{"id":24005,"date":"2010-02-26T19:07:33","date_gmt":"2010-02-26T19:07:33","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=24005"},"modified":"2010-02-26T19:07:33","modified_gmt":"2010-02-26T19:07:33","slug":"novo-codigo-de-etica-dos-jornalistas-e-o-mimetismo-midiatico","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=24005","title":{"rendered":"Novo C\u00f3digo de \u00c9tica dos Jornalistas e o mimetismo midi\u00e1tico"},"content":{"rendered":"<p>   \t \t \t \t \t<!-- \t\t@page { margin: 2cm } \t\tP { margin-bottom: 0.21cm } \t--> \t  <\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0cm\" class=\"western\">Voc&ecirc;&nbsp; j&aacute; leu os jornais? Assistiu &agrave;s not&iacute;cias da TV? Ouviu as &uacute;ltimas na r&aacute;dio? Surfou pela internet? Se j&aacute; cumpriu esse ritual, talvez esteja sabendo tudo. Tudo do mesmo. Esse &eacute; um dos novos hits da modernidade: o mimetismo midi&aacute;tico. O final do s&eacute;culo XX trouxe mudan&ccedil;as profundas e impactantes para o jornalismo e para o modo de fazer jornal&iacute;stico. Submetido a uma l&oacute;gica que resulta da sobreposi&ccedil;&atilde;o de constrangimentos t&eacute;cnicos, econ&ocirc;micos e sociais, o profissional est&aacute; obrigado a produzir em larga escala, com custos menores e no mais curto espa&ccedil;o de tempo. Um dos resultados de toda essa conjun&ccedil;&atilde;o &eacute; o que jornalista espanhol Ignacio Ramonet chama de mimetismo midi&aacute;tico.&nbsp; <\/p>\n<p>O mimetismo &eacute; aquela febre que se apodera repentinamente da m&iacute;dia (confundindo todos os suportes), impelindo-a na mais absoluta urg&ecirc;ncia, a precipitar-se para cobrir um acontecimento (seja qual for) sob pretexto de que os outros meios de comunica&ccedil;&atilde;o &ndash; e principalmente a m&iacute;dia de referencia &ndash; lhe atribuam uma grande import&acirc;ncia. Essa imita&ccedil;&atilde;o delirante, levada ao extremo, provoca um efeito bola-de-neve e funciona como uma esp&eacute;cie de auto-intoxica&ccedil;&atilde;o: quanto mais os meios de comunica&ccedil;&atilde;o falam de um assunto, mais se persuadem, coletivamente, de que este assunto &eacute; indispens&aacute;vel, central, capital, e que &eacute; preciso dar-lhe ainda mais cobertura, consagrando-lhe mais tempo, mais recursos, mais jornalistas. Assim os diferentes meios de comunica&ccedil;&atilde;o se auto-estimulam, superexcitam uns aos outros, multiplicam cada vez mais as ofertas e se deixam arrastar para a superinforma&ccedil;&atilde;o numa esp&eacute;cie de espiral vertiginosa, inebriante, at&eacute; a n&aacute;usea (RAMONET, 2001, p.20-21). <\/p>\n<p>Derivado do grego, mimese quer dizer imita&ccedil;&atilde;o. Mas a pr&aacute;tica, comum no s&eacute;culo XXI, entre profissionais e m&iacute;dias, j&aacute; fora apontada por outros estudiosos da comunica&ccedil;&atilde;o. Pierre Bourdieu (1997, p.33) fala em &ldquo;circula&ccedil;&atilde;o circular&rdquo; da informa&ccedil;&atilde;o: &ldquo;[&#8230;] para fazer o programa do jornal televisivo do meio-dia &eacute; preciso ter visto as manchetes do 20 horas da v&eacute;spera e os jornais da manh&atilde; e para fazer minhas manchetes do jornal da noite &eacute; preciso que tenha lido os jornais da manh&atilde;&rdquo;.<\/p>\n<p>Esse jogo de espelhos, consistentemente institucionalizado pelo modo industrial de se fazer jornalismo, vai redundar em s&eacute;rias consequ&ecirc;ncias. Sem entrar no m&eacute;rito, uma vez que as mesmas ainda n&atilde;o foram suficientemente debatidas, n&atilde;o se pode negar um debate &eacute;tico sobre v&aacute;rios aspectos.<\/p>\n<p>At&eacute;&nbsp; que ponto esse tipo de retroalimenta&ccedil;&atilde;o e reutiliza&ccedil;&atilde;o do material do concorrente &eacute; l&iacute;cita e contribui para a informa&ccedil;&atilde;o da sociedade?<\/p>\n<p>Numa pesquisa sobre a produ&ccedil;&atilde;o de not&iacute;cias para a internet, o professor F&aacute;bio Henrique Pereira, da Universidade de Bras&iacute;lia, flagra um novo perfil do profissional da not&iacute;cia no s&eacute;culo XXI: o &ldquo;jornalista sentado&rdquo;. Num estudo de campo sobre o assunto, revela: <\/p>\n<p>Esse sistema de retroalimenta&ccedil;&atilde;o fica latente j&aacute; na primeira visita &agrave; reda&ccedil;&atilde;o do CorreioWeb: TV sempre ligada em algum tipo de programa&ccedil;&atilde;o jornal&iacute;stica, r&aacute;dio sintonizado na CBN local, consulta ao sites da Globo, do Estado de S&atilde;o Paulo, da BBC Brasil, etc. [&#8230;] &agrave; medida que a pr&aacute;tica de copiar e reutilizar o material do concorrente torna-se usual, os jornalistas v&atilde;o se importando menos com isso. Para a empresa, a pirataria significa dividir a audi&ecirc;ncia do site com ve&iacute;culos que n&atilde;o pagaram pela cobertura de determinado evento, seja pela compra de informa&ccedil;&otilde;es, seja pela contrata&ccedil;&atilde;o de jornalistas. Isso afeta os lucros e inviabiliza a publica&ccedil;&atilde;o de informa&ccedil;&otilde;es exclusivas pelo site. Mas para os jornalistas isso n&atilde;o faz tanta diferen&ccedil;a. Respons&aacute;vel pela publica&ccedil;&atilde;o de v&aacute;rias notas por dia, quase nunca assinadas, o jornalista n&atilde;o se identifica com o produto. N&atilde;o h&aacute; nenhum sentimento de posse pela mat&eacute;ria. Para ele, ser pirateado &eacute; uma pr&aacute;tica l&iacute;cita, desde que ele possa fazer o mesmo (PEREIRA, 2003).&nbsp;<\/p>\n<p>Esse tipo de procedimento vai resultar, na melhor das hip&oacute;teses, em desinforma&ccedil;&atilde;o. Na mesma pesquisa, Pereira chama a aten&ccedil;&atilde;o para o seguinte fato:<br \/>&nbsp; <br \/>No dia 13 de maio de 2003, uma f&aacute;brica de &lsquo;merla&rsquo; (tipo de droga produzida com os restos do material utilizado para refinar coca&iacute;na) havia sido invadida pela pol&iacute;cia em um endere&ccedil;o denominado &ldquo;QNP&rdquo;. Logo, Fernando Carneiro e Giulliano Fernandes, seu coordenador, iniciaram um discuss&atilde;o para saber o local exato da quadra, se na cidade-sat&eacute;lite de Taguatinga ou na Ceil&acirc;ndia. Ao final da discuss&atilde;o, os dois jornalistas chegaram &agrave; conclus&atilde;o de que a QNP localizava-se em Taguatinga. N&atilde;o foi feito nenhum tipo de procedimento de checagem da informa&ccedil;&atilde;o, que foi ao ar logo em seguida. Minutos depois, Fernando recebeu um telefonema e um e-mail, ambos alertando o estagi&aacute;rio do erro e de que o endere&ccedil;o publicado ficava, na verdade, na Ceil&acirc;ndia. Nos casos em que o CorreioWeb comete algum tipo de erro, o procedimento padr&atilde;o &eacute; colocar uma segunda nota no ar com o t&iacute;tulo de &lsquo;Erramos&rdquo;, remetendo o leitor para a informa&ccedil;&atilde;o incorreta publicada anteriormente. Mas nem sempre um erro pode ser retratado de forma eficiente. No exemplo anterior, da nota sobre a invas&atilde;o de uma f&aacute;brica de merla, a mat&eacute;ria incorreta j&aacute; havia sido lida, minutos mais tarde, pela r&aacute;dio CBN. (PEREIRA, 2003).&nbsp;<\/p>\n<p>Outro exemplo flagrante aconteceu no dia 20 de maio de 2008.&nbsp; Por volta das cinco da tarde, a GloboNews interrompeu sua programa&ccedil;&atilde;o para um plant&atilde;o sobre um acidente a&eacute;reo: &ldquo;interrompemos a transmiss&atilde;o da CPI dos Cart&otilde;es Corporativos para mostrarmos imagens ao vivo de S&atilde;o Paulo. Acaba de chegar a informa&ccedil;&atilde;o de que um avi&atilde;o da empresa a&eacute;rea Pantanal caiu em cima de um pr&eacute;dio comercial na Zona Sul de S&atilde;o Paulo&rdquo;(CARONI, 2008).<\/p>\n<p>O acidente era, na verdade, um inc&ecirc;ndio em uma f&aacute;brica de colch&otilde;es. Entretanto, bastaram cinco minutos de transmiss&atilde;o equivocada para que a falsa not&iacute;cia fosse retransmitida por v&aacute;rias emissoras de r&aacute;dio e alguns portais, entre eles o IG e o Terra.<\/p>\n<p>A justificativa da Central Globo de Comunica&ccedil;&atilde;o para a &ldquo;barriga&rdquo; foi a seguinte:<\/p>\n<p>&ldquo;A respeito do inc&ecirc;ndio ocorrido hoje &agrave; tarde em S&atilde;o Paulo, a GloboNews, como um canal de noticias 24 horas, p&ocirc;s no ar imagens do fogo assim que as captou. Como &eacute; normal em canais de not&iacute;cias, apurou as informa&ccedil;&otilde;es simultaneamente &agrave; transmiss&atilde;o das imagens. A primeira informa&ccedil;&atilde;o sobre a causa do inc&ecirc;ndio recebida pela GloboNews foi a de que um avi&atilde;o teria se chocado com um pr&eacute;dio na regi&atilde;o do Campo Belo, Zona Sul de S&atilde;o Paulo. Naquele momento bombeiros e Infraero ainda n&atilde;o tinham informa&ccedil;&atilde;o sobre o ocorrido. As equipes da pr&oacute;pria GloboNews constataram que n&atilde;o havia ocorrido queda de avi&atilde;o e desde ent&atilde;o esclareceu que se tratava de um inc&ecirc;ndio em um pr&eacute;dio comercial. Poucos minutos depois o Corpo de Bombeiros confirmou tratar-se de um inc&ecirc;ndio em uma loja de colch&otilde;es&rdquo;.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n<p>Ao que tudo indica, a falsa informa&ccedil;&atilde;o foi repassada &agrave; emissora por um morador da regi&atilde;o, j&aacute; traumatizado com outros acidentes. Entretanto, os produtores sequer apuraram a mat&eacute;ria antes que coloc&aacute;-la no ar.<\/p>\n<p>Se um profissional &eacute; obrigado a produzir mais num espa&ccedil;o de tempo menor para obedecer &agrave; l&oacute;gica comercial das empresas; se lan&ccedil;a m&atilde;o desse mimetismo como forma de cumprir o que estabelece sua linha de produ&ccedil;&atilde;o, como um simples oper&aacute;rio de um sistema de produ&ccedil;&atilde;o taylorizado (o que se acentuou, principalmente, depois da internet e dos grandes conglomerados de m&iacute;dia); se publica not&iacute;cias sem a devida apura&ccedil;&atilde;o ou checagem, legitimando mat&eacute;rias incorretas ou at&eacute; mesmo falsas; se se coloca como instrumento para o agendamento dos meios por produtores de not&iacute;cia, est&aacute; indo de encontro a pelo menos cinco pontos estabelecidos pelo C&oacute;digo de &Eacute;tica:<\/p>\n<p>Art. 2&deg; &#8211;<br \/>[&#8230;] I- a divulga&ccedil;&atilde;o da informa&ccedil;&atilde;o precisa e correta &eacute; dever dos meios de comunica&ccedil;&atilde;o e deve ser cumprida independentemente de sua natureza jur&iacute;dica &#8211; se p&uacute;blica, estatal ou privada &#8211; e da linha pol&iacute;tica de seus propriet&aacute;rios e\/ou diretores.<br \/>II &#8211; a produ&ccedil;&atilde;o e a divulga&ccedil;&atilde;o da informa&ccedil;&atilde;o devem se pautar pela veracidade dos fatos e ter por finalidade o interesse p&uacute;blico; <br \/>Art. 4&ordm; O compromisso fundamental do jornalista &eacute; com a verdade no relato dos fatos, raz&atilde;o pela qual ele deve pautar seu trabalho pela precisa apura&ccedil;&atilde;o e pela sua correta divulga&ccedil;&atilde;o. <br \/>Art. 6&ordm; &Eacute; dever do jornalista:<br \/>[&#8230;] V- valorizar, honrar e dignificar a profiss&atilde;o;<br \/>[&#8230;] IX- respeitar o direito autoral e intelectual do jornalista em todas as suas formas; <\/p>\n<p>Em 2000, nos Estados Unidos, o Comitee of Concerned Journalistis, entidade que discute a qualidade na imprensa americana, fez uma pesquisa acerca do notici&aacute;rio sobre resultado das elei&ccedil;&otilde;es presidenciais e chegou &agrave; conclus&atilde;o de que o fato se transformou numa sucess&atilde;o de erros pelo simples fato dos ve&iacute;culos terem usado uma &uacute;nica fonte de informa&ccedil;&atilde;o, que, por sua vez, era uma ag&ecirc;ncia de not&iacute;cias: &ldquo;<em>as principais redes americanas de TV anunciaram apressadamente a vit&oacute;ria de George Bush, no que foram acompanhadas por boa parte dos jornais impressos, que, em sucessivas edi&ccedil;&otilde;es extras, ora afirmavam o nome do vencedor, ora duvidavam da informa&ccedil;&atilde;o. Na origem de tantos equ&iacute;vocos estava o recurso a uma &uacute;nica fonte, a Voter News Service, &agrave; qual se conferia credibilidade autom&aacute;tica &ldquo;<\/em>(MORETZSOHN, 2001).&nbsp;<\/p>\n<p>Obviamente n&atilde;o h&aacute; como generalizar tal postura ou acontecimento, entretanto, o mimetismo midi&aacute;tico gera pelo menos tr&ecirc;s tipos de conseq&uuml;&ecirc;ncias: o decl&iacute;nio da veracidade da informa&ccedil;&atilde;o, a falta de polifonia na pr&aacute;xis do discurso jornal&iacute;stico e o avan&ccedil;o sobre os direitos autorais. Uma equa&ccedil;&atilde;o que vai contribuir para a desvaloriza&ccedil;&atilde;o da profiss&atilde;o e para o desrespeito ao receptor.<\/p>\n<p>Se o profissional &eacute; capaz de publicar uma not&iacute;cia que foi mimetizada de outro &oacute;rg&atilde;o de comunica&ccedil;&atilde;o sem a devida checagem, n&atilde;o pode garantir nem que ela esteja correta e nem que seja verdadeira, isso sem falar naquilo que &eacute; omitido e, muitas vezes, por interesses de determinados grupos ou de raz&otilde;es esp&uacute;rias. N&atilde;o &eacute; poss&iacute;vel desconhecer casos como os ocorridos recentemente nos Estados Unidos, com jornalistas respeitados e prestigiados como Dan Rather, da CBS, e Jack Kelley, do USA Today.&nbsp; <\/p>\n<p><em>[&#8230;] era un falsificador compulsivo, un &quot;impostor en serie&quot;. [&#8230;] Como por azar, siempre estaba en el lugar donde ocurr&iacute;an los acontecimientos, de los que extra&iacute;a historias excepcionales y apasionantes. En uno de sus reportajes dec&iacute;a haber sido testigo de un atentado en una pizzer&iacute;a de Jerusal&eacute;n y describ&iacute;a a tres hombres que com&iacute;an junto a &eacute;l, cuyos cuerpos hab&iacute;an sido proyectados hacia arriba por la explosi&oacute;n, cayendo luego decapitados, mientras las cabezas rodaban sobre la calle&#8230;Su reportaje m&aacute;s grosero, aparecido el 10 de marzo de 2000, era sobre Cuba. Kelley hab&iacute;a fotografiado a una empleada de hotel -Jacqueline- cuya fuga clandestina a bordo de un fr&aacute;gil esquife relataba con lujo de detalles, incluyendo la muerte de la desdichada, ahogada en el estrecho de la Florida. En realidad, la mujer -cuyo verdadero nombre era Yamilet Fern&aacute;ndez- est&aacute; viva actualmente y nunca ha corrido tal aventura. Otro periodista de USA Today, Blake Morrison, la entrevist&oacute; y pudo verificar que Kelley hab&iacute;a mentido. Las revelaciones de esos fraudes, considerados como uno de los mayores esc&aacute;ndalos del periodismo estadounidense, le costaron el puesto a la directora de la redacci&oacute;n, Karen Jurgensen, y a otros dos altos directivos: Brian Gallagher, su adjunto, y Hal Ritter, responsable de la informaci&oacute;n. M&aacute;s recientemente, en plena campa&ntilde;a electoral, un nuevo sismo deontol&oacute;gico sacudi&oacute; el mundo de los medios. Dan Rather, el presentador estrella del informativo televisivo de CBS y del prestigioso programa 60 minutos, reconoci&oacute; haber difundido, sin verificarlos, falsos documentos para probar que el presidente Bush hab&iacute;a gozado de ayuda para evitar ser enviado a la guerra de Vietnam. Rather anunci&oacute; que abandonaba su puesto y se retiraba<\/em> (RAMONET, 2005).&nbsp; <\/p>\n<p>Casos como esse n&atilde;o acontecem apenas nos Estados Unidos, s&atilde;o fen&ocirc;meno mundial. Segundo Ramonet (1999, p.20-21), uma imita&ccedil;&atilde;o que provoca um efeito bola de neve, ou seja, quanto mais os meios falam de um&nbsp; assunto, &ldquo;mais se persuadem, coletivamente, de que este assunto &eacute; indispens&aacute;vel, central, capital, e que &eacute; preciso dar-lhe cobertura, consagrando-lhe mais tempo, mais recursos, mais jornalistas&rdquo;. Dois exemplos seriam a morte de Lady Diana e o caso Bill Clinton-Monica Lewinsky.<\/p>\n<p>Ali&aacute;s, com rela&ccedil;&atilde;o ao caso Lewinsky, a hist&oacute;ria &eacute; bastante peculiar. Tudo come&ccedil;ou com um americano desconhecido &ndash; Matt Drudge &ndash;&nbsp; que colocou no ar em seu site, The Drudge Report, o conte&uacute;do das conversas entre Monica e uma amiga, Linda Tripp, onde a ex-estagi&aacute;ria da Casa Branca contava suas aventuras amorosas com Clinton. Seu site ficou entre os 100 primeiros entre milh&otilde;es de acessos, inclusive da pr&oacute;pria imprensa.<\/p>\n<p>Mas, se h&aacute; imita&ccedil;&atilde;o, o mimetismo midi&aacute;tico desagua noutra vertente: a falta de polifonia do discurso jornal&iacute;stico. Se h&aacute; uma repeti&ccedil;&atilde;o cont&iacute;nua das not&iacute;cias, onde fica o espa&ccedil;o para reflex&atilde;o, para a cr&iacute;tica? No ritmo vertiginoso de produ&ccedil;&atilde;o imposto aos profissionais da comunica&ccedil;&atilde;o, o discurso da m&iacute;dia passa a ser monof&ocirc;nico. N&atilde;o h&aacute; espa&ccedil;o para o novo, as fontes e os pontos de vista s&atilde;o sempre os mesmos, n&atilde;o h&aacute; emerg&ecirc;ncia de novas ideologias.<\/p>\n<p>No que diz respeito a esse aspecto &eacute; preciso atentar para o fato de que as not&iacute;cias s&atilde;o o relato di&aacute;rio da hist&oacute;ria da humanidade e, elaboradas com a utiliza&ccedil;&atilde;o do padr&atilde;o industrializado que obriga, muitas vezes, &agrave; c&oacute;pia, &agrave; imita&ccedil;&atilde;o, certamente v&atilde;o contar apenas parte da hist&oacute;ria, constituindo-se numa vis&atilde;o parcial, depurtada e, at&eacute; mesmo, aniquiladora.<\/p>\n<p>Se a informa&ccedil;&atilde;o que os meios de comunica&ccedil;&atilde;o oferecem &eacute;, principalmente, a oferecida por outros, a descri&ccedil;&atilde;o da realidade depender&aacute;, em &uacute;ltima inst&acirc;ncia, das fontes que t&ecirc;m poder para conseguir lugar nos meios, isto &eacute;, fundamentalmente organismos do Estado e grupos econ&ocirc;micos. Isso quer dizer que as fontes estabelecem as prioridades, as perspectivas e os enfoques da informa&ccedil;&atilde;o, condicionando o sentido das not&iacute;cias a alguns mediadores jornal&iacute;sticos que ficam subordinados a elas (NORIEGA apud KARAM, 2004, p.241).&nbsp; <\/p>\n<p>Finalmente, a quest&atilde;o dos direitos autorais. Com o mimetismo midi&aacute;tico, o que se v&ecirc; &eacute; um avan&ccedil;o, um desrespeito aos direitos autorais. Na Declara&ccedil;&atilde;o de Princ&iacute;pios da Federa&ccedil;&atilde;o Internacional de Jornalistas, datada de junho de 1986, o pl&aacute;gio na not&iacute;cia, ou seja, o ato de copiar o essencial de obras alheias, dando-as como pr&oacute;prias, &eacute; considerado grav&iacute;ssimo. Ali&aacute;s, a Federa&ccedil;&atilde;o, considerada uma das maiores organiza&ccedil;&otilde;es de jornalistas do mundo, j&aacute; publicou um informativo sobre o assunto, onde estabelece as bases de liberdade dos meios de comunica&ccedil;&atilde;o na sociedade de informa&ccedil;&atilde;o, o que vem refor&ccedil;ar o que est&aacute; dito no artigo 6&deg; do C&oacute;digo do &Eacute;tica, quando diz respeito ao fato de que &eacute; dever do jornalista valorizar, honrar e dignificar a profiss&atilde;o, al&eacute;m de respeitar o direito autoral e intelectual do jornalista em todas as suas formas.<\/p>\n<p>A pr&aacute;tica, concordam muitos autores, n&atilde;o &eacute; nova. Entretanto, foi acentuada a partir da do crescimento das megacorpora&ccedil;&otilde;es de comunica&ccedil;&atilde;o, com a presen&ccedil;a das m&iacute;dias cruzadas e, principalmente, da internet&nbsp; onde at&eacute; mesmo a facilidade tecnol&oacute;gica favorece esse tipo de comportamento com o conhecido comando Ctlr+C \/ Ctlr +V.<\/p>\n<p>Pergunta-se sobre o futuro dos jornalistas. Eles est&atilde;o em vias de extin&ccedil;&atilde;o. O sistema n&atilde;o quer mais saber deles. Poderia funcionar sem eles, ou digamos que ele consente em trabalhar com eles, confiando-lhes, por&eacute;m, um papel secund&aacute;rio: o de funcion&aacute;rios na rede, como Charlot em Les temps moderns. Em outras palavras, rebaixando-os ao n&iacute;vel de retocadores de transmiss&otilde;es de ag&ecirc;ncias. (ROMANET, 1999, p.45).&nbsp; <\/p>\n<p><em>*Luciene T&oacute;foli &eacute; mestre em Letras e em Psican&aacute;lise, pelo Centro de Ensino Superior de Juiz de Fora. Formada em Jornalismo pela Universidade Federal de Juiz de Fora. Professora substituta da Faculdade de Comunica&ccedil;&atilde;o da UFJF. Autora do livro &Eacute;tica no Jornalismo, da Editora Vozes, em 2008<\/em><\/p>\n<p><strong>Bibliografia<\/strong><br \/>ABRAMO, Cl&aacute;udio. A regra do jogo: o jornalismo e a &eacute;tica do marceneiro. S&atilde;o Paulo: Companhia das Letras, 1999.&nbsp; <br \/>BADIOU, Alan. &Eacute;tica: um ensaio sobre a consci&ecirc;ncia do mal. Rio de Janeiro: Relume-Dumar&aacute;, 1995. <br \/>BAUMAN, Zygmunt. Globaliza&ccedil;&atilde;o: as conseq&uuml;&ecirc;ncias humanas. Rio de Janeiro: Zahar, 1999. <br \/>BERTRAND, Claude-jean. A deontologia das m&iacute;dias. Bauru: Edusc, 1999.<br \/>BOURDIEU, Pierre. Sobre a televis&atilde;o. Rio de Janeiro: Zahar, 1997.&nbsp; <br \/>BUCCI, Eug&ecirc;nio. Sobre &eacute;tica e imprensa. S&atilde;o Paulo: Companhia das Letras, 2002.&nbsp; <br \/>CARONI, Gerson. GloboNews derruba avi&atilde;o e oposi&ccedil;&atilde;o. 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