{"id":24243,"date":"2010-04-13T17:08:05","date_gmt":"2010-04-13T17:08:05","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=24243"},"modified":"2010-04-13T17:08:05","modified_gmt":"2010-04-13T17:08:05","slug":"o-olhar-solidario-das-favelas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=24243","title":{"rendered":"O olhar solid\u00e1rio das favelas"},"content":{"rendered":"<p> \t<!-- \t\t@page { margin: 2cm } \t\tP { margin-bottom: 0.21cm } \t--> \t <\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0cm\" class=\"padrao\">A Escola de Fot&oacute;grafos Populares, sua ag&ecirc;ncia e o banco Imagens do Povo s&atilde;o experi&ecirc;ncias do Observat&oacute;rio de Favelas. A escola pretende formar jovens moradores de favelas cariocas no of&iacute;cio da fotografia e abrir-lhes caminho no mercado de trabalho. Mais do que isso: a escola busca realizar um trabalho de registro das comunidades populares a partir do olhar dos pr&oacute;prios moradores, al&eacute;m de difundir outras possibilidades de percep&ccedil;&atilde;o dos espa&ccedil;os, distinta do olhar tradicional, marcado por sensacionalismo, pobreza e viol&ecirc;ncia.<\/p>\n<p>Para entendermos a import&acirc;ncia desses projetos, que funcionam em conjunto com diversos outros do Observat&oacute;rio de Favelas, &eacute; importante pensarmos alguns conceitos. Entre eles, o de que os moradores das &aacute;reas populares vivem precariamente e s&atilde;o submetidos &agrave; domina&ccedil;&atilde;o econ&ocirc;mica e cultural das classes m&eacute;dia e alta. Essa forma de explora&ccedil;&atilde;o come&ccedil;ou a se intensificar nos anos 1940, por ocasi&atilde;o do surgimento das primeiras favelas, e vem se exacerbando desde ent&atilde;o. Uma de suas express&otilde;es &eacute; o conceito de &ldquo;cidade partida&rdquo;. De um lado, a cidade onde &eacute; formal e l&oacute;gica a inclus&atilde;o. De outro, a cidade da exclus&atilde;o. A pobreza nas metr&oacute;poles, genericamente falando, n&atilde;o vem apenas dos sal&aacute;rios baixos e dos empregos prec&aacute;rios. A pobreza &eacute; resultante do reduzido acesso aos bens e servi&ccedil;os urbanos, tais como habita&ccedil;&atilde;o, educa&ccedil;&atilde;o, sa&uacute;de, seguran&ccedil;a, entre outros. Falamos, portanto, de direitos &agrave; cidade que n&atilde;o foram respeitados e contemplados para todos os seus habitantes.<\/p>\n<p><strong>Valoriza&ccedil;&atilde;o da participa&ccedil;&atilde;o popular<\/strong><\/p>\n<p>Segundo Di&oacute;genes Pinheiro, doutor em Ci&ecirc;ncias Sociais pela Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) e professor no cursinho pr&eacute;-vestibular popular dos Morros do Chap&eacute;u Mangueira e Babil&ocirc;nia, em Copacabana, o uso corrente e cada vez mais difundido do termo &ldquo;cidadania&rdquo; s&oacute; pode ser compreendido se localizado na conjuntura pol&iacute;tica brasileira ap&oacute;s o per&iacute;odo autorit&aacute;rio, quando a tentativa de constru&ccedil;&atilde;o de uma sociedade democr&aacute;tica passava pela valoriza&ccedil;&atilde;o da participa&ccedil;&atilde;o popular, pelo acesso e pela expans&atilde;o do mundo dos direitos. &ldquo;Atualmente, a perman&ecirc;ncia do termo cidadania em quase todos os projetos que se voltam para a compreens&atilde;o das favelas indica, a nosso ver, duas dimens&otilde;es complementares: de um lado, sua aus&ecirc;ncia vis&iacute;vel, mesmo ap&oacute;s quase 20 anos do restabelecimento da democracia no Brasil, mostrando que a democratiza&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica e social seguiu a tradi&ccedil;&atilde;o brasileira de beneficiar prioritariamente a sua elite, incluindo a&iacute; as camadas m&eacute;dias, mas que n&atilde;o chegou &agrave;s camadas populares. De outro lado, por&eacute;m, essa aus&ecirc;ncia &eacute; cada vez mais tematizada, j&aacute; que limita as liberdades b&aacute;sicas dessa elite, que se v&ecirc; coagida pela presen&ccedil;a envolvente das favelas e, principalmente, da viol&ecirc;ncia, que hoje escapa dos limites das comunidades populares e chega ao asfalto.&rdquo; <\/p>\n<p>Assim, nesses discursos, a cidadania aparece, ou reaparece, como algo a ser doado &ldquo;por uma elite iluminista, que vai &agrave; favela com seus projetos emancipat&oacute;rios prontos e n&atilde;o v&ecirc; o morador de espa&ccedil;os populares como um parceiro social, mas sim como algu&eacute;m a ser trazido para o mundo da civiliza&ccedil;&atilde;o, da cidade e seus valores. Sendo assim, um projeto de cidadania que n&atilde;o reconhece nas estrat&eacute;gias e nos estilos de vida desenvolvidos nas favelas nada de positivo&rdquo;, afirma.<\/p>\n<p>Existe&nbsp;uma desqualifica&ccedil;&atilde;o moral do outro, daquele que &eacute; diferente, no sentido de n&atilde;o repartir necessariamente os valores burgueses dominantes, traduzindo-se numa vis&atilde;o sobre os pobres em geral e os favelados em especial. Isso enfatiza dois lados: o da car&ecirc;ncia, onde s&atilde;o vistos como &ldquo;coitadinhos&rdquo;, logo inferiores; ou o &ldquo;potencialmente criminoso&rdquo;, que acha que o morador da favela tem mais tend&ecirc;ncia a ingressar no crime.<\/p>\n<p>De sua parte, o poder p&uacute;blico se apresenta de forma diferenciada diante do cidad&atilde;o morador das favelas e daquele que habita a &ldquo;cidade formal&rdquo;. A discrimina&ccedil;&atilde;o aparece at&eacute; nos projetos urban&iacute;sticos, ecol&oacute;gicos e sociais. N&atilde;o se limpam pra&ccedil;as de favelas com o mesmo empenho que s&atilde;o limpas as pra&ccedil;as da zona sul, e a pol&iacute;cia age de forma totalmente diferente nos bairros nobres e nas favelas.<\/p>\n<p>H&aacute;, na verdade, diversos graus de cidadania experimentados por quem ocupa posi&ccedil;&otilde;es assim&eacute;tricas no territ&oacute;rio da cidade. Mas &eacute; importante destacar que, muitas vezes, a favela representa um projeto de cidade mais humano. Tomemos como exemplo a alta sociabilidade vista nas comunidades populares, onde quase todos os vizinhos se falam, onde h&aacute; mais solidariedade nos momentos de dificuldade. Muitos economistas costumam se referir a essas comunidades como de &ldquo;baixa renda&rdquo;. Pergunto: por que insistir em defini-las sempre pelo negativo, pelo que n&atilde;o t&ecirc;m, por que n&atilde;o se referir a elas como comunidades de alta sociabilidade? A favela tem muito a dizer &agrave; cidade, basta ter abertura intelectual e afetiva para perceber isso. <\/p>\n<p>Talvez por isso, os moradores das favelas cariocas teimem em n&atilde;o integrar uma &lsquo;cidade partida&rsquo; e comungam in&uacute;meras vezes os mesmos espa&ccedil;os da classe m&eacute;dia formal. Para Di&oacute;genes Pinheiro, isso ocorre, por exemplo, nas festas. H&aacute; uma voca&ccedil;&atilde;o para a felicidade nesta cidade que &eacute; &uacute;nica: a praia, a sensualidade, a beleza est&atilde;o presentes e s&atilde;o pontos de encontro entre o morro e o asfalto. Os jovens, nas suas m&uacute;ltiplas tribos, s&atilde;o tamb&eacute;m um canal forte de liga&ccedil;&atilde;o entre realidades e grupos diversos. <\/p>\n<p>Hoje, as comunidades populares s&atilde;o palco de in&uacute;meros movimentos e de diversas interven&ccedil;&otilde;es, seja de grupos locais, do Estado ou de organiza&ccedil;&otilde;es n&atilde;o-governamentais, todos voltados para atender suas principais demandas. No entanto, muitos projetos urbanos desconhecem que as comunidades querem ter atendidas as demandas de primeira, segunda e terceira ordem. Como necessidades de primeira ordem est&atilde;o a habita&ccedil;&atilde;o, &aacute;gua, luz e o saneamento, seguidas de sa&uacute;de, educa&ccedil;&atilde;o e direitos. Finalmente, v&ecirc;m as quest&otilde;es de g&ecirc;nero, racial, de identidades.<\/p>\n<p>&ldquo;S&oacute; um projeto articulado pode promover mudan&ccedil;as efetivas.&rdquo; Dentro desse esp&iacute;rito, o projeto da Escola de Fot&oacute;grafos Populares funciona com 4 horas de aulas di&aacute;rias. &Eacute; fotografia de segunda a sexta-feira. Diferentemente de v&aacute;rios outros cursos, a escola substituiu o laborat&oacute;rio tradicional pelo ensino, por exemplo, da utiliza&ccedil;&atilde;o do software Photoshop e suas formas de tratamento de imagem, al&eacute;m do manuseio de programas de gerenciamento de banco de imagens. Dessa forma, os fot&oacute;grafos que se formam e optam pelo documental podem colocar a edi&ccedil;&atilde;o de seus trabalhos na ag&ecirc;ncia Imagens do Povo.<\/p>\n<p>A Ag&ecirc;ncia Escola de Fot&oacute;grafos Populares pretende trabalhar para que a fotografia seja um instrumento de arte, informa&ccedil;&atilde;o e de forma&ccedil;&atilde;o colocado a servi&ccedil;o do resgate da dignidade das classes populares e da amplia&ccedil;&atilde;o dos direitos humanos. Trabalha com alunos vindos de v&aacute;rias comunidades e favelas. Tem tamb&eacute;m alguns estudantes da UFF (Universidade Federal Fluminense) e da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro). Esse interc&acirc;mbio &eacute; fundamental. <\/p>\n<p>O projeto parte da ideia de que democratizar a fotografia &eacute; derramar um olhar humano sobre a sociedade. Isso ser&aacute; feito atrav&eacute;s da produ&ccedil;&atilde;o e da difus&atilde;o de imagens da realidade brasileira, especialmente das popula&ccedil;&otilde;es mais pobres que vivem nas periferias das grandes cidades, a partir do olhar dos pr&oacute;prios moradores desses espa&ccedil;os.<\/p>\n<p><strong>Direitos humanos<\/strong><\/p>\n<p>O sensacionalismo, a pobreza e a viol&ecirc;ncia que caracterizam o olhar tradicional sobre as comunidades populares est&atilde;o longe de dar conta da riqueza da experi&ecirc;ncia cotidiana vivida nesses espa&ccedil;os. Cabe, portanto, enfatizar tamb&eacute;m os sentimentos, os sonhos, o trabalho, o lazer, a divers&atilde;o, a dor e a alegria. Enfim, a capacidade que as classes populares demonstram, cotidianamente, de resistir e persistir, de fazer da vida uma arte marcada por culturas e pr&aacute;ticas diversas, mas que t&ecirc;m em comum a dignidade e a solidariedade. <\/p>\n<p>O pano de fundo do projeto &eacute; discutir na sociedade e, principalmente, entre os moradores dos territ&oacute;rios populares, a comunica&ccedil;&atilde;o e, portanto, a fotografia como um direito humano fundamental. Como diz o artigo 19 da Declara&ccedil;&atilde;o Universal dos Direitos Humanos, todas as pessoas t&ecirc;m o direito de investigar a informa&ccedil;&atilde;o que desejam e de divulg&aacute;-la, sem sofrer censura, usando para isso de quaisquer meios.<\/p>\n<p>Falamos, portanto, de dois grandes direitos: um universal e um individual, de todas as pessoas exercerem a comunica&ccedil;&atilde;o, e o outro dos jornalistas profissionais. Um direito n&atilde;o pode ser censor do outro. Principalmente quando a comunica&ccedil;&atilde;o contribui para estigmatizar e aumentar a viol&ecirc;ncia nas favelas, nas &aacute;reas rurais e ind&iacute;genas, nos espa&ccedil;os quilombolas. As comunidades t&ecirc;m de parir a pr&oacute;pria comunica&ccedil;&atilde;o para que sejam conhecidas em sua ess&ecirc;ncia. Afinal, se n&atilde;o se divulga, se n&atilde;o se mostra, n&atilde;o se existe no conhecimento e no imagin&aacute;rio popular. Vivemos um momento em que a beleza das favelas, das comunidades rurais, dos sem-terra, dos quilombolas e dos &iacute;ndios est&aacute; censurada, n&atilde;o &eacute; mostrada.<\/p>\n<p>Mostrar o belo dessas pessoas e o bonito de suas lutas, para ajudar a sociedade dominante e a classe m&eacute;dia a olhar com os &oacute;culos da dimens&atilde;o da inclus&atilde;o, da beleza e do fazer, &eacute; t&atilde;o revolucion&aacute;rio quando denunciar as injusti&ccedil;as que esse povo sofre. A segrega&ccedil;&atilde;o come&ccedil;a na proibi&ccedil;&atilde;o de se mostrar o belo, a dignidade, a solidariedade, a vida em sua ess&ecirc;ncia.<\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0cm\" class=\"padrao\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0cm\" class=\"western\"> \t<!-- \t\t@page { margin: 2cm } \t\tP { margin-bottom: 0.21cm } \t--> \t <\/p>\n<p style=\"line-height: 0.45cm\" class=\"padrao\"><em>* Jo&atilde;o Roberto Ripper &eacute; idealizador do Projeto Ag&ecirc;ncia-Escola Imagens do Povo.<\/em><\/p>\n<p> &nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p> \t<!-- \t\t@page { margin: 2cm } \t\tP { margin-bottom: 0.21cm } \t--> \t <\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0cm\" class=\"padrao\">O sensacionalismo, a pobreza e a viol&ecirc;ncia que caracterizam o olhar sobre as comunidades populares est&atilde;o longe de dar conta da riqueza da experi&ecirc;ncia vivida nesses espa&ccedil;os<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[42],"tags":[724],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/24243"}],"collection":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=24243"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/24243\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=24243"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=24243"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=24243"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}