{"id":23862,"date":"2010-01-26T18:05:53","date_gmt":"2010-01-26T18:05:53","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=23862"},"modified":"2014-09-07T02:59:22","modified_gmt":"2014-09-07T02:59:22","slug":"a-apologia-do-faroeste","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=23862","title":{"rendered":"A apologia do faroeste"},"content":{"rendered":"<p>   \t \t \t \t \t<!-- \t\t@page { margin: 2cm } \t\tP { margin-bottom: 0.21cm } \t--> \t   <\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0cm\" class=\"padrao\">&Eacute; muito bom, de lavar a alma mesmo, quando a gente esbarra com um artigo que gostaria de ter escrito, em que algu&eacute;m coloca os pingos nos is. Comigo, ao menos, volta e meia acontece isso. Pois bem, foi essa a sensa&ccedil;&atilde;o que tive ao ler<a href=\"http:\/\/localhost\/intervozes_direitoacomunicacao\/wordpress\/?p=22325\" target=\"_blank\"> Venicio Lima discorrendo sobre a recusa sistem&aacute;tica e raivosa da m&iacute;dia gorda brasileira<\/a>  &#8211; que de tudo e todos se disp&otilde;e a falar e a criticar &#8211; em discutir a atua&ccedil;&atilde;o de um &uacute;nico setor de nossa sociedade: ela pr&oacute;pria, m&iacute;dia gorda. Diz o professor:<\/p>\n<p>&quot;Na verdade, a grande m&iacute;dia tem se colocado acima das leis, da Constitui&ccedil;&atilde;o e das decis&otilde;es do Judici&aacute;rio, apesar de se apresentar como defensora suprema das liberdades. Ao mesmo tempo, se recusa a discutir ou a negociar, boicota confer&ecirc;ncias nacionais, distorce e omite informa&ccedil;&otilde;es, sataniza movimentos sociais, partidos, grupos e pessoas que n&atilde;o compartilham de seus interesses, projetos e posi&ccedil;&otilde;es. Dessa forma, estimula a intoler&acirc;ncia, a radicaliza&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica e o perigoso estreitamento do debate p&uacute;blico.&quot;<\/p>\n<p>Antes, Lima cita alguns trechos do <a href=\"http:\/\/www.senado.gov.br\/sf\/legislacao\/const\/con1988\/CON1988_11.11.2009\/art_220_.htm\" target=\"_blank\">Cap&iacute;tulo 5 do T&iacute;tulo VIII da Constitui&ccedil;&atilde;o Federal<\/a> . Com apenas cinco artigos, n&uacute;meros 220 a 224, intitula-se &quot;Da Comunica&ccedil;&atilde;o Social&quot;. Junto com o artigo 5 e uma d&uacute;zia de outros, deveriam, a meu ver, ser mat&eacute;ria de ensino na escola, para ajudar a formar brasileiros sabedores de alguns de seus direitos &#8211; passo essencial para que, um dia, possam vir a exigir seu cumprimento. Por sinal, estou encerrando algumas turmas de uma disciplina na gradua&ccedil;&atilde;o em que a leitura destes cinco cap&iacute;tulos &#8211; que, colocados num processador de texto, cabem em duas p&aacute;ginas &#8211; &eacute; feita em voz alta e discutida em sala de aula com os alunos. Ao contr&aacute;rio do que muitos podem pensar, em geral eles gostam da experi&ecirc;ncia e produzem um debate acalorado. H&aacute; quem fa&ccedil;a quest&atilde;o de vir me dizer que considerou a aula mais importante do curso.<\/p>\n<p>Pois bem, nossa Constitui&ccedil;&atilde;o data de 1988. Em outubro, far&aacute; 22 anos. Desde que come&ccedil;ou a valer, uma s&eacute;rie de leis fundamentais para a garantia de direitos e o exerc&iacute;cio da cidadania foram elaboradas e promulgadas a partir de indica&ccedil;&otilde;es no texto constitucional. Por exemplo, o Estatuto da Crian&ccedil;a e do Adolescente (ECA) e o C&oacute;digo de Defesa do Consumidor.<\/p>\n<p>Contudo, na &aacute;rea de comunica&ccedil;&atilde;o, embora a Carta Magna estabele&ccedil;a a necessidade de leis, &oacute;rg&atilde;os e mecanismos federais para regulamentar o setor, continuamos numa terra de ningu&eacute;m. Um c&iacute;nico poderia argumentar que 22 anos &eacute; pouco tempo para o Congresso trabalhar &#8211; legislar &#8211; no sentido de cumprir a lei maior do pa&iacute;s, elaborada l&aacute; mesmo. Ocorre, por&eacute;m, que o atual estado de coisas n&atilde;o se mant&eacute;m por acaso. Ele favorece os grandes. No faroeste e na selva, como bem nos ensinam os filmes de bangue-bangue e os document&aacute;rios de bicho da TV a cabo, vencem os mais fortes.<\/p>\n<p>Um dos pontos que me impressionam nisso tudo &eacute; que os canais de radiodifus&atilde;o &#8211; emissoras de r&aacute;dio e televis&atilde;o &#8211; s&atilde;o concess&otilde;es p&uacute;blicas. Mas atuam como se n&atilde;o o fossem, pois n&atilde;o est&atilde;o submetidas a praticamente nenhum tipo de regula&ccedil;&atilde;o e avalia&ccedil;&atilde;o. O vale-tudo &eacute;, por incr&iacute;vel que pare&ccedil;a, maior do que em setores como transportes (mar&iacute;timo, a&eacute;reo, ferrovi&aacute;rio, rodovi&aacute;rio, metrovi&aacute;rio), energia el&eacute;trica, telefonia fixa, telefonia celular e fornecimento de g&aacute;s. Pois, nesses, ainda que os servi&ccedil;os sejam caros e horrorosos e as empresas fa&ccedil;am dos cidad&atilde;os gato e sapato e lhes roubem de diversas formas a cada dia, existem &oacute;rg&atilde;os respons&aacute;veis pela fiscaliza&ccedil;&atilde;o. At&eacute; os bancos, exemplo-mor de banditismo em terras brasileiras, est&atilde;o, em tese, sujeitos &agrave; fiscaliza&ccedil;&atilde;o e ao cumprimento de determina&ccedil;&otilde;es do Banco Central. Se tais inst&acirc;ncias fiscalizadoras &#8211; federais, estaduais e municipais &#8211; pouco ou nada fazem, &eacute; um outro problema. Na pr&aacute;tica, quase sempre funcionam para ignorar os direitos e queixas dos cidad&atilde;os, as leis e o interesse p&uacute;blico; e proteger as empresas. Ou seja, atuam de forma inversa em rela&ccedil;&atilde;o &agrave;s fun&ccedil;&otilde;es para as quais foram criadas. Mas, ao menos, existem. <\/p>\n<p>E na &aacute;rea de comunica&ccedil;&atilde;o? Faroeste, terra sem lei, vale-tudo, estado de natureza. Nos &uacute;ltimos anos, algumas das poucas regulamenta&ccedil;&otilde;es existentes ca&iacute;ram por decis&otilde;es do Supremo Tribunal Federal presidido por Gilmar Mendes &#8211; como, no caso do jornalismo, o diploma espec&iacute;fico obrigat&oacute;rio para o exerc&iacute;cio da profiss&atilde;o e a Lei de Imprensa. Veja bem, leitor: n&atilde;o estou entrando no m&eacute;rito destas leis &#8211; que, n&atilde;o custa lembrar, datam de 1969 e 1967, respectivamente. Tenho, &eacute; claro, uma opini&atilde;o sobre elas, mas esta n&atilde;o vem ao caso, no momento. Meu argumento &eacute; que, na maioria das vezes, uma lei ruim &eacute; melhor do que lei nenhuma.<\/p>\n<p>Na publicidade e produ&ccedil;&atilde;o audiovisual, iniciativas t&iacute;midas como a classifica&ccedil;&atilde;o indicativa geram uma celeuma danada e campanhas inacredit&aacute;veis na televis&atilde;o, em que esperneiam entidades que representam anunciantes (empresas multinacionais de grande porte, em sua maioria), ag&ecirc;ncias de publicidade e ve&iacute;culos de comunica&ccedil;&atilde;o da m&iacute;dia gorda. <\/p>\n<p>Em contrapartida, entidades e movimentos sociais, representantes de setores significativos da popula&ccedil;&atilde;o e da sociedade brasileira, t&ecirc;m seus pontos de vista sistematicamente ridicularizados, ignorados, atacados. Seu pecado &eacute; exigir a garantia de direitos e a aplica&ccedil;&atilde;o da Constitui&ccedil;&atilde;o Federal. Raros s&atilde;o os detentores de mandato no Congresso Nacional que v&ecirc;m a p&uacute;blico, nestas ocasi&otilde;es, dar a cara a tapa e se arriscar a sofrer uma cr&iacute;tica furiosa da m&iacute;dia gorda. &Eacute; bom lembrar que dezenas de congressistas s&atilde;o concession&aacute;rios de servi&ccedil;o p&uacute;blico de r&aacute;dio e\/ou televis&atilde;o. Violam, portanto, o <a href=\"http:\/\/www.senado.gov.br\/sf\/legislacao\/const\/con1988\/CON1988_11.11.2009\/art_54_.htm\" target=\"_blank\">artigo 54 da Constitui&ccedil;&atilde;o Federal<\/a> , que pro&iacute;be que detenham &quot;cargo, fun&ccedil;&atilde;o ou emprego remunerado&quot; em &quot;empresa concession&aacute;ria de servi&ccedil;o p&uacute;blico&quot;. Mas nada lhes acontece. (Para quem tiver interesse, um panorama da tr&aacute;gica situa&ccedil;&atilde;o est&aacute; no projeto <a href=\"http:\/\/donosdamidia.com.br\/pessoas\" target=\"_blank\">Donos da M&iacute;dia<\/a> , que presta um inestim&aacute;vel servi&ccedil;o &agrave; democracia brasileira ao tornar p&uacute;blicas as informa&ccedil;&otilde;es sobre propriedade dos meios de comunica&ccedil;&atilde;o.) <\/p>\n<p>Dos partidos, ent&atilde;o, infelizmente espera-se menos ainda: mesmo aqueles &agrave; esquerda t&ecirc;m uma resist&ecirc;ncia colossal para abra&ccedil;ar a luta pela democratiza&ccedil;&atilde;o da comunica&ccedil;&atilde;o e lhe dar a import&acirc;ncia devida. Uma import&acirc;ncia que fica n&iacute;tida se levadas em conta as caracter&iacute;sticas hist&oacute;ricas da sociedade brasileira e da conforma&ccedil;&atilde;o dos grupos que comp&otilde;em a m&iacute;dia gorda. <\/p>\n<p>Infelizmente, quando o assunto &eacute; comunica&ccedil;&atilde;o e a m&iacute;dia gorda se sente contrariada e ruge, mesmo o governo federal, eleito para um mandato pela vontade soberana do povo brasileiro (n&atilde;o cabe discutir aqui os numerosos problemas de nossa democracia), treme de forma impressionante. <\/p>\n<p>Felizmente, contudo, gra&ccedil;as a uma s&eacute;rie de fatores &#8211; um deles a luta ferrenha, dif&iacute;cil, muitas vezes solit&aacute;ria de militantes da democratiza&ccedil;&atilde;o da comunica&ccedil;&atilde;o em todo o pa&iacute;s -, o tema ganhou visibilidade in&eacute;dita nos &uacute;ltimos anos. Oxal&aacute;, tal como tem ocorrido quanto &agrave; exig&ecirc;ncia da verdade sobre os crimes cometidos pelos agentes da ditadura, a press&atilde;o social garanta que o debate sobre a comunica&ccedil;&atilde;o veio para ficar.<\/p>\n<p><em>* Rafael Fortes &eacute; jornalista, historiador e professor da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO). Edita o blogue A Lenda.<\/em><\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0cm\" class=\"western\"> <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A m&iacute;dia gorda brasileira se disp&otilde;e a falar de tudo e de todos, menos discutir a atua&ccedil;&atilde;o de um &uacute;nico setor: ela pr&oacute;pria, m&iacute;dia gorda<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[42],"tags":[363],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/23862"}],"collection":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=23862"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/23862\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":28081,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/23862\/revisions\/28081"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=23862"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=23862"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=23862"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}