{"id":24169,"date":"2010-03-26T16:29:07","date_gmt":"2010-03-26T16:29:07","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=24169"},"modified":"2010-03-26T16:29:07","modified_gmt":"2010-03-26T16:29:07","slug":"a-quem-interessa-um-jornalismo-fraturado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=24169","title":{"rendered":"A quem interessa um jornalismo fraturado?"},"content":{"rendered":"<p> \t \t \t \t<!-- \t\t@page { margin: 2cm } \t\tP { margin-bottom: 0.21cm } \t--> \t  <\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0cm\" class=\"padrao\">Enganou-se redondamente quem pensava que uma decis&atilde;o do Supremo Tribunal Federal (STF) resolvesse por completo as quest&otilde;es mais importantes do jornalismo como profiss&atilde;o. A senten&ccedil;a que fez cair a obrigatoriedade do diploma na &aacute;rea para a obten&ccedil;&atilde;o de registro profissional n&atilde;o sepultou a quest&atilde;o, e s&oacute; permitiu mais visibilidade &agrave;s muitas fraturas que ajudam a compor essa combalida categoria. Hoje, passados oito meses do veredicto do STF, as fissuras s&atilde;o tantas que nem mesmo as entidades que poderiam atuar como pontos de aglutina&ccedil;&atilde;o conseguem algum sucesso.<\/p>\n<p>Talvez em poucos momentos os jornalistas tenham estado t&atilde;o desunidos e divergentes&#8230;<\/p>\n<p>A Federa&ccedil;&atilde;o Nacional dos Jornalistas (Fenaj) lidera uma campanha pela valoriza&ccedil;&atilde;o da forma&ccedil;&atilde;o profissional e orienta seus 31 sindicatos filiados a trabalharem nesse sentido. Os sindicatos aquiescem e fazem figurar banners em seus websites, enaltecendo a import&acirc;ncia dessa forma&ccedil;&atilde;o. No entanto, j&aacute; h&aacute; sinais evidentes de que h&aacute; furos no barco. O Sindicato dos Jornalistas de Santa Catarina, por exemplo, j&aacute; admite a sindicaliza&ccedil;&atilde;o de n&atilde;o-diplomados. O Sindicato de S&atilde;o Paulo sinaliza que pode fazer o mesmo, e deve decidir sobre isso no dia 1&ordm; de abril. No Esp&iacute;rito Santo, o sindicato n&atilde;o aceitou a proposta e se nega a receber n&atilde;o diplomados entre os seus quadros.<\/p>\n<p>No caso catarinense, a decis&atilde;o &eacute; altamente contest&aacute;vel, j&aacute; que o assunto n&atilde;o passou pelo crivo da categoria em assembleia, tendo sido discutido s&oacute; entre os diretores. Este &eacute; um tema pol&iacute;tico ou administrativo? &Eacute; uma decis&atilde;o cartorial que se move por consequentes dividendos de novos filiados ou &eacute; um movimento pol&iacute;tico para fragilizar a presid&ecirc;ncia da Fenaj, exercida pelo tamb&eacute;m catarinense S&eacute;rgio Murillo de Andrade? Dif&iacute;cil responder, j&aacute; que as decis&otilde;es dessa diretoria s&atilde;o t&atilde;o transparentes&#8230;<\/p>\n<p><strong>A confus&atilde;o se espalha<\/strong><\/p>\n<p>Mas a fragmenta&ccedil;&atilde;o no campo do jornalismo vai para al&eacute;m do movimento classista. Em diversos estados, as incertezas s&atilde;o tantas que se corre de um lado para o outro. A Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul, por exemplo, aprovou projeto de lei que obriga jornalistas que servem em &oacute;rg&atilde;os p&uacute;blicos estaduais a terem diplomas na &aacute;rea. Em Roraima, projeto semelhante foi aprovado na Assembleia. No Amazonas, os deputados estaduais vetaram projeto do tipo, e em Mato Grosso do Sul, a Comiss&atilde;o de Constitui&ccedil;&atilde;o, Justi&ccedil;a e Reda&ccedil;&atilde;o da assembleia local deu sinal verde para a tramita&ccedil;&atilde;o de um projeto de lei an&aacute;logo.<\/p>\n<p>H&aacute; projetos de emendas constitucionais que resgatam a obrigatoriedade do diploma tramitando na C&acirc;mara Federal e no Senado. H&aacute; divis&otilde;es cada vez mais evidentes na categoria. H&aacute; diverg&ecirc;ncias entre as unidades sindicais. H&aacute; cursos de Jornalismo fechando no pa&iacute;s. Essas circunst&acirc;ncias ajudam a compor um cen&aacute;rio complexo e emblem&aacute;tico na hist&oacute;ria da consolida&ccedil;&atilde;o do jornalismo como uma profiss&atilde;o. &Eacute; evidente que a falta de unidade fragiliza a categoria e n&atilde;o ajuda a sociedade a melhor compreender o jornalismo, sua natureza e suas atribui&ccedil;&otilde;es. &Eacute; evidente tamb&eacute;m que h&aacute; flagrantes choques de interesses dentro e fora da categoria. H&aacute; quem adore ver o circo pegar fogo. Pior: h&aacute; quem ache que se beneficia com isso. Mas ningu&eacute;m lucra com um jornalismo fragmentado. Nem mesmo a classe empresarial, que poderia colher frutos com uma categoria dividida.<\/p>\n<p>Numa l&oacute;gica imediatista, os empregadores podem ganhar mais for&ccedil;a nas negocia&ccedil;&otilde;es trabalhistas, pois enfrentariam oponentes em frangalhos. Mas numa l&oacute;gica mais perene, apostar na deteriora&ccedil;&atilde;o da profiss&atilde;o &eacute; contribuir para o enfraquecimento do jornalismo como neg&oacute;cio e como atividade social. Sem auto-estima, sem contornos profissionais bem definidos, sem profissionais que nele acreditem, o jornalismo vai mal. Se se apresenta hesitante, o jornalismo n&atilde;o serve &agrave; sociedade, n&atilde;o interessa ao cidad&atilde;o comum e, portanto, n&atilde;o encontra meios de se sustentar como pr&aacute;tica de neg&oacute;cios.<\/p>\n<p><strong>E a sa&iacute;da?<\/strong><\/p>\n<p>Apostar no ocaso do jornalismo, no emba&ccedil;amento das fronteiras entre a profissionalidade e o amadorismo, e na fragmenta&ccedil;&atilde;o dos profissionais que dele vivem, volto a dizer, n&atilde;o beneficia a ningu&eacute;m. Nesta guerra, n&atilde;o h&aacute; vencedores no seu final.<\/p>\n<p>Onde est&aacute; a luz no fim do t&uacute;nel? Na busca razo&aacute;vel por redefini&ccedil;&otilde;es para o jornalismo. A decis&atilde;o do STF &eacute; uma solu&ccedil;&atilde;o jur&iacute;dica para um impasse permanente na &aacute;rea. Mas essa sa&iacute;da jur&iacute;dica n&atilde;o resolveu os problemas da categoria, s&oacute; precipitou mais disson&acirc;ncia e incerteza. Se aprovadas, as propostas de emenda constitucional podem ressuscitar a exig&ecirc;ncia do diploma, mas n&atilde;o v&atilde;o enterrar a discuss&atilde;o em torno da qualidade da forma&ccedil;&atilde;o desses profissionais, da sua necessidade e da sua efetiva colabora&ccedil;&atilde;o para um jornalismo melhor. Se aprovada, uma PEC dessas &eacute; mais uma solu&ccedil;&atilde;o legal, mas n&atilde;o total.<\/p>\n<p>A meu ver, a solu&ccedil;&atilde;o total conjuga esfor&ccedil;os jur&iacute;dicos, de marcos regulat&oacute;rios, mas tamb&eacute;m culturais e pol&iacute;ticos. &Eacute; necess&aacute;rio discutir e discutir e discutir o que constitui o jornalismo hoje nas sociedades complexas. &Eacute; necess&aacute;rio repensar fun&ccedil;&otilde;es sociais e pol&iacute;ticas para o jornalismo no jogo da contemporaneidade. &Eacute; inadi&aacute;vel enfrentar a crise de identidade (e n&atilde;o financeira) do jornalismo. Sem isso, estaremos apenas adiando. Como quem deixa para a edi&ccedil;&atilde;o de amanh&atilde; a pauta de hoje&hellip;<\/p>\n<p><em>* Rog&eacute;rio Christofoletti &eacute; jornalista, professor da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC)<\/em>.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Enganou-se redondamente quem pensava que uma decis&atilde;o do STF resolvesse por completo as quest&otilde;es mais importantes do jornalismo como profiss&atilde;o<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[42],"tags":[1281],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/24169"}],"collection":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=24169"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/24169\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=24169"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=24169"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=24169"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}