{"id":23658,"date":"2009-11-30T12:12:48","date_gmt":"2009-11-30T12:12:48","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=23658"},"modified":"2009-11-30T12:12:48","modified_gmt":"2009-11-30T12:12:48","slug":"a-boa-hora-da-comunicacao-alternativa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=23658","title":{"rendered":"A boa hora da comunica\u00e7\u00e3o alternativa"},"content":{"rendered":"<p>   \t \t \t \t \t<!-- \t\t@page { margin: 2cm } \t\tP { margin-bottom: 0.21cm } \t--> \t   <\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0cm\" class=\"padrao\">Surge em boa hora a proposta de cria&ccedil;&atilde;o de uma Associa&ccedil;&atilde;o Brasileira de Empres&aacute;rios da Comunica&ccedil;&atilde;o Alternativa. Ela vem mar&eacute; montante da 1&ordf; Confer&ecirc;ncia Nacional de Comunica&ccedil;&atilde;o (Confecom), que se realizar&aacute; de 14 a 17 de dezembro pr&oacute;ximo, no Centro de Conven&ccedil;&otilde;es Ulysses Guimar&atilde;es, em Bras&iacute;lia. A proposta &eacute; pertinente, inclusive, a partir do uso da palavra &ldquo;Alternativa&rdquo; para qualificar o empreendimento e, por tabela, seus empreendedores.<\/p>\n<p>A express&atilde;o n&atilde;o vem sem controv&eacute;rsia. H&aacute; quem a repudie, por v&aacute;rias raz&otilde;es. Primeiro, vamos a um pouco de hist&oacute;ria. A express&atilde;o &ldquo;Imprensa alternativa&rdquo; (ent&atilde;o se falava muito pouco em &ldquo;m&iacute;dia&rdquo;) ganhou &iacute;mpeto no Brasil dos anos 70 <span style=\"font-style: normal\"><strong>(1)<\/strong><\/span>. Ela surgiu de v&aacute;rias fontes (entre elas esse escriba), como uma resposta ao carinhoso apelido que o escritor Jo&atilde;o Antonio deu aos jornais, em geral pequenos, que se contrapunham &agrave; censura da ditadura militar e &agrave; auto-censura praticada no jornalismo convencional brasileiro: &ldquo;imprensa nanica&rdquo;.<\/p>\n<p>O termo &ldquo;nanica&rdquo; n&atilde;o ofendia nem desqualificava. Pelo contr&aacute;rio, trazia &agrave; tona a met&aacute;fora de Davi contra Golias. Pitoresco, dava o sabor de um certo hero&iacute;smo, quixotesco ou n&atilde;o, &agrave; atividade dos grupos de jornalistas e intelectuais que se reuniam em cooperativas ou com outras formas de organiza&ccedil;&atilde;o para se opor &agrave; hegemonia que a ditadura e a auto-proclamada &ldquo;grande imprensa&rdquo; constru&iacute;am diariamente no campo da informa&ccedil;&atilde;o &ndash; n&atilde;o sem conflitos entre si, como atestam os casos de censura, por exemplo, ao <em>Estad&atilde;o <\/em>e em outros epis&oacute;dios.<\/p>\n<p>Mas se ele n&atilde;o desqualificava, tampouco qualificava muito. N&atilde;o me refiro ao campo moral, mas sim ao conceitual. Deixava brechas importantes. Por exemplo: como qualificar o gigantesco empreendimento de <em>&Uacute;ltima Hora<\/em>, de Samuel Wayner, de quem nos consider&aacute;vamos herdeiros? Esse empreendimento nada tivera de &ldquo;nanico&rdquo;. Mas fora sim alternativo. Alternativo a qu&ecirc;? &Agrave; busca de hegemonia pela ent&atilde;o &ldquo;grande imprensa&rdquo; na sua luta (sanha, talvez) para derrubar Get&uacute;lio Vargas. O <em>Tribuna da Imprensa<\/em>, de Carlos Lacerda, era, na verdade, um &ldquo;nanico&rdquo; que s&oacute; cresceu com o manto protetor de Roberto Marinho, com seu <em>O Globo<\/em>, e de outros &oacute;rg&atilde;os da imprensa conservadora. <\/p>\n<p>Assim, &ldquo;na hist&oacute;ria brasileira os freq&uuml;entes alternativos seriam jornais [ou m&iacute;dia, no sentido atual, mais amplo] que se oporiam ou se desviariam das tend&ecirc;ncias hegem&ocirc;nicas na imprensa convencional brasileira, que esta pretende [cartelizando-se] tornar hegem&ocirc;nicas no pa&iacute;s&rdquo; <strong>(2)<\/strong>.<\/p>\n<p>Al&eacute;m de ter profundidade hist&oacute;rica, a express&atilde;o &ldquo;alternativa (o)&rdquo; ganhou ampla aceita&ccedil;&atilde;o acad&ecirc;mica. O exemplo mais consp&iacute;cuo disso &eacute; o cl&aacute;ssico &ldquo;Jornalistas e revolucion&aacute;rios: nos tempos da imprensa alternativa&rdquo;, de Bernardo Kucinski <strong>(3)<\/strong>, tese de doutorado defendida pelo autor em 1991, na ECA\/USP. Tamb&eacute;m deve-se citar que o termo &ldquo;alternativa (o)&rdquo; tem larga aceita&ccedil;&atilde;o internacional, em v&aacute;rias l&iacute;nguas, na esteira do pensamento de Noam Chomsky, Edward S. Herman, Mike Gunderloy e outros, em contraposi&ccedil;&atilde;o ao que denominam, em ingl&ecirc;s, a &ldquo;mainstream m&iacute;dia&rdquo;, que, valendo-se do &ldquo;propaganda model&rdquo;, definido pelo primeiro, perseguiriam a constru&ccedil;&atilde;o de um &ldquo;manufactured consent&rdquo;.<\/p>\n<p>Os que se op&otilde;em ao termo preferem, em geral, outras express&otilde;es, mas elas padecem de particularismo (como no caso de &ldquo;m&iacute;dia de esquerda&rdquo;, &ldquo;dos trabalhadores&rdquo;, &ldquo;popular&rdquo;, etc.) ou v&atilde;o ao encontro de palavras que os pr&oacute;prios pr&oacute;ceres da m&iacute;dia convencional (tamb&eacute;m chamada de corporativa ou conservadora) usam para se qualificar: &ldquo;livre&rdquo;, &ldquo;independente&rdquo;, por exemplo. Pode-se perguntar: &ldquo;livre&rdquo; ou &ldquo;independente&rdquo; do qu&ecirc;? Essas &uacute;ltimas express&otilde;es recendem a uma vis&atilde;o tamb&eacute;m convencional, aquela mesma que quer vender o peixe de que &eacute; poss&iacute;vel um jornalismo &ldquo;isento&rdquo;, &ldquo;neutro&rdquo;, e outros pingentes da coroa liberal com que a m&iacute;dia tradicional quer se cingir.<\/p>\n<p>Quanto ao fato da proposta ser para a forma&ccedil;&atilde;o de uma associa&ccedil;&atilde;o de empres&aacute;rios, tamb&eacute;m isso vem em boa hora. &Eacute; ineg&aacute;vel que uma boa parte da m&iacute;dia alternativa no Brasil se faz com organiza&ccedil;&otilde;es do tipo empresarial, ainda que, em geral, sejam pequenas ou m&eacute;dias empresas (ou cooperativas), por oposi&ccedil;&atilde;o &agrave;s grandes corpora&ccedil;&otilde;es que dominam os mercados privados publicit&aacute;rios e\/ou de concess&atilde;o de verbas p&uacute;blicas, mediante publicidade ou outros meios (isen&ccedil;&atilde;o de impostos, etc.). Est&aacute; mais do que na hora de se buscar regras de financiamento que, para al&eacute;m das vis&otilde;es mercadol&oacute;gicas estreitas, garantam uma verdadeira pluralidade na constru&ccedil;&atilde;o da informa&ccedil;&atilde;o no Brasil, para que, ao inv&eacute;s do &ldquo;<em>manufactured consent<\/em>&rdquo; que a &ldquo;grande m&iacute;dia&rdquo; quer impor cotidianamente, se d&ecirc;em asas a possibilidade da dissens&atilde;o, do contradit&oacute;rio, do m&uacute;ltiplo, em larga escala.<\/p>\n<p>Esperemos que a iniciativa se concretize, j&aacute; a partir da 1&ordf; Confecom. <em><\/p>\n<p>* Fl&aacute;vio Aguiar &eacute; correspondente internacional da Carta Maior.<\/p>\n<p><\/em><strong>Notas<br \/><\/strong><strong>(1)<\/strong> V. Aguiar, Fl&aacute;vio &ndash; &ldquo;Imprensa alternativa: Opini&atilde;o, Movimento, Em Tempo&rdquo;. Em Martins, Ana Luiza e De Luca, T&acirc;nia Regina (orgs.) &ndash; Hist&oacute;ria da Imprensa no Brasil. S&atilde;o Paulo: Contexto, 2008.<strong><\/p>\n<p>(2)<\/strong> V. Aguiar, Fl&aacute;vio &ndash; op. cit., nota 1, p. 236.<strong><\/p>\n<p>(3)<\/strong> S&atilde;o Paulo: Edusp, 2003. 2a. ed.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&Eacute; pertinente a cria&ccedil;&atilde;o de uma Associa&ccedil;&atilde;o Brasileira de Empres&aacute;rios da Comunica&ccedil;&atilde;o Alternativa<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[42],"tags":[144],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/23658"}],"collection":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=23658"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/23658\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=23658"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=23658"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=23658"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}