{"id":24013,"date":"2010-03-02T15:34:41","date_gmt":"2010-03-02T15:34:41","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=24013"},"modified":"2010-03-02T15:34:41","modified_gmt":"2010-03-02T15:34:41","slug":"alargando-a-banda","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=24013","title":{"rendered":"Alargando a banda"},"content":{"rendered":"<p>   \t \t \t \t \t<!-- \t\t@page { margin: 2cm } \t\tP { margin-bottom: 0.21cm } \t--> \t    <\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0cm\" class=\"western\"><span class=\"padrao\">O governo federal vem desenvolvendo o Plano Nacional de Banda Larga a fim de universalizar e baratear o acesso dos brasileiros &agrave; internet, mas est&aacute; enfrentado forte oposi&ccedil;&atilde;o das empresas de telecomunica&ccedil;&atilde;o e agora surgem acusa&ccedil;&otilde;es de que haveria empres&aacute;rios e pol&iacute;ticos beneficiados no processo. N&atilde;o vou entrar nesse tipo de discuss&atilde;o. O que importa saber &eacute; qual o papel do Estado em uma quest&atilde;o como essa, que diz respeito a um servi&ccedil;o de utilidade p&uacute;blica &#8211; as telecomunica&ccedil;&otilde;es. Como esses servi&ccedil;os s&atilde;o fundamentais para a sociedade, e em boa parte, monopolistas, no passado entendia-se que deviam ser realizados diretamente pelo Estado. Nos &quot;30 anos neoliberais&quot; (1979-2008), entendeu-se que deveriam ser privatizados e, em seguida, regulados. Especialmente os servi&ccedil;os de telecomunica&ccedil;&atilde;o, porque haviam deixado de ser puramente monopolistas. Agora, no quadro de um governo cr&iacute;tico do neoliberalismo, surge o projeto de desenvolver um servi&ccedil;o de banda larga do Estado. Far&aacute; sentido uma iniciativa dessa natureza?<\/p>\n<p>N&atilde;o sei se a Telebr&aacute;s &#8211; a empresa que se ocupar&aacute; da banda larga &#8211; lograr&aacute; cobrar apenas entre R$ 15 e R$ 35 por m&ecirc;s pelo acesso de internet r&aacute;pida. Sem d&uacute;vida, al&eacute;m de fornecer seus servi&ccedil;os a organiza&ccedil;&otilde;es p&uacute;blicas ter&aacute; que estabelecer todo um conjunto de rela&ccedil;&otilde;es com as empresas privadas do setor para chegar aos setores mais distantes. Dessa forma, a Telebr&aacute;s poder&aacute; desempenhar um papel complementar na regula&ccedil;&atilde;o do sistema de telecomunica&ccedil;&otilde;es. E o Estado estar&aacute;, assim, exercendo seu papel regulador de forma mais efetiva.<\/p>\n<p>Isso n&atilde;o significa a volta ao Estado produtor. O Estado produtor &eacute; justificado em uma fase inicial do desenvolvimento de um pa&iacute;s. N&oacute;s sabemos qu&atilde;o importante foi o papel de empresas estatais na &aacute;rea de siderurgia, da petroqu&iacute;mica, da constru&ccedil;&atilde;o aeron&aacute;utica, etc. A partir, por&eacute;m, do momento em que o setor privado nacional passa a ter a capacidade t&eacute;cnica e a dispor de capital para assumir esses setores competitivos, o Estado deve se retirar. O mercado e a regula&ccedil;&atilde;o geral do Estado exercida por meio da lei realizar&atilde;o melhor o trabalho: com mais efici&ecirc;ncia e menos corrup&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Diferente &eacute; a situa&ccedil;&atilde;o das empresas que, ou s&atilde;o monop&oacute;lios naturais ou s&atilde;o beneficiadas por rendas ricardianas, como &eacute; o caso da minera&ccedil;&atilde;o, inclusive o petr&oacute;leo, ou s&atilde;o empresas produzindo servi&ccedil;os de utilidade p&uacute;blica. Neste &uacute;ltimo caso o setor privado pode ter um papel importante, mas na condi&ccedil;&atilde;o de concession&aacute;rio. A atividade &eacute; de tal forma importante e estrat&eacute;gica para a na&ccedil;&atilde;o que esta, por meio dos seus representantes no Poder Legislativo, a torna responsabilidade do Estado &#8211; o qual, entretanto, poder&aacute; conced&ecirc;-la &agrave; explora&ccedil;&atilde;o do setor privado. Nesse caso, por&eacute;m, o servi&ccedil;o de utilidade p&uacute;blica dever&aacute; se pautar pelas pol&iacute;ticas definidas pelo governo democraticamente eleito e seus pre&ccedil;os dever&atilde;o ser determinados e fiscalizados nos termos estabelecidos por ag&ecirc;ncia reguladora. O papel dessa n&atilde;o &eacute; o de definir pol&iacute;ticas, mas o de fazer o papel do mercado que n&atilde;o existe: &eacute; garantir que os pre&ccedil;os cobrados pelas empresas sejam pr&oacute;ximos dos que existiriam se um mercado competitivo existisse.<\/p>\n<p>Entretanto, a ag&ecirc;ncia reguladora administrada por t&eacute;cnicos independentes n&atilde;o &eacute; a solu&ccedil;&atilde;o m&aacute;gica para os servi&ccedil;os de utilidade p&uacute;blica. O papel de reproduzir o mercado &eacute; muito dif&iacute;cil. As manobras das empresas reguladas para escapar ou enganar a regula&ccedil;&atilde;o s&atilde;o infinitas. E a literatura econ&ocirc;mica sobre sua capacidade de capturar o regulador &eacute; antiga e respeit&aacute;vel. Foi especialmente desenvolvida por um economista ilustre da Universidade de Chicago, George Stigler.<\/p>\n<p>Na falta de um mercado competitivo, a regula&ccedil;&atilde;o &eacute; um second best &#8211; &eacute; uma boa alternativa, mas uma alternativa sempre imperfeita: est&aacute; longe de garantir que um servi&ccedil;o de utilidade p&uacute;blica seja eficiente e barato. Os dirigentes da ag&ecirc;ncia est&atilde;o sempre sujeitos &agrave; captura. Por isso, &eacute; &agrave;s vezes conveniente dar ao Estado instrumentos adicionais de regula&ccedil;&atilde;o, como se est&aacute; fazendo agora com a implementa&ccedil;&atilde;o do Plano Nacional de Banda Larga. A Telebr&aacute;s e sua banda larga oferecer&atilde;o um servi&ccedil;o que ser&aacute; tamb&eacute;m instrumental na regula&ccedil;&atilde;o do setor. O fato de que as empresas do setor se oponham ao plano &eacute; uma indica&ccedil;&atilde;o de que ele poder&aacute; ser efetivo em limitar lucros abusivos.<\/p>\n<p>Mas surge ent&atilde;o a pergunta inevit&aacute;vel: &quot;E a corrup&ccedil;&atilde;o que esse tipo de a&ccedil;&atilde;o governamental pode ensejar?&quot; Sempre que uma atividade n&atilde;o possa ser regulada de forma relativamente autom&aacute;tica e impessoal pelo mercado, e o Estado precise regul&aacute;-la, surge a possibilidade da corrup&ccedil;&atilde;o, porque as empresas envolvidas n&atilde;o hesitar&atilde;o em tentar corromper os servidores p&uacute;blicos e porque, em casos mais raros, servidores aproveitar&atilde;o a oportunidade para chantagear as empresas. Mas n&atilde;o &eacute; por isso que se deixar&aacute; de tomar decis&otilde;es &#8211; de governar. No caso do Plano Nacional de Banda Larga, o governo est&aacute; tomando decis&otilde;es que, em princ&iacute;pio, me parecem boas. As den&uacute;ncias de tr&aacute;fico de influ&ecirc;ncia surgidas recentemente n&atilde;o invalidam o plano.<\/p>\n<p>A for&ccedil;a do capitalismo decorre do fato de que nele as atividades econ&ocirc;micas s&atilde;o reguladas pelo mercado. Mas o capitalismo &eacute; tamb&eacute;m uma forma de organizar a produ&ccedil;&atilde;o na qual a gan&acirc;ncia e a corrup&ccedil;&atilde;o est&atilde;o sempre presentes. Por isso, quanto mais desenvolvida e mais complexa &eacute; uma sociedade, mais ela precisa de regula&ccedil;&atilde;o, e, portanto, mais necess&aacute;rias se tornam as decis&otilde;es. Governar &eacute; tomar decis&otilde;es &#8211; e essas poder&atilde;o ser boas ou m&aacute;s, honestas ou corruptas, republicanas, voltadas para o interesse p&uacute;blico, ou individualistas, orientadas apenas pelo interesse privado. Para evitar as decis&otilde;es desonestas precisamos de pol&iacute;cia, de Minist&eacute;rio P&uacute;blico, de Poder Judici&aacute;rio, de imprensa livre. Para termos pol&iacute;ticos republicanos e boas decis&otilde;es precisamos de cidadania ativa e de um Estado crescentemente democr&aacute;tico e transparente. N&atilde;o &eacute; pela omiss&atilde;o, n&atilde;o &eacute; deixando de tomar decis&otilde;es por medo da corrup&ccedil;&atilde;o que um pa&iacute;s ser&aacute; bem governado. A corrup&ccedil;&atilde;o est&aacute; sempre &agrave; nossa volta e n&atilde;o ser&aacute; fugindo dela, mas a enfrentando, que o Pa&iacute;s poder&aacute; avan&ccedil;ar.<\/p>\n<p><em>*Luiz Carlos Bresser-Pereira &eacute; economista, cientista pol&iacute;tico, tr&ecirc;s vezes ministro (no governo Sarney e nos dois mandatos de Fernando Henrique), &eacute; desde 2005 professor em&eacute;rito da FGV.<\/em><\/span> <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p><span class=\"padrao\">Den&uacute;ncias de tr&aacute;fico de influ&ecirc;ncia n&atilde;o invalidam um plano governamental de baratear a internet r&aacute;pida<\/span><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[42],"tags":[87],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/24013"}],"collection":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=24013"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/24013\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=24013"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=24013"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=24013"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}