{"id":23903,"date":"2010-02-04T18:08:15","date_gmt":"2010-02-04T18:08:15","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=23903"},"modified":"2010-02-04T18:08:15","modified_gmt":"2010-02-04T18:08:15","slug":"empresas-de-comunicacao-e-projetos-educativos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=23903","title":{"rendered":"Empresas de comunica\u00e7\u00e3o e projetos educativos"},"content":{"rendered":"<p style=\"margin-bottom: 0cm\" class=\"western\"><span class=\"padrao\">A educa&ccedil;&atilde;o (e a forma&ccedil;&atilde;o, de um modo geral) dos indiv&iacute;duos deve acompanhar o esp&iacute;rito da &eacute;poca em que est&atilde;o inseridos, formando sujeitos com condi&ccedil;&otilde;es de ler (criticamente) a realidade. Isso &eacute; fato. Assim como &eacute; fato que uma das marcas centrais da &eacute;poca em que vivemos &eacute; a centralidade da m&iacute;dia nas nossas vidas. A articula&ccedil;&atilde;o destes dois fatos de forma natural &eacute; perigosa e tem conferido, quase que naturalmente, um novo poder &agrave;s empresas de comunica&ccedil;&atilde;o: o poder de educar tamb&eacute;m nas escolas.<\/p>\n<p>N&atilde;o satisfeitas com seus monop&oacute;lios, audi&ecirc;ncias e &ldquo;shares&rdquo; de mercado exorbitantes, as grandes corpora&ccedil;&otilde;es de comunica&ccedil;&atilde;o e tecnologia (como, por exemplo, o Grupo Abril, a Rede Globo, a Microsoft, os jornais Folha e Estado de S&atilde;o Paulo e a Telef&ocirc;nica) entraram nas escolas a partir de parcerias com secretarias e, muitas vezes, por interm&eacute;dio de seus &ldquo;bra&ccedil;os sociais&rdquo; (institutos, funda&ccedil;&otilde;es etc). Tamb&eacute;m n&atilde;o satisfeitas com o fato de entrarem nas escolas como instrumentos, entraram tamb&eacute;m com conte&uacute;dos. <\/p>\n<p>&Eacute; certo que a escola precisa se modernizar e acompanhar as tend&ecirc;ncias da atualidade (ainda que sob diversos riscos). No entanto, &eacute; preciso discutir o projeto de moderniza&ccedil;&atilde;o da educa&ccedil;&atilde;o, antes de entreg&aacute;-lo nas m&atilde;os de empres&aacute;rios do ramo das m&iacute;dias. <\/p>\n<p>Em geral, o que observamos, &eacute; um processo de entrada que desrespeita o campo educacional, n&atilde;o ouvindo sequer quais s&atilde;o as reais demandas das escolas por instrumentos ou conte&uacute;dos midi&aacute;ticos e tecnol&oacute;gicos. Ou seja: os campos midi&aacute;tico e pol&iacute;tico se articulam e decidem a vida do campo educacional em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; suposta moderniza&ccedil;&atilde;o. Suposta porque, convenhamos, equipar escolas em projetos milion&aacute;rios com multinacionais, deixando penetrar na educa&ccedil;&atilde;o p&uacute;blica a l&oacute;gica das empresas de comunica&ccedil;&atilde;o e tecnologia e em projetos executados &ldquo;de cima pra baixo&rdquo; n&atilde;o se trata necessariamente de moderniza&ccedil;&atilde;o. Pelo contr&aacute;rio. Elementos de modernidade convivem com elementos tradicionais da pol&iacute;tica que ainda precisam de reflex&atilde;o e solu&ccedil;&atilde;o. <\/p>\n<p>Ou seja, em boa parte das iniciativas, o dinheiro investido em m&iacute;dia e tecnologia vira discurso de pol&iacute;ticos &ldquo;benfeitores&rdquo; da educa&ccedil;&atilde;o moderna, salas vazias e equipamentos ociosos por falta de um processo cuidadoso de implementa&ccedil;&atilde;o. Muitas vezes, a &ldquo;culpa&rdquo; recai, claro, sobre os profissionais da educa&ccedil;&atilde;o, em tese, despreparados para encarar o mundo novo que, ainda segundo o mesmo discurso, &eacute; dominado pelos jovens alunos. <\/p>\n<p><strong>Exemplos paulistas<\/strong><\/p>\n<p>Para n&atilde;o ficarmos no abstrato, vamos a alguns exemplos. Uma das iniciativas que podemos citar &eacute; a assinatura da revista Nova Escola, do Grupo Abril, para todos os professores da rede p&uacute;blica estadual de S&atilde;o Paulo. Sem ter passado por um processo de licita&ccedil;&atilde;o ou por qualquer tipo de debate com os agentes e educadores da rede, o material passou a ser entregue na resid&ecirc;ncia dos professores no m&ecirc;s de mar&ccedil;o de 2008 (leia mais em: http:\/\/www.observatoriodaeducacao.org.br\/index.php?option=com_content&amp;view=article&amp;id=639:contratacao-de-revistas-e-outros-materiais-sem-licitacao-e-pratica-recorrente-do-governo-de-sao-paulo&amp;catid=73:controle-social&amp;Itemid=107). Alvo de processos (Leia mais em: http:\/\/www.ivanvalente.com.br\/CN02\/noticias\/nots_07_det.asp?id=2177) e protestos por parte de organiza&ccedil;&otilde;es da sociedade civil, a secretaria estadual alegou que o material se trata de algo exclusivo.<\/p>\n<p>A secretaria tem a prerrogativa legal de adotar materiais que sejam considerados &uacute;nicos e cujos produtores tenham &ldquo;not&oacute;rio saber&rdquo; sobre a mat&eacute;ria a ser desenvolvida atrav&eacute;s do contrato. No entanto, s&atilde;o conhecidas pelo menos outras tr&ecirc;s publica&ccedil;&otilde;es de outras editoras com a mesma proposta que a publica&ccedil;&atilde;o da Editora Abril, como a Carta na Escola, a Revista P&aacute;tio e a Revista Educa&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Um segundo exemplo &eacute; o Telecurso TEC, parceria do Centro Paula Souza, instituto de ensino t&eacute;cnico e profissionalizante do Governo do Estado de S&atilde;o Paulo, com a Funda&ccedil;&atilde;o Roberto Marinho (ligada &agrave;s Organiza&ccedil;&otilde;es Globo) que, firmada em 2006, passou a oferecer cursos t&eacute;cnicos para jovens e adultos pela televis&atilde;o. Entre os cursos oferecidos, est&atilde;o os de Administra&ccedil;&atilde;o; Gest&atilde;o de Pequenas Empresas; Assessoria\/Secretariado; Vendas e Representa&ccedil;&atilde;o Comercial; e Turismo (<a href=\"http:\/\/www.ceeteps.br\/Imprensa\/Releases\/2006\/mar_14.html\" target=\"_blank\">Saiba mais<\/a><\/span><span class=\"padrao\">).<\/p>\n<p>Os laptops subsidiados pelo Governo do Estado por meio do programa Acessa S&atilde;o Paulo, fornecidos &ndash; neste caso, via licita&ccedil;&atilde;o &ndash; pelas empresas Positivo e Brasoftware, &eacute; um outro exemplo de entrada das m&iacute;dias (e da l&oacute;gica midi&aacute;tica e tecnol&oacute;gica) nas escolas. <\/p>\n<p>Al&eacute;m disso, em 2009, o Estado firmou parceria com a operadora de telefonia Telef&ocirc;nica, via sua funda&ccedil;&atilde;o, para fornecimento de equipamentos a escolas de munic&iacute;pios do interior. &Eacute; tamb&eacute;m da Telef&ocirc;nica a iniciativa EducaRede, portal de conte&uacute;dos educativos, que tem como um de seus objetivos oferecer subs&iacute;dios para educadores.<\/p>\n<p>A parceria firmada em outubro de 2008 pelo Governo do Estado com a multinacional Microsoft para ampliar o aceso &agrave; inform&aacute;tica no sistema de ensino &eacute; uma outra iniciativa, desenvolvida para que alunos e professores da rede estadual tivessem acesso a e-mails gratuitos e uma s&eacute;rie de ferramentas fornecidas pela multinacional. Abrange o ensino fundamental, m&eacute;dio e tecnol&oacute;gico. <a href=\"http:\/\/www.microsoft.com\/latam\/presspass\/brasil\/2008\/outubro\/ballmer2.mspx\" target=\"_blank\">Trecho da mat&eacute;ria&nbsp; <\/a>publicada no site da empresa diz que a parceria se trata &ldquo;do maior projeto da Am&eacute;rica Latina nesse segmento com participa&ccedil;&atilde;o da iniciativa privada&rdquo;.<\/p>\n<p>Em abril de 2009, outras duas iniciativas foram anunciadas: a Secretaria Estadual de Educa&ccedil;&atilde;o &ndash; SEE fez mais de 5 mil assinaturas dos jornais Folha de S&atilde;o Paulo e Estado de S&atilde;o Paulo para as escolas da rede.<\/p>\n<p><strong>Processo atravessado<\/strong><\/p>\n<p>Esta entrada das m&iacute;dias e das tecnologias nas escolas, ilustrada pelos exemplos acima citados, &eacute; feita com alguma transpar&ecirc;ncia (publica&ccedil;&atilde;o no Di&aacute;rio Oficial, an&uacute;ncio oficial com celebra&ccedil;&atilde;o e presen&ccedil;a do governador em alguns casos ou publica&ccedil;&atilde;o nos sites das institui&ccedil;&otilde;es e no site do Governo do Estado). No entanto, em grande parte delas, o processo de contrata&ccedil;&atilde;o do material, tecnologia ou ferramenta em quest&atilde;o 1. n&atilde;o passou por licita&ccedil;&otilde;es; 2. n&atilde;o passou por qualquer tipo de discuss&atilde;o p&uacute;blica (inclusive via meios de comunica&ccedil;&atilde;o da imprensa comercial, que, em tese, s&atilde;o os ve&iacute;culos de amplia&ccedil;&atilde;o do debate pol&iacute;tico) ou com os agentes do campo educacional; 3.  em geral, n&atilde;o prop&otilde;e processos de forma&ccedil;&atilde;o dos educadores e alunos para lidarem com os novos materiais e din&acirc;micas, o que seria considerado um m&iacute;nimo de di&aacute;logo com o ambiente educacional que vai receber novas ferramentas e din&acirc;micas de ensino.<\/p>\n<p>A explica&ccedil;&atilde;o parece simples. Ora, se precisamos modernizar as escolas, levando m&iacute;dias e tecnologias para as salas de aula, porque n&atilde;o faz&ecirc;-lo com quem &ldquo;mais entende do assunto&rdquo;? <\/p>\n<p>Mas &eacute; preciso pensar que estamos diante de duas afirma&ccedil;&otilde;es constru&iacute;das social e culturalmente, com a &ldquo;ajuda&rdquo; preciosa de ningu&eacute;m mais ningu&eacute;m menos que os pr&oacute;prios ve&iacute;culos de comunica&ccedil;&atilde;o, interessados diretos nas parcerias milion&aacute;rias com as secretarias e sistemas de ensino.<\/p>\n<p>Basta acompanhar por alguns dias as coberturas de jornais, revistas e telejornais para se deparar com mat&eacute;rias que afirmam a necessidade de as escolas se modernizarem. Mas n&atilde;o se trata de qualquer moderniza&ccedil;&atilde;o. Os discursos s&atilde;o carregados de corporativismo.<\/p>\n<p>Al&eacute;m da id&eacute;ia de modernidade ser constru&iacute;da, &eacute; constru&iacute;da tamb&eacute;m a id&eacute;ia de que ela deve chegar &agrave; escola pelas m&atilde;os de quem domina o assunto e de que este algu&eacute;m s&atilde;o as empresas de comunica&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p><strong>Hegemonia transferida para a educa&ccedil;&atilde;o<\/p>\n<p><\/strong>A verdade &eacute; que a hegemonia moral, cultural e pol&iacute;tica de um determinado grupo social (as empresas de comunica&ccedil;&atilde;o) adentra a escola travestida de consenso. Esta entrada nos espa&ccedil;os educativos se d&aacute;, objetivamente, carregada pelos materiais produzidos pelas empresas privadas de comunica&ccedil;&atilde;o e, subjetivamente, pela ades&atilde;o ao discurso e aos valores destas empresas.<\/p>\n<p>Por exemplo, podemos afirmar que a ado&ccedil;&atilde;o de softwares e ferramentas da multinacional Microsoft proporcionam um tipo de aprendizado diferente daquele que seria proporcionado por ferramentas de software livre ou mesmo de outra fabricante. E o que determina a op&ccedil;&atilde;o da Secretaria de Educa&ccedil;&atilde;o por este material? Mais do que o material, o que leva a secretaria a firmar parcerias com a multinacional para que ela realize uma campanha contra a &ldquo;pirataria&rdquo; nas escolas? Em lugar disso, n&atilde;o seria a escola o lugar de reflex&atilde;o sobre a propriedade privada, o conhecimento livre e as formas de patentes em softwares?  <\/p>\n<p>Afinal, o que est&aacute; em jogo? O interesse p&uacute;blico ou meia d&uacute;zia de interesses privados? <\/p>\n<p>O fato &eacute; que s&atilde;o muitas as l&oacute;gicas presentes nestas escolhas. Uma delas &eacute; a de n&atilde;o ouvir o campo educacional nas decis&otilde;es pol&iacute;tico-pedag&oacute;gicas colocadas para a educa&ccedil;&atilde;o paulista. Outra &eacute; a de refor&ccedil;ar v&iacute;nculos pol&iacute;ticos e de favorecimento com as grandes redes de comunica&ccedil;&atilde;o e tecnologia do Brasil e do mundo. Outra &eacute; a da moderniza&ccedil;&atilde;o das escolas a partir de valores constru&iacute;dos por estas pr&oacute;prias empresas na cena p&uacute;blica. Em, por fim, a da privatiza&ccedil;&atilde;o, ainda que subjetiva, da educa&ccedil;&atilde;o. A entrada sorrateira da l&oacute;gica empresarial nos espa&ccedil;os educativos.<\/p>\n<p>Mais uma vez, &eacute; preciso afirmar que n&atilde;o se trata de defender o atraso e a precariedade das escolas. Trata-se, sobretudo, da entrada deste mundo de m&iacute;dia no espa&ccedil;o educativo regulada pelo Estado e discutida com a sociedade, em especial, os atores da educa&ccedil;&atilde;o. <br \/><em><br \/>* Michelle Prazeres &eacute; jornalista, mestre em Comunica&ccedil;&atilde;o e Semi&oacute;tica (PUC-SP), doutoranda em educa&ccedil;&atilde;o (FE-USP) e integrante do Intervozes &ndash; Coletivo Brasil de Comunica&ccedil;&atilde;o Social.<\/em><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p><span class=\"padrao\">Sobre como a hegemonia da m&iacute;dia se converteu em &ldquo;educa&ccedil;&atilde;o moderna&rdquo;<\/span><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[42],"tags":[56],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/23903"}],"collection":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=23903"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/23903\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=23903"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=23903"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=23903"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}