{"id":24918,"date":"2010-09-13T13:05:28","date_gmt":"2010-09-13T13:05:28","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=24918"},"modified":"2010-09-13T13:05:28","modified_gmt":"2010-09-13T13:05:28","slug":"nas-eleicoes-pos-collor-a-midia-manteve-a-centralidade-no-processo-politico","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=24918","title":{"rendered":"\u201cNas elei\u00e7\u00f5es p\u00f3s-Collor a m\u00eddia manteve a centralidade no processo pol\u00edtico\u201d"},"content":{"rendered":"<p><em class=\"padrao\">[T&iacute;tulo original: &quot;Os jornais est&atilde;o cada vez mais ideol&oacute;gicos e partidarizados&quot;.    \t \t \t \tPor Gilberto Maringoni, Igor Fuser e Maria G. Juvencio Sobrinho, em 7\/9\/2010.]<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"padrao\">Ven&iacute;cio Artur de Lima &eacute; um dos mais agudos cr&iacute;ticos do processo de monopoliza&ccedil;&atilde;o dos meios de comunica&ccedil;&atilde;o. A partir da forma&ccedil;&atilde;o em Sociologia Pol&iacute;tica pela Universidade Federal de Minas Gerais, no in&iacute;cio dos anos 1960, Ven&iacute;cio especializou-se no exame da m&iacute;dia e de suas decorr&ecirc;ncias para a vida pol&iacute;tica, social e cultural brasileira. Aposentado como professor titular no departamento de Ci&ecirc;ncia Pol&iacute;tica da Universidade de Bras&iacute;lia, esse mineiro nascido em Sabar&aacute; h&aacute; 65 anos n&atilde;o teme a pol&ecirc;mica. Sua vida foi impactada pelos acontecimentos que resultaram no golpe de 1964 e no fechamento da democracia a partir dali. &quot;Eu comecei minha trajet&oacute;ria acad&ecirc;mica com uma participa&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica estudantil forte, alterando minha percep&ccedil;&atilde;o da sociedade em todos os sentidos&quot;. Ex-militante da A&ccedil;&atilde;o Popular, organiza&ccedil;&atilde;o da esquerda cat&oacute;lica &ndash; que teve entre seus dirigentes Jos&eacute; Serra, Duarte Pereira, Herbert de Souza (Betinho), Aldo Arantes e Renato Rabelo &ndash;, Ven&iacute;cio manifestou cedo seu interesse pelos meios de comunica&ccedil;&atilde;o. Antes de se iniciar na vida acad&ecirc;mica, trabalhou v&aacute;rios anos como publicit&aacute;rio.<\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0cm\" class=\"padrao\">Em 1971, ingressou como professor na UnB. &quot;Fui para l&aacute; e comecei a dar aula em comunica&ccedil;&atilde;o, onde fiquei vinte anos. Lecionei teoria da comunica&ccedil;&atilde;o, fui chefe do departamento que implantou o programa de mestrado, o terceiro do Brasil, depois da USP e da UFRJ&quot;. No final dos anos 1980, tranferiu-se para o departamento de Ci&ecirc;ncia Pol&iacute;tica. Mestre, doutor e p&oacute;s-doutor em Comunica&ccedil;&atilde;o pela Universidade de Illinois (EUA), Ven&iacute;cio moldou sua vis&atilde;o te&oacute;rica especialmente pelo estudo da obra de tr&ecirc;s autores, Raymond Williams (1921&ndash;1988), Stuart Hall (1932 &ndash; ) e Antonio Gramsci (1891&ndash;1937).<\/p>\n<p>Em 1989, coordenou uma pesquisa sobre o papel da m&iacute;dia nas primeiras elei&ccedil;&otilde;es presidenciais diretas ap&oacute;s a ditadura. &quot;Eu queria saber se a Globo tinha colocado o Fernando Collor para vencer as elei&ccedil;&otilde;es&quot;, diz ele. O resultado foi publicado no Brasil e no exterior. Articulista dos sites <em>Observat&oacute;rio da Imprensa e Carta Maior<\/em>, Ven&iacute;cio &eacute; autor de onze livros, entre eles <em>A m&iacute;dia nas elei&ccedil;&otilde;es de 2006<\/em> (Editora Funda&ccedil;&atilde;o Perseu Abramo, 2007) e <em>M&iacute;dia: teoria e pol&iacute;tica<\/em> (Editora Funda&ccedil;&atilde;o Perseu Abramo, 2001). Em junho &uacute;ltimo lan&ccedil;ou <em>Liberdade de express&atilde;o vs. liberdade de imprensa &ndash; Direito &agrave; comunica&ccedil;&atilde;o e democracia<\/em> (Publisher Brasil). A seguir, os principais trechos da entrevista com Ven&iacute;cio Lima.<\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0cm\" class=\"padrao\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0cm\" class=\"padrao\">&nbsp;<\/p>\n<p><span class=\"padrao\"><strong>Como o senhor come&ccedil;ou a se interessar pela an&aacute;lise da m&iacute;dia?<\/strong><em><br \/><\/em>Eu estudava sociologia em Belo Horizonte, no in&iacute;cio dos anos 1960, depois de ter iniciado engenharia em Ouro Preto. A capital mineira era uma cidade na qual um &uacute;nico grupo de comunica&ccedil;&atilde;o &ndash; o dos Di&aacute;rios Associados &ndash; controlava praticamente toda a m&iacute;dia. Era <em>Estado de Minas<\/em>, o <em>Di&aacute;rio da Tarde<\/em>, a R&aacute;dio Mineira, a R&aacute;dio Guarani, a TV Itacolomi e a TV Alterosa. Um neg&oacute;cio avassalador. Aquilo me impressionou muito e comecei a tentar entender como ocorriam aquelas manifesta&ccedil;&otilde;es que resultaram no golpe de 1964, a exemplo da Marcha da Fam&iacute;lia com Deus pela Liberdade, que teve ampla repercuss&atilde;o na imprensa. Eu queria entender como as pessoas entravam naquela. Logo depois, consegui um emprego em uma ag&ecirc;ncia de propaganda, porque achava que eu ia estudar psicologia social, propaganda. Foi assim que aconteceu. Essa coisa de uma concentra&ccedil;&atilde;o muito grande da propriedade cruzada dos meios de comunica&ccedil;&atilde;o l&aacute;, na minha cara, teve uma influ&ecirc;ncia danada. Na d&eacute;cada de 1970, quando eu fui para Bras&iacute;lia, est&aacute;vamos vivendo o momento mais duro do regime militar. Havia uma situa&ccedil;&atilde;o surpreendente nessa &eacute;poca. No governo Geisel (1974&ndash;1979), o Ministro das Comunica&ccedil;&otilde;es era Euclides Quandt de Oliveira. Na segunda metade do governo, ele fez uma s&eacute;rie de pronunciamentos falando sobre o perigo da televis&atilde;o, que o governo era o correspons&aacute;vel por isso. H&aacute; um discurso famoso na &eacute;poca, no qual ele classificava a televis&atilde;o brasileira como uma Hidra criada pelo sistema. S&oacute; que, segundo ele, o sistema tinha perdido o controle daquele bicho com sete cabe&ccedil;as e tal. H&aacute; uma tend&ecirc;ncia de se achar que durante o regime militar foi tudo homog&ecirc;neo. N&atilde;o foi. Houve um momento, a partir da segunda metade do governo Geisel, no qual o regime claramente se d&aacute; conta de que as condi&ccedil;&otilde;es tinham sido criadas para a forma&ccedil;&atilde;o de um grande grupo privado de comunica&ccedil;&atilde;o no Brasil. &Eacute; a Rede Globo, que sa&iacute;ra do controle deles e que passou a ter tanta for&ccedil;a que &agrave;s vezes enfrentava o regime. No governo Figueiredo (1979&ndash;1985), o Ministro da Comunica&ccedil;&atilde;o Social Said Farhat prestou um depoimento na Comiss&atilde;o de Comunica&ccedil;&otilde;es da C&acirc;mara, falando que viv&iacute;amos uma situa&ccedil;&atilde;o de monop&oacute;lio. Logo depois, o governo Figueiredo repartiu o esp&oacute;lio da TV Tupi [que havia falido em 1979] para o Grupo S&iacute;lvio Santos e para a Manchete. <\/p>\n<p><\/span> <\/p>\n<p class=\"padrao\"><strong>O senhor montou um grupo de pesquisa para analisar a influ&ecirc;ncia dos meios de comunica&ccedil;&atilde;o nas elei&ccedil;&otilde;es de 1989. Como foi isso?<\/strong><em><br \/><\/em>No final da d&eacute;cada de 1980, eu me interessei pela rela&ccedil;&atilde;o da m&iacute;dia com as elei&ccedil;&otilde;es. Eu tinha uma bolsa do CNPQ e um conjunto de auxiliares de pesquisa trabalhando comigo. Come&ccedil;amos a acompanhar o processo eleitoral de 1989. Os principais postulantes eram Lula, Leonel Brizola e Fernando Collor. Me dei conta de que a campanha eleitoral acontecia fora dos espa&ccedil;os de jornalismo pol&iacute;tico e alcan&ccedil;ava sobretudo na programa&ccedil;&atilde;o de entretenimento, como as novelas&hellip; Eu me convenci de que, se n&atilde;o fosse a Globo, o Collor n&atilde;o seria eleito. <\/p>\n<p><strong>Como assim?<\/strong><em><br \/><\/em>Nesse per&iacute;odo, comecei a desenvolver um conceito que ficou conhecido como cen&aacute;rio de representa&ccedil;&atilde;o. Eu percebi a constru&ccedil;&atilde;o de um cen&aacute;rio para um candidato, no caso, o Collor, acontecendo muito al&eacute;m da cobertura pol&iacute;tica dos telejornais. Falo especificamente no caso da televis&atilde;o, constru&iacute;do nas novelas, nos programas de entretenimento, na presen&ccedil;a do candidato em programas partid&aacute;rios que n&atilde;o eram programas de campanha eleitoral etc. <\/p>\n<p><strong>E a que conclus&otilde;es voc&ecirc;s chegaram?<\/strong><em><br \/><\/em>Uma das conclus&otilde;es est&aacute; em um texto que escrevi, intitulado &quot;Televis&atilde;o e pol&iacute;tica: hip&oacute;tese sobre o primeiro turno da elei&ccedil;&atilde;o presidencial de 89&quot;, publicado em 2001 em meu livro <em>M&iacute;dia e Pol&iacute;tica. <\/em>Em minha avalia&ccedil;&atilde;o, o Collor venceu o primeiro turno das elei&ccedil;&otilde;es por ter sido um candidato apoiado pelo principal grupo de m&iacute;dia do pa&iacute;s, as organiza&ccedil;&otilde;es Globo. Havia uma a&ccedil;&atilde;o articulada entre a maior empresa de comunica&ccedil;&atilde;o e o candidato, de tal forma que, tanto no entretenimento quanto na cobertura jornal&iacute;stica, criava-se um cen&aacute;rio determinado. Era aquele neg&oacute;cio de ca&ccedil;ador de maraj&aacute;s, da valoriza&ccedil;&atilde;o do jovem e da beleza masculina que ele representava. Tudo isso era constru&iacute;do nesses diversos cen&aacute;rios.<\/p>\n<p><strong>E havia um certo voluntarismo, aquele neg&oacute;cio de que, para se mudar o pa&iacute;s, bastaria ter vontade&#8230;<\/strong><em><br \/><\/em>Sim, a hist&oacute;ria do her&oacute;i&#8230; O Collor foi um candidato constru&iacute;do na m&iacute;dia. A campanha dele se ajustava a uma s&eacute;rie de provid&ecirc;ncias, como deslocamento de rep&oacute;rteres da Globo para Alagoas, desde o tempo que ele era governador. Mais tarde, eu fiz uma colet&acirc;nea de textos detalhando esse conceito de cen&aacute;rio de representa&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica, aplicando-o a elei&ccedil;&otilde;es municipais, estaduais, nacionais etc. Acho importante registrar que esse grupo de trabalho foi criado quando eu passei da &aacute;rea de Comunica&ccedil;&atilde;o para a de Ci&ecirc;ncia Pol&iacute;tica. Ele acabou se transformando no Nemp (N&uacute;cleo de Estudos sobre M&iacute;dia e Pol&iacute;tica), da UnB, e re&uacute;ne gente de &aacute;reas diferentes. Existe at&eacute; hoje. Tenho muito orgulho disso. <br \/><strong><br \/>A elei&ccedil;&atilde;o de 1994 foi muito diferente, n&atilde;o? O candidato constru&iacute;do pela m&iacute;dia tinha pelo menos um plano econ&ocirc;mico&#8230; O senhor poderia comentar se houve interfer&ecirc;ncia da m&iacute;dia na disputa pol&iacute;tica e na disputa de hegemonia na sociedade?<\/strong><em><br \/><\/em>Quando voc&ecirc; fala em hegemonia, &eacute; preciso ressaltar que esse conceito de cen&aacute;rio de representa&ccedil;&atilde;o &eacute; gramsciano. &Eacute; uma tentativa de examinar o papel que aparelhos privados, como a m&iacute;dia, exercem na constru&ccedil;&atilde;o da hegemonia. O conjunto dos ve&iacute;culos de comunica&ccedil;&atilde;o de massa ocupa um papel central na vida contempor&acirc;nea. N&atilde;o se trata apenas da esfera pol&iacute;tica. A grande m&iacute;dia tem o poder de pautar na sociedade o que &eacute; tema p&uacute;blico e o que n&atilde;o &eacute; tema p&uacute;blico. Ela constr&oacute;i a percep&ccedil;&atilde;o das pessoas, como &eacute; o caso do MST (Movimento dos Trabalhadores Sem terra) no Brasil. O MST &eacute; totalmente satanizado. S&oacute; aparece na agenda da m&iacute;dia de forma negativa. A m&eacute;dio e a longo prazo, o efeito &eacute; muito maior do que o efeito eleitoral. Boa parte da popula&ccedil;&atilde;o pensa tratar-se de um movimento criminoso. Diante disso, eu n&atilde;o tenho nenhuma d&uacute;vida de que nas elei&ccedil;&otilde;es p&oacute;s-Collor &ndash; as duas de Fernando Henrique e as duas de Lula &ndash; a m&iacute;dia manteve a centralidade no processo pol&iacute;tico. Ela foi um dos fatores determinantes da vit&oacute;ria ou da derrota dos candidatos. Mais do que isso. Para ser eleito, o candidato teve de fazer acordos com a m&iacute;dia. Em 2006, Lula venceu apesar da oposi&ccedil;&atilde;o &agrave;s vezes expl&iacute;cita dos meios de comunica&ccedil;&atilde;o. A&iacute; entrou o fator Internet. Embora n&atilde;o tenhamos um quadro totalmente claro, seu alcance est&aacute; alterando a import&acirc;ncia e o poder da m&iacute;dia de massa.<br \/><strong><br \/>O senhor n&atilde;o acha que em 2006 houve outra mudan&ccedil;a? Essa mudan&ccedil;a teria se dado pela abertura de um canal direto entre um presidente de origem popular e a popula&ccedil;&atilde;o e por programas sociais eficazes? N&atilde;o lhe parece que outro tipo de comunica&ccedil;&atilde;o, por fora da m&iacute;dia, teria acontecido? A Internet tamb&eacute;m parece ter tido um papel importante na consolida&ccedil;&atilde;o desse novo cen&aacute;rio&#8230;<\/strong><em><br \/><\/em>Sim, &eacute; correto isso. H&aacute; quatro anos, eu organizei para a Editora Funda&ccedil;&atilde;o Perseu Abramo um livro chamado <em>M&iacute;dia nas elei&ccedil;&otilde;es de 2006. <\/em>Eu me apoiei em pesquisas de institutos completamente diferentes, o Observat&oacute;rio Brasileiro de M&iacute;dia, o Iuperj e a ESPM. Ficou muito claro pra mim, sobretudo na passagem do primeiro para o segundo turno, que houve um momento de inflex&atilde;o. Foi a primeira vez em que circulou na Internet uma vers&atilde;o oposta &agrave; vers&atilde;o da m&iacute;dia dominante sobre o caso da montanha de dinheiro, dos aloprados etc. J&aacute; naquela &eacute;poca, lideran&ccedil;as populares de movimentos, de organiza&ccedil;&otilde;es sociais tiveram acesso a essa contrainforma&ccedil;&atilde;o e elas passaram a fazer o papel de formadores de opini&atilde;o. Isso at&eacute; ent&atilde;o era monop&oacute;lio exclusivo dos articulistas e dos colunistas que tradicionalmente estavam na grande m&iacute;dia. Em 2006, come&ccedil;amos a observar um certo deslocamento desse papel de forma&ccedil;&atilde;o de opini&atilde;o que os grandes meios de comunica&ccedil;&atilde;o se autoatribuem. A intermedia&ccedil;&atilde;o das lideran&ccedil;as foi capaz de se contrapor &agrave; informa&ccedil;&atilde;o hegem&ocirc;nica. Isso evitou que o candidato da grande m&iacute;dia fosse vitorioso no segundo turno. <\/p>\n<p><strong>Um jornal importante de S&atilde;o Paulo, em seu projeto editorial, elaborado em 1986, alega textualmente possuir um mandato dos leitores para fiscalizar o poder. O senhor acha que esse suposto mandato estaria em quest&atilde;o?<\/strong><em><br \/><\/em>Olha, eu acho que esse mandato &eacute; uma inven&ccedil;&atilde;o liberal. H&aacute; outras. No in&iacute;cio dos anos 1940, nos Estados Unidos, os pr&oacute;prios grupos privados de m&iacute;dia perceberam n&atilde;o existir algo como um livre mercado de ideias, propagado pelos meios de comunica&ccedil;&atilde;o. A partir da&iacute;, foi criada a Comiss&atilde;o pela Liberdade de Imprensa &ndash; ou Comiss&atilde;o Hutchins, em alus&atilde;o ao seu dirigente, Robert Hutchins, reitor da Universidade de Chicago. Ap&oacute;s cinco anos de trabalho, em 1947, o grupo lan&ccedil;ou, entre outras coisas, a ideia de responsabilidade social da imprensa. Foi de certa forma a constata&ccedil;&atilde;o da n&atilde;o exist&ecirc;ncia de um mercado livre de ideias, como propagado anteriormente. A no&ccedil;&atilde;o de que a imprensa reproduziria a mesma l&oacute;gica do mercado de bens, com a exist&ecirc;ncia de tantos ve&iacute;culos quanto as diferentes ideias, opini&otilde;es etc. mostrou-se fict&iacute;cia. Com a tend&ecirc;ncia de oligopoliza&ccedil;&atilde;o, ficou imposs&iacute;vel defender a exist&ecirc;ncia do livre mercado de ideias. A&iacute; inventaram esse neg&oacute;cio da responsabilidade social da imprensa. Logo surgiu a hist&oacute;ria da objetividade, dos dois lados, de voc&ecirc; ouvir os diferentes e tal. &Eacute; uma tentativa de se trazer o tal livre mercado de ideias para dentro do pr&oacute;prio jornal. E a comiss&atilde;o disseminou a ideia da autorregulamenta&ccedil;&atilde;o da m&iacute;dia, que os empres&aacute;rios brasileiros est&atilde;o ressuscitando agora. Trata-se de uma forma de evitar a regula&ccedil;&atilde;o. Em v&aacute;rios pa&iacute;ses, a autorregula&ccedil;&atilde;o em diversas &aacute;reas nunca impediu que o Estado exer&ccedil;a seu papel regulador. No caso brasileiro, a Constitui&ccedil;&atilde;o &eacute; absolutamente expl&iacute;cita sobre as necessidades de tais leis. Se os empres&aacute;rios querem implantar a autorregula&ccedil;&atilde;o deles, eu n&atilde;o tenho nada contra, que fa&ccedil;am. Agora, isso &eacute; diferente de regula&ccedil;&atilde;o feita pelo Estado, com controle social, coisa absolutamente necess&aacute;ria, como ocorre em outros lugares do planeta.<\/p>\n<p><strong>O senhor acha que existe uma tentativa de cerceamento da m&iacute;dia na Am&eacute;rica Latina? <\/strong><em><br \/><\/em>V&aacute;rios candidatos ligados ao campo popular no continente venceram elei&ccedil;&otilde;es presidenciais em diversos pa&iacute;ses. Pela primeira vez, a grande m&iacute;dia, articulada no hemisf&eacute;rio pela SIP (Sociedade Interamericana de Prensa), se viu derrotada em seus pr&oacute;prios pa&iacute;ses. Em alguns casos ela foi coautora de golpes, como no caso da Venezuela em 2002. Nesses pa&iacute;ses, dentre os v&aacute;rios compromissos eleitorais dos candidatos, estava uma revis&atilde;o da regula&ccedil;&atilde;o da m&iacute;dia. Os grandes grupos do setor sempre estiveram associados &agrave;s elites dominantes, apoiaram golpes de Estado dos anos 1970 e 1980. No Equador, por exemplo, o presidente Rafael Correa criou uma comiss&atilde;o para rever a legisla&ccedil;&atilde;o das concess&otilde;es de r&aacute;dio e TV. A gente tem de entender a rea&ccedil;&atilde;o dos grupos de m&iacute;dia dentro do contexto hist&oacute;rico da Am&eacute;rica Latina. Da&iacute; a tentativa de se convencer o conjunto da popula&ccedil;&atilde;o de que a liberdade de express&atilde;o est&aacute; sendo amea&ccedil;ada no continente. Isso chega a ser um acinte &agrave; intelig&ecirc;ncia das pessoas. Tenta-se confundir liberdade de express&atilde;o e liberdade de imprensa. Essa &eacute; uma batalha de ideias na qual os grandes grupos de m&iacute;dia est&atilde;o apostando. Esses setores afirmam que a regula&ccedil;&atilde;o externa, a regula&ccedil;&atilde;o p&uacute;blica, estatal ou o controle p&uacute;blico dos meios de comunica&ccedil;&atilde;o seria uma forma de censura. O exemplo maior vem do jornal <em>O Estado de S. Paulo<\/em>, ao alegar que estaria sob censura. Na verdade, o que houve foi uma decis&atilde;o judicial sobre partes de um processo que n&atilde;o podiam ser divulgadas, por quest&otilde;es de segredo de justi&ccedil;a. Isso faz parte de um jogo maior. <\/p>\n<p><strong>Para terminar: teremos ou n&atilde;o em um futuro pr&oacute;ximo uma comunica&ccedil;&atilde;o mais democr&aacute;tica no Brasil?<\/strong><em><br \/><\/em>Vamos por partes. H&aacute; mais de 15 anos, tenho tentado dizer que a m&iacute;dia impressa n&atilde;o tem a import&acirc;ncia que se atribui a ela. A circula&ccedil;&atilde;o dos maiores jornais &eacute; baixa. O principal di&aacute;rio tem uma tiragem de 250 mil exemplares, em um pa&iacute;s da dimens&atilde;o do nosso. Esses jornais, que se dizem nacionais, s&atilde;o na verdade locais ou regionais. As tiragens s&atilde;o rid&iacute;culas, mesmo se comparadas ao tamanho da elite brasileira. Por isso, eu tenho esperan&ccedil;a de que a m&iacute;dia alternativa se fortale&ccedil;a. Penso no fortalecimento da imprensa contra-hegem&ocirc;nica, no movimento da Altercom, a associa&ccedil;&atilde;o dos pequenos e m&eacute;dios empres&aacute;rios de comunica&ccedil;&atilde;o, no fortalecimento dos sites alternativos da Internet, no esfor&ccedil;o que a EBC (Empresa Brasileira de Comunica&ccedil;&atilde;o) est&aacute; fazendo para ser uma empresa p&uacute;blica. Enfim, tenho esperan&ccedil;a que esse quadro mude, por for&ccedil;a da realidade. Eu acho que a gera&ccedil;&atilde;o mais nova j&aacute; n&atilde;o tem o h&aacute;bito da leitura impressa como a minha tinha. H&aacute; alguns anos, era um h&aacute;bito quase religioso uma pessoa de classe m&eacute;dia acordar e, no caf&eacute; da manh&atilde;, ler o jornal. Isso mudou. Com isso, o poder da grande m&iacute;dia, sobretudo da m&iacute;dia impressa, vai se reduzir. Hoje, a informa&ccedil;&atilde;o est&aacute; muito fragmentada de muitas formas diferentes. O ouvinte e o leitor cada vez t&ecirc;m mais acesso &agrave; pluralidade da Internet. N&atilde;o &eacute; mais poss&iacute;vel ver a m&iacute;dia falando da pol&iacute;tica externa brasileira como faz atualmente. Ela quase fala sozinha. Como diz o Bernardo Kucinski, na m&iacute;dia impressa, a elite &eacute; a protagonista, a fonte e a leitora principal. Se lermos a imprensa estrangeira &ndash; mesmo a imprensa americana &ndash;, que tem um pouco mais de diversidade do que a nossa, vemos o absurdo da cobertura sobre as a&ccedil;&otilde;es de pol&iacute;tica externa brasileira. Os jornais est&atilde;o cada vez mais ideol&oacute;gicos e partidarizados. Eles v&atilde;o falar cada vez mais para seus pr&oacute;prios nichos e, espero, deixar&atilde;o de ter essa import&acirc;ncia atual. Parece at&eacute; que o que sai no <em>Globo<\/em>, no <em>Estad&atilde;o <\/em>e na <em>Folha <\/em>&eacute; o sentimento nacional a cada dia. N&atilde;o &eacute; e isso est&aacute; ficando cada vez mais evidente.<\/p>\n<p>&nbsp; <\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp; <\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O professor aposentado da UnB fala de sua trajet&oacute;ria e da influ&ecirc;ncia da m&iacute;dia nos processos eleitorais<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[43],"tags":[1407],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/24918"}],"collection":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=24918"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/24918\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=24918"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=24918"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=24918"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}