{"id":24681,"date":"2010-07-14T17:34:00","date_gmt":"2010-07-14T17:34:00","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=24681"},"modified":"2010-07-14T17:34:00","modified_gmt":"2010-07-14T17:34:00","slug":"o-direito-autoral-como-monopolio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=24681","title":{"rendered":"O direito autoral como monop\u00f3lio"},"content":{"rendered":"<p>   \t \t \t \t \t<!-- \t\t@page { margin: 2cm } \t\tP { margin-bottom: 0.21cm } \t--> \t  <\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0cm\" class=\"padrao\">Recentemente, quando o direito autoral completou 200 anos, a revista <em>The Economist <\/em>publicou um editorial criticando a desmedida dos atuais termos de prote&ccedil;&atilde;o (&ldquo;<em>Copyright and Wrong<\/em>&rdquo;, 08\/05\/2010). Muitos leitores se perguntaram como uma revista liberal poderia se juntar aos ativistas que defendem os bens comuns numa cruzada pela reforma radical do direito autoral. A resposta &eacute; que o direito autoral &eacute; um monop&oacute;lio e, portanto, um corpo estranho numa economia de livre mercado. <\/p>\n<p>Na sua g&ecirc;nese, o direito autoral foi fruto da reforma de um dispositivo da economia corporativa inglesa &ndash; os &ldquo;<em>copy rights<\/em>&rdquo; outorgados por uma corpora&ccedil;&atilde;o de of&iacute;cio, a Companhia dos Livreiros de Londres. Esse primeiro <em>copy right <\/em>era um direito perp&eacute;tuo que a corpora&ccedil;&atilde;o cedia a uma oficina para editar um determinado livro. Esse regime passou a ser criticado no final do s&eacute;culo XVII e in&iacute;cio do s&eacute;culo XVIII por ser monopolista e tamb&eacute;m por ser instrumento de censura (j&aacute; que a coroa utilizava a autoriza&ccedil;&atilde;o dada &agrave; corpora&ccedil;&atilde;o para controlar o que era publicado).<\/p>\n<p>Fruto da press&atilde;o por concorr&ecirc;ncia de mercado e liberdade de express&atilde;o, de um lado, e os interesses comerciais dos livreiros, de outro, em 1710 foi criado esse sistema h&iacute;brido que chamamos <em>copyright <\/em>(ou direito de autor, na tradi&ccedil;&atilde;o do direito da Europa continental). Ele reformava o antigo <em>copy right<\/em> corporativo, transformando o direito perp&eacute;tuo em direito tempor&aacute;rio (v&aacute;lido por 14 anos, renov&aacute;veis por mais 14) e passando a titularidade do direito, do editor para o autor da obra. Nascia assim o direito autoral como o conhecemos: um monop&oacute;lio tempor&aacute;rio sobre uma obra do esp&iacute;rito que busca estimular a cria&ccedil;&atilde;o dando ao autor a prerrogativa exclusiva de explor&aacute;-la.<\/p>\n<p>Ainda no s&eacute;culo XVIII, o direito autoral foi levado para os Estados Unidos, ap&oacute;s a independ&ecirc;ncia e para a Fran&ccedil;a, ap&oacute;s a revolu&ccedil;&atilde;o. Embora a filosofia de legitima&ccedil;&atilde;o fosse diferente, ele mantinha a forma de um monop&oacute;lio tempor&aacute;rio sobre a obra que era dado ao autor. Por isso, o direito autoral sempre foi um encrave monopolista num sistema que buscava a livre concorr&ecirc;ncia. Ele era, por exemplo, a &uacute;nica exce&ccedil;&atilde;o aceita por James Madison (um dos pais fundadores dos Estados Unidos) para o sistema de livre mercado &ndash; e era aceito apenas porque era tempor&aacute;rio e porque n&atilde;o era uma finalidade em si, mas um meio para se estimular o autor.<\/p>\n<p>Quando no &uacute;ltimo s&eacute;culo os prazos e o escopo de prote&ccedil;&atilde;o do direito de autor ultrapassaram qualquer limite razo&aacute;vel, ficou patente que esse monop&oacute;lio, de meio, havia se convertido em fim e que ao inv&eacute;s de estimular os criadores, estava apenas beneficiando intermedi&aacute;rios e criando entraves para que o p&uacute;blico tivesse acesso &agrave;s cria&ccedil;&otilde;es do esp&iacute;rito.<\/p>\n<p>Assim, vimos recentemente no caso brasileiro (onde o termo de prote&ccedil;&atilde;o &eacute; de 70 anos ap&oacute;s a morte do autor) que o acesso a uma obra importante como a de Freud enfrentou obst&aacute;culos por todo o s&eacute;culo XX e ainda no come&ccedil;o do XXI. A editora que detinha os direitos de tradu&ccedil;&atilde;o para l&iacute;ngua portuguesa havia decidido que a forma mais adequada de publicar a obra era por meio de uma tradu&ccedil;&atilde;o da tradu&ccedil;&atilde;o para o ingl&ecirc;s. Muitos estudiosos discordavam desta op&ccedil;&atilde;o, mas o monop&oacute;lio que a editora brasileira detinha impedia que se publicasse uma tradu&ccedil;&atilde;o direta do alem&atilde;o. Durante muitos anos, professores mais rigorosos divulgavam clandestinamente tradu&ccedil;&otilde;es diretas do alem&atilde;o para seus alunos como se estivessem cometendo um delito. A obra de Freud come&ccedil;ou a ser publicada ainda no s&eacute;culo XIX. O p&uacute;blico brasileiro teve que esperar mais de 110 anos para ter acesso a uma tradu&ccedil;&atilde;o direta do alem&atilde;o, quando a obra de Freud entrou em dom&iacute;nio p&uacute;blico.<\/p>\n<p>As distor&ccedil;&otilde;es deste sistema de monop&oacute;lio tamb&eacute;m impedem que bibliotecas e cinematecas tirem c&oacute;pias de obras raras para fins de preserva&ccedil;&atilde;o quando n&atilde;o conseguem autoriza&ccedil;&atilde;o dos detentores do direito &ndash; quando esses detentores n&atilde;o s&atilde;o localizados, uma leitura rigorosa da lei diria para a institui&ccedil;&atilde;o simplesmente deixar o original estragar; essa mesma lei pro&iacute;be hoje que estudantes tirem c&oacute;pias de livros que est&atilde;o esgotados &ndash; em m&eacute;dia, um ter&ccedil;o de toda base bibliogr&aacute;fica dos cursos.<\/p>\n<p>Esse conjunto atordoante de distor&ccedil;&otilde;es faz com que pessoas de bom senso repensem o papel dos direitos autorais no mundo contempor&acirc;neo, seja porque impedem a livre concorr&ecirc;ncia, seja porque deveriam ser bens comuns. Se ainda h&aacute; motivo para se acreditar neste dispositivo que busca criar monop&oacute;lios tempor&aacute;rios para estimular o autor a criar novas obras, ent&atilde;o &eacute; preciso que esse monop&oacute;lio seja muito bem regulado, com termos de prote&ccedil;&atilde;o mais curtos e exce&ccedil;&otilde;es e limita&ccedil;&otilde;es definidas. A chave para se entender a posi&ccedil;&atilde;o da <em>The Economist <\/em>&eacute; a seguinte: ao contr&aacute;rio de outros setores da economia, no direito autoral, quanto mais regula&ccedil;&atilde;o existir, mais livre &eacute; o mercado &ndash; e, inversamente, quanto mais amplo &eacute; o direito, mais prevalecem os efeitos delet&eacute;rios do monop&oacute;lio.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p><span class=\"padrao\">Um conjunto atordoante de distor&ccedil;&otilde;es faz com que pessoas de bom senso repensem o papel dos direitos autorais no mundo contempor&acirc;neo<\/span><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[42],"tags":[84],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/24681"}],"collection":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=24681"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/24681\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=24681"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=24681"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=24681"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}