{"id":24212,"date":"2010-04-07T15:37:02","date_gmt":"2010-04-07T15:37:02","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=24212"},"modified":"2010-04-07T15:37:02","modified_gmt":"2010-04-07T15:37:02","slug":"a-propaganda-com-medo-da-lei","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=24212","title":{"rendered":"A propaganda com medo da lei"},"content":{"rendered":"<p>   \t \t \t \t \t<!-- \t\t@page { margin: 2cm } \t\tP { margin-bottom: 0.21cm } \t--> \t  <\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0cm\" class=\"padrao\">An&uacute;ncio de p&aacute;gina inteira publicado nos jornal&otilde;es brasileiros, no dia 6\/4, exalta os supostos benef&iacute;cios da propaganda. Assinado por entidades de anunciantes e de ag&ecirc;ncias de publicidade ele tenta reagir &agrave;s iniciativas em favor da exist&ecirc;ncia de um controle p&uacute;blico sobre a propaganda. Trata-se de uma vit&oacute;ria dos movimentos sociais e das entidades empenhadas na luta por uma regula&ccedil;&atilde;o mais r&iacute;gida sobre essa atividade. Mostra, pelo menos, que elas come&ccedil;am a incomodar quem se julgava intoc&aacute;vel.<\/p>\n<p>N&atilde;o fossem a&ccedil;&otilde;es como as do Instituto Alana, com o seu projeto &ldquo;Crian&ccedil;a e Consumo&rdquo;, por exemplo, e os publicit&aacute;rios jamais deixariam de lado o atendimento de suas ricas contas para preparar e publicar um texto incrivelmente enganoso, ali&aacute;s como muitas de suas pe&ccedil;as publicit&aacute;rias. <\/p>\n<p>Depois de exaltarem a import&acirc;ncia da propaganda na disputa pelo mercado chegam a uma conclus&atilde;o in&eacute;dita: &ldquo;a grande maioria das pessoas gosta de propaganda&rdquo;. N&atilde;o dizem de onde tiraram tal conclus&atilde;o. De que pesquisa sa&iacute;ram os dados para sustentar afirmativa t&atilde;o cabal. &Eacute; s&oacute; mais um slogan, t&atilde;o a gosto do meio.<\/p>\n<p>Mas n&atilde;o ficam por a&iacute;. No final do texto est&aacute; a resposta ao Instituto Alana e aos parlamentares comprometidos com uma legisla&ccedil;&atilde;o mais moderna para o setor. Diz o an&uacute;ncio: &ldquo;E quando algu&eacute;m n&atilde;o gosta (da propaganda), faz o &oacute;bvio: muda de canal na hora do intervalo, troca a esta&ccedil;&atilde;o de r&aacute;dio, deixa de ler o an&uacute;ncio publicado no jornal&rdquo;. Simples, n&atilde;o? Ou simplista demais?<\/p>\n<p>Claro que quem escreveu esse texto sabe que isso n&atilde;o &eacute; verdade. Eles mesmos produzem os merchandisings que campeiam &agrave; solta nas novelas, programas de audit&oacute;rio, transmiss&otilde;es esportivas e s&atilde;o veiculados de forma a impossibilitar a tal mudan&ccedil;a de canal na hora do an&uacute;ncio. Sabem tamb&eacute;m que ningu&eacute;m vai girar o bot&atilde;o do r&aacute;dio quando come&ccedil;a um comercial que o ouvinte, obviamente, nem sabe ainda do que se trata. E &eacute; dif&iacute;cil fechar os olhos para uma p&aacute;gina inteira de jornal como essa publicada sob o patroc&iacute;nio das entidades das ag&ecirc;ncias de propaganda e dos anunciantes.<\/p>\n<p>Afinal a miss&atilde;o desses profissionais &eacute; fazer de tudo para que o telespectador, o ouvinte e o leitor n&atilde;o desgrudem da mensagem e introjetem o seu conte&uacute;do. &Eacute; um contra-senso pedir para que eles fujam de algo embalado pelos publicit&aacute;rios para conquist&aacute;-los. Em novela recente, em meio &agrave; fantasia, a madame entra no carro novo sob o olhar de cobi&ccedil;a da empregada e ressalta, entre as v&aacute;rias qualidades do ve&iacute;culo, o fato de ele ter o piso alto, ficando imune &agrave;s enchentes. Focalizava-se com destaque a marca do carro e passava-se a mensagem de que, com ele, o problema social das enchentes estaria resolvido. Individualmente, para quem pudesse comprar o tal carro. Aos demais a lama ou o afogamento.<\/p>\n<p>Mas voltando ao an&uacute;ncio publicado nos jornais. A frase final, referindo-se a possibilidade de mudar de canal, de emissora ou de p&aacute;gina, &eacute; primorosa: &ldquo;&Eacute; impress&atilde;o nossa ou isso &eacute; o direito de escolha levado a s&eacute;rio?&rdquo;. Direito de escolha? Escolher entre o que? Entre emissoras que transmitem programas iguais, veiculam os mesmos an&uacute;ncios e n&atilde;o d&atilde;o nenhuma alternativa aos h&aacute;bitos consumistas, individualistas e anti-sociais? E mais, que violam a lei sem cerim&ocirc;nia ao ultrapassar o limite m&aacute;ximo de 25% da programa&ccedil;&atilde;o permitidos para propaganda no r&aacute;dio e na TV. Com a coniv&ecirc;ncia silenciosa de ag&ecirc;ncias e anunciantes. <\/p>\n<p>Quando dirigida &agrave;s crian&ccedil;as, os efeitos da publicidade tornam-se ainda mais perversos. A presidente do Instituto Alana, Ana Lucia Vilela, conta que at&eacute; em &aacute;reas carentes de cidades como S&atilde;o Paulo j&aacute; &eacute; poss&iacute;vel perceber esse fen&ocirc;meno. A partir de um projeto social desenvolvido pela institui&ccedil;&atilde;o na zona leste da cidade constatou-se que &ldquo;crian&ccedil;as cujas fam&iacute;lias dependem de cestas b&aacute;sicas n&atilde;o saem de casa sem passar batom. Que acham que a maior felicidade do mundo &eacute; ter cabelos longos e loiros iguais aos da Barbie. Meninas que vestem micro-saias e ficam gr&aacute;vidas na adolesc&ecirc;ncia. Meninos que insultam mulheres e tomam cerveja. M&atilde;es que, depois de muito choro e muita insist&ecirc;ncia dos filhos, gastam todo seu dinheiro para comprar um boneco Power Ranger. Filhos que depois de ganhar um Power Ranger, brincam dois dias, abandonam o boneco e come&ccedil;am a pedir a pr&oacute;xima novidade anunciada na televis&atilde;o. Ou ainda garotos que falam que agora sim os pais podem comprar tudo o que querem porque determinado banco oferece cr&eacute;dito acompanhado de alguns bonequinhos de brinde. Crian&ccedil;as e adolescentes brasileiros repetindo diariamente o nome de in&uacute;meras marcas, que algumas vezes est&atilde;o entre as dez primeiras palavras de seu rec&eacute;m-formado vocabul&aacute;rio&rdquo;.<\/p>\n<p>Diz ainda que &ldquo;do Rio Grande do Sul ao Amap&aacute;, das periferias dos grandes centros urbanos ao interior da Bahia, eles querem se vestir e comer da mesma forma. Querem marcas &ndash; usar o t&ecirc;nis Nike, comer Fandangos e ter a mochila da Hello Kitty. Preferem n&atilde;o ir &agrave; praia ou ao campo porque sabem que l&aacute; n&atilde;o encontrar&atilde;o tev&ecirc; ou videogame. Trocam o suco de mexerica por Coca-Cola, e arroz, feij&atilde;o e couve, por Big Mac com batata frita&rdquo;.<\/p>\n<p>Para Ana Lucia &ldquo;os pais n&atilde;o s&atilde;o os &uacute;nicos respons&aacute;veis pelos filhos que n&atilde;o param de pedir produtos vistos na tev&ecirc;, que s&atilde;o obesos, sexualmente precoces ou com comportamentos violentos. A responsabilidade maior est&aacute; nas empresas e ag&ecirc;ncias de publicidade que apostam no mercado infantil, procurando a vulnerabilidade de cada faixa et&aacute;ria da inf&acirc;ncia e adolesc&ecirc;ncia para criar consumidores fi&eacute;is: as crian&ccedil;as de consumo&rdquo;.<\/p>\n<p>O an&uacute;ncio dos publicit&aacute;rios e dos anunciantes publicado nos grandes jornais &eacute; uma rea&ccedil;&atilde;o &agrave; den&uacute;ncias como essa, aos projetos de lei tramitando no Congresso para por limites nessa farra e ao aumento das pesquisas cient&iacute;ficas mostrando os males da propaganda. Rea&ccedil;&atilde;o de quem se acha acuado e percebe que o tempo dos privil&eacute;gios est&aacute; acabando.<\/p>\n<p><em>* Laurindo Lalo Leal Filho, soci&oacute;logo e jornalista, &eacute; professor de Jornalismo da ECA-USP. &Eacute; autor, entre outros, de &ldquo;A TV sob controle &ndash; A resposta da sociedade ao poder da televis&atilde;o&rdquo; (Summus Editorial).<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Com an&uacute;ncio de p&aacute;gina inteira nos jornais, anunciantes e ag&ecirc;ncias de publicidade reagem &agrave;s iniciativas em favor da exist&ecirc;ncia de um controle p&uacute;blico sobre a propaganda<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[42],"tags":[144],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/24212"}],"collection":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=24212"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/24212\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=24212"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=24212"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=24212"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}