{"id":24289,"date":"2010-04-27T15:33:41","date_gmt":"2010-04-27T15:33:41","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=24289"},"modified":"2010-04-27T15:33:41","modified_gmt":"2010-04-27T15:33:41","slug":"o-celular-vai-conectar-todo-mundo-a-web","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=24289","title":{"rendered":"&#8220;O celular vai conectar todo mundo \u00e0 web&#8221;"},"content":{"rendered":"<p>   \t \t \t \t \t<!-- \t\t@page { margin: 2cm } \t\tP { margin-bottom: 0.21cm } \t--> \t  <\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0cm\" class=\"padrao\">Sem fins lucrativos, autossustentado e baseado na no&ccedil;&atilde;o de transfer&ecirc;ncia de conhecimento entre a sociedade e a universidade, o Centro de Estudos e Sistemas Avan&ccedil;ados do Recife (CESAR) foi fundado em 1996 para criar produtos, servi&ccedil;os e empresas baseados em Tecnologia da Informa&ccedil;&atilde;o e Comunica&ccedil;&atilde;o (TIC). Com o tempo, o Centro acabou por se tornar uma refer&ecirc;ncia no desenvolvimento de software para celulares, atendendo a clientes como Motorola, Samsung, Vivo, Oi e outros.<\/p>\n<p>&ldquo;Nosso neg&oacute;cio &eacute; descobrir perguntas, ao inv&eacute;s de arranjar respostas&rdquo;, afirma Silvio Meira, 55 anos, o fundador e cientista-chefe da institui&ccedil;&atilde;o, que comanda os mais de 400 pesquisadores envolvidos nos projetos do CESAR, em centros no Recife, em S&atilde;o Paulo e em Curitiba. O CESAR nasceu no Recife, onde Meira leciona no Centro de Inform&aacute;tica da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).<\/p>\n<p>Nesta entrevista, dada a revista <em>Wireless Mundi<\/em>, que tamb&eacute;m &eacute; editada pela Momento Editorial, em vers&atilde;o impressa e online (www.wirelessmundi.inf.br), ele fala da import&acirc;ncia de conectar todos os brasileiros &agrave; internet e aplaude a iniciativa do Plano Nacional de Banda Larga, lembrando que a conex&atilde;o de 10% dos brasileiros &agrave; internet resulta em aumento imediato de 1% no PIB do pa&iacute;s. &ldquo;Parece que vamos universalizar a banda larga no Brasil antes mesmo de universalizar &aacute;gua e esgoto, o que &eacute; esquisito e quase inacredit&aacute;vel&rdquo;. Na sua avalia&ccedil;&atilde;o, as tecnologias sem-fio ter&atilde;o um papel fundamental no processo.<\/p>\n<p><strong>Voc&ecirc;s s&atilde;o uma esp&eacute;cie de incubadora. Como &eacute; que isso funciona? Voc&ecirc;s trazem para o CESAR os melhores alunos com as melhores id&eacute;ias e criam uma empresa?<br \/><\/strong>N&atilde;o, o pessoal do CESAR &eacute; contratado para resolver problemas. Por exemplo, h&aacute; algum tempo fizemos um trabalho para uma grande empresa que presta servi&ccedil;os para bancos. Era um projeto associado a processamento de imagens, imagens de documentos, de transa&ccedil;&otilde;es virtuais. Criamos, ent&atilde;o, um neg&oacute;cio de processamento de documentos, uma esp&eacute;cie de OCR muito sofisticado, e feito em cima de texto que n&atilde;o foi preparado para ser lido em OCR, usando intelig&ecirc;ncia artificial muito complexa e assim por diante &ndash; isso acabou virando um neg&oacute;cio. O pessoal fazendo isso pode at&eacute; ser aluno da universidade, mas n&atilde;o &eacute; trabalho volunt&aacute;rio, n&atilde;o &eacute; participa&ccedil;&atilde;o acad&ecirc;mica no neg&oacute;cio. N&oacute;s trabalhamos para resolver problemas efetivos, em empresas reais, que t&ecirc;m aquele problema em seu caminho cr&iacute;tico.<\/p>\n<p><strong>O CESAR &eacute; um centro de refer&ecirc;ncia em software para celular. Por que o foco na telefonia celular e o que mais voc&ecirc;s fazem em termos de aplica&ccedil;&atilde;o da tecnologia sem-fio?<br \/><\/strong>No caso de celulares, a gente acabou se envolvendo em v&aacute;rios n&iacute;veis desse problema, desde projetar um celular at&eacute; fazer uma parte do hardware, uma parte do software, testar, verificar, validar, certificar celulares antes de coloc&aacute;-los no mercado e escrever o software que fica nas operadoras. Trabalhamos com a cadeia de valor da mobilidade, que &eacute; muito mais ampla. H&aacute; o fabricante, os fornecedores, o sujeito que faz um neg&oacute;cio terceirizado, a operadora,&nbsp; o fabricante que presta servi&ccedil;o para a operadora e assim por diante.<\/p>\n<p><strong>O CESAR tem desenvolvido v&aacute;rias aplica&ccedil;&otilde;es sociais para celular. Quem contrata esse desenvolvimento? E como o celular, que est&aacute; nas m&atilde;os de milh&otilde;es de brasileiros de classe C e D, pode ser usado para incluir mais gente na conversa e para melhorar a vida das pessoas?<br \/><\/strong>Qual &eacute; o papel do celular? Se voc&ecirc; prestar aten&ccedil;&atilde;o, na m&atilde;o de cada pessoa, hoje, tem uma capacidade de computa&ccedil;&atilde;o milhares de vezes maior do que o computador mais potente que existia na d&eacute;cada de 60. Este &eacute; o primeiro fato. O segundo &eacute;: esse computador mais potente da d&eacute;cada de 60 &ndash; refiro-me ao mundo, n&atilde;o apenas ao Brasil &ndash; era isolado. Hoje, o celular mais tosco do mercado consegue mandar SMS, por exemplo, o torpedo, que &eacute; uma forma rudimentar de correio eletr&ocirc;nico. Este j&aacute; &eacute; um mecanismo de inclus&atilde;o digital. E, se voc&ecirc; olhar para a periferia, vai ver que o pessoal das camadas mais baixas da sociedade usa SMS intensamente. &Eacute; exatamente essa camada que consome downloads, ringtones, jogos. S&atilde;o eles que, &agrave;s vezes, pagam cinco reais &agrave; operadora por um jogo que &eacute; gr&aacute;tis na web &ndash; s&oacute; que eles n&atilde;o t&ecirc;m acesso a internet &ndash; e fazem essas compras por meio de torpedos. Na infraestrutura brasileira de celular, hoje, o que est&aacute; ocorrendo s&atilde;o os prim&oacute;rdios de um processo de informatiza&ccedil;&atilde;o pessoal, que, em &uacute;ltima an&aacute;lise, vai levar todo mundo &agrave; rede, no mesmo grau de intensidade.<\/p>\n<p><strong>A infraestrutura de terceira gera&ccedil;&atilde;o j&aacute; &eacute; uma estrutura de web.<\/strong><br \/>Exato. Na realidade, o celular j&aacute; &eacute; um navegador. Todas as pessoas v&atilde;o ter acesso a telefones que hoje custam R$ 1.500,00 e que, daqui a quatro ou cinco anos, ser&atilde;o parte da conta pr&eacute;-paga delas, simplesmente porque o custo de fabrica&ccedil;&atilde;o do aparelho vai cair para perto de zero. O problema &eacute; que existem margens muito grandes para serem obtidas em celulares de pre&ccedil;o mais baixo &ndash; voc&ecirc; d&aacute; o celular de gra&ccedil;a e cobra uma fortuna da pessoa para enviar um SMS. No caso do Brasil, para o consumidor, um torpedo custa 15 vezes mais do que na China, cinco vezes mais do que no Paraguai, dez vezes mais do que na Venezuela. Aqui, mantemos a popula&ccedil;&atilde;o &ndash; principalmente a de mais baixa renda &ndash; num regime de escassez de informa&ccedil;&atilde;o. Isto ocorre porque o Brasil cobra os impostos de telecomunica&ccedil;&otilde;es mais altos do mundo: 40% da conta &eacute; imposto.<\/p>\n<p><strong>As operadoras afirmam que cobram caro porque ainda est&atilde;o amortizando o investimento na implanta&ccedil;&atilde;o das redes de celular. E, claro, colocam boa parte da culpa nos impostos.<br \/><\/strong>A hist&oacute;ria da instala&ccedil;&atilde;o das redes n&atilde;o faz o menor sentido: que eu saiba, ningu&eacute;m est&aacute; perdendo dinheiro no Brasil com telecomunica&ccedil;&otilde;es. Se a infraestrutura de mobilidade e de conectividade da sociedade fosse realmente uma prioridade da pol&iacute;tica p&uacute;blica, o governo devia fazer o contr&aacute;rio: devia liberar do imposto. Mas, no Brasil, n&atilde;o. Aqui tem uma coisa muito estranha: os estados e a federa&ccedil;&atilde;o resolveram cobrar impostos muito mais altos do que se cobra em qualquer lugar do mundo. Na China, o imposto &eacute; 8%; nos Estados Unidos, &eacute; menos de 10% &ndash; com esse n&iacute;vel de impostos, voc&ecirc; efetivamente conecta as pessoas. Mas, ao combinar um espa&ccedil;o de pol&iacute;tica p&uacute;blica com um espa&ccedil;o regulat&oacute;rio, pode-se seguramente olhar para as contas das operadoras e dizer: &ldquo;Escuta aqui, voc&ecirc; vai gastar US$ 1 bilh&atilde;o a mais por ano para incluir o pessoal de baixa renda, que eu vou lhe dizer quem &eacute;. Eu tenho milh&otilde;es de fam&iacute;lias indexadas em programas estatais de todos os tipos e esse pessoal n&atilde;o paga imposto&rdquo;. Ao inv&eacute;s de cortar imposto, o estado cortaria seletivamente. Basta ter coragem pol&iacute;tica, basta reduzir significativamente o pre&ccedil;o do pr&eacute;-pago &ndash; isso transformaria um n&uacute;mero suficiente de pr&eacute;-pagos em p&oacute;s-pagos, resolvendo tamb&eacute;m o problema das operadoras, na minha opini&atilde;o.<\/p>\n<p><strong>Neste contexto, como voc&ecirc; v&ecirc; o Plano Nacional de Banda Larga e qual ser&aacute; o papel da tecnologia sem-fio nesse plano?<br \/><\/strong>O PNBL &eacute; uma promessa interessante, que vai precisar de muito esfor&ccedil;o, investimento e perseveran&ccedil;a para sair do papel, especialmente num ano eleitoral. Depois, h&aacute; que continuar com a mesma perseveran&ccedil;a na transi&ccedil;&atilde;o para outro governo. Mesmo com todas as dificuldades, sou otimista: parece mesmo que vamos universalizar banda larga antes de universalizar &aacute;gua e esgoto, o que n&atilde;o deixa de ser esquisito e quase inacredit&aacute;vel. Quanto &agrave; tecnologia sem-fio, ela estar&aacute; em todo lugar, em qualquer cen&aacute;rio, simplesmente porque todo mundo vai ter seu celular (na verdade, seu <em>smartphone<\/em>) como mecanismo preferencial de conectividade, porque &eacute; pequeno, porque est&aacute; comigo o tempo todo, porque estou conectado o tempo todo. Se isso vai ou n&atilde;o implicar mais frequ&ecirc;ncias e mais alternativas tecnol&oacute;gicas para acesso sem-fio, s&oacute; saberemos com o tempo. Mas de uma coisa podemos ter certeza: dentro desta d&eacute;cada haver&aacute; 150 milh&otilde;es de acessos m&oacute;veis &agrave; web no Brasil. E isso diz tudo sobre a import&acirc;ncia das tecnologias sem-fio na universaliza&ccedil;&atilde;o do acesso &agrave; web no pa&iacute;s.<\/p>\n<p><strong>As aplica&ccedil;&otilde;es que o CESAR desenvolve para celulares s&atilde;o propriet&aacute;rias ou podem rodar em diferentes celulares tamb&eacute;m? Afinal, a falta de padr&atilde;o para o hardware do celular &eacute; um grande problema, n&atilde;o?<br \/><\/strong>&Eacute;, mas isso &eacute; a mesma hist&oacute;ria dos computadores: no come&ccedil;o, cada empresa que fazia hardware tinha o seu sistema operacional propriet&aacute;rio. No celular, vamos chegar a cinco padr&otilde;es em breve: Microsoft, Android, Symbian, Palm e iPhone. Se voc&ecirc; escrever uma aplica&ccedil;&atilde;o em Java, ela roda transparentemente nos cinco.<\/p>\n<p><strong>E isso para qualquer celular comercializado no Brasil hoje?<br \/><\/strong>Hoje, n&atilde;o. A bagun&ccedil;a &eacute; total.<\/p>\n<p><strong>A curto prazo, em cinco anos, segundo a Anatel, o Brasil estar&aacute; inteiramente coberto por uma estrutura 3G, que &eacute; uma estrutura de internet m&oacute;vel. E a&iacute;?<br \/><\/strong>Com essa estrutura na m&atilde;o, as pessoas v&atilde;o usar a web, porque haver&aacute; um padr&atilde;o de contas que diz o seguinte: voc&ecirc; vai navegar com mobilidade total, com uma quantidade de dados infinita. Onde &eacute; que eu vou regular voc&ecirc;? Eu vou dizer que voc&ecirc; vai me pagar tanto e eu vou lhe dar, em princ&iacute;pio, uma certa quantidade de banda, digamos 1 Megabit por segundo. Mas se voc&ecirc; chegar a 1 Gigabit ou 1 Gigabyte por m&ecirc;s, eu vou fazer a sua velocidade cair. E, &agrave; medida em que voc&ecirc; usar cada vez mais dados, eu vou lhe dar cada vez menos banda, para equilibrar quantidade e velocidade. Porque, se for poss&iacute;vel ter quantidade infinita de dados com banda fixa, a infraestrutura n&atilde;o ser&aacute; renovada como deveria e a cobertura n&atilde;o chegar&aacute; a todo lugar. Mas se houver um sistema de <em>cap in<\/em>, ou seja, um limite de velocidade &agrave; medida em que voc&ecirc; for consumindo banda, a&iacute; eu posso convidar todo mundo a entrar na rede. Numa situa&ccedil;&atilde;o assim, as pessoas come&ccedil;am a se moderar.<\/p>\n<p><strong>Mas isso n&atilde;o vai criar um problema com as operadoras? Os principais clientes s&atilde;o as grandes corpora&ccedil;&otilde;es, que usam muito dado, o tempo todo &ndash; elas n&atilde;o v&atilde;o concordar com um esquema assim.<br \/><\/strong>N&atilde;o, mas essa &eacute; a conta de inclus&atilde;o social. Se a grande corpora&ccedil;&atilde;o quiser mais dados, ela paga por isso.<br \/><strong><br \/>E, se ela pagar, a infraestrutura cresce?<br \/><\/strong>Claro. Veja, o problema do Brasil &eacute; um problema de inapet&ecirc;ncia regulat&oacute;ria combinada com confus&atilde;o pol&iacute;tico-estrat&eacute;gica. Se decidirem fazer pol&iacute;tica, ter uma estrat&eacute;gia para essa pol&iacute;tica dar certo e regular esse neg&oacute;cio, as coisas funcionam. N&atilde;o se pode soltar no mercado um agente privado, quase monopolista, com uma escolha infinita. Esse agente n&atilde;o pode fazer o que quiser, pelo pre&ccedil;o que quiser. Esse agente deve ser regulado. J&aacute; o agente regulador precisa regular e quem presta o servi&ccedil;o precisa prestar o servi&ccedil;o. Se a operadora chegar &agrave; conclus&atilde;o de que, para prestar um servi&ccedil;o da qualidade de 1 Megabit por segundo, precisa cobrar R$ 100 por m&ecirc;s &ndash; vamos fazer as contas para ver se de fato custa R$ 100. Mas, se puder custar 70 reais, ou 60, ou 50, se voc&ecirc; puder botar mais gente no mercado, se puder aumentar a concorr&ecirc;ncia, se puder usar novas tecnologias, como WiMAX&#8230;<\/p>\n<p><strong>Que n&atilde;o est&aacute; regulado&#8230;<\/strong><br \/>Que n&atilde;o est&aacute; regulado. Mas voc&ecirc; pode incentivar e dizer: &ldquo;Muito bem, voc&ecirc;s n&atilde;o v&atilde;o baixar o pre&ccedil;o, n&atilde;o? Ent&atilde;o eu vou regular o WiMAX, vou incentivar o WiMAX no mercado para estabelecer um padr&atilde;o de concorr&ecirc;ncia de pre&ccedil;o no mercado e n&atilde;o uma discuss&atilde;o de espa&ccedil;o regulat&oacute;rio&rdquo;. Eu, pelo menos, sou contra ficar discutindo por medida de pre&ccedil;o. N&atilde;o faz parte do meu card&aacute;pio. Mas eu acho que faz sentido, sim, discutir do ponto de vista de qualquer infraestrutura &ndash; se faz sentido discutir estrada, esgoto, &aacute;gua e luz, tamb&eacute;m faz sentido discutir internet, que &eacute; uma das coisas que roda por cima de telecomunica&ccedil;&otilde;es. A gente tem de se perguntar o seguinte: &ldquo;O que o pa&iacute;s quer como infraestrutura de telecomunica&ccedil;&otilde;es?&rdquo; N&oacute;s temos um hist&oacute;rico de uma p&eacute;ssima infraestrutura de telecomunica&ccedil;&otilde;es estatal. Indubitavelmente, ao privatizar o setor, isso melhorou muito. Agora j&aacute; passamos da fase de ficar batendo palmas porque o servi&ccedil;o melhorou. Chegamos novamente &agrave; fase de dizer: o que ainda precisa melhorar? O que &eacute; preciso fazer para realmente incluir o pa&iacute;s, geograficamente, socialmente, empresarialmente? Quais infraestruturas essenciais para o futuro precisam ser constru&iacute;das? Outro dia eu estava no Recife, tentando mandar um e-mail do aeroporto, mas a conex&atilde;o de banda larga m&oacute;vel do meu laptop, que teoricamente &eacute; de 1 Megabit por segundo, estava funcionando a 30 K. Assim voc&ecirc; n&atilde;o consegue nem ler e-mail &ndash; 30 K &eacute; da &eacute;poca do modem em linha discada!<\/p>\n<p><strong>Mas h&aacute; lugares a 100 quil&ocirc;metros da cidade de S&atilde;o Paulo onde tampouco existe conex&atilde;o em banda larga real.<br \/><\/strong>Pois &eacute;. Esse espa&ccedil;o &eacute; que precisa ser tratado. Do ponto de vista de mobilidade. E por que mobilidade, em &uacute;ltima an&aacute;lise? Porque voc&ecirc; n&atilde;o &eacute; um pr&eacute;dio, voc&ecirc; n&atilde;o est&aacute; acorrentada numa casa, nem numa firma. Voc&ecirc; anda. N&oacute;s somos seres moventes. Acho que a express&atilde;o certa &eacute; mesmo &ldquo;ser movente&rdquo;, que significa que somos ambulantes. Voc&ecirc; n&atilde;o quer ter um telefone fixo em casa, quer carregar consigo a sua capacidade de computar, de conectar, de se relacionar, de controlar coisas. Se voc&ecirc; pensar no longo prazo, o que eu quero fazer aqui agora &eacute;, por exemplo, comandar a porta da minha casa, que deveria poder ser aberta pelo meu celular. Eu clico um conjunto de chaves aqui &ndash; eu boto o meu dedo na c&acirc;mera, o celular l&ecirc;, certifica, a porta abre e a pessoa fica registrada l&aacute;, j&aacute; sabendo que, na hora que entrar, eu vou ligar todas as c&acirc;maras que tem dentro de casa e essa filmagem vai ser remetida ao meu celular ou vai ficar gravada para eu assistir depois.<\/p>\n<p><strong>Vamos sair um pouco do macro e mergulhar no micro: o que voc&ecirc; diria para o respons&aacute;vel por inform&aacute;tica em uma pequena prefeitura brasileira?<br \/><\/strong>Diria a mesma coisa que eu disse ao presidente da Rep&uacute;blica recentemente: a cada 10% adicionais de conectividade o PIB cresce 1%. Esse dado &eacute; comprovado por levantamentos macro e microecon&ocirc;micos. Estamos falando de conectividade ampla, significa pessoas realmente conectadas &ndash; n&atilde;o estamos falando do sujeito que s&oacute; pode receber chamadas no seu celular pr&eacute;-pago. Quantas pessoas est&atilde;o realmente conectadas no Brasil? Na minha opini&atilde;o, n&atilde;o h&aacute; mais de 10 milh&otilde;es de pessoas com banda larga real, que conseguem assistir a um v&iacute;deo, que conseguem assistir a uma aula a dist&acirc;ncia sem que a conex&atilde;o caia 34 vezes.<br \/>Se voc&ecirc; conectar 50% da sua cidade, vai obter literalmente cinco pontos percentuais de aumento no PIB local. Isso &eacute; um n&uacute;mero imenso! Imagine o trabalho que d&aacute; mover um &uacute;nico ponto porcentual do PIB num pa&iacute;s como o Brasil, que em 2009 teve crescimento perto de zero. Ou seja, se a gente tivesse resolvido conectar 30 pontos porcentuais da popula&ccedil;&atilde;o brasileira, a conseq&uuml;&ecirc;ncia quase imediata seria um aumento de 3% no PIB. Al&eacute;m disso, conectividade &ndash; e em escala &ndash; &eacute; a &uacute;nica forma de voc&ecirc; participar do mundo. A maioria das cidades que n&atilde;o t&ecirc;m conectividade tampouco t&ecirc;m servi&ccedil;os de qualidade, nem livrarias, bibliotecas, nem outra montanha de coisas. Essa cidade est&aacute; isolada do ponto de vista das demandas cognitivas, culturais, art&iacute;sticas, liter&aacute;rias, de ensino, de ci&ecirc;ncia, de matem&aacute;tica, de f&iacute;sica, de engenharia, de m&uacute;sica, do que voc&ecirc; quiser&#8230; <br \/>Para conectar um lugar, para abrir a possibilidade de a popula&ccedil;&atilde;o de um lugar remoto entrar no mundo, &eacute; s&oacute; levar a internet de banda larga para l&aacute;. Uma das formas mais pr&aacute;ticas de fazer isso hoje &eacute; usar a tecnologia sem-fio, iluminar a cidade com a malha sem-fio. Se voc&ecirc; pensar em larga escala, temos pelo menos 3 mil munic&iacute;pios brasileiros que n&atilde;o t&ecirc;m biblioteca, nem teatro, nem cinema. Vamos botar banda larga nesses lugares e eles ser&atilde;o inclu&iacute;dos geogr&aacute;fica e socialmente &ndash; &eacute; metade do pa&iacute;s. Mas isso &eacute; um objetivo de pol&iacute;tica p&uacute;blica, com o qual a prefeitura deveria estar preocupada. Porque tamb&eacute;m &eacute; verdade que, na maioria dessas cidades, n&atilde;o h&aacute; empreendedores privados com conhecimento, capital ou insumos essenciais para tomar a iniciativa de conectar a cidade. &Eacute;, portanto, um espa&ccedil;o n&iacute;tido e t&iacute;pico de pol&iacute;tica p&uacute;blica &ndash; um problema que, todos n&oacute;s sabemos, deveria ter sido resolvido pelo Fundo para Universaliza&ccedil;&atilde;o dos Servi&ccedil;os de Telecomunica&ccedil;&otilde;es (FUST) l&aacute; atr&aacute;s, mas n&atilde;o foi. E n&atilde;o adianta chorar sobre leite derramado. Precisamos agora &eacute; por a m&atilde;o na massa.<br \/><strong><br \/>Como o CESAR p&otilde;e a m&atilde;o nessa massa?<br \/><\/strong>Por exemplo, fazendo projetos para prefeituras do interior, alguns deles bastante criativos. Como &eacute; que a prefeitura pode prover banda larga de gra&ccedil;a em troca do pagamento de impostos? Pois prefeituras do interior t&ecirc;m uma capacidade de arrecada&ccedil;&atilde;o muito baixa. Estamos trabalhando para uma prefeitura que tem um plano muito legal: ela quer prover uma banda larga m&iacute;nima, mas com cobertura universal na cidade em troca de todo mundo pagar o IPTU. Se houvesse um projeto nacional desse tipo, Bras&iacute;lia deixaria de ser pressionada por prefeitos sem capacidade de arrecada&ccedil;&atilde;o. Quando se leva a internet para uma cidade, v&atilde;o junto a compet&ecirc;ncia, o sistema de informa&ccedil;&atilde;o, tudo provido pela rede. Essa prefeitura do interior n&atilde;o vai montar um centro de dados; o m&aacute;ximo que o sujeito vai fazer &eacute; cadastrar os CPFs correspondentes aos domic&iacute;lios com n&uacute;mero de arrecada&ccedil;&atilde;o de IPTU e de outros impostos municipais. Ao conectar a cidade, ao mesmo tempo se informatiza a prefeitura, numa escala muito superior &agrave;quilo de que ela precisa hoje. O problema &eacute; que a utilidade econ&ocirc;mica desse registro, dessa inform&aacute;tica p&uacute;blica, ainda &eacute; muito baixa. O que a gente precisa &eacute; aumentar a utilidade econ&ocirc;mica da inform&aacute;tica da prefeitura. N&atilde;o &eacute; dos programas federais, que t&ecirc;m um impacto muito grande. Para isso, &eacute; preciso botar na cabe&ccedil;a do cidad&atilde;o que est&aacute; tocando a prefeitura em qualquer lugar do Brasil que ele deve oferecer &ndash; aos seus cidad&atilde;os, aos seus alunos, &agrave;s suas escolas, &agrave;s suas enfermeiras, seus m&eacute;dicos &ndash; a oportunidade de conex&atilde;o com o mundo, representada pela internet. Para n&oacute;s, que j&aacute; estamos dentro, &eacute; imposs&iacute;vel imaginar a vida sem internet. Acho que &eacute; como se imaginar analfabeto. Porque se a pessoa souber ler e escrever, a maior parte das coisas de que ela precisa est&aacute; na internet.<\/p>\n<p><strong>Eu gostaria que voc&ecirc; abordasse agora uma outra quest&atilde;o espinhosa, que se contrap&otilde;e a facilidades como abrir a porta da sua casa por celular: a quest&atilde;o da privacidade e dos direitos individuais.<br \/><\/strong>Essa &eacute; uma preocupa&ccedil;&atilde;o real, que compartilha o espa&ccedil;o\/tempo com o processo de aprendizado. Ela &eacute; a mesma coisa que a escrita: quando se inventou a escrita, de repente as pessoas come&ccedil;aram a abrir cartas dos outros&#8230; Esse processo &eacute; normal: se h&aacute; informa&ccedil;&atilde;o e as pessoas querem saber o que est&aacute; acontecendo, elas ir&atilde;o atr&aacute;s disso. A coisa mais clara que existe sobre a sociedade da informa&ccedil;&atilde;o e do conhecimento &eacute; que a informa&ccedil;&atilde;o e o conhecimento s&atilde;o os elementos mais importantes dela. Logo, isso vale dinheiro, isso &eacute; transacion&aacute;vel, isso &eacute; espionado, roubado, entregue, destru&iacute;do, modificado&#8230; As transa&ccedil;&otilde;es s&atilde;o sobre este escopo de um ciclo de vida da informa&ccedil;&atilde;o, que vai desde a gera&ccedil;&atilde;o &ndash; porque estamos gerando informa&ccedil;&atilde;o &ndash; ou captura (meu celular est&aacute; capturando informa&ccedil;&atilde;o neste momento) at&eacute; seu processamento, distribui&ccedil;&atilde;o, reutiliza&ccedil;&atilde;o, termina&ccedil;&atilde;o. Durante todo esse ciclo, n&oacute;s vamos nos preocupar intensamente com informa&ccedil;&atilde;o, com sua seguran&ccedil;a, com sua disponibilidade &ndash; tem coisa a que a gente quer dar a maior disponibilidade poss&iacute;vel, por exemplo, toda informa&ccedil;&atilde;o p&uacute;blica. O portal da transpar&ecirc;ncia do governo federal &eacute; um exemplo disso, assim como &eacute; o portal da transpar&ecirc;ncia de muitas institui&ccedil;&otilde;es privadas. Ao mesmo tempo, tem informa&ccedil;&atilde;o que a gente n&atilde;o quer deixar passar de jeito nenhum: informa&ccedil;&atilde;o sobre seguran&ccedil;a nacional, sobre a seguran&ccedil;a deste pr&eacute;dio onde estamos. Mas tudo isso &eacute; parte natural do processo. As pessoas ficam meio hist&eacute;ricas a respeito, mas a verdade &eacute; que j&aacute; era assim. O que ocorre &eacute; que ficou mais r&aacute;pido e cada vez mais virtual.<\/p>\n<p><strong>Ficou cada vez mais grave, na verdade. Quando os criadores desse problema n&atilde;o dispunham da tecnologia, o efeito negativo era muito menor.<br \/><\/strong>Mas, filosoficamente, o problema &eacute; o mesmo &ndash; s&oacute; a escala mudou. Eu hoje posso usar um telefone ou um roteador de internet e pegar tudo que vem do seu endere&ccedil;o IP, por exemplo. Para fazer gra&ccedil;a, o pessoal do CESAR que desenvolve aplica&ccedil;&otilde;es de seguran&ccedil;a costuma usar uma camiseta provocadora, que diz o seguinte: &ldquo;Eu leio o seu e-mail&rdquo;. Claro que pode. Isso &eacute; f&aacute;cil de fazer.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Diretor do Cesar fala da necessidade de conectar os brasileiros &agrave; internet e o papel das tecnologias m&oacute;veis<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[43],"tags":[1305],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/24289"}],"collection":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=24289"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/24289\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=24289"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=24289"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=24289"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}