{"id":23576,"date":"2009-11-16T15:39:16","date_gmt":"2009-11-16T15:39:16","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=23576"},"modified":"2009-11-16T15:39:16","modified_gmt":"2009-11-16T15:39:16","slug":"a-tv-nao-e-boa-baba","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=23576","title":{"rendered":"A TV n\u00e3o \u00e9 boa bab\u00e1"},"content":{"rendered":"<p><span class=\"padrao\">Este &eacute; o estranho t&iacute;tulo de um document&aacute;rio produzido peloPanorama, da BBC. Trata-se do mais antigo, e provavelmente o melhor, programa de jornalismo investigativo da TV mundial (ver aqui). No ar desde 1953,Panorama se confunde com a pr&oacute;pria hist&oacute;ria da TV. Sempre com temas pol&ecirc;micos, nessa edi&ccedil;&atilde;o eles foram investigar os efeitos da pr&oacute;pria TV nas crian&ccedil;as inglesas. Um programa como este s&oacute; poderia ser produzido pela BBC. Tinha que ser uma rede de TV p&uacute;blica de verdade para aceitar o desafio de discutir os poss&iacute;veis malef&iacute;cios do meio junto &agrave; sua audi&ecirc;ncia mais fiel, dependente e provavelmente mais indefesa: o p&uacute;blico infantil.<\/p>\n<p>OPanorama j&aacute; era um dos meus programas favoritos quando morava na Inglaterra, nos anos 1970 e 80. &Eacute; bom saber que a s&eacute;rie n&atilde;o s&oacute; sobrevive como ainda faz um excelente jornalismo investigativo na TV. A velha s&eacute;rie da BBC prova que ainda existe TV de alta qualidade no mundo.<\/p>\n<p>No Brasil, assisti aoPanorama no canal GNT da Net. Mas voc&ecirc; pode ver o document&aacute;rio na &iacute;ntegra aqui.<\/p>\n<p>O t&iacute;tulo original do programa &eacute; &quot;Is TV bad for my kids?&quot; ou &quot;A TV &eacute; ruim para os meus filhos?&quot; A equipe doPanorama trabalhou em parceria com o professor Barry Gunter, psic&oacute;logo da Universidade de Leicester e especialista nos efeitos da m&iacute;dia sobre o p&uacute;blico. Trata-se do mais longo estudo sobre abstin&ecirc;ncia de TV jamais realizado no Reino Unido. Sem medo de resultados adversos, a equipe doPanorama buscou a coopera&ccedil;&atilde;o de especialistas das universidades brit&acirc;nicas para estudar os efeitos da TV na sociedade.<br \/><strong><br \/>Uma ajuda para os pais<\/strong><\/p>\n<p>Segundo o relat&oacute;rio do ChildWise Monitor Report Winter 2006-2007 (ver aqui), uma institui&ccedil;&atilde;o independente que estuda os efeitos da m&iacute;dia, as crian&ccedil;as inglesas assistem a uma m&eacute;dia de tr&ecirc;s horas de TV por dia. E este &eacute; um n&uacute;mero bastante alto, considerando o tempo que essas crian&ccedil;as passam na escola ou em atividades essenciais, como se deslocando pela cidade, comendo ou dormindo.<\/p>\n<p>Apesar de ter uma das melhores programa&ccedil;&otilde;es de TV no mundo, a sociedade brit&acirc;nica monitora e investiga os efeitos da TV com interesse e seriedade. N&atilde;o se trata de meros &iacute;ndices de audi&ecirc;ncia no Ibope ou pesquisa encomendada para garantir empregos e verbas do governo. Boas pesquisas s&atilde;o caras, trabalhosas e devem ser independentes, mas tamb&eacute;m podem render bons programas de TV.<\/p>\n<p>O tema do document&aacute;rio da BBC &eacute; simples e ousado. Afinal, o que acontece com o comportamento de crian&ccedil;as de 7 a 8 anos de idade de uma mesma turma escolar quando ficam por um per&iacute;odo de duas semanas sem TV, computadores e videogames? O document&aacute;rio cria as condi&ccedil;&otilde;es e analisa os resultados da experi&ecirc;ncia original. No final, apresenta alternativas para os pais com filhos dependentes de tecnologias t&atilde;o poderosas.<\/p>\n<p>&Eacute; muito estranho &ndash; especialmente para n&oacute;s, brasileiros &ndash; assistir a um programa que discute a TV dentro da pr&oacute;pria TV. Mais estranho ainda para os leitores da minha gera&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Perten&ccedil;o &agrave; &quot;gera&ccedil;&atilde;o televis&atilde;o&quot;. Nasci nos anos 1950 e fui criado em frente &agrave; telinha. Meus pais n&atilde;o tinham muitas op&ccedil;&otilde;es. Fam&iacute;lia de classe m&eacute;dia, quase pobre, pai e m&atilde;e trabalhavam o dia inteiro para manter os filhos longe dos perigos do mundo real. A TV era a grande novidade da &eacute;poca. Todos queriam assistir. Mas a TV tamb&eacute;m era uma grande ajuda para pais que n&atilde;o podiam conviver com seus filhos ou pagar os sal&aacute;rios das bab&aacute;s de verdade.<\/p>\n<p><strong>&quot;Achismo&quot; de quem pensa saber tudo<br \/><\/strong><br \/>A TV do passado era algo parecido com a internet de hoje. Assim como nossos jovens hoje &quot;escapam do mundo&quot; e passam horas na rede, a gera&ccedil;&atilde;o dos anos 1950 &quot;viajava&quot; pelas imagens da TV. Era uma janela aberta para um mundo desconhecido, repleto de novidades e aventuras. Um mundo de muitas promessas e oportunidades, mas tamb&eacute;m repleto de perigos e amea&ccedil;as. Aos poucos, a TV se firmava como uma bab&aacute; eletr&ocirc;nica amiga, mas tamb&eacute;m poderosa e exigente.<\/p>\n<p>N&atilde;o sei se foi uma bab&aacute; boa ou m&aacute;. Mas a TV me fez companhia durante os longos e &aacute;rduos anos de inf&acirc;ncia e juventude. Nunca deixei de gostar e de assistir. Mas, pelo menos, fiz daquela paix&atilde;o ou v&iacute;cio algo mais positivo. Acabei fazendo, ensinando e pesquisando TV.<\/p>\n<p>Sempre tive curiosidade de conhecer mais sobre o meio que ainda fascina, hipnotiza e infelizmente tamb&eacute;m &quot;vicia&quot; milh&otilde;es de espectadores. O problema &eacute; que pouco se sabe sobre os verdadeiros efeitos da TV. Principalmente em rela&ccedil;&atilde;o ao p&uacute;blico infantil. Temos algumas pesquisas superficiais, muitos &iacute;ndices de audi&ecirc;ncia e muito, mas muito, &quot;achismo&quot; de quem &quot;pensa&quot; que sabe tudo sobre TV. N&atilde;o h&aacute; boas pesquisas aprofundadas sobre os efeitos da TV no Brasil. Poucos conseguem os recursos para sair em campo e pesquisar os efeitos da TV na popula&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>E foi exatamente isso que a equipe doPanorama da BBC resolveu fazer.<\/p>\n<p><strong>Resultados da pesquisa<br \/><\/strong><br \/>Tr&ecirc;s fam&iacute;lias sem TVs, computadores e games durante duas semanas. Parece pouco, mas quem conhece, sabe o tamanho do problema. Na minha casa, nos anos 1950 e 1960, os &uacute;nicos grandes problemas familiares surgiam quando a TV quebrava. Pode ser coincid&ecirc;ncia, mas quando a TV parava de funcionar, come&ccedil;&aacute;vamos a conversar, discutir e brigar. As conseq&uuml;&ecirc;ncias nem sempre eram positivas. A TV mantinha uma paz familiar fr&aacute;gil e provavelmente artificial. A equipe doPanorama procurou tamb&eacute;m procurou revelar esses mist&eacute;rios da TV em casa com as fam&iacute;lias e nas escolas, com colegas e professores.<\/p>\n<p>Logo no in&iacute;cio do programa, as crian&ccedil;as inglesas descrevem o poder da TV em suas vidas: &quot;Eu n&atilde;o gosto, mas assisto de qualquer maneira. N&atilde;o consigo desligar a TV&quot;. E os pais acrescentam: &quot;A TV acalma as crian&ccedil;as. &Eacute; como se fosse uma esp&eacute;cie de chupeta&quot;. E, diante do assustador desafio da pesquisa &ndash; duas semanas sem TV, computadores e games &ndash;, eles indicam os poss&iacute;veis problemas a serem enfrentados pelas crian&ccedil;as: &quot;Eles v&atilde;o sentir falta&quot;. Sobre os efeitos das novas tecnologias na educa&ccedil;&atilde;o, os professores afirmam: &quot;Nossas salas de aula n&atilde;o conseguem competir com os games&quot;.<\/p>\n<p><strong>Os pais tamb&eacute;m relatam os efeitos da experi&ecirc;ncia:<\/strong><\/p>\n<p>&quot;Todas as crian&ccedil;as sem TV, computadores ou games mudaram. Mas nenhuma mudou para pior. Elas parecem estar mais calmas. As atitudes mudaram. A TV nos controlava! Agora eles parecem ter mais a imagina&ccedil;&atilde;o.&quot;<\/p>\n<p>&quot;As crian&ccedil;as est&atilde;o brincando mais entre si. Fazem os deveres de casa sem problemas. O comportamento melhorou. N&atilde;o precisam da TV para relaxar. Elas n&atilde;o dormem mais assistindo aos DVDs. Vivem brincando. Vivem uma vida normal.&quot;<\/p>\n<p><strong>Na sala de aula:<\/strong><\/p>\n<p>&quot;Tudo mudou&quot;. Apesar do curto per&iacute;odo da experi&ecirc;ncia, os professores perceberam o aumento de interesse e concentra&ccedil;&atilde;o de algumas das crian&ccedil;as do grupo pesquisado. E ap&oacute;s a pesquisa, em reuni&atilde;o com os pais, as mudan&ccedil;as s&atilde;o discutidas:<\/p>\n<p>&quot;Agora h&aacute; regras. As crian&ccedil;as s&oacute; assistem TV ap&oacute;s terem feito os deveres escolares. Na parte da manh&atilde;, nos dias da semana, eles s&oacute; assistem aos jornais&quot;.<\/p>\n<p>&quot;Retiramos a TV do quarto das crian&ccedil;as&quot;.<\/p>\n<p>&quot;Creio que o resultado geral da experi&ecirc;ncia foi muito positivo. Agora temos menos brigas e damos boas risadas na fam&iacute;lia&quot;.<\/p>\n<p><strong>Enlouquecidas e exaustas<\/strong><\/p>\n<p>O document&aacute;rio da BBC teve grande repercuss&atilde;o na sociedade brit&acirc;nica. Gerou f&oacute;runs de discuss&atilde;o na internet e provocou rea&ccedil;&otilde;es favor&aacute;veis e contr&aacute;rias dos telespectadores.<\/p>\n<p>Algumas pessoas consideram muito estranho, talvez at&eacute; mesmo hip&oacute;crita, que a TV discuta seus problemas em programas de TV. Mas ainda &eacute; indiscut&iacute;vel o poder da TV e das novas tecnologias para controlar as mentes, principalmente das crian&ccedil;as e adolescentes. Essa &eacute; uma quest&atilde;o que merece ser ainda mais pensada e discutida no Brasil.<\/p>\n<p>As equipes doPanorama e da Universidade de Leicester tamb&eacute;m aproveitaram a transmiss&atilde;o do programa para fazer algumas recomenda&ccedil;&otilde;es:<\/p>\n<p>** Pais e filhos se beneficiam da falta da TV, computadores e games;<\/p>\n<p>** As fam&iacute;lias precisam interagir mais com seus filhos;<\/p>\n<p>** Precisam fazer mais coisas com eles;<\/p>\n<p>** Os pais precisam dar mais e melhor aten&ccedil;&atilde;o a seus filhos.<\/p>\n<p>Mas a palavra final e definitiva ficou com as m&atilde;es que participaram da pesquisa. Disse uma delas:<\/p>\n<p>&quot;Os resultados foram muito bons. Mas estamos felizes que a experi&ecirc;ncia vai terminar e as TVs, computadores e games v&atilde;o voltar. J&aacute; estamos enlouquecendo sem a TV. Estamos exaustas!&quot;<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pesquisa mostra que <span class=\"padrao\">pais e filhos se beneficiam da falta da TV, computadores e games<\/span><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[42],"tags":[53],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/23576"}],"collection":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=23576"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/23576\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=23576"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=23576"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=23576"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}