{"id":24953,"date":"2010-09-24T12:51:17","date_gmt":"2010-09-24T12:51:17","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=24953"},"modified":"2010-09-24T12:51:17","modified_gmt":"2010-09-24T12:51:17","slug":"a-reforma-da-lei-de-direitos-autorais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=24953","title":{"rendered":"A reforma da Lei de Direitos Autorais"},"content":{"rendered":"\n<p style=\"margin-bottom: 0cm\"><span class=\"padrao\">Voc&ecirc; j&aacute; baixou m&uacute;sicas ou filmes pela internet? J&aacute; comprou um CD ou DVD pirata? J&aacute; xerocou um livro inteiro que estava esgotado nas livrarias e na editora? J&aacute; colocou um CD original para tocar em uma festa de anivers&aacute;rio realizada em um sal&atilde;o de festas? J&aacute; converteu um CD original de que &eacute; propriet&aacute;rio para formato digital, para poder ouvi-lo em seu MP3 player? J&aacute; gravou um programa de TV e o disponibilizou na internet?<\/p>\n<p><\/span> <\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0cm\"><span class=\"padrao\">Se voc&ecirc; respondeu sim a qualquer destas perguntas, ent&atilde;o saiba que, pela atual Lei de Direitos Autorais brasileira, voc&ecirc; &eacute; um criminoso e pode, teoricamente, at&eacute; mesmo ser preso.<\/p>\n<p><\/span> <\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0cm\"><span class=\"padrao\">&ldquo;&Eacute; um absurdo que condutas como esta sejam consideradas crimes!&rdquo;, voc&ecirc; deve estar pensando. E &eacute; justamente para rever nossa Lei de Direitos Autorais que estipula estas e outras restri&ccedil;&otilde;es que o Minist&eacute;rio da Cultura abriu uma consulta p&uacute;blica na internet para ouvir as propostas de todo e qualquer cidad&atilde;o para a elabora&ccedil;&atilde;o de uma nova lei mais sintonizada com a realidade sociocultural do Brasil de hoje.<\/p>\n<p><\/span> <\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0cm\"><span class=\"padrao\">Como n&atilde;o podia deixar de ser, as editoras e gravadoras n&atilde;o gostaram nada da ideia e j&aacute; se organizam para tentar manter as restri&ccedil;&otilde;es. O argumento central destas empresas &eacute; que os direitos autorais protegem os interesses dos autores, e que a perda de alguns destes direitos os desestimularia de criar novas obras. Mas ser&aacute; que este argumento procede?<\/p>\n<p><\/span> <\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0cm\"><span class=\"padrao\">No Brasil, somente rar&iacute;ssimos autores de extremo sucesso recebem mais de 10% do valor do pre&ccedil;o de capa de seus livros. Para a maioria, os rendimentos por suas obras s&atilde;o bem m&oacute;dicos. Para um livro com pre&ccedil;o de capa de R$ 50, que venda 100 exemplares por m&ecirc;s (a maioria dos autores vende bem menos que isso), por exemplo, a remunera&ccedil;&atilde;o pelo trabalho intelectual do autor ser&aacute; de R$ 500 mensais. Menos que um sal&aacute;rio m&iacute;nimo.<\/p>\n<p><\/span> <\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0cm\"><span class=\"padrao\">A situa&ccedil;&atilde;o &eacute; ainda pior em rela&ccedil;&atilde;o aos m&uacute;sicos: recebem, em sua maioria, cerca de 3% do valor de cada CD comercializado. Uma remunera&ccedil;&atilde;o bastante inferior ao que ganham com os cach&ecirc;s de seus shows, que s&atilde;o a grande fonte de renda da maioria destes artistas.<\/p>\n<p><\/span> <\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0cm\"><span class=\"padrao\">Na pr&aacute;tica, os direitos autorais seriam melhor denominados se fossem chamados &ldquo;direitos editoriais&rdquo;, pois a maior parte do lucro fica com quem produz e distribui a obra e n&atilde;o com o artista. O discurso das editoras e gravadoras, no entanto, procura enfatizar o preju&iacute;zo que a c&oacute;pia n&atilde;o autorizada causa aos autores, evitando mencionar que os lucros com direitos autorais v&atilde;o para a conta das empresas e n&atilde;o dos autores.<\/p>\n<p><\/span> <\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0cm\"><span class=\"padrao\"><strong>Criminaliza&ccedil;&atilde;o da c&oacute;pia para uso pessoal<\/strong><\/p>\n<p><\/span> <\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0cm\"><span class=\"padrao\">O Brasil possui uma das legisla&ccedil;&otilde;es de combate &agrave; pirataria mais r&iacute;gidas do mundo, criminalizando inclusive a viola&ccedil;&atilde;o de direitos autorais para uso pessoal sem intuito de lucro. As legisla&ccedil;&otilde;es da maioria dos pa&iacute;ses preveem no m&aacute;ximo san&ccedil;&otilde;es meramente civis para a c&oacute;pia n&atilde;o autorizada para uso pessoal. Os tratados internacionais sobre direitos autorais assinados pelo Brasil tamb&eacute;m n&atilde;o estabelecem a obrigatoriedade da criminaliza&ccedil;&atilde;o destas hip&oacute;teses. Mesmo assim, a legisla&ccedil;&atilde;o atual criminalizou este tipo de viola&ccedil;&atilde;o, e &ndash; pior &ndash; a proposta de nova lei apresentada pelo Minist&eacute;rio da Cultura n&atilde;o prev&ecirc; a revoga&ccedil;&atilde;o desta criminaliza&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p><\/span> <\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0cm\"><span class=\"padrao\">As san&ccedil;&otilde;es civis consistem basicamente em imposi&ccedil;&atilde;o de multas pelo descumprimento da norma. S&atilde;o usadas para punir viola&ccedil;&otilde;es de m&eacute;dia gravidade, como no caso das infra&ccedil;&otilde;es de tr&acirc;nsito, por exemplo. Ningu&eacute;m ser&aacute; preso por avan&ccedil;ar um sinal vermelho, nem ter&aacute; sua ficha de antecedentes maculada por isso, porque a multa de tr&acirc;nsito &eacute; uma san&ccedil;&atilde;o c&iacute;vel. J&aacute; a san&ccedil;&atilde;o penal &eacute; bem mais grave, pois prev&ecirc; penas de pris&atilde;o e presta&ccedil;&atilde;o de servi&ccedil;os &agrave; comunidade e &ldquo;suja&rdquo; a ficha de quem &eacute; punido. Al&eacute;m do mais, a repress&atilde;o penal &eacute; realizada pela pol&iacute;cia, o que implica a inevit&aacute;vel estigmatiza&ccedil;&atilde;o daqueles que por ela forem autuados.<\/p>\n<p><\/span> <\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0cm\"><span class=\"padrao\">A criminaliza&ccedil;&atilde;o da c&oacute;pia n&atilde;o autorizada para uso pessoal &eacute; um excesso injustificado. N&atilde;o existe na maioria dos outros pa&iacute;ses e n&atilde;o &eacute; prevista nos tratados internacionais. A nova lei &eacute; o momento prop&iacute;cio para revog&aacute;-la e abandonar a pol&iacute;tica de criminaliza&ccedil;&atilde;o da pirataria dom&eacute;stica.<\/p>\n<p><\/span> <\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0cm\"><span class=\"padrao\"><strong>O prazo de prote&ccedil;&atilde;o<\/strong><\/p>\n<p><\/span> <\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0cm\"><span class=\"padrao\">Os tratados internacionais assinados pelo Brasil preveem a tutela m&iacute;nima dos direitos autorais pelo prazo de 50 anos depois da morte do autor. A legisla&ccedil;&atilde;o atual protege por 70 anos depois da morte do autor. O projeto de lei proposto n&atilde;o reduz este prazo, mas, ainda que o fizesse, o excesso de restri&ccedil;&atilde;o ainda seria evidente, pois rar&iacute;ssimos s&atilde;o os autores cujas obras possuem algum interesse passados 50 anos de sua morte. Na pr&aacute;tica, longe de proteger o autor, esta restri&ccedil;&atilde;o acaba impedindo a c&oacute;pia de obras j&aacute; esgotadas e n&atilde;o republicadas por falta de interesse comercial das editoras.<\/p>\n<p><\/span> <\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0cm\"><span class=\"padrao\">Para atenuar o problema, sem descumprir os tratados assinados pelo Brasil, uma solu&ccedil;&atilde;o poss&iacute;vel seria a cria&ccedil;&atilde;o por emenda constitucional de um tributo sobre a propriedade intelectual ociosa, a incidir sobre obras esgotadas h&aacute; mais de 5 anos que n&atilde;o tenham sido republicadas. Em cumprimento aos tratados internacionais, os direitos autorais continuariam resguardados, mas para desestimular o autor a manter a obra protegida sem a devida publica&ccedil;&atilde;o, haveria a cobran&ccedil;a de um tributo com al&iacute;quota progressiva com o passar dos anos. Se n&atilde;o houvesse mais o interesse em republicar a obra, o autor poderia optar por pagar o tributo e manter seus direitos patrimoniais para o caso de no futuro resolver voltar a explor&aacute;-la economicamente ou, simplesmente, coloc&aacute;-la em dom&iacute;nio p&uacute;blico para n&atilde;o mais arcar com os custos do tributo.<\/p>\n<p><\/span> <\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0cm\"><span class=\"padrao\"><strong>Limita&ccedil;&otilde;es aos direitos do autor<\/strong><\/p>\n<p><\/span> <\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0cm\"><span class=\"padrao\">Todos os ordenamentos jur&iacute;dicos trazem limita&ccedil;&otilde;es aos direitos do autor, que nada mais s&atilde;o que os direitos do p&uacute;blico de usar a obra sem a necessidade de pagar por ela. Estas limita&ccedil;&otilde;es s&atilde;o muito severas no Brasil se comparadas &agrave;s de outros pa&iacute;ses e o projeto proposto pelo Minist&eacute;rio da Cultura n&atilde;o avan&ccedil;a muito no sentido de ampli&aacute;-las.<\/p>\n<p><\/span> <\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0cm\"><span class=\"padrao\">Dentre as inova&ccedil;&otilde;es bem-vindas no projeto est&aacute; a possibilidade de c&oacute;pia em um &uacute;nico exemplar para uso privado e n&atilde;o comercial. Infelizmente, por&eacute;m, pela proposta atual exige-se que a c&oacute;pia seja feita pelo pr&oacute;prio copista e se prev&ecirc; o recolhimento de direitos autorais pelos estabelecimentos que fazem c&oacute;pias reprogr&aacute;ficas. Ora, n&atilde;o parece razo&aacute;vel supor que a pessoa tenha que adquirir uma m&aacute;quina de xerox para exercer o direito de c&oacute;pia para uso privado. &Eacute; necess&aacute;rio que se permita que a c&oacute;pia para uso pessoal seja feita por um terceiro, pois o eventual lucro do dono da m&aacute;quina est&aacute; relacionado &agrave; presta&ccedil;&atilde;o do servi&ccedil;o de c&oacute;pia e n&atilde;o &agrave; explora&ccedil;&atilde;o do direito autoral. O dono do xerox n&atilde;o cobrar&aacute; mais pela lauda de um livro copiado do que pelo xerox de um documento.<\/p>\n<p><\/span> <\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0cm\"><span class=\"padrao\">As exibi&ccedil;&otilde;es musicais e audiovisuais sem intuito de lucro tamb&eacute;m est&atilde;o permitidas pela proposta de lei apresentada, desde que, por&eacute;m, estejam enquadradas numa s&eacute;rie de hip&oacute;teses bastante restritas como, por exemplo, o uso em estabelecimentos de ensino. Melhor seria que as exibi&ccedil;&otilde;es sem fins lucrativos fossem sempre permitidas, pois n&atilde;o h&aacute; sentido, por exemplo, em se cobrar pela exibi&ccedil;&atilde;o de um filme numa associa&ccedil;&atilde;o de bairro, j&aacute; que l&aacute; ele cumprir&aacute; a mesma fun&ccedil;&atilde;o educacional que em um estabelecimento de ensino formal. Da mesma forma, a exibi&ccedil;&atilde;o musical, ainda que em pra&ccedil;a p&uacute;blica, quando sem fins lucrativos, atende a inequ&iacute;voco fim cultural e, portanto, n&atilde;o deveria estar limitada pela cobran&ccedil;a de direitos autorais.<\/p>\n<p><\/span> <\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0cm\"><span class=\"padrao\"><strong>Conclus&otilde;es<\/strong><\/p>\n<p><\/span> <\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0cm\"><span class=\"padrao\">A iniciativa do Minist&eacute;rio da Cultura de abrir uma consulta p&uacute;blica sobre uma lei de tamanha relev&acirc;ncia para a popula&ccedil;&atilde;o &eacute; positiva, mas ainda h&aacute; muito que se avan&ccedil;ar rumo a uma reda&ccedil;&atilde;o final da lei que contemple mais os interesses da popula&ccedil;&atilde;o como um todo e dos autores de obras intelectuais do que os de editoras, gravadoras e produtoras de filmes.<\/p>\n<p><\/span> <\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0cm\" class=\"padrao\">A ind&uacute;stria cultural est&aacute; unida em torno da manuten&ccedil;&atilde;o de seus interesses econ&ocirc;micos. &Eacute; preciso que a sociedade civil e os interessados em geral se organizem em torno de propostas que ampliem as possibilidades de usos n&atilde;o onerosos de obras intelectuais protegidas. N&atilde;o se pode admitir que uma lei concebida para estimular a criatividade seja a grande respons&aacute;vel pela limita&ccedil;&atilde;o da produ&ccedil;&atilde;o e da divulga&ccedil;&atilde;o da cultura nacional. H&aacute; que se proteger, sim, os direitos dos autores, mas &eacute; preciso concili&aacute;-los com o justo interesse da popula&ccedil;&atilde;o em geral de copiar obras livremente para uso pessoal, quando o fizer sem fins lucrativos.<\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0cm\" class=\"padrao\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0cm\">   \t \t \t \t  <\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0cm\" class=\"padrao\"><em>*Professor da Faculdade de Direito da UFMG.<\/em><\/p>\n<p>&nbsp; <\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p><span class=\"padrao\">O Brasil possui uma das legisla&ccedil;&otilde;es de combate &agrave; pirataria mais r&iacute;gidas do mundo, criminalizando inclusive a viola&ccedil;&atilde;o de direitos autorais para uso pessoal sem intuito de lucro<\/span><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[42],"tags":[431],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/24953"}],"collection":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=24953"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/24953\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=24953"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=24953"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=24953"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}