{"id":24499,"date":"2010-06-08T17:45:49","date_gmt":"2010-06-08T17:45:49","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=24499"},"modified":"2010-06-08T17:45:49","modified_gmt":"2010-06-08T17:45:49","slug":"liberdade-de-expressao-e-de-imprensa-um-manifesto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=24499","title":{"rendered":"Liberdade de express\u00e3o e de imprensa: Um manifesto"},"content":{"rendered":"<p>   \t \t \t \t \t<!-- \t\t@page { margin: 2cm } \t\tP { margin-bottom: 0.21cm } \t--> \t  <\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0cm\" class=\"padrao\"><strong>1. A irrestrita liberdade de imprensa de que se goza hoje no Brasil deve ser defendida por todos os brasileiros, independente de sua posi&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica.<\/strong> Essa liberdade se caracteriza pela aus&ecirc;ncia de censura pr&eacute;via do Poder Executivo sobre o conte&uacute;do daquilo que se diz, escreve ou publica no pa&iacute;s. Literalmente qualquer coisa pode ser dita sem impedimento pr&eacute;vio no Brasil, e a mastod&ocirc;ntica cole&ccedil;&atilde;o de mentiras, inj&uacute;rias, cal&uacute;nias, difama&ccedil;&otilde;es, distor&ccedil;&otilde;es e manipula&ccedil;&otilde;es veiculadas regularmente por Veja, Globo, Folha, Estad&atilde;o, Zero Hora e outros oferece a prova cabal de que vivemos em pleno exerc&iacute;cio desta liberdade. <\/p>\n<p><strong>2. N&atilde;o h&aacute; democracia em que a aus&ecirc;ncia de censura pr&eacute;via sobre o dizer se confunda com a aus&ecirc;ncia da possibilidade de responsabiliza&ccedil;&atilde;o (inclusive penal) posterior ao dito. <\/strong>Muitos brasileiros, ainda escaldados pelas ditaduras, confundem com &ldquo;censura&rdquo; qualquer reclamo de responsabiliza&ccedil;&atilde;o sobre o dito. Uns poucos brasileiros ligados &agrave; grande m&iacute;dia manipulam de m&aacute; f&aacute; essa confus&atilde;o em benef&iacute;cio pr&oacute;prio. Na verdade, todas as democracias que asseguram a plena liberdade de express&atilde;o (a total aus&ecirc;ncia de censura pr&eacute;via) possuem em comum, em seu arcabou&ccedil;o jur&iacute;dico, alguma forma de penaliza&ccedil;&atilde;o sobre o difamar e o caluniar. Essas leis s&atilde;o parte do que garante a plena liberdade de express&atilde;o. O problema no Brasil jamais foi a exist&ecirc;ncia delas. O problema no Brasil &eacute; que s&oacute; os poderosos t&ecirc;m podido recorrer &agrave; justi&ccedil;a evocando-as, e em geral para silenciar vozes discordantes. As reais v&iacute;timas da difama&ccedil;&atilde;o dos grupos de m&iacute;dia t&ecirc;m tido acesso quase nulo &agrave; repara&ccedil;&atilde;o jur&iacute;dica. <\/p>\n<p><strong>3. A liberdade de imprensa n&atilde;o est&aacute; realizada em todo o seu potencial se apenas meia d&uacute;zia de fam&iacute;lias dela usufruem de forma massiva.<\/strong> O fato &eacute; &oacute;bvio mas, nos debates sobre o assunto, o &oacute;bvio com frequ&ecirc;ncia clama por ser reiterado: a liberdade de imprensa estar&aacute; tanto mais realizada quanto mais numerosos forem os grupos sociais com acesso a ve&iacute;culos que os representem; mais amplo for o leque de discursos acerca de cada tema; mais diversificados forem os pontos de vista em condi&ccedil;&otilde;es de encontrar express&atilde;o, entendendo-se que essas condi&ccedil;&otilde;es incluem n&atilde;o s&oacute; a liberdade de dizer, mas tamb&eacute;m o acesso aos meios materiais que tornam poss&iacute;vel a circula&ccedil;&atilde;o do dito. Neste sentido, o grande obst&aacute;culo para a plena democratiza&ccedil;&atilde;o da imprensa no Brasil (que avan&ccedil;ou em fun&ccedil;&atilde;o das novas tecnologias e algumas pol&iacute;ticas do governo Lula) &eacute; justamente a m&iacute;dia monopolista das famiglias, que se agarram aos seus velhos privil&eacute;gios com enraivado, baboso rancor.<\/p>\n<p><strong>4. N&atilde;o h&aacute; liberdade plena de imprensa sem direito de resposta, o direito de express&atilde;o mais desrespeitado, historicamente, no Brasil.<\/strong> T&atilde;o fundamental &eacute; ele para a liberdade de imprensa que n&atilde;o faltariam te&oacute;ricos do Direito alinhados com a tese de que se trata de direito antropologicamente universal, compar&aacute;vel &agrave; leg&iacute;tima defesa. Poucos blogueiros independentes, depois de publicar texto enfocado em outrem, negariam espa&ccedil;o compar&aacute;vel para a resposta do citado. No entanto, vivemos num pa&iacute;s cujo maior jornal publica ficha policial falsa, adulterada, com falsa acusa&ccedil;&atilde;o, sobre o passado de uma ministra, e nem mesmo ela consegue exercer seu direito de resposta. Caso ela tivesse cometido o erro pol&iacute;tico de buscar judicialmente o exerc&iacute;cio desse direito, teria sido insuport&aacute;vel a gritaria hist&eacute;rica dos funcion&aacute;rios das famiglias contra uma inexistente &ldquo;censura&rdquo;. &Eacute; preciso que cada vez mais a sociedade civil diga a esses grupos de m&iacute;dia: voc&ecirc;s n&atilde;o t&ecirc;m autoridade moral para falar em liberdade de imprensa nenhuma, pois apoiaram a instala&ccedil;&atilde;o dos regimes que mais atentaram contra ela, al&eacute;m de que n&atilde;o a exercem em seu pr&oacute;prio quintal, negando sempre o espa&ccedil;o de resposta a quem atacam. A Folha chegou ao c&uacute;mulo de publicar um texto que lan&ccedil;ava lama sobre dois seus pr&oacute;prios jornalistas, qualificando de &ldquo;delinqu&ecirc;ncia&rdquo; uma reportagem feita por eles, sem que os profissionais pudessem exercer seu direito de resposta. Pense bem, leitor: essa turminha tem cara de guardi&atilde; da liberdade de imprensa? <\/p>\n<p><strong>5. A veicula&ccedil;&atilde;o de senten&ccedil;a penal condenat&oacute;ria acerca de crime contra a honra cometido pelos grupos de m&iacute;dia &eacute; um direito do p&uacute;blico leitor\/espectador\/ouvinte. <\/strong>Especialmente no caso de senten&ccedil;a j&aacute; transitada em julgado, &eacute; b&aacute;sico o direito do leitor saber que a justi&ccedil;a decidiu que naquele espa&ccedil;o foi cometido um crime contra a imagem de algu&eacute;m. No entanto, at&eacute; a data de produ&ccedil;&atilde;o desta coluna (03 de maio), continuam valendo as perguntas: como a Folha de S&atilde;o Paulo tem a cara de pau de n&atilde;o veicular a not&iacute;cia de que foi condenada em definitivo por crime contra Luis Favre? Como a Zero Hora tem a cara de pau de n&atilde;o avisar ao leitor que se confirmou sua condena&ccedil;&atilde;o por crime contra uma desembargadora? <\/p>\n<p><strong>6. A discuss&atilde;o democr&aacute;tica sobre a renova&ccedil;&atilde;o (ou n&atilde;o) das concess&otilde;es p&uacute;blicas a r&aacute;dios e TVs n&atilde;o &eacute; contradit&oacute;ria com a liberdade de imprensa; pelo contr&aacute;rio, &eacute; parte de seu pleno exerc&iacute;cio. <\/strong>H&aacute; uma raz&atilde;o pela qual a liberdade de que se imprima qualquer coisa &eacute; juridicamente distinta da autoriza&ccedil;&atilde;o a que se transmita TV ou r&aacute;dio em sinal emprestado pelo poder p&uacute;blico. S&oacute; por ignor&acirc;ncia ou m&aacute; f&eacute; pode se comparar uma recusa do Estado a renovar uma concess&atilde;o de TV ao ato de fechar um jornal (recordando que a m&aacute; f&eacute; pode ser ignorante, e com frequ&ecirc;ncia o &eacute; nestes casos). No Brasil, a discuss&atilde;o democr&aacute;tica sobre as concess&otilde;es &eacute; de particular import&acirc;ncia no caso do &uacute;nico grande imp&eacute;rio de m&iacute;dia que sobrevive com ineg&aacute;vel capilaridade e poder de fogo, o da famiglia Marinho, de t&atilde;o nebulosa hist&oacute;ria. <\/p>\n<p><strong>7. A liberdade de imprensa inclui, como componente essencial e inalien&aacute;vel, a liberdade de exibir, ridicularizar, parodiar e pastichar as gafes, mentiras, barrigas e distor&ccedil;&otilde;es veiculadas pela pr&oacute;pria imprensa. <\/strong>Hoje, no Brasil, nove de cada dez gritinhos hist&eacute;ricos dos patr&otilde;es e funcion&aacute;rios da grande m&iacute;dia sobre um suposto cerceamento de sua liberdade de imprensa referem-se &uacute;nica e exclusivamente ao exerc&iacute;cio dessa mesma liberdade, s&oacute; que agora por leitores e ex-leitores, cujo direito &agrave; express&atilde;o essa m&iacute;dia jamais defendeu, sequer com um pio.  <\/p>\n<p><em>* Idelber Avelar &eacute; professor do Departamento de Espanhol e Portugu&ecirc;s da Universidade de Tulane, Nova Orleans (EUA).<\/em> <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A liberdade de imprensa n&atilde;o est&aacute; realizada em todo o seu potencial se apenas meia d&uacute;zia de fam&iacute;lias dela usufruem de forma massiva <\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[42],"tags":[144],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/24499"}],"collection":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=24499"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/24499\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=24499"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=24499"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=24499"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}