{"id":24078,"date":"2010-03-16T14:40:34","date_gmt":"2010-03-16T14:40:34","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=24078"},"modified":"2010-03-16T14:40:34","modified_gmt":"2010-03-16T14:40:34","slug":"politizando-o-jornalismo-ambiental-brasileiro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=24078","title":{"rendered":"Politizando o jornalismo ambiental brasileiro"},"content":{"rendered":"<p>   \t \t \t \t \t<!-- \t\t@page { margin: 2cm } \t\tP { margin-bottom: 0.21cm } \t--> \t  <\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0cm\" class=\"padrao\">Nesta semana, mais exatamente de 18 a 20 de mar&ccedil;o, Cuiab&aacute; vai receber jornalistas e estudiosos da tem&aacute;tica ambiental de todo o Pa&iacute;s durante a realiza&ccedil;&atilde;o do III Congresso Brasileiro de Jornalismo Ambiental, reeditando, certamente, o sucesso dos eventos anteriores, ocorridos em Santos e em Porto Alegre.<\/p>\n<p>O Congresso se insere num contexto particularmente importante porque, mais do que em qualquer outra &eacute;poca, a consci&ecirc;ncia sobre a emerg&ecirc;ncia da crise ambiental est&aacute; avan&ccedil;ando e, tamb&eacute;m mais do que em qualquer &eacute;poca, s&atilde;o necess&aacute;rias solu&ccedil;&otilde;es urgentes e esfor&ccedil;os ingentes de mobiliza&ccedil;&atilde;o planet&aacute;ria.<\/p>\n<p>O jornalismo ambiental cumpre um papel fundamental porque, se aut&ecirc;ntico, est&aacute; alinhado com o interesse p&uacute;blico, repudia alternativas meramente cosm&eacute;ticas empreendidas por governos e corpora&ccedil;&otilde;es que, apesar do discurso, insistem em consolidar modelos de desenvolvimento que se mostram incompat&iacute;veis com a sustentabilidade na verdadeira acep&ccedil;&atilde;o da palavra.<\/p>\n<p>&Eacute; evidente que cada um de n&oacute;s pode (e sobretudo deve) dar contribui&ccedil;&atilde;o para eliminar o desperd&iacute;cio crescente e irrespons&aacute;vel dos recursos naturais e que a solu&ccedil;&atilde;o efetiva para mitigar a crise ambiental em que nos metemos n&atilde;o est&aacute; apenas nas m&atilde;os de autoridades e de empresas. Todos participamos, em escala maior ou menor, deste processo predador que privilegia um modelo de consumo que compromete a sa&uacute;de do planeta. Se nada fizermos em conjunto, n&atilde;o teremos sa&iacute;da a m&eacute;dio e longo prazos, mesmo porque o problema j&aacute; &eacute; grave demais para ser sanado com medidas isoladas e de pouca monta.<\/p>\n<p>O jornalismo ambiental deve, portanto, estimular esta consci&ecirc;ncia individual e induzir os cidad&atilde;os a um mutir&atilde;o em favor da prote&ccedil;&atilde;o da biodiversidade, contra o desmatamento, o uso indiscriminado de agrot&oacute;xicos , a apropria&ccedil;&atilde;o comercial da &aacute;gua doce , o aquecimento global etc. Mas ele precisa avan&ccedil;ar al&eacute;m dos indiv&iacute;duos e denunciar os abusos cometidos por corpora&ccedil;&otilde;es nefastas e por governos omissos e trazer para o primeiro plano os interesses empresariais e pol&iacute;ticos que verdadeiramente jogam contra a natureza.<\/p>\n<p>H&aacute; em curso uma ades&atilde;o n&atilde;o cr&iacute;tica a uma postura transg&ecirc;nica que favorece as monoculturas na agricultura, mas tamb&eacute;m, como afirma Vandana Shiva, as monoculturas da mente,&nbsp; ou seja solu&ccedil;&otilde;es que apostam contra a biodiversidade e que consolidam monop&oacute;lios, como o das sementes, da agroqu&iacute;mica, dos insumos veterin&aacute;rios, dos fertilizantes e assim por diante. <\/p>\n<p>A imprensa, de maneira acr&iacute;tica, tem se curvado a fontes comprometidas que defendem, cinicamente, as vantagens dos transg&ecirc;nicos e a dispensa da rotulagem, martelando um discurso hip&oacute;crita da solu&ccedil;&atilde;o tecnol&oacute;gica para a quest&atilde;o da fome que aumenta em todo o mundo.&nbsp; A imprensa n&atilde;o tem percebido as rela&ccedil;&otilde;es de poder, o tr&aacute;fico de influ&ecirc;ncia que se manifesta em algumas esferas de decis&atilde;o e n&atilde;o consegue identificar os lobbies poderosos que atuam sobre (ou est&atilde;o dentro) da CTNBIO e se escondem em entidades aparentemente independentes, como o CIB e a ABAG, redutos dos grandes interesses empresariais.<\/p>\n<p>O jornalismo ambiental precisa desmascarar as rela&ccedil;&otilde;es esp&uacute;rias entre determinados setores da dita comunidade cient&iacute;fica e os interesses inconfess&aacute;veis da ind&uacute;stria agroqu&iacute;mica e da biotecnologia, irm&atilde;os siameses&nbsp; (voc&ecirc; nunca percebeu que as empresas de biotecnologia e as de agrot&oacute;xicos &#8211; veneno e n&atilde;o remedinho de planta &#8211; s&atilde;o as mesmas?) que avan&ccedil;am sobre a produ&ccedil;&atilde;o de alimentos, tornando-a ref&eacute;m de insumos qu&iacute;micos e de estruturas monopolistas.<\/p>\n<p>O jornalismo ambiental precisa denunciar a apropria&ccedil;&atilde;o da &aacute;gua doce pelos grandes exportadores rurais e pelos complexos industriais (a produ&ccedil;&atilde;o de um &uacute;nico carro consome um n&uacute;mero absurdo de litros de &aacute;gua, assim como a pecu&aacute;ria consome muito mais energia do que sua carne produz como resultado final). Precisa contemplar rapidamente a escalada da iniciativa privada que avan&ccedil;a sobre a produ&ccedil;&atilde;o da &aacute;gua, tentando se garantir para o futuro em detrimento das demandas dos cidad&atilde;os. Olho vivo sobretudo no avan&ccedil;o da Coca-Cola, Nestl&eacute; e da Danone e de outras empresas menos votadas.<\/p>\n<p>O jornalismo ambiental precisa deixar claro que o desmatamento da Amaz&ocirc;nia, ainda que possa estar pontualmente declinando, continua sendo obsceno e que, nesse ritmo, a floresta estar&aacute; fatalmente comprometida daqui a poucas d&eacute;cadas.<\/p>\n<p>O jornalismo ambiental precisa evidenciar o processo manipulat&oacute;rio empreendido por organiza&ccedil;&otilde;es que praticam o &quot;marketing verde&quot;, tentando utilizar o discurso ambientalista como forma de limpeza de imagem, esta hipocrisia tediosa de prometer plantio de &aacute;rvores para continuar poluindo e emporcalhando o solo, a &aacute;gua e o ar.<\/p>\n<p>O jornalismo ambiental n&atilde;o pode compactuar com bancadas de parlamentares que, a servi&ccedil;o de grandes propriet&aacute;rios rurais, se encastela no Parlamento para afrouxar a legisla&ccedil;&atilde;o ambiental e manter privil&eacute;gios que, sistematicamente, atentam contra a nossa sustentabilidade.<\/p>\n<p>O jornalismo ambiental precisa tamb&eacute;m olhar para o pr&oacute;prio umbigo para perceber que, pressionado pela sua pr&oacute;pria sobreviv&ecirc;ncia, m&iacute;dias ambientais podem estar estabelecendo parcerias que comprometem a sua independ&ecirc;ncia, acreditando que determinadas corpora&ccedil;&otilde;es estejam realmente engajadas na luta a favor do planeta.<\/p>\n<p>O jornalismo ambiental precisa assumir sua voca&ccedil;&atilde;o militante e n&atilde;o se reduzir a uma mera modalidade do jornalismo moderno, que cobre a tem&aacute;tica ambiental, mas n&atilde;o tem coragem de comprometer-se com as solu&ccedil;&otilde;es verdadeiras. O jornalismo ambiental light faz o jogo do capitalismo selvagem.<\/p>\n<p>O jornalismo ambiental precisa definitivamente andar de cabe&ccedil;a erguida, disposto a enfrentar os desafios que este momento lhe reserva. N&atilde;o pode omitir-se, despolitizar-se como se as solu&ccedil;&otilde;es n&atilde;o fossem, no fundo, de grande conte&uacute;do pol&iacute;tico (o que n&atilde;o significa partid&aacute;rio porque os nossos partidos &#8211; inclusive o PV &#8211; s&atilde;o um arremedo de representa&ccedil;&atilde;o leg&iacute;tima). Vencer a fome &eacute; antes de tudo uma decis&atilde;o pol&iacute;tica e n&atilde;o uma mera quest&atilde;o de tecnologia. <\/p>\n<p>O jornalismo ambiental precisa deixar a t&aacute;tica do band-aid e do merthiolate e incorporar a t&aacute;tica do bisturi. <\/p>\n<p>Que o Congresso de Jornalismo Ambiental recupere esta voca&ccedil;&atilde;o militante, de coragem, e que saiba propor a&ccedil;&otilde;es concretas para encaminhar o debate da quest&atilde;o ambiental. Que os colegas consigam inclusive identificar entre os patrocinadores, como a Syngenta, parceiros suspeitos que n&atilde;o t&ecirc;m uma hist&oacute;ria identificada com a biodiversidade, a sustentabilidade e a sa&uacute;de de todos n&oacute;s. Ser&aacute; que ningu&eacute;m se lembra de&nbsp; que a Syngenta &eacute; fruto da fus&atilde;o da Z&ecirc;neca Agr&iacute;cola e da Novartis Agribusiness? Ser&aacute; que os colegas da &aacute;rea ambiental j&aacute; se esqueceram do esc&acirc;ndalo da Biomaz&ocirc;nia com o envolvimento direto da Novartis, projeto felizmente abortado pelo governo brasileiro depois de den&uacute;ncias veementes de entidades s&eacute;rias como a SBPC? Puxa, &eacute; f&aacute;cil recuperar o epis&oacute;dio: coloque &quot;BioAmaz&ocirc;nia Novartis&quot; como palavra chave no Google e leia o que est&aacute; l&aacute;.<\/p>\n<p>O Congresso de Jornalismo Ambiental ter&aacute; como objetivo reunir colegas que atuam na &aacute;rea e que, apesar de posi&ccedil;&otilde;es pontualmente divergentes, sabem que n&atilde;o se pode deixar o mercado (Monsantos, Bunges, Bayers, Cargills e Syngentas&nbsp; etc da vida, bem como setores, como a minera&ccedil;&atilde;o, papel e celulose, agroqu&iacute;mica, petroqu&iacute;mica, de biotecnologia etc) ditar livremente as regras do jogo.<\/p>\n<p>Vamos ao congresso, respeitando as diverg&ecirc;ncias, mas de olhos bem abertos. N&atilde;o podemos sozinhos evitar que o planeta seja destru&iacute;do, mas que pelo menos tenhamos a coragem de denunciar governos e empresas que, por interesses mesquinhos, amea&ccedil;am a vida de todos n&oacute;s.<\/p>\n<p><em>* Wilson da Costa Bueno &eacute; jornalista, professor da UMESP e da USP, diretor da Comtexto Comunica&ccedil;&atilde;o e Pesquisa. Editor de 4 sites tem&aacute;ticos e de 4 revistas digitais de comunica&ccedil;&atilde;o.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Congresso de Jornalismo Ambiental reunir&aacute; colegas que sabem que n&atilde;o se pode deixar o mercado ditar livremente as regras do jogo <\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[42],"tags":[246],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/24078"}],"collection":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=24078"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/24078\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=24078"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=24078"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=24078"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}