{"id":24948,"date":"2010-09-22T13:01:20","date_gmt":"2010-09-22T13:01:20","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=24948"},"modified":"2010-09-22T13:01:20","modified_gmt":"2010-09-22T13:01:20","slug":"as-senhoras-de-santana-da-imprensa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=24948","title":{"rendered":"As senhoras de Santana da imprensa"},"content":{"rendered":"\n<p style=\"margin-bottom: 0cm\"><span class=\"padrao\">Em 1980, surgiu em S&atilde;o Paulo um grupo de mulheres preocupadas com a &ldquo;imoralidade&rdquo; que tomava conta da televis&atilde;o. Sobretudo com os programas que surgiam naquela d&eacute;cada falando abertamente de sexo, como o da hoje candidata a senadora Marta Suplicy no TV Mulher. Apelidadas de &ldquo;senhoras de Santana&rdquo;, por serem moradoras do bairro com este nome, elas marcaram &eacute;poca e viraram sin&ocirc;nimo do atraso e do conservadorismo nos costumes.<\/p>\n<p><\/span> <\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0cm\"><span class=\"padrao\">Trinta anos depois, surge uma nova gera&ccedil;&atilde;o de &ldquo;senhoras de Santana&rdquo;. Desta vez, n&atilde;o descobertas por jornalistas: s&atilde;o jornalistas. Instaladas em n&uacute;mero cada vez mais volumoso nas reda&ccedil;&otilde;es, premiadas com cargos de chefia e ascens&atilde;o mete&oacute;rica, as senhoras de Santana do jornalismo s&atilde;o o exato oposto da figura m&iacute;tica do rep&oacute;rter talentoso, espirituoso, culto e algo anarquista: t&ecirc;m um texto ruim de doer e nunca leram nada a n&atilde;o ser seu pr&oacute;prio ve&iacute;culo, mas cumprem rigorosamente as tarefas que lhes s&atilde;o dadas. Seu maior &iacute;dolo &eacute; o patr&atilde;o.<\/p>\n<p>Esque&ccedil;a a imagem do jornalista concentrado, batucando com rapidez sua reportagem com um cigarro pendurado no bico. As novas senhoras de Santana do jornalismo n&atilde;o fumam. Ali&aacute;s, deduram quem estiver fumando em ambiente fechado, como reza a lei imposta por aquele pol&iacute;tico que seus patr&otilde;es adoram e que eles, obedientemente, passaram a bajular. Fumar baseado, ent&atilde;o, nem pensar. Os rep&oacute;rteres de Santana s&atilde;o contra a descrimina&ccedil;&atilde;o de todas as drogas, at&eacute; da menos nociva delas. Se as senhoras de Santana do jornalismo soubessem que andam por a&iacute; fumando or&eacute;gano, fariam mat&eacute;rias pela proibi&ccedil;&atilde;o do uso, mesmo na pizza.<\/p>\n<p><\/span> <\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0cm\"><span class=\"padrao\">As novas senhoras de Santana do jornalismo n&atilde;o questionam o poder ou os dogmas da Igreja cat&oacute;lica. Pelo contr&aacute;rio, fazem quest&atilde;o de ir &agrave; missa todos os domingos. Pior: simpatizam com a Opus Dei, a ala mais conservadora do catolicismo. S&atilde;o contr&aacute;rios &agrave; libera&ccedil;&atilde;o do aborto e defensores do papa sob quaisquer circunst&acirc;ncias, inclusive quando o suposto representante de Deus na Terra &eacute; acusado de acobertar a pedofilia.<\/p>\n<p><\/span> <\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0cm\"><span class=\"padrao\">Ao contr&aacute;rio do que ocorreu no passado, quando os jornalistas tiveram papel importante na luta contra a ditadura, as novas senhoras de Santana do jornalismo se especializaram em denegrir a imagem daqueles que optaram pela a&ccedil;&atilde;o armada para combater o poderio militar. Vilipendiam os guerrilheiros com fichas falsas e biografias inventadas. O rep&oacute;rter Vladimir Herzog morreu enforcado nos por&otilde;es do regime. N&atilde;o viveu para ver a triste transforma&ccedil;&atilde;o dos &ldquo;coleguinhas&rdquo; em senhoras de Santana. Quando Herzog morreu, a grande maioria dos jornalistas se dizia de esquerda. As novas senhoras de Santana do jornalismo adoram pontificar que n&atilde;o existe mais esquerda e direita, mas s&atilde;o de direita.<\/p>\n<p><\/span> <\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0cm\"><span class=\"padrao\">Nem pense nos papos animados ap&oacute;s o fechamento dos velhos homens de imprensa, varando madrugadas pelos bares da vida. As novas senhoras de Santana n&atilde;o bebem, v&atilde;o direto para casa depois de trabalharem mais de dez horas por dia &ndash; sem carteira assinada. E ainda patrulham a birita alheia, como se fossem fiscais de tr&acirc;nsito 24 horas a postos com seus baf&ocirc;metros virtuais. &ldquo;O presidente bebe cacha&ccedil;a&rdquo;, torcem o nariz as jornalistas de Santana. &ldquo;A candidata do presidente torceu o p&eacute;. Deve ser porque encheu a cara&rdquo;, acusam.<\/p>\n<p><\/span> <\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0cm\"><span class=\"padrao\">Toda vez que as novas senhoras de Santana da imprensa encontrarem aquele ator famoso que andou se desintoxicando do v&iacute;cio de coca&iacute;na e por isso perdeu pap&eacute;is em novelas, v&atilde;o tortur&aacute;-lo com as mesmas perguntas: &ldquo;Voc&ecirc; parou mesmo de cheirar?&rdquo; &ldquo;O tratamento funcionou ou n&atilde;o?&rdquo; Sim, os jornalistas de Santana n&atilde;o saem para beber porque preferem ficar em casa vendo novela. Se duvidar, as novas senhoras de Santana do jornalismo nem fazem sexo. Talvez de vez em quando, vai. Mas s&oacute; papai-e-mam&atilde;e. E heterossexual, claro.<\/p>\n<p><\/span> <\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0cm\" class=\"padrao\">No futuro, as escolas de jornalismo ser&atilde;o monast&eacute;rios, de onde sair&atilde;o mais e mais senhoras de Santana habilitadas n&atilde;o s&oacute; a escrever reportagens como a rezar a missa.<\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0cm\" class=\"padrao\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0cm\" class=\"padrao\">&nbsp;<\/p>\n<p class=\"padrao\">* <em>Cynara Menezes &eacute; jornalista. Atuou no extinto &quot;Jornal da Bahia&quot;, em Salvador, onde morava. Em 1989, de Bras&iacute;lia, atuava para diversos &oacute;rg&atilde;os da imprensa. Morou dois anos na Espanha e outros dez em S&atilde;o Paulo, quando colaborou para a &quot;Folha de S. Paulo&quot;, &quot;Estad&atilde;o&quot;, &quot;Veja&quot; e para a revista &quot;VIP&quot;. Est&aacute; de volta a Bras&iacute;lia h&aacute; dois anos e meio, de onde escreve para a CartaCapital.<\/em><\/p>\n<p><em>&nbsp; <\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>As novas senhoras de Santana s&atilde;o jornalistas: <span class=\"padrao\">o exato oposto da figura m&iacute;tica do rep&oacute;rter talentoso, espirituoso, culto e algo anarquista<\/span><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[42],"tags":[154],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/24948"}],"collection":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=24948"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/24948\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=24948"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=24948"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=24948"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}