{"id":24319,"date":"2010-04-30T15:26:04","date_gmt":"2010-04-30T15:26:04","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=24319"},"modified":"2010-04-30T15:26:04","modified_gmt":"2010-04-30T15:26:04","slug":"para-que-o-povo-tenha-a-palavra","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=24319","title":{"rendered":"Para que o povo tenha a palavra"},"content":{"rendered":"<p>   \t \t \t \t \t<!-- \t\t@page { margin: 2cm } \t\tP { margin-bottom: 0.21cm } \t--> \t  <\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0cm\" class=\"padrao\"><em>Aula inaugural dos cursos jur&iacute;dicos do ano letivo de 2010 da Faculdade de Direito da Universidade Federal do Paran&aacute;, Curitiba, 1\/3\/2010<br \/><\/em><br \/>Toda sociedade ou associa&ccedil;&atilde;o est&aacute;vel organiza-se em fun&ccedil;&atilde;o do poder, que &eacute; a capacidade atribu&iacute;da aos dirigentes de impor suas decis&otilde;es, com base em princ&iacute;pios fundamentais, consensualmente aceitos.<\/p>\n<p>Na sociedade pol&iacute;tica, que engloba todas as demais, essa aptid&atilde;o a impor decis&otilde;es funda-se, em &uacute;ltima inst&acirc;ncia, na disponibilidade da for&ccedil;a p&uacute;blica, isto &eacute;, da organiza&ccedil;&atilde;o dos meios de coer&ccedil;&atilde;o, postos oficialmente &agrave; disposi&ccedil;&atilde;o dos governantes. Mas ela sup&otilde;e, normalmente, uma obedi&ecirc;ncia volunt&aacute;ria dos governados, obedi&ecirc;ncia essa que se apoia, em &uacute;ltima an&aacute;lise, no reconhecimento da legitimidade do poder; ou seja, na convic&ccedil;&atilde;o geral de que ele &eacute; justo e necess&aacute;rio.<\/p>\n<p>Com efeito, em uma sociedade cujo poder organizador &eacute; tido como injusto pela maioria dos sujeitos, os dirigentes s&atilde;o obrigados, para se fazerem obedecer, a recorrer sistematicamente &agrave; for&ccedil;a. &Eacute; uma situa&ccedil;&atilde;o anormal, que n&atilde;o pode subsistir por muito tempo.<\/p>\n<p>Para manter inabalada a obedi&ecirc;ncia volunt&aacute;ria dos governados, por conseguinte, importa sempre zelar pelo reconhecimento geral da legitimidade, quer do sistema de poder em geral, quer da pessoa de seus detentores em particular.<\/p>\n<p><strong>A justi&ccedil;a penal<\/strong><\/p>\n<p>Ora, esse ju&iacute;zo de legitimidade do poder nunca &eacute; feito intelectualmente, de modo abstrato, mas sempre concretamente, em fun&ccedil;&atilde;o das prefer&ecirc;ncias valorativas, dos sentimentos, das cren&ccedil;as e opini&otilde;es, que formam o que hoje se denomina a mentalidade social.<\/p>\n<p>As sociedades do passado eram compostas de grupos sociais distintos e heterog&ecirc;neos, at&eacute; mesmo quanto ao seu estatuto jur&iacute;dico.<\/p>\n<p>Em Portugal, as Ordena&ccedil;&otilde;es Afonsinas (I, 63, pr.) adotaram a triparti&ccedil;&atilde;o estamental pr&oacute;pria da Idade M&eacute;dia. Havia, assim, &quot;os que rogam pelo povo&quot;, chamados por isso &quot;oradores&quot;; os que lavram a terra, &quot;per que os homens ham de viver, e se mantem, som ditos mantenedores&quot;; e &quot;os que ham de defender som chamados defensores&quot;. Cada um desses estamentos era dotado de direitos e deveres pr&oacute;prios. Como se v&ecirc;, os comerciantes, que j&aacute; ao final da Idade M&eacute;dia constitu&iacute;am a uma forte classe montante e alguns s&eacute;culos depois a classe dominante, estavam exclu&iacute;dos dessa triparti&ccedil;&atilde;o estamental da sociedade.<\/p>\n<p>A partir das Ordena&ccedil;&otilde;es Manuelinas, a sociedade portuguesa passou a conhecer uma multiplicidade de ordens ou estados privilegiados: universit&aacute;rios, m&eacute;dicos, cirurgi&otilde;es, botic&aacute;rios, pintores, gram&aacute;ticos e literatos, m&uacute;sicos, ge&ocirc;metras e astr&ocirc;nomos. Os privil&eacute;gios variavam de estamento a estamento. O privil&eacute;gio mais prezado e cobi&ccedil;ado era referente &agrave; justi&ccedil;a penal. Nas Ordena&ccedil;&otilde;es Filipinas (V, 133), por exemplo, os doutores em c&acirc;nones, em leis e em medicina n&atilde;o podiam ser &quot;mandados meter a tormento&quot;; isto &eacute;, n&atilde;o eram submetidos &agrave; tortura, salvo nos casos de crime de lesa-majestade, aleivosia, falsidades, moeda falsa, testemunho falso, feiti&ccedil;aria, sodomia, alcovitaria e furto.<\/p>\n<p><strong>A expans&atilde;o do sistema capitalista<\/strong><\/p>\n<p>Sem d&uacute;vida, cada uma dessas ordens ou corpora&ccedil;&otilde;es desenvolvia o seu pr&oacute;prio <em>esprit de corps<\/em>. Mas todas elas partilhavam em comum uma mesma mentalidade ou vis&atilde;o de mundo, de &iacute;ndole tradicional e religiosa.<\/p>\n<p>A partir das revolu&ccedil;&otilde;es do s&eacute;culo 18 &ndash; a industrial e as duas pol&iacute;ticas, a norte-americana e a francesa &ndash; bem como da expans&atilde;o mundial do capitalismo, esse panorama mudou radicalmente. Surgiu algo sem precedentes na Hist&oacute;ria, qual seja a forma&ccedil;&atilde;o das primeiras sociedades de massas. Nelas, as diferen&ccedil;as estamentais foram suprimidas, e as classes sociais, embora afastadas entre si pela crescente desigualdade de n&iacute;veis de vida, tenderam a fundir-se em uma massa homog&ecirc;nea sob o aspecto cultural, com o abandono dos costumes tradicionais e o enfraquecimento da f&eacute; religiosa.<\/p>\n<p>Assentou-se aos poucos um modo de vida voltado para o progresso material, com a inocula&ccedil;&atilde;o daquilo que Max Weber, em ensaio c&eacute;lebre, denominou o &quot;esp&iacute;rito do capitalismo&quot;. Ele se funda na preocupa&ccedil;&atilde;o exclusiva com os interesses pr&oacute;prios e no descaso com a coisa p&uacute;blica, isto &eacute;, o bem comum do povo. Segundo a justificativa apresentada por Adam Smith [Da Riqueza das Na&ccedil;&otilde;es, livro I, cap. II], at&eacute; hoje largamente utilizada pelos pr&oacute;ceres do capitalismo e seus &quot;intelectuais org&acirc;nicos&quot;, no sentido gramsciano, a busca racional do pr&oacute;prio interesse acaba por realizar, involunt&aacute;ria, mas necessariamente, o interesse coletivo.<\/p>\n<p>Os forjadores dessa mentalidade de ego&iacute;smo racional &ndash; repito, sem precedentes na Hist&oacute;ria &ndash; foram os empres&aacute;rios industriais modernos. Eles atuaram com um objetivo bem definido: legitimar a instaura&ccedil;&atilde;o do capitalismo, n&atilde;o apenas como sistema econ&ocirc;mico, mas tamb&eacute;m como modo global de vida em sociedade, no qual tudo &ndash; a pol&iacute;tica, a religi&atilde;o, a fam&iacute;lia, a escola, as for&ccedil;as armadas &ndash; deve subordinar-se ao princ&iacute;pio da utilidade econ&ocirc;mica.<\/p>\n<p>Com a instaura&ccedil;&atilde;o mundial do sistema de produ&ccedil;&atilde;o em s&eacute;rie e de padroniza&ccedil;&atilde;o do consumo, criaram-se rapidamente (ou seja, em menos de dois s&eacute;culos) modos de vida homog&ecirc;neos em todos os quadrantes da Terra. Em obra publicada em 2004 [<em>The Birth of the Modern World 1780 &ndash; 1914<\/em>], C. A. Baily tra&ccedil;a um panorama impressionante da uniformidade mundial de vestu&aacute;rio, alimenta&ccedil;&atilde;o, registros hor&aacute;rios, estrutura lingu&iacute;stica, atribui&ccedil;&atilde;o de prenomes &agrave;s pessoas, pr&aacute;ticas de esporte e lazer, a partir do s&eacute;culo 19, como efeito da expans&atilde;o sem fronteiras do sistema capitalista. Toda essa camada cultural uniforme, contudo, passou a recobrir, ainda por efeito da expans&atilde;o mundial do capitalismo, uma desigualdade cada vez mais pronunciada de n&iacute;veis de vida, n&atilde;o apenas dentro do mesmo pa&iacute;s, mas tamb&eacute;m entre pa&iacute;ses desenvolvidos e subdesenvolvidos.<\/p>\n<p><strong>Efeitos de democratiza&ccedil;&atilde;o do avan&ccedil;o tecnol&oacute;gico<\/strong><\/p>\n<p>Nas sociedades de massas assim criadas, al&eacute;m do contato tradicional de pessoa a pessoa, criou-se um relacionamento impessoal e coletivo, mediante o envio de mensagens homog&ecirc;neas a destinat&aacute;rios an&ocirc;nimos, para consumo em bloco e sem possibilidade de di&aacute;logo. &Eacute; o que se denominou, segundo a express&atilde;o anglo-sax&ocirc;nica de origem, <em>mass media communication<\/em>; ou seja, um sistema englobando a grande imprensa, o cinema, o r&aacute;dio e a televis&atilde;o.<\/p>\n<p>Acontece que o voc&aacute;bulo comunica&ccedil;&atilde;o sofre, no caso, not&aacute;vel varia&ccedil;&atilde;o sem&acirc;ntica. Na l&iacute;ngua matriz, <em>communicatio <\/em>e o verbo cognato <em>communico<\/em>, <em>-are<\/em>, significam p&ocirc;r ou ter em comum, receber em comum, ou entrar em rela&ccedil;&otilde;es pessoais com algu&eacute;m.<\/p>\n<p>Ora, no campo da <em>mass media communication<\/em>, a verdadeira comunica&ccedil;&atilde;o foi exclu&iacute;da. A partir de determinados centros emitentes, cada vez menos numerosos, mensagens coletivas s&atilde;o enviadas impessoalmente a consumidores, que se comportam como recipientes puramente passivos.<\/p>\n<p>Em suma, instaurou-se nesse campo o mesmo sistema aplicado pelo capitalismo industrial com pleno &ecirc;xito, no mundo todo: produ&ccedil;&atilde;o em s&eacute;rie e consumo padronizado.<\/p>\n<p>Sem d&uacute;vida, a inven&ccedil;&atilde;o da internet, agora interligada aos meios de comunica&ccedil;&atilde;o m&oacute;veis, como telefones celulares, iPjosdireitoaco e MP3, veio alterar o esquema original de comunica&ccedil;&atilde;o de massa, ao criar um ambiente de di&aacute;logo coletivo a envolver um n&uacute;mero crescente de pessoas, no mundo todo. Mas n&atilde;o extrapolemos inconsideradamente os efeitos de democratiza&ccedil;&atilde;o que esse avan&ccedil;o tecnol&oacute;gico ir&aacute; produzir. Lembremo-nos de que o p&uacute;blico usu&aacute;rio desses engenhos eletr&ocirc;nicos pertence &agrave; minoria do estrato econ&ocirc;mico superior da sociedade. Em um pa&iacute;s como o Brasil, onde 95% da popula&ccedil;&atilde;o disp&otilde;em de uma renda m&eacute;dia mensal inferior a 800 reais, a grande massa continuar&aacute; presa ao r&aacute;dio e &agrave; televis&atilde;o.<\/p>\n<p><strong>A garantia dos direitos individuais<\/strong><\/p>\n<p>Para que se compreenda bem a not&aacute;vel transforma&ccedil;&atilde;o social ocorrida com a introdu&ccedil;&atilde;o dos meios de comunica&ccedil;&atilde;o de massa, &eacute; importante verificar a evolu&ccedil;&atilde;o da imprensa peri&oacute;dica a partir do in&iacute;cio do s&eacute;culo 19. A esse respeito, o testemunho de Alexis de Tocqueville, que morou nove meses nos Estados Unidos no in&iacute;cio da d&eacute;cada de 30 daquele s&eacute;culo, merece ser lembrado.<\/p>\n<p>Ao comparar as caracter&iacute;sticas fundamentais da sociedade norte-americana em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; sociedade europ&eacute;ia ocidental, ele apontou a multiplicidade de jornais locais, ent&atilde;o existentes nos Estados Unidos. &quot;N&atilde;o h&aacute; quase nenhuma aldeia que n&atilde;o tenha o seu jornal&quot;, observou ele [<em>De la D&eacute;mocratie en Am&eacute;rique<\/em>, t. I, segunda parte, cap. III]. Contrariamente ao que ocorria nos pa&iacute;ses europeus, na Am&eacute;rica do Norte n&atilde;o se exigia nenhuma licen&ccedil;a oficial para a cria&ccedil;&atilde;o de um peri&oacute;dico; e bastava reunir um pequeno n&uacute;mero de assinantes, para que um s&oacute; jornalista editasse o seu pr&oacute;prio jornal.<\/p>\n<p>Tocqueville acrescentou que, para os americanos mais esclarecidos, a raz&atilde;o da fraqueza da imprensa, nos Estados Unidos, residia exatamente nessa incr&iacute;vel dissemina&ccedil;&atilde;o dos jornais. &quot;Constitui um axioma da ci&ecirc;ncia pol&iacute;tica, nos Estados Unidos&quot;, observou ele, &quot;que a &uacute;nica maneira de neutralizar os efeitos dos jornais &eacute; multiplicar o seu n&uacute;mero.&quot;<\/p>\n<p>J&aacute; no segundo volume dessa mesma obra [idem, t. II, quarta parte, cap. VII], publicado dez anos depois do primeiro, Tocqueville n&atilde;o hesitou em dizer que a liberdade de imprensa constitui o modo mais seguro de se garantirem os direitos individuais, nas sociedades democr&aacute;ticas. &quot;Nos nossos dias&quot;, afirmou ele segundo o estilo grandiloquente da &eacute;poca, &quot;o cidad&atilde;o oprimido possui um s&oacute; meio de defesa: dirigir-se a toda a na&ccedil;&atilde;o e, se esta n&atilde;o o ouve, ao g&ecirc;nero humano.&quot; E isto, concluiu, s&oacute; pode ser feito por meio da imprensa livre.<\/p>\n<p><strong>Concentra&ccedil;&atilde;o no mercado de comunica&ccedil;&atilde;o<\/strong><\/p>\n<p>Menos de um s&eacute;culo depois que essas linhas foram escritas, por&eacute;m, operava-se nesse setor uma revolu&ccedil;&atilde;o de 180 graus. Percebeu-se simultaneamente, em todos os quadrantes do globo, que a jun&ccedil;&atilde;o da imprensa com o cinema, e em seguida com o r&aacute;dio e a televis&atilde;o, constitu&iacute;a o meio mais eficaz de se forjarem mentalidades novas e de se modificarem os costumes ancestrais, no sentido de levar as multid&otilde;es a obedecer cegamente, sen&atilde;o de modo entusi&aacute;stico, &agrave;s orienta&ccedil;&otilde;es veiculadas por esses canais de difus&atilde;o unilateral de mensagens.<\/p>\n<p>Na Uni&atilde;o Sovi&eacute;tica e seus sat&eacute;lites, assim como na Alemanha nazista e demais Estados fascistas, todos os meios de comunica&ccedil;&atilde;o de massa foram concentrados em m&atilde;os das autoridades pol&iacute;ticas, para atuar na propaganda do regime. Essa organiza&ccedil;&atilde;o autorit&aacute;ria persiste ainda hoje em alguns pa&iacute;ses, como a China, o Ir&atilde; e Cuba.<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo, nas na&ccedil;&otilde;es do chamado &quot;mundo livre&quot;, sob a batuta de grandes empres&aacute;rios capitalistas, iniciou-se um vigoroso movimento de r&aacute;pida concentra&ccedil;&atilde;o do controle privado de jornais, emissoras de r&aacute;dio e canais de televis&atilde;o. Nos Estados Unidos, a press&atilde;o neoliberal logrou revogar em 1996 a lei de 1934, que estabelecia limites na concentra&ccedil;&atilde;o de controle empresarial desses ve&iacute;culos. No mesmo sentido, em 2003 a <em>Federal Communications Commission <\/em>eliminou as proibi&ccedil;&otilde;es ent&atilde;o existentes para a participa&ccedil;&atilde;o cruzada no capital das empresas do setor. O resultado n&atilde;o se fez esperar: enquanto em 1983 havia no mercado de comunica&ccedil;&atilde;o de massa 50 empresas de m&eacute;dio porte, hoje este &eacute; dominado por apenas cinco macroempresas [S&atilde;o elas: Time Warner, Viacom, Vivendi Universal, Walt Disney e News Corp.]<\/p>\n<p><strong>Portas fechadas<\/strong><\/p>\n<p>No Brasil, assistimos ao mesmo fen&ocirc;meno. Quatro grandes redes dominam todo o mercado nacional de televis&atilde;o: a Globo controla 342 empresas; a SBT, 195; a Bandeirantes, 166; e a Record, 142.<\/p>\n<p>Com essa formid&aacute;vel concentra&ccedil;&atilde;o de controle empresarial, operou-se uma modifica&ccedil;&atilde;o de monta no grau de influ&ecirc;ncia dos meios de comunica&ccedil;&atilde;o de massa, sobre a sociedade em seu conjunto.<\/p>\n<p>Como salientei, quando Tocqueville visitou a Am&eacute;rica do Norte na primeira metade do s&eacute;culo 19, quase todos os munic&iacute;pios americanos tinham o seu peri&oacute;dico local, e cada um desses pequenos jornais divulgava not&iacute;cias e coment&aacute;rios &agrave; sua maneira. Hoje, a grande maioria dos peri&oacute;dicos locais desapareceu, e os poucos jornais restantes de ampla difus&atilde;o quase n&atilde;o se distinguem entre si.<\/p>\n<p>Por outro lado, as emiss&otilde;es de televis&atilde;o e de r&aacute;dio s&atilde;o hoje captadas nos Estados Unidos, respectivamente, por 98,3% e 99% das moradias. Tirante algumas diferen&ccedil;as de estilo sem maior import&acirc;ncia, a escolha das not&iacute;cias e o teor dos coment&aacute;rios difundidos por essas emissoras obedecem ao mesmo denominador comum: a defesa dos valores tradicionais da sociedade norte-americana, como a garantia das liberdades individuais, a intangibilidade da propriedade privada, a redu&ccedil;&atilde;o das atividades do Estado ao m&iacute;nimo indispens&aacute;vel e o nacionalismo dominador nas rela&ccedil;&otilde;es internacionais.<\/p>\n<p>Quem quiser se manifestar contra essas posi&ccedil;&otilde;es dogm&aacute;ticas, ao contr&aacute;rio do que sucedia no tempo de Tocqueville, encontrar&aacute; fechadas todas as portas dos <em>mass media communication.<\/em><\/p>\n<p><strong>Patr&otilde;es da comunica&ccedil;&atilde;o dominam as almas<\/strong><\/p>\n<p>Pode-se dizer que um cen&aacute;rio an&aacute;logo existe no Brasil h&aacute; pelo menos meio s&eacute;culo, com a cria&ccedil;&atilde;o de um poderoso oligop&oacute;lio empresarial de imprensa, r&aacute;dio e televis&atilde;o.<\/p>\n<p>Em pesquisa realizada em 2008, verificou-se que o consumo m&eacute;dio di&aacute;rio da televis&atilde;o aberta, entre n&oacute;s, &eacute; de quatro horas e quarenta e dois minutos por pessoa. Observou-se, ali&aacute;s, que nos &uacute;ltimos sete anos o brasileiro tem passado quase 30 minutos a mais por dia em frente ao aparelho de televis&atilde;o. Quanto ao r&aacute;dio, estima-se que 80% da nossa popula&ccedil;&atilde;o ouvem as suas emiss&otilde;es pelo menos 15 minutos por dia.<\/p>\n<p>Ora, esse consumo radiof&ocirc;nico e televisivo em massa &eacute; feito de maneira acentuadamente acr&iacute;tica. Em pesquisa de opini&atilde;o p&uacute;blica realizada a esse respeito em 2009 no Brasil, nada menos que 83% dos entrevistados declararam confiar nos jornais, na televis&atilde;o e no r&aacute;dio; contra apenas 17%, que reconheceram n&atilde;o ter neles confian&ccedil;a alguma ou quase nenhuma.<\/p>\n<p>Na verdade, o nosso oligop&oacute;lio privado de meios de comunica&ccedil;&atilde;o de massa n&atilde;o surgiu espontaneamente, mas foi montado com o apoio direto das autoridades pol&iacute;ticas, durante o regime militar. Tratava-se, de um lado, de demonstrar que o Estado autorit&aacute;rio, instaurado com o golpe de 1964, garantia a democracia, salvando-nos do terror comunista. Cuidava-se, de outro lado, de difundir em todas as programa&ccedil;&otilde;es o consumismo de massa, em benef&iacute;cio da expans&atilde;o capitalista.<\/p>\n<p>Com isto, refor&ccedil;ou-se sobremaneira, no seio do povo, a tradicional mentalidade passiva e conformista, indiferente &agrave; pol&iacute;tica, considerada pelo vulgo como um jogo reservado exclusivamente &agrave;queles que, na linguagem saborosa de Cam&otilde;es, nasceram n&atilde;o para mandados, mas para mandar.<\/p>\n<p>Como se percebe, o que Tocqueville estimara ser o melhor, sen&atilde;o o &uacute;nico meio de garantia dos direitos individuais contra o Estado, transformou-se, nos dias atuais, em novo poder pol&iacute;tico de natureza privada, capaz de ombrear-se com os &oacute;rg&atilde;os p&uacute;blicos, ou de servir de principal instrumento de propaganda de regimes autorit&aacute;rios. Nos pa&iacute;ses que se declaram paladinos da liberdade de express&atilde;o, estabeleceu-se, a esse respeito, uma partilha de compet&ecirc;ncias: enquanto as autoridades estatais subjugam os corpos, os patr&otilde;es da comunica&ccedil;&atilde;o social, &agrave; semelhan&ccedil;a dos chefes religiosos, dominam as almas.<\/p>\n<p><strong>Mandante precisa da permiss&atilde;o do mandat&aacute;rio<\/strong><\/p>\n<p>A nossa Constitui&ccedil;&atilde;o, em seu art. 220, proclama livres &quot;a manifesta&ccedil;&atilde;o do pensamento, a cria&ccedil;&atilde;o, a express&atilde;o e a informa&ccedil;&atilde;o, sob qualquer forma, processo ou ve&iacute;culo&quot;. Mas no campo da grande imprensa, dos servi&ccedil;os de radiodifus&atilde;o sonora e de sons e imagens, essa liberdade s&oacute; existe para os controladores das respectivas empresas.<\/p>\n<p>Curiosamente, ao final do segundo volume de <em>De la D&eacute;mocratie en Am&eacute;rique<\/em> [Quarta parte, cap. VI], Tocqueville conjecturou sobre a possibilidade de surgir um novo despotismo nos tempos modernos, diverso daquele que se imp&ocirc;s nas sociedades antigas. &quot;Ao que parece&quot;, escreveu ele, &quot;se o despotismo vier a se instalar nas na&ccedil;&otilde;es democr&aacute;ticas dos nossos dias, ele apresentaria outras caracter&iacute;sticas: seria mais extenso e mais ameno, e degradaria os homens sem os atormentar.&quot; Acrescentou que ele assemelhar-se-ia ao p&aacute;trio poder, se tivesse por objeto preparar os homens para a vida adulta. Mas o que ele busca, na verdade, &eacute; fix&aacute;-los irrevogavelmente em um estado de perp&eacute;tua menoridade, de modo que os atos mais importantes da vida de cada um devam ser praticados sob a supervis&atilde;o dessa autoridade tutelar.<\/p>\n<p>N&atilde;o tenho d&uacute;vidas em afirmar que esse regime de despotismo apraz&iacute;vel existe entre n&oacute;s, e se apresenta como um sistema de dupla face: sob a moderna fachada democr&aacute;tica, exposta na Constitui&ccedil;&atilde;o e louvada na imprensa, no r&aacute;dio e na televis&atilde;o, continua a vigorar a oligarquia tradicional. O povo somente &eacute; admitido &agrave; cena pol&iacute;tica no momento das elei&ccedil;&otilde;es. Mas estas, em lugar de representarem o exerc&iacute;cio normal da soberania popular, ocultam na verdade a sua aliena&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Dois exemplos bastam para ilustrar a estrutura d&uacute;plice do nosso regime pol&iacute;tico.<\/p>\n<p>Ao forjar no s&eacute;culo 16 o conceito moderno de soberania como poder absoluto e perp&eacute;tuo, Jean Bodin enfatizou que &quot;o ponto principal da majestade soberana e do poder absoluto consiste em dar lei aos s&uacute;ditos em geral, sem o seu consentimento&quot; [<em>Les Six Livres de la R&eacute;publique<\/em>, edi&ccedil;&atilde;o original de 1583, Livro I, cap&iacute;tulos VIII e X]. Pois bem, &eacute; esse o privil&eacute;gio reconhecido, entre n&oacute;s, aos mal chamados representantes do povo: al&eacute;m de fazerem as leis, eles se atribuem a compet&ecirc;ncia exclusiva para reformar a Constitui&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Como se isso n&atilde;o bastasse, a nossa inventividade jur&iacute;dica chegou ao extremo de exigir a pr&eacute;via autoriza&ccedil;&atilde;o do Congresso Nacional para a realiza&ccedil;&atilde;o de plebiscitos e referendos, que a Constitui&ccedil;&atilde;o reconhece expressamente como express&otilde;es da soberania popular (Constitui&ccedil;&atilde;o, art. 14). Ou seja, o mandante precisa da permiss&atilde;o do mandat&aacute;rio para manifestar sua vontade soberana!<\/p>\n<p><strong>Estimular as redes sociais<\/strong><\/p>\n<p>Ora, no desenvolvimento desse enredo caviloso, a colabora&ccedil;&atilde;o do oligop&oacute;lio privado dos chamados meios de comunica&ccedil;&atilde;o de massa n&atilde;o pode ser desprezada. O seu poder de press&atilde;o sobre o Congresso Nacional e os pol&iacute;ticos em geral tem sido irresist&iacute;vel nos &uacute;ltimos dec&ecirc;nios. A pr&oacute;pria Constitui&ccedil;&atilde;o Federal de 1988 foi elaborada sob a influ&ecirc;ncia dominante dos empres&aacute;rios do setor.<\/p>\n<p>Ouso afirmar, portanto, que o regime de despotismo doce e envolvente, cujos contornos Tocqueville divisava nebulosamente na primeira metade do s&eacute;culo 19, j&aacute; se instalou nos modernos pa&iacute;ses capitalistas, e especialmente no nosso, por obra e gra&ccedil;a do sistema autocr&aacute;tico de imprensa, r&aacute;dio e televis&atilde;o.<\/p>\n<p>A magna tarefa que se imp&otilde;e hoje, por conseguinte, no mundo inteiro, consiste em elaborar e instituir outra forma de relacionamento coletivo, pela qual os homens possam verdadeiramente se comunicar; isto &eacute;, p&ocirc;r em comum suas id&eacute;ias, sentimentos e opini&otilde;es. Sem isto, &eacute; in&uacute;til pretender ensaiar um verdadeiro regime democr&aacute;tico, pois ele pressup&otilde;e a capacidade do povo soberano de discutir entre si as grandes quest&otilde;es, de &acirc;mbito nacional ou internacional, sobre as quais deve decidir, e de interpelar constantemente os agentes estatais sobre as justificativas de sua conduta.<\/p>\n<p>Em suma, trata-se de recriar, na esfera da vida pol&iacute;tica, uma nova &aacute;gora ateniense.<\/p>\n<p>Algumas diretrizes imp&otilde;em-se, para tanto.<\/p>\n<p>Em primeiro lugar, &eacute; indispens&aacute;vel contar com uma alternativa fi&aacute;vel aos meios de comunica&ccedil;&atilde;o de massa. Nesse sentido, deve-se estimular a cria&ccedil;&atilde;o das chamadas redes sociais na internet. Muito embora at&eacute; o momento restritas &agrave; minoria rica, &eacute; incontest&aacute;vel que elas restabelecem um relacionamento pessoal e direto entre os homens, agora no plano macrossocial. N&atilde;o se deve, ali&aacute;s, esquecer que a elei&ccedil;&atilde;o de Barack Obama, nos Estados Unidos, deveu-se em boa parte &agrave; a&ccedil;&atilde;o dessas redes sociais. A rede intitulada Facebook, por exemplo, re&uacute;ne hoje nada menos do que 350 milh&otilde;es de usu&aacute;rios, espalhados em todas as partes do mundo.<\/p>\n<p><strong>Proibi&ccedil;&atilde;o de monop&oacute;lio ou oligop&oacute;lio<\/strong><\/p>\n<p>No terreno pr&oacute;prio das comunica&ccedil;&otilde;es de massa, duas grandes diretrizes de reforma devem ser seguidas.<\/p>\n<p>A primeira delas consiste em superar a car&ecirc;ncia legislativa.<\/p>\n<p>Nunca &eacute; demais relembrar que a supress&atilde;o das liberdades fundamentais pode ocorrer, tanto pelo excesso, quanto pela aus&ecirc;ncia de leis.<\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0cm\" class=\"padrao\">Nos regimes totalit&aacute;rios ou autorit&aacute;rios, as prescri&ccedil;&otilde;es normativas s&atilde;o abundantes e minuciosas, e muitas delas vigoram secretamente, ao alvedrio dos que comandam. De modo que os cidad&atilde;os jamais sabem, ao certo, o que podem fazer sem sofrer san&ccedil;&otilde;es repressivas.<\/p>\n<p>Mas o v&aacute;cuo legislativo, t&atilde;o louvado pelo liberalismo hodierno, provoca a mesma supress&atilde;o das liberdades, porque o terreno social se abre ent&atilde;o, amplamente, &agrave; domina&ccedil;&atilde;o sem limites dos ricos e poderosos.<\/p>\n<p>Ora, em nosso pa&iacute;s o setor de comunica&ccedil;&atilde;o social encontra-se, h&aacute; v&aacute;rios dec&ecirc;nios, largamente desprovido de leis. At&eacute; hoje permanece em vigor o C&oacute;digo de Telecomunica&ccedil;&otilde;es de 1962, cujas disposi&ccedil;&otilde;es j&aacute; foram em grande parte revogadas, e as que ainda se encontram formalmente em vigor s&atilde;o descumpridas. &Eacute; o que ocorre, por exemplo, com as normas constantes de seus artigos 38, al&iacute;nea h, e 124, que fixam em 5% e 25%, respectivamente, o tempo m&iacute;nimo para a transmiss&atilde;o de informa&ccedil;&otilde;es e o tempo m&aacute;ximo para a publicidade comercial.<\/p>\n<p>Por outro lado, posto que promulgada a Constitui&ccedil;&atilde;o h&aacute; mais de 21 anos, continuam sem regulamenta&ccedil;&atilde;o quase todas as suas disposi&ccedil;&otilde;es sobre a comunica&ccedil;&atilde;o social; notadamente as que estabelecem as diretrizes gerais sobre a programa&ccedil;&atilde;o das emiss&otilde;es de r&aacute;dio e televis&atilde;o, e a proibi&ccedil;&atilde;o do estabelecimento em todo o setor, direta ou indiretamente, de monop&oacute;lio ou oligop&oacute;lio (artigos 220 e 221).<\/p>\n<p><strong>Usurpador alardeia pretensos direitos<\/strong><\/p>\n<p>Para completar esse quadro em branco, o Supremo Tribunal Federal, em lament&aacute;vel decis&atilde;o de 30 de abril de 2009, jubilosamente acolhida pelos patr&otilde;es das grandes empresas do setor, julgou implicitamente revogada pela Constitui&ccedil;&atilde;o a lei de imprensa de 1967. Somos, assim, um caso raro no mundo, de pa&iacute;s que se d&aacute; ao luxo de viver sem lei de imprensa.<\/p>\n<p>Diante dessa grave indig&ecirc;ncia legislativa, propus recentemente ao presidente do Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil, o ajuizamento, perante o Supremo Tribunal Federal, de uma a&ccedil;&atilde;o de inconstitucionalidade por omiss&atilde;o, relativamente &agrave;s disposi&ccedil;&otilde;es constitucionais pertinentes &agrave; comunica&ccedil;&atilde;o social.<\/p>\n<p>A segunda diretriz geral a ser seguida para a reformula&ccedil;&atilde;o do setor de comunica&ccedil;&atilde;o de massa em nosso Pa&iacute;s diz respeito, especificamente, ao r&aacute;dio e &agrave; televis&atilde;o.<\/p>\n<p>Ambos utilizam-se, para as suas emiss&otilde;es, de um espa&ccedil;o p&uacute;blico, ou seja, em boa etimologia e melhor doutrina, um espa&ccedil;o pertencente ao povo. Tratando-se de bem p&uacute;blico, comum a todos, escusa lembrar que ele n&atilde;o pode ser apropriado por ningu&eacute;m: nem pelo Estado nem pelos particulares. A fun&ccedil;&atilde;o do Estado &eacute; simplesmente administrar a sua utiliza&ccedil;&atilde;o em benef&iacute;cio do povo.<\/p>\n<p>&Eacute; exatamente por isso que, tanto aqui como alhures, a presta&ccedil;&atilde;o do servi&ccedil;o p&uacute;blico de radiodifus&atilde;o sonora e de sons e imagens depende de autoriza&ccedil;&atilde;o, concess&atilde;o ou permiss&atilde;o da autoridade administrativa competente (Constitui&ccedil;&atilde;o Federal, art. 21, XII, al&iacute;nea a).<\/p>\n<p>Acontece que, entre n&oacute;s, o decantado oligop&oacute;lio empresarial que domina o setor atua na pr&aacute;tica, e se considera em teoria, como propriet&aacute;rio desses canais de comunica&ccedil;&atilde;o pertencentes ao povo. Chega-se at&eacute; ao c&uacute;mulo do arrendamento de canais pelo seu concession&aacute;rio. Ou seja, analogamente ao que ocorre com o soberano no campo pol&iacute;tico, aqui o leg&iacute;timo dono &eacute; substitu&iacute;do por um usurpador que, a todo momento, alardeia seus pretensos direitos adquiridos.<\/p>\n<p><strong>Disposi&ccedil;&otilde;es aberrantes do sistema administrativo<\/strong><\/p>\n<p>A gest&atilde;o desse espa&ccedil;o p&uacute;blico de comunica&ccedil;&atilde;o deve competir a um &oacute;rg&atilde;o igualmente p&uacute;blico, isto &eacute;, n&atilde;o subordinado a nenhum Poder estatal e muito menos a particulares. O Conselho de Comunica&ccedil;&atilde;o Social, criado por for&ccedil;a do art. 224 da Constitui&ccedil;&atilde;o Federal, n&atilde;o preenche tais requisitos. De um lado, porque foi declarado &oacute;rg&atilde;o auxiliar do Congresso Nacional; de outro, porque a Lei n&ordm; 8.389, de 1991, que o regulamentou, dele fez uma entidade solenemente in&uacute;til.<\/p>\n<p>Importa assim criar, em todas as unidades da federa&ccedil;&atilde;o, um &oacute;rg&atilde;o regulador das atividades de comunica&ccedil;&atilde;o social, composto de representantes de entidades p&uacute;blicas, como o Minist&eacute;rio P&uacute;blico, a Ordem dos Advogados do Brasil, ou as universidades p&uacute;blicas.<\/p>\n<p>Da mesma forma, a utiliza&ccedil;&atilde;o do espa&ccedil;o p&uacute;blico de comunica&ccedil;&atilde;o h&aacute; de ser reservado preferencialmente a entidades p&uacute;blicas, vale repetir, n&atilde;o estatais nem privadas.<\/p>\n<p>Sugiro, assim, que se crie, em todas as unidades da federa&ccedil;&atilde;o, sob a forma de funda&ccedil;&atilde;o p&uacute;blica, um organismo de r&aacute;dio e televis&atilde;o, cujos administradores sejam designados pelo competente Conselho de Comunica&ccedil;&atilde;o Social.<\/p>\n<p>Por outro lado, vale a pena repetir que, se as emiss&otilde;es de r&aacute;dio e televis&atilde;o constituem um servi&ccedil;o p&uacute;blico, as empresas privadas somente podem ser admitidas a prest&aacute;-lo mediante regular contrato de concess&atilde;o, com a observ&acirc;ncia das exig&ecirc;ncias normais, como a licita&ccedil;&atilde;o pr&eacute;via (Constitui&ccedil;&atilde;o Federal, art. 175), inclusive para a renova&ccedil;&atilde;o do contrato.<\/p>\n<p>Escandalosamente, por&eacute;m, n&atilde;o &eacute; o que ocorre no Brasil. Sob a press&atilde;o dos grandes empres&aacute;rios do setor, o Congresso Nacional inseriu na Constitui&ccedil;&atilde;o (artigos 223 e par&aacute;grafos) que as concess&otilde;es de explora&ccedil;&atilde;o de r&aacute;dios e televis&otilde;es sejam submetidas, em &uacute;ltima inst&acirc;ncia, &agrave; decis&atilde;o do pr&oacute;prio Congresso (Constitui&ccedil;&atilde;o, artigos 223 e par&aacute;grafos), o qual se revelou, nessa mat&eacute;ria, um &oacute;rg&atilde;o bem mais flex&iacute;vel do que o Poder Executivo. Imp&otilde;e-se, pois, a revoga&ccedil;&atilde;o dessas disposi&ccedil;&otilde;es aberrantes do sistema administrativo comum.<\/p>\n<p><strong>Direito de antena<\/strong><\/p>\n<p>Na concess&atilde;o do servi&ccedil;o p&uacute;blico de comunica&ccedil;&atilde;o social, prefer&ecirc;ncia deve ser dada &agrave;s r&aacute;dios comunit&aacute;rias, que t&ecirc;m sofrido toda sorte de preteri&ccedil;&otilde;es e constrangimentos, inclusive san&ccedil;&otilde;es penais, por iniciativa das macroempresas do setor.<\/p>\n<p>&Eacute; mister, al&eacute;m disso, suprimir o poder autocr&aacute;tico no seio das empresas privadas de imprensa, r&aacute;dio e televis&atilde;o, em raz&atilde;o do qual os patr&otilde;es disp&otilde;em do privil&eacute;gio de difundir suas opini&otilde;es pessoais na massa do p&uacute;blico sobre todos os assuntos, e gozam at&eacute; mesmo da prerrogativa de insultar impunemente seus desafetos! Em tais empresas, portanto, a partir de certa dimens&atilde;o, a orienta&ccedil;&atilde;o editorial deveria competir a um conselho de administra&ccedil;&atilde;o composto, por metade, de representantes dos jornalistas que nela trabalham.<\/p>\n<p>Tudo isso, contudo, seria v&atilde;o, se n&atilde;o se garantisse efetivamente, a todos, o direito fundamental de express&atilde;o nessa &aacute;rea.<\/p>\n<p>Proponho, com esse objetivo, duas medidas principais.<\/p>\n<p>A primeira delas consiste na cria&ccedil;&atilde;o, a par do direito tradicional de resposta, destinado a garantir o respeito &agrave; verdade e &agrave; honra individual, um direito de defesa de interesses coletivos ou difusos, a ser exercido por associa&ccedil;&otilde;es ou funda&ccedil;&otilde;es, cujos estatutos contenham essa previs&atilde;o.<\/p>\n<p>A segunda medida de refor&ccedil;o ao direito fundamental de express&atilde;o &eacute; a ado&ccedil;&atilde;o do chamado direito de antena, j&aacute; criado nas Constitui&ccedil;&otilde;es de Portugal (art. 40&ordm;) e Espanha (art. 20, al&iacute;nea 3, in fine). Ele consiste na prerrogativa &ndash; a ser reconhecida, de prefer&ecirc;ncia, a entidades representativas de setores dignos de prote&ccedil;&atilde;o especial, como os grupos sociais vulner&aacute;veis &ndash; da livre utiliza&ccedil;&atilde;o do r&aacute;dio e da televis&atilde;o, em tempo e hor&aacute;rio fixados pela autoridade administrativa reguladora. Atualmente, esse direito existe no Brasil t&atilde;o-s&oacute; para os partidos pol&iacute;ticos, por ocasi&atilde;o das campanhas eleitorais. Importa estend&ecirc;-lo, permanentemente, aos grupos sociais relevantes da nossa sociedade civil.<\/p>\n<p><strong>O peso da mediocridade conformista<\/strong><\/p>\n<p>Como arremate, permito-me voltar os olhos ao ber&ccedil;o do regime democr&aacute;tico, a Atenas do s&eacute;culo V a.C. Segundo o testemunho un&acirc;nime dos grandes autores da antiguidade cl&aacute;ssica, o tra&ccedil;o fundamental da democracia ateniense era a liberdade de palavra, reconhecida indistintamente a todos os cidad&atilde;os (isegoria). S&oacute;crates, por exemplo, um de seus cr&iacute;ticos mais acerbos, queixou-se, no di&aacute;logo Prot&aacute;goras de Plat&atilde;o, de que nas reuni&otilde;es da Ekkl&eacute;sia, a assembl&eacute;ia do povo que decidia sobre as quest&otilde;es mais importantes da p&oacute;lis, qualquer cidad&atilde;o &ndash; carpinteiro, ferreiro, sapateiro, comerciante, armador &ndash; rico ou pobre, aristocrata ou plebeu, instruido ou ignorante, tinha o direito de usar da palavra e exprimir sua opini&atilde;o. Na vis&atilde;o socr&aacute;tica, essa prerrogativa deveria ser reservada exclusivamente aos melhores cidad&atilde;os (<em>aristoi<\/em>).<\/p>\n<p>Ao reinventarmos a democracia nos tempos modernos, o pretexto rid&iacute;culo da impossibilidade de se reunir o povo em uma s&oacute; pra&ccedil;a fez com que a liberdade de express&atilde;o passasse a ser garantida, doravante, t&atilde;o-s&oacute; aos governantes e controladores dos meios de comunica&ccedil;&atilde;o de massa.<\/p>\n<p>Para abolir essa farsa, n&atilde;o basta, na verdade, criar as institui&ccedil;&otilde;es adequadas, como sugeri nesta exposi&ccedil;&atilde;o. Elas s&atilde;o necess&aacute;rias, mas n&atilde;o suficiente. &Eacute; preciso tamb&eacute;m &ndash; e alguns dir&atilde;o principalmente &ndash; formar a consci&ecirc;ncia c&iacute;vica do povo.<\/p>\n<p>Oxal&aacute; as comunidades acad&ecirc;micas deste pa&iacute;s, sacudindo o peso da mediocridade conformista, decidam consagrar-se, com zelo e compet&ecirc;ncia, &agrave; elevada miss&atilde;o de dar, enfim, a palavra ao povo.<\/p>\n<p><em>* F&aacute;bio Konder Comparato &eacute; professor em&eacute;rito da Faculdade de Direito da Universidade de S&atilde;o Paulo, doutor Honoris Causa da Universidade de Coimbra.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p class=\"padrao\">No campo da grande imprensa, da radiodifus&atilde;o sonora e de sons e imagens, liberdade s&oacute; existe para os controladores das respectivas empresas<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[42],"tags":[53],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/24319"}],"collection":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=24319"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/24319\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=24319"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=24319"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=24319"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}