande &ldquo;m&iacute;dia&rdquo;. Finalmente, uma grande massa da popula&ccedil;&atilde;o foi incorporada &agrave; sociedade de consumo. Mas, talvez at&eacute; pelos seus defeitos, sobretudo o seu baixo n&iacute;vel educacional e cultural, n&atilde;o foi incorporada &agrave; leitura semanal de <em>Veja<\/em>, nem &agrave; di&aacute;ria de<em> O Globo<\/em>. Ao mesmo tempo, neste preciso instante, emergem novos meios de comunica&ccedil;&atilde;o, todos eles audiovisuais, como a TV por assinatura, a internet, o &ldquo;celular&rdquo;, que atraem essa audi&ecirc;ncia neoconsumidora para novas formas de produ&ccedil;&atilde;o e consumo de cultura industrial e publicidade. A realidade fabricada por aquela &ldquo;m&iacute;dia&rdquo; parece nada dizer a esta audi&ecirc;ncia. Sobretudo quando ela insiste em denunciar supostos arrivistas da pol&iacute;tica, j&aacute; que, de muitos modos, arrivistas s&atilde;o todos esses neoconsumidores.<\/p>\n<p class=\"padrao\">A velocidade com que essas mudan&ccedil;as est&atilde;o se dando na sociedade brasileira pode, realmente, estar amea&ccedil;ando todo o modelo de neg&oacute;cios de oligop&oacute;lios que se pretendiam eternos, logo tamb&eacute;m as rela&ccedil;&otilde;es, carreiras e ambi&ccedil;&otilde;es profissionais a eles end&oacute;genas. Parece que foram surpreendidos, tanto as empresas, quanto os seus c&atilde;es de guarda, sejam os assalariados, sejam os PJs, paridos e educados, todos e todas, na mesma arrogante elite social. Da&iacute; o desespero&#8230;<\/p>\n<p class=\"padrao\">Se a hip&oacute;tese estiver correta, ainda testemunharemos, nos pr&oacute;ximos anos, grandes mudan&ccedil;as econ&ocirc;micas e pol&iacute;ticas nesta centen&aacute;ria &ldquo;m&iacute;dia&rdquo; nativa. No entanto, a vit&oacute;ria de Dilma Rousseff ou a de Jos&eacute; Serra ser&aacute; decisiva no encaminhamento de medidas legais e regulat&oacute;rias, a esta altura inadi&aacute;veis, que definir&atilde;o o tempo e condi&ccedil;&otilde;es de sobre-vida dos dinossauros medi&aacute;ticos brasileiros. A &ldquo;m&iacute;dia&rdquo; brasileira parece apostar que Serra ser&aacute; o seu Capit&atilde;o Spurgeon &ldquo;Fish&rdquo; Tanner (Robert Duvall) de &ldquo;Impacto Profundo&rdquo;, jogando sua nave contra o meteoro econ&ocirc;mico-cultural que lhe amea&ccedil;a a pr&oacute;pria sobreviv&ecirc;ncia&#8230; S&oacute; que a hist&oacute;ria &eacute; um processo real, n&atilde;o um roteiro hollywoodiano.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A velocidade com que essas mudan&ccedil;as est&atilde;o se dando na sociedade  brasileira pode, realmente, estar amea&ccedil;ando o modelo de neg&oacute;cios de  oligop&oacute;lios<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[42],"tags":[85],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/24960"}],"collection":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=24960"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/24960\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=24960"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=24960"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=24960"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}