{"id":24629,"date":"2010-07-05T17:26:06","date_gmt":"2010-07-05T17:26:06","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=24629"},"modified":"2010-07-05T17:26:06","modified_gmt":"2010-07-05T17:26:06","slug":"a-velha-midia-esta-derretendo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=24629","title":{"rendered":"A velha m\u00eddia est\u00e1 derretendo"},"content":{"rendered":"<p> \t \t \t \t<!-- \t\t@page { margin: 2cm } \t\tP { margin-bottom: 0.21cm } \t--> \t  <\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0cm\" class=\"padrao\">Como um iceberg a navegar em &aacute;guas quentes e turbulentas, a velha m&iacute;dia est&aacute; derretendo. O mundo est&aacute; mudando, o Brasil &eacute; outro e os brasileiros desenvolvem, aceleradamente, novos h&aacute;bitos de informa&ccedil;&atilde;o. <\/p>\n<p>Um retrato desse processo pode ser visto na recente pesquisa encomendada pela Secretaria de Comunica&ccedil;&atilde;o da Presid&ecirc;ncia da Rep&uacute;blica (Secom-P.R.), destinada a descobrir o que o brasileiro l&ecirc;, ouve, v&ecirc; e como analisa os fatos e forma sua opini&atilde;o.<\/p>\n<p>A pesquisa revelou as dimens&otilde;es que o iceberg ainda preserva. A televis&atilde;o e o r&aacute;dio permanecem como os meios de comunica&ccedil;&atilde;o mais comuns aos brasileiros. A TV &eacute; assistida por 96,6% da popula&ccedil;&atilde;o brasileira, e o r&aacute;dio, por expressivos 80,3%. Os jornais e revistas ficam bem atr&aacute;s. Cerca de 46% costumam ler jornais, e menos de 35%, revistas. Perto de apenas 11,5% s&atilde;o leitores di&aacute;rios dos jornais tradicionais.<\/p>\n<p>Quanto &agrave; internet, os resultados, da forma como est&atilde;o apresentados, preferiram escolher o lado cheio do copo. Avalia-se que a internet no Brasil segue a tend&ecirc;ncia de crescimento mundial e j&aacute; &eacute; utilizada por 46,1% da popula&ccedil;&atilde;o brasileira. No entanto, &eacute; preciso uma avalia&ccedil;&atilde;o sobre o lado vazio do copo, ou seja, a constata&ccedil;&atilde;o de que os 53,9% de pessoas que n&atilde;o t&ecirc;m qualquer acesso &agrave; internet ainda revelam um quadro de exclus&atilde;o digital que precisa ser superado. Ponto para o Programa Nacional da Banda Larga, que representa a chance de uma mudan&ccedil;a estrutural e definitiva na forma como os brasileiros se informam e comunicam-se. <\/p>\n<p>A internet tem devorado a TV e o r&aacute;dio com grande apetite. Os conectados j&aacute; gastam, em m&eacute;dia, mais tempo navegando do que em frente &agrave; TV ou ao r&aacute;dio. Esse avan&ccedil;o relaciona-se n&atilde;o apenas a um novo h&aacute;bito, mas ao crescimento da renda nacional e &agrave; incorpora&ccedil;&atilde;o de contingentes populacionais pobres &agrave; classe m&eacute;dia, que passaram a ter condi&ccedil;&otilde;es de adquirir um computador conectado.<\/p>\n<p>O processo em curso n&atilde;o levar&aacute; ao desaparecimento da TV, do r&aacute;dio e da m&iacute;dia impressa. O que est&aacute; havendo &eacute; que as velhas m&iacute;dias est&atilde;o sendo canibalizadas pela internet, que tornou-se a m&iacute;dia das m&iacute;dias, uma plataforma capaz de integrar os mais diversos meios e oferecer ao p&uacute;blico alternativas flex&iacute;veis e novas op&ccedil;&otilde;es de entretenimento, comunica&ccedil;&atilde;o pessoal e &ldquo;autocomunica&ccedil;&atilde;o de massa&rdquo;, como diz o espanhol Manuel Castells.<\/p>\n<p>Ainda usando a analogia do iceberg, a internet tem o poder de diluir, para engolir, a velha m&iacute;dia. <\/p>\n<p>A pesquisa da Secom-P.R. d&aacute; uma boa pista sobre o grande sucesso das plataformas eletr&ocirc;nicas das redes sociais. A forma&ccedil;&atilde;o de opini&atilde;o entre os brasileiros se d&aacute;, em grande medida, na interlocu&ccedil;&atilde;o com amigos (70,9%), fam&iacute;lia (57,7%), colegas de trabalho (27,3%) e de escola (6,9%), o namorado ou namorada (2,5%), a igreja (1,9%), os movimentos sociais (1,8%) e os sindicatos (0,8%). Alerta para movimentos sociais, sindicatos e igrejas: seu &ldquo;sex appeal&rdquo; anda mais baixo que o das(os) namoradas(os).<\/p>\n<p>Estes n&uacute;meros confirmam estudos de longa data que afirmam que as redes sociais influem mais na forma&ccedil;&atilde;o da opini&atilde;o do que os meios de comunica&ccedil;&atilde;o. Por isso, uma informa&ccedil;&atilde;o muitas vezes bombardeada pela m&iacute;dia demora a cair nas gra&ccedil;as ou desgra&ccedil;as da opini&atilde;o p&uacute;blica: ela depende do filtro exercido pela rede de rela&ccedil;&otilde;es sociais que envolve a vida de qualquer pessoa. Explica tamb&eacute;m por que algo que a imprensa bombardeia como negativo pode ser visto pela maioria como positivo. A alta popularidade do Governo Lula, diante do longo e pesado cerco midi&aacute;tico, talvez seja o exemplo mais retumbante.<\/p>\n<p>Em suma, o povo n&atilde;o engole tudo o que se despeja sobre ele: mastiga, deglute, digere e muitas vezes cospe conte&uacute;dos que n&atilde;o se encaixam em seus valores, sua percep&ccedil;&atilde;o da realidade e diante de informa&ccedil;&otilde;es que ele consegue por meios pr&oacute;prios e muito mais confi&aacute;veis.<\/p>\n<p>&Eacute; aqui que mora o perigo para a velha m&iacute;dia. Sua credibilidade est&aacute; descendo ladeira abaixo. Segundo a citada pesquisa, quase 60% das pessoas acham que as not&iacute;cias veiculadas pela imprensa s&atilde;o tendenciosas.<\/p>\n<p>Um dado ainda mais grave: 8 em cada 10 brasileiros acreditam muito pouco ou n&atilde;o acreditam no que a imprensa veicula. Quanto maior o n&iacute;vel de renda e de escolaridade do brasileiro (que &eacute; o rumo da atual trajet&oacute;ria do pa&iacute;s), maior o senso cr&iacute;tico em rela&ccedil;&atilde;o ao que a m&iacute;dia veicula &#8211; ou &ldquo;inocula&rdquo;. <\/p>\n<p>A velha m&iacute;dia est&aacute; se tornando cada vez mais salgada para o povo. Em dois sentidos: ela pode estar exagerando em conte&uacute;dos cada vez mais dif&iacute;ceis de engolir, e as pessoas est&atilde;o cada vez menos dispostas a comprar conte&uacute;dos que podem conseguir de gra&ccedil;a, de forma mais simples, e por canais diretos, mais interativos, confi&aacute;veis, simp&aacute;ticos e prazerosos. Num momento em que tudo o que parece s&oacute;lido se desmancha&#8230; na &aacute;gua, quem quiser sobreviver vai ter que trocar as li&ccedil;&otilde;es de moral pelas explica&ccedil;&otilde;es did&aacute;ticas; vai ter que demitir os pit bulls e contratar mais explicadores, humoristas e chargistas. Ter&aacute; que abandonar o cargo, em que se autoempossou, de superego da Rep&uacute;blica. <\/p>\n<p>Do contr&aacute;rio, obstinados na defesa de seus pr&oacute;prios interesses e na descarga ideol&oacute;gica coletiva de suas raivas particulares, alguns dos mais tradicionais ve&iacute;culos de comunica&ccedil;&atilde;o ser&atilde;o v&iacute;timas de seu pr&oacute;prio veneno. Ao exagerarem no sal, apenas contribuir&atilde;o para acelerar o processo de derretimento do imp&aacute;vido colosso iceberg que j&aacute; n&atilde;o est&aacute; em terra firme.<\/p>\n<p><em>* Antonio Lassance &eacute; pesquisador do Instituto de Pesquisa Econ&ocirc;mica Aplicada (IPEA) e professor de Ci&ecirc;ncia Pol&iacute;tica.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Oito em cada dez brasileiros acreditam muito pouco ou n&atilde;o acreditam no que a imprensa veicula<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[42],"tags":[144],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/24629"}],"collection":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=24629"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/24629\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=24629"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=24629"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=24629"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}