{"id":24771,"date":"2010-08-02T17:34:11","date_gmt":"2010-08-02T17:34:11","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=24771"},"modified":"2010-08-02T17:34:11","modified_gmt":"2010-08-02T17:34:11","slug":"legalidade-e-legitimidade-da-resolucao-24-anvisa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=24771","title":{"rendered":"Legalidade e legitimidade da Resolu\u00e7ao 24 (Anvisa)"},"content":{"rendered":"<p>   \t \t \t \t \t<!-- \t\t@page { margin: 2cm } \t\tP { margin-bottom: 0.21cm } \t--> \t  <\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0cm\" class=\"padrao\">As crian&ccedil;as brasileiras, como apontam recentes estudos, est&atilde;o ingerindo mais calorias do que o organismo necessita. O Brasil ultrapassou os Estados Unidos em termos de obesidade infantil. Nada menos de 22% das crian&ccedil;as entre 2 e 5 anos apresentam sobrepeso. O controle sobre o que se come s&oacute; &eacute; poss&iacute;vel com informa&ccedil;&otilde;es claras e adequadas sobre os alimentos. Em 2005, a OMS (Organiza&ccedil;&atilde;o Mundial da Sa&uacute;de) destaca que a comercializa&ccedil;&atilde;o de alimentos n&atilde;o saud&aacute;veis &agrave; popula&ccedil;&atilde;o infantil &eacute; fator que contribui decisivamente para o aumento de n&iacute;veis de obesidade na fase adulta<\/p>\n<p>Recentemente, no dia 15 de junho, a Ag&ecirc;ncia Nacional de Vigil&acirc;ncia Sanit&aacute;ria (Anvisa) editou a Resolu&ccedil;&atilde;o de Diretoria Colegiada (RDC) n&ordm; 24\/2010, por meio da qual, seguindo a preocupa&ccedil;&atilde;o de v&aacute;rios pa&iacute;ses (Canad&aacute;, Su&eacute;cia, Inglaterra), estabelece crit&eacute;rios e exig&ecirc;ncias informativas para oferta e publicidade de alimentos considerados com quantidades elevadas de a&ccedil;&uacute;car, de gordura saturada, de gordura trans, de s&oacute;dio e de bebidas com baixo teor nutricional. A resolu&ccedil;&atilde;o confere especial aten&ccedil;&atilde;o &agrave;s publicidades dirigidas &agrave;s crian&ccedil;as, com o objetivo de coibir &ldquo;pr&aacute;ticas excessivas que levem o p&uacute;blico infantil a padr&otilde;es de consumo incompat&iacute;veis com a sa&uacute;de e que violem seu direito &agrave; alimenta&ccedil;&atilde;o adequada&rdquo; (art. 2&ordm;).<\/p>\n<p>Todavia, noticia-se que a Advocacia Geral da Uni&atilde;o, dias ap&oacute;s a edi&ccedil;&atilde;o da referida resolu&ccedil;&atilde;o, encaminhou recomenda&ccedil;&atilde;o &agrave; Anvisa para suspender o ato, sob o argumento de que h&aacute; necessidade de lei espec&iacute;fica, aprovada pelo Congresso Nacional, para regulamentar o tema.<\/p>\n<p>Tal recomenda&ccedil;&atilde;o, al&eacute;m de contrariar os mais leg&iacute;timos interesses da sociedade, carece de fundamento jur&iacute;dico. A defesa do consumidor pelo Estado se justifica pela sua fragilidade no mercado de consumo. Nem mesmo os economistas continuam a afirmar que o consumidor &eacute; o &lsquo;rei do mercado&rsquo;, significando que todo o ciclo de fabrica&ccedil;&atilde;o e produ&ccedil;&atilde;o de produtos deveria ter o foco nas necessidades e desejos reais do consumidor.<\/p>\n<p>Nas &uacute;ltimas d&eacute;cadas, o que se observa &eacute; um continuo aumento da vulnerabilidade do consumidor nas mais diversas rela&ccedil;&otilde;es estabelecidas com os empres&aacute;rios. Essa fragilidade do consumidor &eacute; facilmente percebida, seja no momento da contrata&ccedil;&atilde;o, quando o adquirente do produto simplesmente adere a instrumento j&aacute; elaborado pelo fornecedor (contrato de ades&atilde;o), seja quando o consumidor &eacute; seduzido ou mal informado pelas publicidades de produtos ou servi&ccedil;os.<\/p>\n<p>As publicidades, a cada dia, informam menos e, em propor&ccedil;&atilde;o inversa, se utilizam de m&eacute;todos sofisticados de marketing, o que resulta em alto potencial de indu&ccedil;&atilde;o a erro do destinat&aacute;rio da mensagem e, at&eacute; mesmo, na cria&ccedil;&atilde;o da necessidade e desejo de compra de bens e servi&ccedil;os sup&eacute;rfluos ou com pouca utilidade real.<\/p>\n<p>A vulnerabilidade do consumidor evidencia-se em face das t&eacute;cnicas atuais dos publicit&aacute;rios. Informar sobre as caracter&iacute;sticas do produto e do servi&ccedil;o n&atilde;o &eacute;, h&aacute; muito tempo, o intuito das campanhas publicit&aacute;rias. A publicidade deixou para um plano secund&aacute;rio a informa&ccedil;&atilde;o sobre as caracter&iacute;sticas do produto ou servi&ccedil;o. O objetivo &eacute; criar desejos, seduzir, convencer o consumidor de que, sem o &uacute;ltimo modelo do aparelho celular, ele n&atilde;o ser&aacute; mais o mesmo.<\/p>\n<p>Estamos na era do neuromarketing, de pesquisas que rastream o c&eacute;rebro humano, por meio de Resson&acirc;ncia Magn&eacute;tica Funcional, para estudar as rea&ccedil;&otilde;es do consumidor diante de imagens, sons e cheiros, de modo a seduzi-lo a comprar, adquirir mais e mais produtos. Martin Linstrom, um dos grandes expoentes do neuromarketing, resume que se trata simplesmente do casamento da ci&ecirc;ncia com o marketing. De acordo com o autor, &eacute; a chave para compreender a &ldquo;l&oacute;gica de consumo&rdquo;, ou seja, &ldquo;os pensamentos, sentimentos e desejos subconsicentes que impulsionam as decis&otilde;es de compra que tomamos em todos os dias de nossas vidas&rdquo; (A l&oacute;gica do consumo, p. 13).<\/p>\n<p>Fica imposs&iacute;vel, nesse contexto, falar em soberania do consumidor, &ldquo;rei do mercado&rdquo;, ou qualquer outra express&atilde;o que denote for&ccedil;a do consumidor. Embora a fragilidade do consumidor possa ser percebida em todas as fases de aproxima&ccedil;&atilde;o com o produto, n&atilde;o h&aacute; d&uacute;vida de que a publicidade &eacute; o ponto mais sens&iacute;vel.<\/p>\n<p>Da&iacute; a especial import&acirc;ncia que as leis brasileiras, particularmente o C&oacute;digo de Defesa do Consumidor, conferem &agrave; oferta e publicidade de produtos e servi&ccedil;os. Al&eacute;m do princ&iacute;pio da boa-f&eacute; objetiva, que exige conduta leal e transparente do fornecedor, diversos dispositivos da Lei 8.078\/90 estabelecem o dever de informar de modo claro e adequado sobre todas as caracter&iacute;sticas do produto, principalmente sobre os riscos que apresentam &agrave; sa&uacute;de do consumidor (art. 6&ordm;, I e II, art. 8 &ordm;, par&aacute;grafo &uacute;nico, art. 9&ordm;, art. 31, art. 37) .<\/p>\n<p>A quest&atilde;o da informa&ccedil;&atilde;o sobre riscos de produtos, a&iacute; inclu&iacute;dos os alimentos, &eacute; levada t&atilde;o a s&eacute;rio pelo C&oacute;digo de Defesa do Consumidor que a lei considera &ldquo;produto defeituoso&rdquo; aquele que n&atilde;o &eacute; acompanhado de informa&ccedil;&otilde;es adequadas (art. 12), ensejando a responsabilidade civil do fabricante.<\/p>\n<p>A Resolu&ccedil;&atilde;o n&ordm; 24 da Anvisa, ao explicitar e detalhar as informa&ccedil;&otilde;es que devem acompanhar a comercializa&ccedil;&atilde;o de alimentos, visando &agrave; prote&ccedil;&atilde;o da sa&uacute;de do consumidor, ao contrario do que se alega, n&atilde;o inova no mundo jur&iacute;dico, n&atilde;o estabelece novas obriga&ccedil;&otilde;es para os fornecedores: o dever de informar, reitere-se, foi institu&iacute;do pelo C&oacute;digo de Defesa do Consumidor, lei aprovada pelo Congresso Nacional. N&atilde;o tem sentido, portanto, falar em ofensa ao princ&iacute;pio constitucional da legalidade.<\/p>\n<p><em>*Promotor de justi&ccedil;a, professor universit&aacute;rio, mestre em Direito P&uacute;blico (UnB), doutor em Direito Civil (UERJ)<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Decis&atilde;o da ag&ecirc;ncia segue a preocupa&ccedil;&atilde;o de v&aacute;rios pa&iacute;ses e estabelece crit&eacute;rios e exig&ecirc;ncias informativas para oferta e publicidade de alimentos <\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[42],"tags":[68],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/24771"}],"collection":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=24771"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/24771\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=24771"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=24771"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=24771"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}