{"id":24478,"date":"2010-05-27T17:44:01","date_gmt":"2010-05-27T17:44:01","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=24478"},"modified":"2010-05-27T17:44:01","modified_gmt":"2010-05-27T17:44:01","slug":"liberdade-a-farsa-e-a-tragedia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=24478","title":{"rendered":"Liberdade, a farsa e a trag\u00e9dia"},"content":{"rendered":"<p> \t \t \t \t<!-- \t\t@page { margin: 2cm } \t\tP { margin-bottom: 0.21cm } \t--> \t  <\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0cm\" class=\"padrao\"><em>&#8211; Pref&aacute;cio de <\/em><em><strong>Liberdade de express&atilde;o vs. liberdade de imprensa &ndash; Direito &agrave; comunica&ccedil;&atilde;o e democracia<\/strong><\/em><em>, de Ven&iacute;cio A. de Lima, Editora Publisher Brasil, S&atilde;o Paulo, 2010; t&iacute;tulo e intert&iacute;tulos do OI &#8211;<\/em><\/p>\n<p>Mais uma vez, Ven&iacute;cio de Lima, ao fazer a cr&iacute;tica aguda da &quot;desorganiza&ccedil;&atilde;o&quot; dos meios de comunica&ccedil;&atilde;o de massa, contribui apreciavelmente para a reforma do nosso sistema pol&iacute;tico.<\/p>\n<p>A Constitui&ccedil;&atilde;o de 1988 abre-se com a declara&ccedil;&atilde;o solene de que a Rep&uacute;blica Federativa do Brasil &eacute; um Estado Democr&aacute;tico de Direito. Acontece que nenhum desses tr&ecirc;s magnos princ&iacute;pios &eacute; adequadamente obedecido neste pa&iacute;s. N&atilde;o somos uma verdadeira rep&uacute;blica, porque o bem comum do povo, que os romanos denominavam exatamente <em>res publica<\/em>, n&atilde;o prevalece sobre os interesses particulares dos ricos e poderosos. N&atilde;o somos uma aut&ecirc;ntica democracia, porque o poder soberano n&atilde;o pertence ao povo, mas a uma minoria de grupos ou pessoas abastadas; o que &eacute; a pr&oacute;pria defini&ccedil;&atilde;o de oligarquia. Tampouco constitu&iacute;mos um Estado de Direito, porque, com escandalosa frequ&ecirc;ncia, as pessoas investidas em cargos p&uacute;blicos &ndash; no Executivo, no Legislativo e at&eacute; mesmo no Judici&aacute;rio &ndash; exercem um poder sem controle, e logram p&ocirc;r sua vontade e seus interesses pr&oacute;prios acima do disposto na Constitui&ccedil;&atilde;o e nas leis.<\/p>\n<p>Em suma, vivemos um regime pol&iacute;tico de dupla face. Para efeitos externos, a nossa Rep&uacute;blica, como declara a Constitui&ccedil;&atilde;o, &eacute; um Estado Democr&aacute;tico de Direito. Para efeitos internos, por&eacute;m, como todos sabem, a realidade &eacute; bem outra.<\/p>\n<p>O povo brasileiro tem sido regularmente impedido de exercer o poder soberano. De um lado, por falta de adequada informa&ccedil;&atilde;o sobre as quest&otilde;es de interesse p&uacute;blico; de outro, pela impossibilidade em que se encontra o conjunto dos cidad&atilde;os de manifestar publicamente suas opini&otilde;es ou protestos.<\/p>\n<p><strong>Liberdade p&uacute;blica<\/strong><\/p>\n<p>Na democracia ateniense, a comunica&ccedil;&atilde;o c&iacute;vica era presencial: o povo reunia-se na <em>&aacute;gora<\/em>, para discutir e votar as grandes quest&otilde;es de interesse da <em>p&oacute;lis<\/em>. Nas sociedades de massas do presente, a comunica&ccedil;&atilde;o dos cidad&atilde;os entre si exige a media&ccedil;&atilde;o da imprensa, do r&aacute;dio, da televis&atilde;o, ou da internet. Ora, no Brasil e em v&aacute;rios outros pa&iacute;ses, esses meios de comunica&ccedil;&atilde;o de massa, com a s&oacute; exce&ccedil;&atilde;o (por quanto tempo?) da internet, foram ocupados e apropriados por particulares, que deles se servem em proveito pr&oacute;prio, ou das classes e entidades a que est&atilde;o ligados.<\/p>\n<p>Em verdade, nas sociedades contempor&acirc;neas os ve&iacute;culos de comunica&ccedil;&atilde;o p&uacute;blica exercem fun&ccedil;&atilde;o semelhante &agrave; do sistema de circula&ccedil;&atilde;o sangu&iacute;nea nos organismos animais. Trata-se de levar fatos, opini&otilde;es, ensinamentos, propostas ou espet&aacute;culos ao conjunto dos cidad&atilde;os, com a suposi&ccedil;&atilde;o de que estes saber&atilde;o reagir a tais est&iacute;mulos. &Eacute; sempre o duplo movimento de s&iacute;stole e di&aacute;stole.<\/p>\n<p>Ora, ningu&eacute;m ignora que o sistema de <em>comunica&ccedil;&atilde;o<\/em> de massa, aqui e alhures, tem funcionado com obstru&ccedil;&otilde;es e insufici&ecirc;ncias, semelhantes &agrave; manifesta&ccedil;&atilde;o de uma aterosclerose. Pior: na maioria esmagadora dos casos, n&atilde;o existe propriamente comunica&ccedil;&atilde;o, no sentido original da palavra. Na l&iacute;ngua matriz, <em>communicatio<\/em>, com o verbo correlato <em>communico, -are<\/em>, significava o ato de p&ocirc;r algo em comum, de partilhar. N&atilde;o &eacute; o que acontece hoje no campo das transmiss&otilde;es radiof&ocirc;nicas e televisivas, nem no da imprensa peri&oacute;dica: as mensagens s&atilde;o unilateralmente transmitidas ao p&uacute;blico, e a este, salvo em hip&oacute;teses excepcionais, n&atilde;o &eacute; reconhecido o direito de contest&aacute;-las, e, menos ainda, o de abrir uma discuss&atilde;o a respeito delas.<\/p>\n<p>Ven&iacute;cio de Lima op&otilde;e com raz&atilde;o, desde o t&iacute;tulo da obra, os conceitos de liberdade de express&atilde;o e liberdade de imprensa (transformada, no sistema capitalista, em liberdade de empresa).<\/p>\n<p>A partir das declara&ccedil;&otilde;es de direitos do final do s&eacute;culo 18, estabeleceu-se a distin&ccedil;&atilde;o entre <em>liberdade p&uacute;blica<\/em>, com o sentido pol&iacute;tico de autogoverno ou autopoder, e <em>liberdades privadas<\/em>, como contrapoderes; vale dizer, instrumentos de defesa do cidad&atilde;o perante os poderes oficiais. <\/p>\n<p>Benjamin Constant, em confer&ecirc;ncia pronunciada no Ateneu Real de Paris, em 1819, sustentou que, enquanto os gregos e os romanos s&oacute; se preocupavam com a liberdade p&uacute;blica, isto &eacute;, a participa&ccedil;&atilde;o do cidad&atilde;o no exerc&iacute;cio do poder pol&iacute;tico, e desconheciam a autonomia privada, os modernos atribuem ao Estado, praticamente, uma &uacute;nica fun&ccedil;&atilde;o: garantir as liberdades individuais. Com isto, perdemos tanto uma, quanto as outras.<\/p>\n<p>Hoje, &eacute; preciso compreender que entre liberdade p&uacute;blica e liberdades privadas n&atilde;o h&aacute; oposi&ccedil;&atilde;o, mas sim complementaridade. A liberdade p&uacute;blica &eacute; o quadro de organiza&ccedil;&atilde;o das liberdades privadas. Tomemos, por exemplo, a liberdade de voto em elei&ccedil;&otilde;es populares. Durante o regime militar brasileiro de 1964 a 1985, a Constitui&ccedil;&atilde;o garantia a liberdade de voto, mas as elei&ccedil;&otilde;es n&atilde;o eram livres: s&oacute; podiam existir partidos autorizados pelo governo, e os candidatos a postos eletivos eram submetidos a severa triagem ideol&oacute;gica.<\/p>\n<p><em><strong>Agenda setting<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Esse foi um caso emblem&aacute;tico, em que as liberdades individuais deixaram de existir, em raz&atilde;o do excesso de restri&ccedil;&otilde;es regulamentares.<\/p>\n<p>Mas pode tamb&eacute;m ocorrer que as liberdades privadas sejam prejudicadas pela aus&ecirc;ncia de regulamenta&ccedil;&atilde;o. &Eacute; o que vemos hoje, em nosso pa&iacute;s, no campo da comunica&ccedil;&atilde;o de massa. A Constitui&ccedil;&atilde;o declarou livre a manifesta&ccedil;&atilde;o do pensamento (art. 5&ordm;, inciso IV), mas deixou a regulamenta&ccedil;&atilde;o do quadro geral de exerc&iacute;cio dessa liberdade individual &agrave; legisla&ccedil;&atilde;o ordin&aacute;ria. Sucede que at&eacute; hoje, passados mais de vinte anos da entrada em vigor da Constitui&ccedil;&atilde;o, as suas principais disposi&ccedil;&otilde;es sobre a mat&eacute;ria ainda n&atilde;o foram regulamentadas. O Congresso Nacional &eacute; sistematicamente paralisado pela press&atilde;o dominante das empresas de comunica&ccedil;&atilde;o. <\/p>\n<p>Se, numa sociedade de massas, as opini&otilde;es, id&eacute;ias, protestos ou propostas s&oacute; podem ser manifestados publicamente atrav&eacute;s dos meios institucionais de comunica&ccedil;&atilde;o social, &eacute; evidente que esse espa&ccedil;o, por natureza p&uacute;blico, n&atilde;o pode ser apropriado por particulares, atuando em ambiente n&atilde;o regulamentado.<\/p>\n<p>O vale-tudo empresarial nesse campo, ali&aacute;s, n&atilde;o &eacute; pr&oacute;prio do Brasil. Ele se espalhou pelo mundo todo com o movimento de globaliza&ccedil;&atilde;o capitalista, a partir do &uacute;ltimo quartel do s&eacute;culo 20. N&atilde;o h&aacute; d&uacute;vida, por&eacute;m, que fomos dos primeiros a aderir &agrave; nova moda. Nos Estados Unidos, basti&atilde;o inconteste do capitalismo, a desregulamenta&ccedil;&atilde;o dos <em>mass media<\/em> somente ocorreu com a lament&aacute;vel lei de 1996 [cf. Ben H. Bagdikian, <em>The New Media Monopoly<\/em>, Bacon Press books, 2004, pp. 137\/138; C. Edwin Baker, <em>Media Concentration and Democracy &ndash; Why ownership matters<\/em>, Cambridge University Press, 2007, pp. 1, 12 e ss]. Aqui, nem precisamos de lei para deitar abaixo a regulamenta&ccedil;&atilde;o m&iacute;nima do setor. Neste ano de 2009, o Supremo Tribunal Federal, manifestando completa desintelig&ecirc;ncia dos princ&iacute;pios jur&iacute;dicos em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; realidade hodierna dos meios de comunica&ccedil;&atilde;o de massa, julgou revogada a Lei de imprensa de 1967. O fundamento dessa decis&atilde;o &quot;libert&aacute;ria&quot; foi o fato de que ela fora editada durante o regime militar. Os empres&aacute;rios rejubilaram, exclamando como o velho sertanejo: a on&ccedil;a fugiu, o mato &eacute; nosso.<\/p>\n<p>Nunca &eacute; demais repetir que <em>p&uacute;blico<\/em> op&otilde;e-se a <em>pr&oacute;prio<\/em>. P&uacute;blico &eacute; o que pertence a todos. Pr&oacute;prio, o que pertence exclusivamente a um ou alguns. A comunh&atilde;o ou comunidade &eacute; o exato contr&aacute;rio da propriedade. Nesse sentido, pode-se dizer que a liberdade de express&atilde;o, enquanto direito fundamental, n&atilde;o pode ser objeto de propriedade de ningu&eacute;m, pois ela &eacute; um atributo essencial da pessoa humana, um direito comum a todos. Ora, se a liberdade de express&atilde;o se exerce atualmente pela media&ccedil;&atilde;o necess&aacute;ria dos meios de comunica&ccedil;&atilde;o de massa, estes &uacute;ltimos n&atilde;o podem, em estrita l&oacute;gica, ser objeto de propriedade empresarial no interesse privado.<\/p>\n<p>&Eacute; preciso lembrar que a globaliza&ccedil;&atilde;o capitalista do final do s&eacute;culo passado engendrou uma enorme concentra&ccedil;&atilde;o do controle privado das empresas de comunica&ccedil;&atilde;o de massa. Nos Estados Unidos havia, em 1983, cinquenta empresas dominantes no mercado de imprensa, r&aacute;dio e televis&atilde;o; hoje, h&aacute; apenas cinco [cf. Ben H. Bagdikian, op. cit., p&aacute;g. 16]. Atualmente no Brasil, apenas quatro megaempresas dominam o setor de televis&atilde;o: a Globo controla 342 ve&iacute;culos; a SBT, 195; a Bandeirantes, 166; a Record, 142; sendo que cada uma dessas &quot;redes&quot; representa um segmento de um grupo, que explora tamb&eacute;m o r&aacute;dio, jornais e revistas.<\/p>\n<p>Com esse quadro reduzido de atores, as pe&ccedil;as encenadas s&atilde;o sempre as mesmas. Quando eu era jovem &ndash; e j&aacute; l&aacute; se v&atilde;o alguns dec&ecirc;nios &ndash; dizia-se que para ser bem informado era preciso ler v&aacute;rios jornais. Hoje, quem l&ecirc; um dos nossos grandes matutinos leu todos os outros. Tirante algumas originalidades marginais, h&aacute; absoluta converg&ecirc;ncia na defesa do capitalismo e na desregulamenta&ccedil;&atilde;o do setor de comunica&ccedil;&atilde;o social. A escolha dos fatos a serem noticiados, ou dos assuntos a serem comentados &ndash; o famoso <em>agenda setting<\/em> dos norte-americanos &ndash; &eacute; basicamente a mesma. At&eacute; o estilo jornal&iacute;stico, antes bem diverso conforme os peri&oacute;dicos, &eacute; hoje fastidiosamente homog&ecirc;neo.<\/p>\n<p><strong>Princ&iacute;pios fundamentais<\/strong><\/p>\n<p>No passado, a edi&ccedil;&atilde;o de livros ou jornais representava o exerc&iacute;cio de uma liberdade fundamental perante os &oacute;rg&atilde;os do poder estabelecido. Era o modo de se desvendarem os abusos oficiais, perante o p&uacute;blico leitor. Eis por que o soberano pol&iacute;tico, ou os chefes religiosos, n&atilde;o abriam m&atilde;o da censura pr&eacute;via. Os leitores eram constrangidos a pensar e a se exprimir como as autoridades ordenavam. Tal situa&ccedil;&atilde;o persiste ainda nos atuais Estados autorit&aacute;rios e totalit&aacute;rios.<\/p>\n<p>Sucede, por&eacute;m, que nos atuais pa&iacute;ses em que a democracia existe s&oacute; como fachada, a apropria&ccedil;&atilde;o empresarial dos meios de comunica&ccedil;&atilde;o de massa inverteu os pap&eacute;is: de instrumentos de contrapoder, ou garantias da liberdade de express&atilde;o, eles passaram a compor o complexo do poder estabelecido, manipulando a opini&atilde;o p&uacute;blica e fazendo com que os diferentes &oacute;rg&atilde;os do Estado &ndash; o Executivo, o Congresso Nacional e at&eacute; mesmo os tribunais &ndash; se inclinem diante de suas exig&ecirc;ncias.<\/p>\n<p>A verdade que o poder pol&iacute;tico n&atilde;o se assenta apenas na coa&ccedil;&atilde;o f&iacute;sica, mas necessita tamb&eacute;m, para ser est&aacute;vel, de um m&iacute;nimo de obedi&ecirc;ncia volunt&aacute;ria. Ora, esta, nas sociedades contempor&acirc;neas, s&oacute; pode ser obtida com a colabora&ccedil;&atilde;o dos meios de comunica&ccedil;&atilde;o de massa. Quando estes &uacute;ltimos s&atilde;o organizados sob a forma de empresas privadas, atuando livres de toda regulamenta&ccedil;&atilde;o, eles se tornam os grandes mentores da opini&atilde;o p&uacute;blica, distribuindo loas e lab&eacute;us a aliados e advers&aacute;rios, assim como as autoridades religiosas do passado zelavam pela ortodoxia dos fi&eacute;is, prometendo a salva&ccedil;&atilde;o para uns e a condena&ccedil;&atilde;o eterna para outros.<\/p>\n<p>A atual invers&atilde;o de pap&eacute;is fez com que o poder de censura passasse das autoridades estatais para os pr&oacute;prios &oacute;rg&atilde;os privados de comunica&ccedil;&atilde;o social. A men&ccedil;&atilde;o a pessoas n&atilde;o gratas aos novos bar&otilde;es da imprensa, do r&aacute;dio e da televis&atilde;o &eacute; terminantemente proibida. Tudo se passa como se tais renegados houvessem desaparecido deste mundo, sem deixar vest&iacute;gios. Conhe&ccedil;o, assim, um professor universit&aacute;rio paulista que goza do odioso privil&eacute;gio de ter seu nome censurado nos dois principais jornais de S&atilde;o Paulo.<\/p>\n<p>O que importa hoje, portanto, antes de tudo, &eacute; montar uma estrat&eacute;gia de combate aos abusos consolidados no vasto setor de comunica&ccedil;&atilde;o social. Como toda estrat&eacute;gia, ela implica a fixa&ccedil;&atilde;o de princ&iacute;pios, a montagem de um programa de reformas institucionais e a organiza&ccedil;&atilde;o de for&ccedil;as pol&iacute;ticas empenhadas em levar avante o movimento geral de transforma&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Os princ&iacute;pios fundamentais s&atilde;o os tr&ecirc;s acima citados: a Rep&uacute;blica, a Democracia e o Estado de Direito. O essencial &eacute; preservar, sob controle do povo, o espa&ccedil;o p&uacute;blico de comunica&ccedil;&atilde;o de massa, e evitar cair nos desvios do estatismo e do privatismo.<\/p>\n<p><strong>Oligop&oacute;lio empresarial<\/strong><\/p>\n<p>Ofere&ccedil;o a seguir, como contribui&ccedil;&atilde;o &agrave; montagem de um programa de reformas institucionais, sob a &eacute;gide desses princ&iacute;pios, as propostas seguintes:<\/p>\n<p>** Prioridade absoluta deve ser reconhecida &agrave; cria&ccedil;&atilde;o de r&aacute;dios ou televis&otilde;es p&uacute;blicas; sejam elas de comunidades locais, com reduzido espectro de transmiss&atilde;o, sejam de &acirc;mbito nacional ou regional. Estas &uacute;ltimas devem ser geridas pelo Estado, mas com a participa&ccedil;&atilde;o majorit&aacute;ria, em seus conselhos de administra&ccedil;&atilde;o, de representantes leg&iacute;timos da sociedade civil.<\/p>\n<p>** As entidades privadas de imprensa, r&aacute;dio e televis&atilde;o n&atilde;o podem se organizar como empresas capitalistas, mas devem funcionar sob a forma de associa&ccedil;&otilde;es ou funda&ccedil;&otilde;es. Metade, pelo menos, dos componentes do conselho de administra&ccedil;&atilde;o dessas entidades deve ser eleita pelos jornalistas que nelas trabalham.<\/p>\n<p>** Nenhuma empresa privada de comunica&ccedil;&atilde;o pode possuir o controle, direto ou indireto, de mais de um ve&iacute;culo.<\/p>\n<p>** A concess&atilde;o p&uacute;blica de funcionamento de entidades privadas de r&aacute;dio e televis&atilde;o, bem como a sua renova&ccedil;&atilde;o, devem ser feitas sempre mediante licita&ccedil;&atilde;o p&uacute;blica (Constitui&ccedil;&atilde;o Federal, art. 175), revogando-se o disposto no &sect; 2&ordm; do art. 223 da Constitui&ccedil;&atilde;o [&quot;A n&atilde;o-renova&ccedil;&atilde;o da concess&atilde;o ou permiss&atilde;o depender&aacute; de aprova&ccedil;&atilde;o de, no m&iacute;nimo, dois quintos do Congresso Nacional, em vota&ccedil;&atilde;o nominal&quot;].<\/p>\n<p>** O Conselho de Comunica&ccedil;&atilde;o Social, previsto no art. 224 da Constitui&ccedil;&atilde;o Federal, deve ser composto, metade por representantes dos ve&iacute;culos p&uacute;blicos de comunica&ccedil;&atilde;o social e a outra metade por representantes dos ve&iacute;culos privados.<\/p>\n<p>** Devem ser criadas ouvidorias populares para fiscalizar a atua&ccedil;&atilde;o dos ve&iacute;culos de comunica&ccedil;&atilde;o social, em todas as unidades da federa&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>** Al&eacute;m do direito de resposta tradicional, a lei deve instituir um direito de resposta para a defesa dos direitos coletivos e difusos, a ser exercido por associa&ccedil;&otilde;es ou entidades que tenham em seu estatuto social essa finalidade.<\/p>\n<p>** Al&eacute;m dos partidos pol&iacute;ticos, devem poder exercer o chamado direito de antena, j&aacute; institu&iacute;do nas Constitui&ccedil;&otilde;es da Espanha e de Portugal, as entidades privadas ou oficiais, reconhecidas de utilidade p&uacute;blica. Ou seja, elas devem poder fazer passar suas mensagens, de modo livre e gratuito, no r&aacute;dio e na televis&atilde;o, reservando-se, para tanto, um tempo m&iacute;nimo nos respectivos ve&iacute;culos.<\/p>\n<p>Quando da independ&ecirc;ncia dos Estados Unidos, James Madison, um dos seus Pais Fundadores, afirmou que um governo democr&aacute;tico (<em>a government by the people<\/em>), sem uma imprensa controlada pelo povo (<em>a popular press<\/em>), seria um prel&uacute;dio &agrave; farsa, &agrave; trag&eacute;dia, ou a ambas as coisas.<\/p>\n<p>No Brasil, a cria&ccedil;&atilde;o do oligop&oacute;lio empresarial dos meios de comunica&ccedil;&atilde;o de massa durante o regime militar (1964 a 1985) logrou, de fato, unir a farsa &agrave; trag&eacute;dia. N&atilde;o foi por outra raz&atilde;o que esse am&aacute;lgama monstruoso mereceu de um jornal de S&atilde;o Paulo a leviana qualifica&ccedil;&atilde;o de ditabranda. [S&atilde;o Paulo, Primavera de 2009]<br \/><em><br \/>* F&aacute;bio Konder Comparato &eacute; professor em&eacute;rito da Faculdade de Direito da Universidade de S&atilde;o Paulo, doutor Honoris Causa da Universidade de Coimbra.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No Brasil, o poder de censura passou das autoridades estatais para os pr&oacute;prios &oacute;rg&atilde;os privados de comunica&ccedil;&atilde;o social<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[42],"tags":[1338],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/24478"}],"collection":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=24478"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/24478\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=24478"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=24478"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=24478"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}