{"id":24532,"date":"2010-06-14T15:20:38","date_gmt":"2010-06-14T15:20:38","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=24532"},"modified":"2010-06-14T15:20:38","modified_gmt":"2010-06-14T15:20:38","slug":"quebra-do-anonimato-na-internet-coloca-em-risco-a-liberdade-e-a-privacidade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=24532","title":{"rendered":"\u201cQuebra do anonimato na internet coloca em risco a liberdade e a privacidade\u201d"},"content":{"rendered":"<p> \t \t \t \t<!-- \t\t@page { margin: 2cm } \t\tP { margin-bottom: 0.21cm } \t--> \t  <\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0cm\" class=\"padrao\">   \t \t \t \t \t<!-- \t\t@page { margin: 2cm } \t\tP { margin-bottom: 0.21cm } \t--> \t  <\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0cm\" class=\"padrao\"><em>[T&iacute;tulo original: Anonimato na Internet: &lsquo;absolutamente necess&aacute;rio&rsquo;. Entrevista especial com Fernanda Bruno]<\/em><\/p>\n<p><span class=\"padrao\"><br \/>&ldquo;A discuss&atilde;o sobre a legitimidade do anonimato em esferas ou espa&ccedil;os p&uacute;blicos n&atilde;o &eacute; um privilegio da atualidade e marcou calorosas disputas na modernidade&rdquo;, relembra a professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Fernanda Bruno. Na entrevista a seguir, concedida, por e-mail, &agrave; IHU On-Line, ela trata da quest&atilde;o do anonimato na Internet. &ldquo;O anonimato &eacute; absolutamente necess&aacute;rio para indiv&iacute;duos e grupos que vivem em regimes totalit&aacute;rios ou sob censura, para os quais, muitas vezes, comunicar-se anonimamente &eacute; uma quest&atilde;o de sobreviv&ecirc;ncia muito concreta&rdquo;, opina.<\/p>\n<p>Fernanda Bruno &eacute; doutora em Comunica&ccedil;&atilde;o e Cultura pela UFRJ, onde coordena a Linha de Pesquisa &ldquo;Tecnologias da Comunica&ccedil;&atilde;o e Est&eacute;ticas&rdquo; e o CiberIdea: N&uacute;cleo de Pesquisa em Tecnologias da Comunica&ccedil;&atilde;o, Cultura e Subjetividade. &Eacute; organizadora do livro Vigil&acirc;ncia e Visibilidade: espa&ccedil;o, tecnologia e identifica&ccedil;&atilde;o (Porto Alegre: Sulina, 2010).<\/p>\n<p>Confira a entrevista.<\/p>\n<p><strong>O anonimato na Internet &eacute; algo leg&iacute;timo?<\/strong><br \/>Sim, o anonimato na Internet &eacute; absolutamente leg&iacute;timo. T&atilde;o leg&iacute;timo quanto a privacidade e a liberdade de comunica&ccedil;&atilde;o, informa&ccedil;&atilde;o e express&atilde;o. &Eacute; importante ressaltar que, no caso da Internet, esses tr&ecirc;s aspectos est&atilde;o entrela&ccedil;ados e que a quebra do anonimato pode colocar em risco tanto a liberdade quanto a privacidade dos indiv&iacute;duos e dos dados que hoje circulam na rede.<br \/>A discuss&atilde;o sobre a legitimidade do anonimato em esferas ou espa&ccedil;os p&uacute;blicos n&atilde;o &eacute; um privil&eacute;gio da atualidade e marcou calorosas disputas na modernidade. Parte dessa discuss&atilde;o est&aacute; atrelada &agrave; utopia de uma sociedade transparente, a qual tem muitas faces. Para citar uma delas, aquela que paradoxalmente constitui um dos lados mais &ldquo;sombrios&rdquo; do &ldquo;S&eacute;culo das Luzes&rdquo; &eacute; exatamente a que vai defender a ordem social intimamente atrelada a uma visibilidade total, &agrave; utopia pol&iacute;tica de um olhar vigilante. Um dos mais conhecidos projetos dessa utopia &eacute; o sonho pan&oacute;ptico de Jeremy Bentham [1]. Conhecidos tamb&eacute;m s&atilde;o os temores que o anonimato despertou com o surgimento da vida urbana e das massas modernas. Toda uma pol&iacute;cia e uma pol&iacute;tica de identifica&ccedil;&atilde;o se constituiram na tentativa de distinguir os tra&ccedil;os de uma identidade individual nos rostos e corpos indiferenciados e an&ocirc;nimos das multid&otilde;es urbanas. <br \/>Na contracorrente desses processos, toda uma outra linhagem de pensadores e pr&aacute;ticas defende o anonimato como um princ&iacute;pio fundamental para o pleno exerc&iacute;cio da vida p&uacute;blica e da liberdade em coordena&ccedil;&atilde;o com a prote&ccedil;&atilde;o da vida privada. Hoje, tanto o temor do anonimato quanto uma tentativa de ampliar os sistemas de identifica&ccedil;&atilde;o ressurgem com a Internet, mas, seguramente, qualquer tentativa de quebrar o anonimato &eacute; muit&iacute;ssimo mais perigosa para a sociedade do que a sua exist&ecirc;ncia como princ&iacute;pio leg&iacute;timo e aliado &agrave; privacidade e &agrave; liberdade.<\/p>\n<p><strong>E, em sua opini&atilde;o, o anonimato na Internet deve ser protegido?<br \/><\/strong>Sim, deve ser protegido no sentido de garantido, assegurado, sem d&uacute;vida. Pois, sem o anonimato, a Internet se torna um espa&ccedil;o de controle e de vigil&acirc;ncia potencial. Como bem mostram v&aacute;rios estudos, entre os quais destaco os de Alexander Galloway [2], nossas comunica&ccedil;&otilde;es na rede s&atilde;o operadas por protocolos que como deixam rastros que podem ser localizados, o que implica a possibilidade do controle. <br \/>Entretanto, n&atilde;o h&aacute;, nesta mesma estrutura e na arquitetura da rede, nada que exija o v&iacute;nculo de tais rastros a indiv&iacute;duos especificamente identificados. Ou seja, essa estrutura acolhe e assegura o anonimato, ainda que o n&uacute;mero do IP possa ser rastreado. E isso deve ser mantido. Na verdade, a garantia do anonimato &eacute; o que, digamos, nos &ldquo;protege&rdquo; do controle e do vigilantismo na Internet.<\/p>\n<p><strong>Quem n&atilde;o quer o anonimato e por qu&ecirc;?<br \/><\/strong>A Internet &eacute;, desde o seu surgimento, uma rede de comunica&ccedil;&atilde;o distribu&iacute;da, baseada no anonimato, apesar de algumas tentativas pontuais contr&aacute;rias. E, com essa estrutura, ela se tornou o que &eacute; hoje, uma rede fundamental e essencial em nossa vida social, pol&iacute;tica, econ&ocirc;mica, cultural, cognitiva etc. <br \/>Seguran&ccedil;a e interesses comerciais e corporativos s&atilde;o a base de boa parte dos argumentos recorrentes contra o anonimato na Internet. &Eacute; plenamente leg&iacute;tima e necess&aacute;ria a defesa da seguran&ccedil;a na Internet, mas n&atilde;o creio que esta seja inimiga do anonimato, ao contr&aacute;rio. Mesmo porque, em caso de crimes, a quebra do anonimato j&aacute; est&aacute; prevista e garantida pela lei.<br \/>Mas acho que h&aacute; pelo menos dois n&iacute;veis a serem considerados: um primeiro, mais &ldquo;vital&rdquo;, no sentido forte do termo, &eacute; que o anonimato &eacute; absolutamente necess&aacute;rio para indiv&iacute;duos e grupos que vivem em regimes totalit&aacute;rios ou sob censura, para os quais, muitas vezes, comunicar-se anonimamente &eacute; uma quest&atilde;o de sobreviv&ecirc;ncia muito concreta. Um segundo n&iacute;vel consiste n&atilde;o tanto no anonimato em si, mas em uma s&eacute;rie de outros processos que est&atilde;o articulados a ele na Internet, a liberdade de comunica&ccedil;&atilde;o e express&atilde;o, a privacidade, a possibilidade e abertura em reinventar modelos de partilha de informa&ccedil;&atilde;o, conhecimento, bens etc.<\/p>\n<p><strong>Como voc&ecirc; v&ecirc; a rela&ccedil;&atilde;o da fama e do anonimato na Internet?<br \/><\/strong>Fama e anonimato convivem plenamente e profusamente na Internet, territ&oacute;rio absolutamente cambiante e marcado pela diversidade. Estamos falando agora n&atilde;o mais do anonimato, digamos &ldquo;estrutural&rdquo; ou &ldquo;arquitetural&rdquo;, mas no desejo de as pessoas permanecerem an&ocirc;nimas ou conquistarem alguma fama. Por um lado, h&aacute; um impulso e uma corrida pela fama muito presente em diversos dom&iacute;nios da rede, reproduzindo os ideais da cultura de massas com novas roupagens. Por outro lado, h&aacute; din&acirc;micas colaborativas em que sistemas de reputa&ccedil;&atilde;o convivem com o anonimato dos participantes. E h&aacute;, ainda, processos sociais, pol&iacute;ticos, est&eacute;ticos cujo &ldquo;pathos&rdquo; passa pelo anonimato. A mais recente e breve &lsquo;mania&rsquo; que chamou a minha aten&ccedil;&atilde;o neste sentido foi o Chatroulette, onde uma das grandes excita&ccedil;&otilde;es, &agrave; diferen&ccedil;a das redes sociais &ldquo;entre amigos eleitos ou relativamente conhecidos&rdquo;, &eacute; o encontro aleat&oacute;rio com o desconhecido, uma roleta de an&ocirc;nimos interconectados. N&atilde;o sei se o Chatroulette vai vingar ou n&atilde;o para al&eacute;m de seu sucesso inicial, mas trata-se de um dispositivo interessant&iacute;ssimo, e &eacute; instigante imaginar esse processo coletivo de encontros aleat&oacute;rios com o desconhecido.<\/p>\n<p><strong>Os engenheiros que viabilizaram a Internet fizeram isso pensando no anonimato. Para voc&ecirc;, que hist&oacute;ria social da Internet, enquanto m&iacute;dia e a partir do anonimato intr&iacute;nseco, criamos?<br \/><\/strong>Eu diria que a hist&oacute;ria da Internet &eacute; marcada por uma extrema inventividade, uma grande capacidade de se desviar dos fins que lhes s&atilde;o propostos. E isso desde seu in&iacute;cio, em que se desviou dos fins estritamente militares e acad&ecirc;micos e, desde ent&atilde;o, vem sendo apropriada de m&uacute;ltiplos modos e em muitas dire&ccedil;&otilde;es, constituindo modelos alternativos n&atilde;o apenas de comunica&ccedil;&atilde;o, mas de produ&ccedil;&atilde;o e circula&ccedil;&atilde;o da informa&ccedil;&atilde;o e do conhecimento, de sociabilidade, de a&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica, social, cultural, assim como din&acirc;micas alternativas de mercado, trocas etc. <br \/>&Eacute; claro que essa inventividade n&atilde;o se d&aacute; num territ&oacute;rio de plena harmonia, mas num campo de embates e disputas cada vez mais acirrados em que concorrem tamb&eacute;m modelos centralizados, massificados, corporativos, conservadores etc. Mas de toda forma, na Internet, esses embates s&atilde;o poss&iacute;veis, enquanto, nas m&iacute;dias massivas, as rela&ccedil;&otilde;es de for&ccedil;a eram muito mais cristalizadas. E, voltando ao anonimato, toda essa inventividade que atravessa a hist&oacute;ria da Internet, sem d&uacute;vida n&atilde;o se deve apenas ao anonimato, mas a m&uacute;ltiplos fatores, atuando de forma conjunta e extremamente complexa. Por&eacute;m, creio que a Internet estaria muito amea&ccedil;ada sem ele. <br \/>O que h&aacute; de mais interessante &eacute; que a Internet n&atilde;o est&aacute; encerrada e n&atilde;o pode ser explicada nem pelo g&ecirc;nio de alguns indiv&iacute;duos, nem pela gest&atilde;o de certas corpora&ccedil;&otilde;es, nem por a&ccedil;&otilde;es de um pequeno n&uacute;mero de centros. Embora haja tudo isso na rede (egos inflados, grandes corpora&ccedil;&otilde;es, centros), a inventividade que importa e que me parece mais efetiva na hist&oacute;ria da Internet &eacute; essa inventividade distribu&iacute;da, coletiva, atrelada, entre outras coisas, &agrave;s redes do anonimato.<\/p>\n<p><strong>Notas:<\/strong><br \/>[1] Jeremy Bentham foi um fil&oacute;sofo e jurista ingl&ecirc;s. Juntamente com John Stuart Mill e James Mill, difundiu o utilitarismo, teoria &eacute;tica que responde todas as quest&otilde;es acerca do que fazer, do que admirar e de como viver, em termos da maximiza&ccedil;&atilde;o da utilidade e da felicidade.<br \/>[2] Alexander Galloway &eacute; professor do Departamento de Cultura e Comunica&ccedil;&atilde;o da Universidade de Nova York.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>   \t \t \t \t \t<!-- \t\t@page { margin: 2cm } \t\tP { margin-bottom: 0.21cm } \t--> \t  <\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0cm\" class=\"padrao\">Pesquisadora da UFRJ diz que a garantia do anonimato na rede &eacute; fundamental<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[43],"tags":[387,1346],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/24532"}],"collection":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=24532"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/24532\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=24532"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=24532"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=24532"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}