{"id":24086,"date":"2010-03-16T17:11:39","date_gmt":"2010-03-16T17:11:39","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=24086"},"modified":"2010-03-16T17:11:39","modified_gmt":"2010-03-16T17:11:39","slug":"o-globo-nega-se-a-publicar-anuncio-de-campanha-pro-cotas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=24086","title":{"rendered":"O Globo nega-se a publicar an\u00fancio de campanha pr\u00f3 cotas"},"content":{"rendered":"<p>   \t \t \t \t \t<!-- \t\t@page { margin: 2cm } \t\tP { margin-bottom: 0.21cm } \t--> \t  <\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0cm\" class=\"padrao\">A negativa do jornal <em>O Globo<\/em>, no in&iacute;cio do m&ecirc;s, em publicar uma pe&ccedil;a publicit&aacute;ria da Campanha Afirme-se em defesa das a&ccedil;&otilde;es afirmativas relacionadas &agrave; quest&atilde;o racial recoloca de forma expl&iacute;cita um importante debate acerca do direito &agrave; comunica&ccedil;&atilde;o. O epis&oacute;dio estabelece uma situa&ccedil;&atilde;o de fato em que liberdade de express&atilde;o &eacute; confundida com liberdade comercial das empresas privadas de comunica&ccedil;&atilde;o. A publica&ccedil;&atilde;o, mais antigo ve&iacute;culo do maior grupo de comunica&ccedil;&atilde;o do pa&iacute;s, alega possuir uma pol&iacute;tica comercial espec&iacute;fica para o que chama &ldquo;pe&ccedil;as de opini&atilde;o&rdquo; e, por esta raz&atilde;o, teria mais que decuplicado o valor a ser cobrado pela veicula&ccedil;&atilde;o do an&uacute;ncio ao tomar conhecimento de que se tratava de uma campanha pr&oacute; cotas. <\/p>\n<p>O pesquisador s&ecirc;nior da Universidade de Bras&iacute;lia Ven&iacute;cio A. de Lima diz que este &eacute; um caso que merece ser observado a partir das diferen&ccedil;as entre liberdade de imprensa e liberdade de express&atilde;o. A primeira, na opini&atilde;o do professor, est&aacute; relacionada &agrave; prote&ccedil;&atilde;o dos interesses daqueles respons&aacute;veis pelos ve&iacute;culos de comunica&ccedil;&atilde;o e n&atilde;o deve ser confundida com a segunda, que &eacute; um direito humano e, no Brasil, constitucionalmente positivado. Lima pondera que a liberdade de express&atilde;o, no atual contexto das pr&aacute;ticas de comunica&ccedil;&atilde;o, depende da inser&ccedil;&atilde;o de opini&otilde;es diversas nos grandes ve&iacute;culos de massa. Estes, portanto, precisariam refletir n&atilde;o s&oacute; a opini&atilde;o dos seus donos. <\/p>\n<p>No caso da n&atilde;o publica&ccedil;&atilde;o do an&uacute;ncio da Afirme-se, o que est&aacute; colocado &eacute;, justamente, a utiliza&ccedil;&atilde;o de uma pol&iacute;tica comercial, justificada supostamente pelo princ&iacute;pio da liberdade de imprensa, para restringir o direito da campanha publicizar sua opini&atilde;o a favor das a&ccedil;&otilde;es afirmativas e o direito dos cidad&atilde;os de receberem informa&ccedil;&atilde;o sobre o tema desde uma perspectiva diversa da dos ve&iacute;culos das Organiza&ccedil;&otilde;es Globo. Segundo Lima, na p&aacute;gina de <em>O Globo <\/em>na internet, o jornal apresenta a tabela de pre&ccedil;os comerciais e nela est&aacute; escrito que a empresa cobra de 30% a 70% a mais em an&uacute;ncios de conte&uacute;do opinativo. Contudo, no caso em quest&atilde;o, o valor variou em aproximadamente 1300%.<\/p>\n<p>Curiosamente, a tentativa da Campanha Afirme-se publicar o an&uacute;ncio est&aacute; intimamente relacionada ao fato de os grupos a favor das a&ccedil;&otilde;es afirmativas perceberem que n&atilde;o conseguiam espa&ccedil;o editorial, ou seja, na cobertura jornal&iacute;stica regular para apresentar seu ponto de vista. Assim, por ocasi&atilde;o da audi&ecirc;ncia p&uacute;blica no Supremo Tribunal Federal (STF) que discutiria entre os dias 3, 4 e 5 de mar&ccedil;o duas a&ccedil;&otilde;es de inconstitucionalidade movidas contra a cria&ccedil;&atilde;o de cotas nas universidades p&uacute;blicas para descendentes de negros e ind&iacute;genas, a campanha resolveu fazer interven&ccedil;&otilde;es publicit&aacute;rias em jornais de grande circula&ccedil;&atilde;o nacional em defesa da constitucionalidade das leis que est&atilde;o em vigor. <\/p>\n<p>A interven&ccedil;&atilde;o publicit&aacute;ria produzida pela ag&ecirc;ncia Propeg, que tamb&eacute;m &eacute; parceira da campanha, contava basicamente com tr&ecirc;s produtos: um manifesto ilustrado que seria publicado em jornais considerados formadores de opini&atilde;o pelos organizadores da Afirme-se, um spot de r&aacute;dio e um uma vinheta, que est&atilde;o dispon&iacute;veis no blog da campanha. De acordo com Fernando Concei&ccedil;&atilde;o, um dos coordenadores da Afirme-se, as doa&ccedil;&otilde;es das entidades que fazem parte da campanha e a capta&ccedil;&atilde;o de recursos com outras organiza&ccedil;&otilde;es foram suficientes para pagar a publica&ccedil;&atilde;o do manifesto em quatro jornais de grande circula&ccedil;&atilde;o &ndash; <em>O Estado de S. Paulo<\/em>, <em>Folha de S. Paulo<\/em>, <em>A Tarde <\/em>(BA) e <em>O Globo <\/em>(RJ). &ldquo;N&oacute;s resolvemos comprar especificamente nesses ve&iacute;culos porque eles j&aacute; v&ecirc;m fazendo campanhas sistem&aacute;ticas contra as cotas h&aacute; tempos. Como n&oacute;s temos outra vis&atilde;o e n&atilde;o encontramos lugar livremente para expor um outro ponto de vista, resolvemos comprar o espa&ccedil;o&rdquo;, explica Concei&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Como &eacute; de praxe nas campanhas publicit&aacute;rias, a ag&ecirc;ncia respons&aacute;vel passou a negociar o pre&ccedil;o do an&uacute;ncio de uma p&aacute;gina inteira a ser publicado no dia 3 de mar&ccedil;o com os ve&iacute;culos selecionados. Por se tratarem de an&uacute;ncios ligados a Organiza&ccedil;&otilde;es N&atilde;o Governamentais, os pre&ccedil;os acordados ficaram em torno de R$ 50 mil. O valor exato negociado com <em>O Globo <\/em>foi or&ccedil;ado em R$ 54.163,20.<\/p>\n<p><strong>Valor impratic&aacute;vel<\/strong><\/p>\n<p>Fechados os valores, a ag&ecirc;ncia enviou a arte ao jornais. Dois dias antes da campanha ser publicada, a coordena&ccedil;&atilde;o da campanha Afirme-se foi comunicada pela ag&ecirc;ncia Propeg que o an&uacute;ncio havia sido submetido &agrave; dire&ccedil;&atilde;o editorial de <em>O Globo <\/em>e que os respons&aacute;veis julgaram que a pe&ccedil;a era &ldquo;express&atilde;o de opini&atilde;o&rdquo;. O jornal dizia que, sendo assim, o valor deixava de ser negociado anteriormente e passava para R$ 712.608,00. &ldquo;Um valor irreal, impratic&aacute;vel at&eacute; para anuncio de multinacional&rdquo;, queixa-se o coordenador da campanha.<\/p>\n<p>Procurado pela equipe do <strong>Observat&oacute;rio do Direito &agrave; Comunica&ccedil;&atilde;o<\/strong>, o jornal <em>O Globo <\/em>n&atilde;o respondeu aos pedidos de entrevista. No entanto, o diretor comercial da publica&ccedil;&atilde;o, Mario Rigon, concedeu entrevista ao portal <em>Comunique-se <\/em>ao qual disse que &nbsp;considerou a pe&ccedil;a da campanha como &ldquo;express&atilde;o de opini&atilde;o&rdquo; e diante disso, &ldquo;seguiu a pol&iacute;tica da empresa, que&nbsp;determina um valor superior para esse tipo de an&uacute;ncio&rdquo;. &ldquo;De fato vimos que se tratava de uma express&atilde;o de opini&atilde;o, mas n&atilde;o nos cabe julgar o m&eacute;rito da causa. &Eacute; a nossa pol&iacute;tica comercial, tratamos assim qualquer anunciante que queira expressar sua opini&atilde;o&rdquo;, disse Rigon ao portal.<\/p>\n<p>Este <strong>Observat&oacute;rio <\/strong>tamb&eacute;m buscou consultar o Conselho de Autorregulamenta&ccedil;&atilde;o Publicit&aacute;ria (Conar). Por interm&eacute;dio da assessoria de imprensa, o conselho adiantou que n&atilde;o tem posi&ccedil;&atilde;o sobre o caso, visto que foge do escopo da entidade se posicionar sobre a pol&iacute;tica comercial dos ve&iacute;culos.&nbsp; &ldquo;N&oacute;s n&atilde;o nos posicionamos sobre regula&ccedil;&atilde;o de m&iacute;dia exterior, atuamos exclusivamente sobre o conte&uacute;do das mensagens publicit&aacute;rias&rdquo;, disse Eduardo Correia, assessor de Imprensa do Conar. O assessor falou ainda que a entidade precisa ser provocada por processos para se posicionar sobre o conte&uacute;do de uma pe&ccedil;a e que nas quest&otilde;es de pol&iacute;tica comercial das empresas eles n&atilde;o&nbsp; devem opinar.<\/p>\n<p>Ainda analisando o caso, o pesquisador Ven&iacute;cio Lima lembra que, diante da falta de regulamenta&ccedil;&atilde;o da m&iacute;dia no Brasil, as empresas privadas, na maioria das vezes, podem agir como bem entendem e praticar os pre&ccedil;os que lhes conv&ecirc;m. Lima acredita ainda que seja prov&aacute;vel que <em>O Globo <\/em>esteja, a partir da l&oacute;gica comercial, protegido legalmente para fazer esse tipo de cobran&ccedil;a, o que &eacute; apenas &ldquo;um lado da moeda&rdquo;. <\/p>\n<p>&Eacute; fato que a liberdade comercial baseia-se na l&oacute;gica de que as normas podem ser estabelecidas pelas pr&oacute;prias empresas e que, portanto, podem causar distor&ccedil;&otilde;es quando estas se cruzam com quest&otilde;es editoriais. No caso em quest&atilde;o, fica evidente a falta de transpar&ecirc;ncia quanto aos crit&eacute;rios adotados por <em>O Globo <\/em>para considerar o an&uacute;ncio como conte&uacute;do opinativo e aplicar um valor diferenciado. Os outros tr&ecirc;s jornais que publicaram a pe&ccedil;a publicit&aacute;ria n&atilde;o tiveram a mesma compreens&atilde;o e a tabela aplicada foi a de an&uacute;ncio publicit&aacute;rio comum.<\/p>\n<p>A Afirme-se move uma a&ccedil;&atilde;o contra <em>O Globo <\/em>no Minist&eacute;rio P&uacute;blico do Rio de Janeiro por conta do epis&oacute;dio. A campanha pede que, com base no que diz a Constitui&ccedil;&atilde;o Federal com rela&ccedil;&atilde;o &agrave; liberdade de express&atilde;o, o jornal seja obrigado a publicar o an&uacute;ncio por um valor simb&oacute;lico. <\/p>\n<p>Fernando Concei&ccedil;&atilde;o defende que a atitude de <em>O Globo <\/em>foi claramente de abuso de poder econ&ocirc;mico e que se configura como dumping, pr&aacute;tica condenada pelo pr&oacute;prio mercado. &ldquo;Foi uma maneira que a dire&ccedil;&atilde;o de <em>O Globo<\/em> encontrou para cercear o direito constitucional que &eacute; a liberdade de express&atilde;o por meio do abuso do poder econ&ocirc;mico&rdquo;, denuncia Concei&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p><strong>Anticotas<\/strong><\/p>\n<p>Pesa ainda contra as Organiza&ccedil;&otilde;es Globo como um todo uma constante milit&acirc;ncia contra as a&ccedil;&otilde;es afirmativas relativas &agrave; quest&atilde;o racial, dentre elas as pol&iacute;ticas de cotas para negras e negros nas universidades p&uacute;blicas. Esta milit&acirc;ncia &eacute; liderada inclusive pelo atual diretor da Central Globo de Jornalismo, Ali Kamel. Kamel &eacute; autor do livro &ldquo;N&atilde;o somos racistas: uma rea&ccedil;&atilde;o aos que querem nos transformar numa na&ccedil;&atilde;o bicolor&rdquo;, que nega a exist&ecirc;ncia do racismo e, portanto, da necessidade de pol&iacute;ticas reparadoras.<\/p>\n<p>Pesquisa do Observat&oacute;rio Brasileiro de M&iacute;dia, citada por Venicio Lima, revela que grandes revistas e jornais brasileiros apresentam posicionamento contr&aacute;rio aos principais pontos da agenda de interesse da popula&ccedil;&atilde;o afrodescendente &ndash; a&ccedil;&otilde;es afirmativas, cotas, Estatuto da Igualdade Racial e demarca&ccedil;&atilde;o de terras quilombolas. A pesquisa analisou 972 mat&eacute;rias publicadas nos jornais <em>Folha de S.Paulo<\/em>, <em>O Estado de S.Paulo<\/em> e <em>O Globo<\/em>, e 121 nas revistas semanais <em>Veja<\/em>, <em>&Eacute;poca <\/em>e <em>Isto &Eacute; <\/em>&ndash; 1093 mat&eacute;rias, no total &ndash; ao longo de oito anos. <\/p>\n<p>Lima chama a aten&ccedil;&atilde;o para o fato de a cobertura de <em>O Globo <\/em>merecer um coment&aacute;rio &agrave; parte na pesquisa. Dentre os tr&ecirc;s jornais pesquisados, foi aquele que mais editoriais publicou sobre o tema, mantendo inalterados, ao longo dos anos, argumentos que se mostraram falaciosos, como o de que as cotas e a&ccedil;&otilde;es afirmativas iriam promover racismo e de que os alunos cotistas iriam baixar o n&iacute;vel dos cursos. <\/p>\n<p>Lembrando destes dados da pesquisa, Lima acredita que <em>O Globo <\/em>estabeleceu uma barreira comercial e que, do ponto de vista legal, eles podem estar cobertos pelos princ&iacute;pios da livre iniciativa. &ldquo;Mas, esta conduta, tendo em vista o conte&uacute;do que deixou de ser publicado, infringe o direito &agrave; informa&ccedil;&atilde;o. A quest&atilde;o que fica para o Minist&eacute;rio P&uacute;blico do Rio de Janeiro &eacute; legal. Cabe a eles encontrarem alguma forma jur&iacute;dica de pensar o caso sob o ponto de vista do direito &agrave; informa&ccedil;&atilde;o. Para mim, essa postura deixa as Organiza&ccedil;&otilde;es Globo numa situa&ccedil;&atilde;o dif&iacute;cil para posteriormente falar de liberdade de express&atilde;o&rdquo;, conclui o professor.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Epis&oacute;dio inspira debate sobre a diferen&ccedil;a e as confus&otilde;es entre liberdade de imprensa e liberdade de express&atilde;o<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[40],"tags":[933],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/24086"}],"collection":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=24086"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/24086\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=24086"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=24086"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=24086"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}