{"id":24134,"date":"2010-03-23T16:58:48","date_gmt":"2010-03-23T16:58:48","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=24134"},"modified":"2014-09-07T02:59:39","modified_gmt":"2014-09-07T02:59:39","slug":"autorregulacao-nao-protege-criancas-dos-efeitos-da-publicidade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=24134","title":{"rendered":"Autorregula\u00e7\u00e3o n\u00e3o protege crian\u00e7as dos efeitos da publicidade"},"content":{"rendered":"<p>   \t \t \t \t \t<!-- \t\t@page { margin: 2cm } \t\tP { margin-bottom: 0.21cm } \t--> \t   <\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0cm\" class=\"padrao\">Nenhuma experi&ecirc;ncia de autorregula&ccedil;&atilde;o da publicidade foi ou ser&aacute; suficiente para proteger as crian&ccedil;as da influ&ecirc;ncia do incentivo ao consumo exagerado ou desregrado. Seja por funcionar como pilar do capitalismo e da competi&ccedil;&atilde;o pelo mercado que o caracteriza, seja por impactar profundamente a inf&acirc;ncia, a publicidade voltada para as crian&ccedil;as precisa ser regulada por leis e fiscalizada pelo Estado.<\/p>\n<p>A defesa veemente da regula&ccedil;&atilde;o da publicidade infantil foi feita por dois especialistas que analisam o tema na maior economia de mercado do mundo, os Estados Unidos. Para o professor em&eacute;rito da <em>Rutgers University<\/em>, Benjamin Barber, a insufici&ecirc;ncia da &ldquo;solu&ccedil;&atilde;o de mercado&rdquo; &eacute;, basicamente, uma quest&atilde;o da natureza da publicidade. &ldquo;O capitalismo n&atilde;o vai se autorregular. Ele tem que se regular pelas leis&quot;, afirmou. <\/p>\n<p>J&aacute; a psic&oacute;loga da <em>Harvard Medical School<\/em> Susan Linn chamou a aten&ccedil;&atilde;o para o desequil&iacute;brio entre a for&ccedil;a da publicidade e a capacidade dos pais protegerem seus filhos. Susan destacou que os gastos com publicidade infantil nos Estados Unidos somam US$ 17 bilh&otilde;es. Al&eacute;m disso, este mercado conta com um verdadeiro ex&eacute;rcito de psic&oacute;logos, soci&oacute;logos e publicit&aacute;rios pesquisando como tornar as crian&ccedil;as cada vez mais vulner&aacute;veis para o consumo. <\/p>\n<p>Segundo Susan, este setor trabalha para que todas as horas do dia das crian&ccedil;as estejam relacionadas com algum logo ou nome. &ldquo;Nem na hora de dormir elas tem sossego. &Eacute; a cama do Homem Aranha, o abajur da Ciderela&#8230;&rdquo;, exemplificou. Apesar disso, o pr&oacute;prio setor, quando questionado, joga a responsabilidade das a&ccedil;&otilde;es das crian&ccedil;as para os pais, como se fosse poss&iacute;vel eles, sozinhos, fazerem frente a este aparato.<\/p>\n<p>Benjamin, autor de &ldquo;Consumido &#8211; Como o mercado corrompe Crian&ccedil;as, Infantiliza Adultos e Engole Cidad&atilde;os&rdquo;, e Linn estiveram no Brasil como convidados do 3&ordm; F&oacute;rum Internacional Crian&ccedil;a e Consumo organizado pelo Instituto Alana. Ambos destacaram exemplos de como a publicidade impacta a vida das crian&ccedil;as nos Estados Unidos, onde, em tese, vigora a autorregula&ccedil;&atilde;o de mercado para a publicidade infantil.<\/p>\n<p>O professor lembrou que, nos Estados Unidos, &ldquo;regularam as empresas de cigarros, mas faltou regular todas as outras&rdquo;. Ainda assim, seu pa&iacute;s natal registra casos bizarros como o de Joe Camel, personagem da marca de cigarros hom&ocirc;nima que ficou t&atilde;o conhecido entre as crian&ccedil;as dos anos 90 quanto Mickey Mouse e Fred Flinstone.<\/p>\n<p><strong>O peso da publicidade<\/strong><\/p>\n<p>Para Susan, h&aacute; provas de que a autorregula&ccedil;&atilde;o n&atilde;o funciona. Ela citou o exemplo da ind&uacute;stria aliment&iacute;cia, que h&aacute; anos afirma que pode se autorregular, mas os n&uacute;meros de obesidade infantil s&oacute; aumentam. &ldquo;As crian&ccedil;as ainda s&atilde;o influenciadas e continuam engordando&rdquo;, afirma a psic&oacute;loga. <\/p>\n<p>Um estudo citado por Susan, feito por uma pesquisadora da Stanford University, consistia em dar a mesma comida para crian&ccedil;as, mas com embalagens diferentes. O resultado: as crian&ccedil;as afirmavam que aqueles lanches embalados como &ldquo;McDonald&#39;s&rdquo; tinham gosto melhor. Para a psic&oacute;loga, isso prova que o poder da publicidade &eacute; t&atilde;o forte que influencia at&eacute; a maneira como sentimos o gosto da comida. Por isso, nenhuma autorregula&ccedil;&atilde;o &eacute; poss&iacute;vel e a solu&ccedil;&atilde;o &eacute; radical: n&atilde;o pode haver publicidade dirigida a um p&uacute;blico inexperiente e ainda sem capacidade cr&iacute;tica. &ldquo;N&atilde;o h&aacute; justificativa moral para isso. &Eacute; quest&atilde;o de sa&uacute;de publica.&rdquo;<\/p>\n<p>Outro exemplo lembrado por Susan foi a experi&ecirc;ncia de autorregula&ccedil;&atilde;o da Kellog&#39;s. A empresa colocou tabelas nutricionais nas embalagens, uma medida t&iacute;mida perto dos coloridos e efusivos comerciais que ligam personagens e estilos de vida &agrave; comida industrializada. &ldquo;Muitos produtos tem promo&ccedil;&atilde;o com algum filme. As companhias usam desenhos, personagens e celebridades para promover a comida. Um estudo mostrou que isso afeta muito as crian&ccedil;as. Elas adoram os personagens, e eles s&atilde;o influ&ecirc;ncias poderosas&rdquo;, comentou. <\/p>\n<p>Ainda segundo Susan, estudos apontam que as comidas e redes que mais buscam associar seus produtos a eventos e produtos culturais s&atilde;o, justamente, aquelas que produzem alimentos que s&atilde;o considerados desaconselh&aacute;veis para crian&ccedil;as. Acrescentando, Benjamin informou que 50% dos cidad&atilde;os estadunidenses est&aacute; acima do peso ou obeso. <\/p>\n<p>Susan afirmou diversas vezes que a culpa e o problema n&atilde;o se restringe aos pais, mas &agrave; toda a sociedade e modo como nos organizamos. &ldquo;&Eacute; importante lembrar que n&atilde;o &eacute; como quando &eacute;ramos crian&ccedil;as. Os pais tem que fazer algumas coisas, mas eles precisam de ajuda&rdquo;, resumiu a psic&oacute;loga. <\/p>\n<p>Pesquisa encomendada ao instituto Datafolha pelo projeto Crian&ccedil;a e Consumo, do Instituto Alana, mostrou que os pais s&atilde;o muito influenciados pelos filhos para a compra de alguns produtos, inclusive comida. E que quanto mais nova a crian&ccedil;a, mais ela pede os produtos apresentados nos comerciais. O levantamento foi realizado na cidade de S&atilde;o Paulo entre 22 e 23 de janeiro de 2010, ouviu 411 pais e m&atilde;es de todas as classes econ&ocirc;micas.<\/p>\n<p>A pesquisa tamb&eacute;m mostrou que um grande n&uacute;mero de fam&iacute;lias se incomoda com a &ldquo;guerra&rdquo; empreendida pelas ind&uacute;strias associadas &agrave; m&iacute;dia para ganhar as crian&ccedil;as. Os resultados do levantamento mostram que 73% dos pais concordam que deveria haver restri&ccedil;&atilde;o ao marketing e propaganda voltada &agrave;s crian&ccedil;as. Ou seja, assim como para os palestrantes do semin&aacute;rio, a batalha contra a publicidade infantil &eacute; uma luta que deve unir governo e sociedade.<\/p>\n<p><strong>Pol&iacute;tica contra a publicidade<\/p>\n<p><\/strong>Enquanto a psic&oacute;loga baseou seu ceticismo na autorregula&ccedil;&atilde;o pelo fracasso pr&aacute;tico que vem mostrando a iniciativa nos EUA, o soci&oacute;logo Benjamin justificou o crescimento da publicidade como um fator tamb&eacute;m pol&iacute;tico: &ldquo;&Eacute; o espa&ccedil;o vazio em Washington ou em Bras&iacute;lia. Proteger crian&ccedil;as n&atilde;o tem valor no nosso sistema: o mercado resolve nossos problemas, n&atilde;o precisamos de governo, nem de democracia. Nesse v&aacute;cuo as empresas crescem e ficam grandes.&rdquo;<\/p>\n<p>Seus conterr&acirc;neos, afirmou o soci&oacute;logo, se distanciaram tanto do governo que o enxergam como algo ruim, sendo que ele deveria ser a pr&oacute;pria uni&atilde;o da sociedade civil. Numa clara defesa do papel regulador do Estado, Benjamin sublinhou que esse distanciamento permitiu que at&eacute; o governo fosse colonizado pelo mercado.<\/p>\n<p>O Benjamin afirmou que o capitalismo come&ccedil;ou a focar nas crian&ccedil;as quando o mercado para os pais estava saturado. &ldquo;Hoje em dia, n&atilde;o se produz mais os bens b&aacute;sicos, produz-se necessidades&rdquo;, afirmou ainda. Nesta l&oacute;gica, &eacute; poss&iacute;vel vender celulares para crian&ccedil;as cada vez mais novas, at&eacute; beb&ecirc;s, e convencem os pais falando em seguran&ccedil;a &ldquo;mesmo que hoje em dia estejam raptando crian&ccedil;as bem menos do que nos anos 80 e elas estejam sempre acompanhadas&rdquo;. <\/p>\n<p>Sendo ainda mais duro em suas cr&iacute;ticas, Benjamin afirmou que &eacute; imposs&iacute;vel confiar ao mercado sua pr&oacute;pria autorregula&ccedil;&atilde;o porque n&atilde;o se pode esperar que ele tome a iniciativa de transmitir apenas informa&ccedil;&otilde;es que nos unam ou fosse falar a verdade sobre alimentos industrializados que nos fazem mal,. Ao contr&aacute;rio, o esperado &eacute; que prossigam em &ldquo;uma lavagem cerebral que nos convence de que precisamos de coisas que na verdade nos s&atilde;o in&uacute;teis&rdquo;. <\/p>\n<p><strong>Liberdade e limites<\/strong><\/p>\n<p>O soci&oacute;logo diz que o sistema capitalista baseado na publicidade &ldquo;colonizou a cultura, a vida privada&rdquo; e &eacute; totalit&aacute;rio, pois n&atilde;o deixa nenhuma esfera da vida humana intocada. &ldquo;Isso &eacute; teocracia. N&oacute;s dizemos que  n&atilde;o gostamos de teocracia, mas quando &eacute; comercial, publicidade, quando ela domina cada parte da vida, n&oacute;s chamamos isso de liberdade&rdquo;, ironizou.<\/p>\n<p>Nessa conjuntura, de acordo com Benjamin, &eacute; poss&iacute;vel chamar de censores os cidad&atilde;os que quererem escolher a pr&oacute;pria programa&ccedil;&atilde;o. Mas o total fracasso da autorregula&ccedil;&atilde;o refor&ccedil;a a id&eacute;ia de que o necess&aacute;rio papel da regula&ccedil;&atilde;o seja promovido pelo Estado e desempenhado pelo conjunto da sociedade. <\/p>\n<p>No Brasil, esta confus&atilde;o tem sido feita de forma proposital. A campanha neste sentido se intensificou com o debate aberto com a realiza&ccedil;&atilde;o da Confer&ecirc;ncia Nacional de Comunica&ccedil;&atilde;o a respeito das pautas apresentadas por diversos movimentos que diziam respeito ao controle social da m&iacute;dia. Tamb&eacute;m as iniciativas de regula&ccedil;&atilde;o da publicidade, inclusive o projeto de lei que tramita na C&acirc;mara dos Deputados e restringe a propaganda direcionada &agrave;s crian&ccedil;as, tem sido tachados de censura pelos propriet&aacute;rios de meios de comunica&ccedil;&atilde;o e de ag&ecirc;ncias de publicidade.<\/p>\n<p><strong>VEJA TAMB&Eacute;M:<\/strong><br \/><a href=\"http:\/\/localhost\/intervozes_direitoacomunicacao\/wordpress\/?p=24171\">Especialistas discutem estrat&eacute;gias de mercado para &quot;ganhar&quot; crian&ccedil;as<\/a> <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Especialistas apontam que participa&ccedil;&atilde;o do Estado na regula&ccedil;&atilde;o &eacute; necess&aacute;ria e urgente; pais tamb&eacute;m aprovam medidas restritivas<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[40],"tags":[1273],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/24134"}],"collection":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=24134"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/24134\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":28093,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/24134\/revisions\/28093"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=24134"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=24134"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=24134"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}