{"id":24504,"date":"2010-06-09T16:12:21","date_gmt":"2010-06-09T16:12:21","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=24504"},"modified":"2010-06-09T16:12:21","modified_gmt":"2010-06-09T16:12:21","slug":"a-homogeneizacao-cultural-faz-o-jovem-perder-a-ligacao-com-a-sua-cultura","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=24504","title":{"rendered":"\u201cA homogeneiza\u00e7\u00e3o cultural faz o jovem perder a liga\u00e7\u00e3o com a sua cultura\u201d"},"content":{"rendered":"<p>   \t \t \t \t \t<!-- \t\t@page { margin: 2cm } \t\tP { margin-bottom: 0.21cm } \t--><em>[T&iacute;tulo original: Pesquisadora fala sobre influ&ecirc;ncia da m&iacute;dia na forma&ccedil;&atilde;o da identidade de jovens e da import&acirc;ncia da educa&ccedil;&atilde;o para e com as m&iacute;dias]<\/em> <\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0cm\" class=\"padrao\">Raquel Pacheco &eacute; mestre em Ci&ecirc;ncias da Comunica&ccedil;&atilde;o pela Universidade Nova de Lisboa e Licenciada em Cinema pela Universidade Federal Fluminense, no Rio de Janeiro. Coordena o projeto Media e Literacia &#8211; http:\/\/mediaeliteracia.blogspot.com &#8211; &eacute; membro do Centro de investiga&ccedil;&atilde;o Media e Jornalismo, em Portugal. &Eacute; professora universit&aacute;ria em Reportagem e em Educom (Educa&ccedil;&atilde;o e Comunica&ccedil;&atilde;o). &Eacute; integrante da Rede de Trabalho do Projeto Crian&ccedil;a e Consumo e divulga as a&ccedil;&otilde;es do Instituto Alana em Luanda, Angola, onde reside hoje e em Portugal.<\/p>\n<p><strong>Em seu livro &quot;Jovens, Media e Estere&oacute;tipos&quot; voc&ecirc; faz uma an&aacute;lise sobre constru&ccedil;&atilde;o da identidade dos jovens pelos meios de comunica&ccedil;&atilde;o e as implica&ccedil;&otilde;es disso. O que te levou a fazer essa pesquisa? Quais foram os principais resultados que encontrou na sua investiga&ccedil;&atilde;o?<br \/><\/strong>Sou do Rio de Janeiro e desde pequena me sentia incomodada com a maneira com que as crian&ccedil;as e os jovens pobres eram tratados socialmente. Na maior parte das vezes, t&iacute;nhamos que ter cuidado ao andarmos na rua e cruzarmos com um jovem negro e pobre. Era melhor mudar de cal&ccedil;ada, ou ent&atilde;o corr&iacute;amos o risco de sermos assaltados. Ficava pensando como deveria ser ruim estar na pele daquelas crian&ccedil;as e jovens, sempre vistos como marginais. No Rio temos a sensa&ccedil;&atilde;o de que s&oacute; os jovens pobres, moradores de favelas e de prefer&ecirc;ncia negros &eacute; que cometem crimes. Depois que assisti ao filme &quot;Cidade de Deus&quot; e acompanhei toda a pol&ecirc;mica entre seus realizadores e o rapper MV Bill, senti definitivamente que deveria conduzir minha investiga&ccedil;&atilde;o por este caminho.<br \/>Comprovei aquilo que j&aacute; imaginava. Existe o estere&oacute;tipo da imagem do jovem que &eacute; &quot;vendida&quot; pela m&iacute;dia: jovem, branco, de classe m&eacute;dia alta\/rico. Na maior parte das vezes &eacute; explorada sua imagem feminina. Este modelo vende a juventude como um estilo de vida, &eacute; a imagem de glamour da juventude. O outro estere&oacute;tipo &eacute; aquele em que o jovem assume uma postura amea&ccedil;adora, de criminoso ou deliquente. Normalmente este grupo &eacute; composto por jovens pobres, na maioria das vezes n&atilde;o brancos e do sexo masculino. Estes jovens possivelmente t&ecirc;m sua imagem associada &agrave; bandidagem, ao tr&aacute;fico, n&atilde;o s&atilde;o pessoas bem quistas e devem estar restritos ao seu gueto que &eacute; a favela. Este jovem n&atilde;o corresponde &agrave;s necessidades do mercado do &quot;ter&quot;: ele &eacute; pobre, preto, n&atilde;o &eacute; nada, e, normalmente quando h&aacute; refer&ecirc;ncias na m&iacute;dia a este tipo de jovem, ele &eacute; tratado por menor, delinquente, infrator.<\/p>\n<p><strong>Voc&ecirc; pode explicar o conceito de culturas juvenis que utiliza na sua pesquisa e porque da import&acirc;ncia do plural dessa express&atilde;o?<br \/><\/strong>No sentido lato, por cultura juvenil pode entender-se um sistema de valores socialmente atribu&iacute;dos &agrave; juventude (tomada como conjunto referido a uma fase da vida), isto &eacute;, valores a que aderir&atilde;o jovens de diferentes meios e condi&ccedil;&otilde;es sociais. Assim sendo, conclu&iacute;mos que n&atilde;o existe apenas uma cultura juvenil, mas sim v&aacute;rias culturas juvenis. Quando pensamos que o plural de duas palavras pode mudar o modo como encaramos a nossa juventude, isso faz toda a diferen&ccedil;a. Quando falamos em cultura juvenil, restringimos a juventude a uma massa compacta e homog&ecirc;nea. Quando percebemos que existem diversas culturas juvenis, acreditamos na diversidade da juventude, abrimos possibilidades para a pluralidade que &eacute; a juventude. No livro &quot;Cidade Partida&quot;, de Zuenir Ventura, consegui distinguir mais de cinco diferentes culturas juvenis em Vig&aacute;rio Geral. Existem os jovens que conseguem ir para a universidade, os que muito jovens s&atilde;o pais de fam&iacute;lia, existem as jovens que s&atilde;o m&atilde;es, os que d&atilde;o aulas para crian&ccedil;as, os que formam associa&ccedil;&otilde;es de direitos humanos, m&uacute;sicos, traficantes.<\/p>\n<p><strong>O que &eacute; Educomunica&ccedil;&atilde;o? Que contribui&ccedil;&otilde;es o trabalho com jovens por meio da educomunica&ccedil;&atilde;o (ou como voc&ecirc; usa em seu livro, &quot;media-educa&ccedil;&atilde;o&quot;) tem a dar &agrave; constru&ccedil;&atilde;o democr&aacute;tica da imagem desse grupo social? Em que esse trabalho difere da educa&ccedil;&atilde;o formal que &eacute; praticada nas escolas?<br \/><\/strong>A Educomunica&ccedil;&atilde;o (ou educa&ccedil;&atilde;o para os media ou m&iacute;dia educa&ccedil;&atilde;o) &eacute; um nome novo para uma forma antiga de educar e de ser educado, mas de maneira mais democr&aacute;tica. Explico: estamos educando e sendo educados atrav&eacute;s dos meios de comunica&ccedil;&atilde;o social. Lembro de perceber muitas coisas e pensar sobre tantas outras enquanto assistia ao programa de televis&atilde;o &quot;Bal&atilde;o M&aacute;gico&quot;, ou &quot;As aventuras de Tio Maneco&quot;, ou o &quot;S&iacute;tio do Pica Pau Amarelo&quot;. Lembro que desde muito pequena adorava acompanhar as novelas junto com a minha empregada, quantas coisas aprendi nas telenovelas. Mas hoje em dia temos ainda a internet, a publicidade a todo vapor. Percebemos ent&atilde;o que t&iacute;nhamos que utilizar a m&iacute;dia a favor da educa&ccedil;&atilde;o, educar com, para e atrav&eacute;s dos meios de comunica&ccedil;&atilde;o. A Educomunica&ccedil;&atilde;o promove uma jun&ccedil;&atilde;o entre a m&iacute;dia, o que aprendemos ou vemos atrav&eacute;s dos meios de comunica&ccedil;&atilde;o social e a realidade dos grupos com que trabalha &ndash; crian&ccedil;as e jovens, por exemplo. Utilizamos os meios de comunica&ccedil;&atilde;o para analisar, aprender, dialogar e re-construir as diferentes realidades. Jos&eacute; Outeiral diz que a escola pode sustentar o desejo, o sonho e a utopia. N&atilde;o s&oacute; das m&atilde;es como dos adolescentes e dos professores. Deve ser um lugar que ensine a pensar &ndash; o autor sugere que as crian&ccedil;as chegam &agrave;s escolas e n&atilde;o pensam. Pensar, diz, surpreende o pensador. Pensar &eacute; transgredir. Pensar &eacute; fundamental. A escola pode ensinar tamb&eacute;m a brincar&hellip; &eacute; mais ou menos assim. Essas palavras s&atilde;o muito importantes para mim e acredito que o caminho para a escola renascer, ou uns dos caminhos, &eacute; atrav&eacute;s da Educomunica&ccedil;&atilde;o. Ensinar a pensar &eacute; a ideia n&uacute;mero um dentro deste novo conceito de educa&ccedil;&atilde;o. Atrav&eacute;s dos projetos de Educomunica&ccedil;&atilde;o que coordeno, pude perceber que crian&ccedil;as, jovens e adultos descobrem ferramentas dentro de si para lidar com as suas realidades, deixam de ser sujeitos passivos, espectadores de suas pr&oacute;prias vidas e d&atilde;o um salto, aprendem a pensar, a dialogar, a refletir, a analisar e a produzir.<\/p>\n<p><strong>Na sua vis&atilde;o, a sociedade de consumo e os padr&otilde;es de comportamento consumista colaboram com a glamoriza&ccedil;&atilde;o da viol&ecirc;ncia nos media?<br \/><\/strong>Sim, essa pergunta complementa aquilo que dizia na primeira quest&atilde;o. Observamos tamb&eacute;m que o jovem tem necessidade de sair dos lugares marcados pelo cinema sensacionalista, pelas not&iacute;cias dos notici&aacute;rios televisivos, enfim, pela m&iacute;dia de maneira geral. Todos t&ecirc;m necessidade de auto-estima, de afirma&ccedil;&atilde;o, mas nem todos t&ecirc;m condi&ccedil;&otilde;es s&oacute;cio-econ&ocirc;micas para corresponder ao que &eacute; esperado e esta desigualdade constantemente &eacute; descontextualizada na m&iacute;dia.<br \/>Um jovem portugu&ecirc;s que participou do projeto que cito no meu livro d&aacute; um depoimento no v&iacute;deo em que diz que: &quot;Uma pessoa que n&atilde;o tem tv a cabo, um carro, g&aacute;s canalizado (&hellip;), n&atilde;o &eacute; pessoa&quot;. O tratamento diferenciado que &eacute; dado ao jovem de uma determinada classe social e o que &eacute; dado ao que &eacute; de outra produz um processo de mutila&ccedil;&atilde;o da auto-estima. Acontece uma desvaloriza&ccedil;&atilde;o do sujeito, pois j&aacute; que n&atilde;o pode corresponder aos valores impl&iacute;citos socialmente, sente-se inferiorizado. N&atilde;o &eacute; o fator econ&ocirc;mico que gera a viol&ecirc;ncia, mas a apatia da sociedade, enquanto grupo, em rela&ccedil;&atilde;o aos problemas envolvendo esses jovens vulner&aacute;veis.<br \/>As press&otilde;es exercidas por uma imagem dominante que corresponde &agrave; ideia positiva de jovem rico, esperto e feliz, que &eacute; constantemente refor&ccedil;ada pela m&iacute;dia, faz parte da sociedade de consumo que vivemos e cria necessidades de posse de objetos, de status e de uma apar&ecirc;ncia que normalmente n&atilde;o corresponde &agrave; realidade. As diferen&ccedil;as existentes nas formas de adquirir esses bens de consumo e essa est&eacute;tica &quot;juvenil&quot; acentua a desigualdade e demanda uma recusa da subordina&ccedil;&atilde;o da &quot;ordem social&quot;, gerando algumas vezes graves problemas sociais, principalmente os que envolvem drogas e viol&ecirc;ncia. <\/p>\n<p><strong>Na sua opini&atilde;o, em que diferem as rela&ccedil;&otilde;es de consumo na constru&ccedil;&atilde;o de identidades dos jovens nos pa&iacute;ses em que j&aacute; desenvolveu trabalhos, como Brasil, Portugal e Angola?<br \/><\/strong>Ousaria dizer que n&atilde;o difere em quase nada, ou em muito pouco. Analisando as rela&ccedil;&otilde;es de consumo associadas &agrave; constru&ccedil;&atilde;o de identidades, percebo que aquilo que &eacute; bom para os jovens, tanto no Brasil como em Portugal ou Angola, &eacute; aquilo que est&aacute; na m&iacute;dia. A moda &eacute; ditada pela publicidade, pelo que vem de &quot;fora&quot;, que depois &eacute; adaptado &agrave; realidade local. O que se come, o que se bebe, o que se veste ou a m&uacute;sica que os jovens ouvem, tratando-se destes tr&ecirc;s pa&iacute;ses de l&iacute;ngua portuguesa &eacute; tudo muito parecido. Existe uma homogeneiza&ccedil;&atilde;o cultural onde o jovem perde cada vez mais a liga&ccedil;&atilde;o com a sua cultura, com a cultura de seu pa&iacute;s e se liga a uma cultura globalizada, uma cultura de massa. A Hannah Montana, Miley Cyrus, s&atilde;o bons exemplos disso, que deveria ser para jovens, mas na verdade foi fabricada para entreter crian&ccedil;as. &Eacute; um &iacute;cone tanto no Brasil como em Portugal e em Angola. N&atilde;o h&aacute; uma menina dos 5 aos 11 anos, em um destes tr&ecirc;s pa&iacute;ses, que n&atilde;o conhe&ccedil;a ou possua pelo menos um produto relacionado a Hannah Montana. Hoje em dia os filmes produzidos em Angola por jovens s&atilde;o filmes em sua maioria de viol&ecirc;ncia, baseados, segundos seus realizadores, nos filmes de viol&ecirc;ncia brasileiros e norte-americanos.<\/p>\n<p><strong>Qual a import&acirc;ncia de fazer parte da Rede de Trabalho do Projeto Crian&ccedil;a e Consumo para seu trabalho?<br \/><\/strong>&Eacute; sentir que n&atilde;o estou sozinha, que no deserto tem postos de socorro. O Projeto surgiu para o meu trabalho como um sopro de ar puro. Sentia muitas vezes que as pessoas estavam mergulhadas nesta invers&atilde;o de valores, neste capitalismo selvagem, onde o que vale e o que fala mais alto &eacute; o dinheiro, &eacute; o ter. Sentia que somos massas de manobra a favor do capital. E que a publicidade era o porta-voz do capitalismo. Querem dizer o que devemos comer, vestir, ouvir, onde devemos ir e at&eacute; o que pensar, pior do que isso, querem fazer o mesmo com as nossas crian&ccedil;as. O Crian&ccedil;a e Consumo surge como um divisor de &aacute;guas, cada newsletter ou publica&ccedil;&atilde;o &eacute; uma vit&oacute;ria, &eacute; como se fosse a resposta do ser contra o ter. A rede de trabalho &eacute; a cereja em cima do sorvete, &eacute; como se dissessem: &quot;Ei, voc&ecirc;s, que querem mais para nossas crian&ccedil;as, que n&atilde;o querem que elas sejam meros cifr&otilde;es, voc&ecirc;s que trabalham contra isso, que tem princ&iacute;pios diferentes dos princ&iacute;pios do &lsquo;mercado&rsquo;, venham para c&aacute; formar esta rede de trabalho&quot;.<\/p>\n<p>Conhe&ccedil;a nossa Rede de Trabalho &#8211; <a href=\"http:\/\/www.alana.org.br\/CriancaConsumo\/RedeTrabalho.aspx\" target=\"_blank\">http:\/\/www.alana.org.br\/CriancaConsumo\/RedeTrabalho.aspx<\/a> <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pesquisadora fala sobre a influ&ecirc;ncia da m&iacute;dia na forma&ccedil;&atilde;o da identidade juvenil<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[43],"tags":[1341],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/24504"}],"collection":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=24504"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/24504\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=24504"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=24504"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=24504"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}