{"id":24356,"date":"2010-05-07T16:12:23","date_gmt":"2010-05-07T16:12:23","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=24356"},"modified":"2010-05-07T16:12:23","modified_gmt":"2010-05-07T16:12:23","slug":"confecom-um-marco-para-a-democracia-no-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=24356","title":{"rendered":"Confecom: um marco para a democracia no Brasil"},"content":{"rendered":"<p>   \t \t \t \t \t<!-- \t\t@page { margin: 2cm } \t\tP { margin-bottom: 0.21cm } \t--> \t  <\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0cm\" class=\"padrao\">Desde a promulga&ccedil;&atilde;o da Constitui&ccedil;&atilde;o Federal, as pol&iacute;ticas p&uacute;blicas de comunica&ccedil;&atilde;o no Brasil viveram alguns momentos cruciais. Em 1995, foi publicada a Lei do Cabo (Lei 8.977\/95), em 1997 foi institu&iacute;da a Lei Geral de Telecomunica&ccedil;&otilde;es (Lei 9.472\/97), seguida da privatiza&ccedil;&atilde;o do sistema Telebr&aacute;s. Em 1998, &eacute; publicada a restritiva Lei de Radiodifus&atilde;o Comunit&aacute;ria (Lei 9.612\/98) e em 2002 &eacute; viabilizada a entrada de 30% do capital estrangeiro nas empresas de r&aacute;dio e televis&atilde;o, por meio de uma Emenda Constitucional. Em 2006, &eacute; publicado o Decreto 5.820\/06 que estabeleceu as regras para TV Digital e, em 2008, &eacute; institu&iacute;da por lei a Empresa Brasil de Comunica&ccedil;&atilde;o &#8211; EBC (Lei 11.652\/08). Na grande maioria dos casos, a sociedade civil foi apenas coadjuvante do processo. Pol&iacute;ticas de comunica&ccedil;&atilde;o sempre foram compreendidas como assunto do governo e de quem tem interesse econ&ocirc;mico direto, isto &eacute;, os empres&aacute;rios do setor. N&atilde;o por acaso, o resultado da maioria dos casos foi a preval&ecirc;ncia dos interesses privados em detrimento do interesse p&uacute;blico &ndash; exce&ccedil;&otilde;es serviram apenas para confirmar a regra.<\/p>\n<p>Em 2009, aconteceu a I Confer&ecirc;ncia Nacional de Comunica&ccedil;&atilde;o. Diferente dos outros momentos da hist&oacute;ria recente do pa&iacute;s, ela inaugurou um debate amplo e verdadeiramente p&uacute;blico sobre as pol&iacute;ticas do setor. Pela primeira vez, o Estado brasileiro instituiu um mecanismo formal de consulta &agrave; toda sociedade sobre os rumos que deve tomar a comunica&ccedil;&atilde;o. Pela primeira vez, deixou de ser prerrogativa de alguns especialistas do campo progressista e, principalmente, de lobistas do setor privado e seus representantes no poder p&uacute;blico a possibilidade de apontar quais devem ser as a&ccedil;&otilde;es governamentais e o novo marco regulat&oacute;rio de uma &aacute;rea estrat&eacute;gica para o desenvolvimento social e fundamental para a democracia brasileira.<\/p>\n<p>As etapas preparat&oacute;rias e oficiais da Confer&ecirc;ncia, realizada nas 27 unidades da federa&ccedil;&atilde;o, envolveram diretamente cerca de 30 mil pessoas dos mais diversos segmentos. Centrais sindicais, movimento de mulheres, movimento negro, redes de jovens, crian&ccedil;as e adolescentes, pessoas com defici&ecirc;ncia, pesquisadores, movimento de l&eacute;sbicas, gays, e transexuais, movimento estudantil e empres&aacute;rios debateram temas como o sistema p&uacute;blico de comunica&ccedil;&atilde;o, as concess&otilde;es de r&aacute;dio e TV, universaliza&ccedil;&atilde;o da banda larga, o controle social, entre centenas de outros temas at&eacute; ent&atilde;o restritos aos espa&ccedil;os dos &ldquo;entendidos&rdquo; ou &ldquo;diretamente interessados&rdquo; no assunto. O lastro deixado pelo processo certamente inaugura um novo momento do movimento pela democratiza&ccedil;&atilde;o da comunica&ccedil;&atilde;o no pa&iacute;s, que passa a contar, de forma bastante org&acirc;nica, com novos e importantes atores para a luta.<\/p>\n<p><strong>Defesa da democracia<\/strong> <\/p>\n<p>Outro marco da Confecom foi ter apontado resolu&ccedil;&otilde;es que modificam substancialmente o modelo de comunica&ccedil;&atilde;o hoje adotado no pa&iacute;s. As quase 700 propostas aprovadas (cerca de 600 delas por consenso ou com mais de 80% de votos favor&aacute;veis) revelam a qualidade dos debates feitos pelo conjunto dos setores e, principalmente, a necessidade urgente de se atualizar o marco regulat&oacute;rio tendo como princ&iacute;pios fundamentais o direito &agrave; comunica&ccedil;&atilde;o, a participa&ccedil;&atilde;o social e o respeito e est&iacute;mulo &agrave; diversidade. Foram apreciadas e aprovadas propostas sobre os mais diversos temas, entre as quais se destacam:<\/p>\n<ul>\n<li>\n<p class=\"padrao\">a afirma&ccedil;&atilde;o da comunica&ccedil;&atilde;o como direito humano, e o pleito para que esse direito seja inclu&iacute;do na Constitui&ccedil;&atilde;o Federal ;<\/p>\n<\/li>\n<li>\n<p class=\"padrao\">a cria&ccedil;&atilde;o de um Conselho Nacional de Comunica&ccedil;&atilde;o que possa ter car&aacute;ter de formula&ccedil;&atilde;o e monitoramento de pol&iacute;ticas p&uacute;blicas ;<\/p>\n<\/li>\n<li>\n<p class=\"padrao\">o combate &agrave; concentra&ccedil;&atilde;o no setor, com a determina&ccedil;&atilde;o de limites &agrave; propriedade horizontal, vertical e cruzada ;<\/p>\n<\/li>\n<li>\n<p class=\"padrao\">a garantia de espa&ccedil;o para produ&ccedil;&atilde;o regional e independente;<\/p>\n<\/li>\n<li>\n<p class=\"padrao\">a regulamenta&ccedil;&atilde;o dos sistemas p&uacute;blico, privado e estatal de comunica&ccedil;&atilde;o, que s&atilde;o citados na Constitui&ccedil;&atilde;o Federal mas carecem de defini&ccedil;&atilde;o legal, com reserva de espa&ccedil;o no espectro para cada um destes ;<\/p>\n<\/li>\n<li>\n<p class=\"padrao\">o fortalecimento do financiamento do sistema p&uacute;blico de comunica&ccedil;&atilde;o, inclusive por meio de cobran&ccedil;a de contribui&ccedil;&atilde;o sobre o faturamento comercial das emissoras privadas ;<\/p>\n<\/li>\n<li>\n<p class=\"padrao\">a descriminaliza&ccedil;&atilde;o da radiodifus&atilde;o comunit&aacute;ria e a abertura de mais espa&ccedil;o para esse tipo de servi&ccedil;o, hoje confinado a 1\/40 avos do espectro ;<\/p>\n<\/li>\n<li>\n<p class=\"padrao\">a defini&ccedil;&atilde;o de regras mais democr&aacute;ticas e transparentes para concess&otilde;es e renova&ccedil;&otilde;es de outorgas, visando &agrave; amplia&ccedil;&atilde;o da pluralidade e diversidade de conte&uacute;do ;<\/p>\n<\/li>\n<li>\n<p class=\"padrao\">a defini&ccedil;&atilde;o do acesso &agrave; internet banda larga como direito fundamental e o estabelecimento desse servi&ccedil;o em regime p&uacute;blico, que garantiria sua universaliza&ccedil;&atilde; o, continuidade e controle de pre&ccedil;os ;<\/p>\n<\/li>\n<li>\n<p class=\"padrao\">a implementa&ccedil;&atilde;o de instrumentos para avaliar e combater viola&ccedil;&otilde;es de direitos humanos nas comunica&ccedil;&otilde;es ;<\/p>\n<\/li>\n<li>\n<p class=\"padrao\">o combate &agrave; discrimina&ccedil;&atilde;o de g&ecirc;nero, orienta&ccedil;&atilde;o sexual, etnia, ra&ccedil;a, gera&ccedil;&atilde;o e de credo religioso nos meios de comunica&ccedil;&atilde;o ;<\/p>\n<\/li>\n<li>\n<p class=\"padrao\">a garantia da laicidade na explora&ccedil;&atilde;o dos servi&ccedil;os de radiodifus&atilde;o ;<\/p>\n<\/li>\n<li>\n<p class=\"padrao\">a proibi&ccedil;&atilde;o de outorgas para pol&iacute;ticos em exerc&iacute;cio de mandato eletivo.<\/p>\n<\/li>\n<\/ul>\n<p style=\"margin-bottom: 0cm\" class=\"padrao\"><strong>Garantias e privil&eacute;gios para os empres&aacute;rios<\/strong><\/p>\n<p>N&atilde;o foi f&aacute;cil garantir que a Confer&ecirc;ncia acontecesse. Desde antes da publica&ccedil;&atilde;o do decreto que anunciou a realiza&ccedil;&atilde;o do evento, o setor empresarial imp&ocirc;s uma s&eacute;rie de condi&ccedil;&otilde;es para sua participa&ccedil;&atilde;o, desconfigurando o processo de participa&ccedil;&atilde;o popular j&aacute; estabelecido em mais de 100 confer&ecirc;ncias realizadas no pa&iacute;s. Entre os principais problemas est&atilde;o o estabelecimento de uma propor&ccedil;&atilde;o desequilibrada na representa&ccedil;&atilde;o dos segmentos &ndash; os empres&aacute;rios abocanharam 40% das vagas de delegados; o estabelecimento da regra de qu&oacute;rum qualificado para a vota&ccedil;&atilde;o dos chamados &quot;temas sens&iacute;veis&quot;; e a proibi&ccedil;&atilde;o de vota&ccedil;&atilde;o das propostas nas etapas estaduais, o que retirou parte do peso pol&iacute;tico dos processos estaduais e deixou as verdadeiras disputas para a etapa nacional. E mesmo com tantas &ldquo;garantias&rdquo;, seis das oito entidades empresariais abandonaram a Comiss&atilde;o Organizadora Nacional. Essas mesmas entidades, por meio dos ve&iacute;culos de comunica&ccedil;&atilde;o que elas representam, acusaram a Confecom de ser um espa&ccedil;o autorit&aacute;rio e antidemocr&aacute;tico.<\/p>\n<p>As imposi&ccedil;&otilde;es dos empres&aacute;rios tamb&eacute;m impactaram o conjunto dos movimentos sociais, a ponto de constranger organiza&ccedil;&otilde;es a tomarem determinadas posi&ccedil;&otilde;es sob a suposta amea&ccedil;a da Confecom n&atilde;o acontecer ou n&atilde;o contar com a participa&ccedil;&atilde;o empresarial. Diferentes entendimentos sobre a natureza da Confer&ecirc;ncia refletiram-se em vis&otilde;es distintas sobre como conduzir a interlocu&ccedil;&atilde;o com o governo e os empres&aacute;rios. Prevaleceu a id&eacute;ia da &quot;Confer&ecirc;ncia poss&iacute;vel&quot;, realizada dentro dos limites dados pela press&atilde;o empresarial e governamental, o que significou, por vezes, ignorar uma parte importante dos setores mobilizados historicamente pela realiza&ccedil;&atilde;o da Confer&ecirc;ncia. Apesar disso, a Confecom colocou a comunica&ccedil;&atilde;o em debate p&uacute;blico e aprovou resolu&ccedil;&otilde;es importes para a constru&ccedil;&atilde;o de novas bases para a comunica&ccedil;&atilde;o no pa&iacute;s. <\/p>\n<p><strong>Hora de avan&ccedil;ar numa agenda comum<\/strong><\/p>\n<p>Transformar as propostas em proposi&ccedil;&otilde;es legislativas e pol&iacute;ticas p&uacute;blicas n&atilde;o ser&aacute; f&aacute;cil. &Eacute; tarefa urgente dos movimentos sociais e organiza&ccedil;&otilde;es da sociedade civil criar uma agenda comum para a implementa&ccedil;&atilde;o dos seus resultados, cobrando dos Poderes Executivo e Legislativo a responsabilidade de acolher as recomenda&ccedil;&otilde;es dos delegados da Confecom, pactuadas entre o setor empresarial o conjunto dos movimentos sociais e o poder p&uacute;blico.<\/p>\n<p>Tamb&eacute;m &eacute; fundamental organizar as prioridades e estebelecer um di&aacute;logo incisivo com os candidatos ao Legislativo e Executivo, tanto no &acirc;mbito federal quanto estadual. Os Conselhos Nacional e Estaduais de Comunica&ccedil;&atilde;o s&atilde;o demandas que podem ser implementadas ainda em 2010, como &eacute; o caso dos Conselhos Estaduais do Piau&iacute;, Paran&aacute; e Bahia, consequ&ecirc;ncia direta das etapas estaduais, que se encontram em est&aacute;gio avan&ccedil;ado de efetiva&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Outro desafio &eacute; consolidar o processo de mobiliza&ccedil;&atilde;o da sociedade civil em saldo organizativo para o movimento de comunica&ccedil;&atilde;o em todo o pa&iacute;s. A hora &eacute; de retomar as articula&ccedil;&otilde;es nacional e estaduais para construir uma agenda comum de prioridades, a&ccedil;&otilde;es e mobiliza&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p>As organiza&ccedil;&otilde;es da sociedade civil tiveram que dispor muita energia em 2009 para que a Confer&ecirc;ncia fosse realizada em todas as suas etapas. Se quiserem ver a implementa&ccedil;&atilde;o das resolu&ccedil;&otilde;es aprovadas, ter&atilde;o que jogar no m&iacute;nimo a mesma energia nestas movimenta&ccedil;&otilde;es p&oacute;s-Confer&ecirc;ncia. Conquistas reais s&oacute; ocorrer&atilde;o com um processo de luta permanente. E este &eacute; s&oacute; o come&ccedil;o.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Lastro deixado pelo processo inaugura novo momento do movimento pela democratiza&ccedil;&atilde;o da comunica&ccedil;&atilde;o<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[42],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/24356"}],"collection":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=24356"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/24356\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=24356"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=24356"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=24356"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}