{"id":23496,"date":"2009-10-31T13:47:09","date_gmt":"2009-10-31T13:47:09","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=23496"},"modified":"2009-10-31T13:47:09","modified_gmt":"2009-10-31T13:47:09","slug":"a-producao-de-noticias-e-um-bem-publico-a-ser-protegido","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=23496","title":{"rendered":"&#8220;A produ\u00e7\u00e3o de not\u00edcias \u00e9 um bem p\u00fablico a ser protegido&#8221;"},"content":{"rendered":"<p><span class=\"padrao\">Poucas coisas v&ecirc;m causando mais pol&ecirc;mica entre os jornalistas dos Estados Unidos do que o relat&oacute;rio &quot;A reconstru&ccedil;&atilde;o do jornalismo americano&quot;, recentemente conclu&iacute;do pelo professor de Jornalismo da Universidade de Columbia Michael Schudson, autor de seis livros e editor de dois sobre a hist&oacute;ria e a sociologia do setor, e pelo jornalista Leonard Downie Jr., editor-executivo do Washington Post por 17 anos [ver, neste Observat&oacute;rio, &quot;Ajuda estatal gera pol&ecirc;mica na reconstru&ccedil;&atilde;o do jornalismo norte-americano&quot;].<\/p>\n<p>Num mundo em que muitos n&atilde;o se cansam de decretar o fim do jornalismo impresso e sua substitui&ccedil;&atilde;o pelo digital &ndash; ainda que poucos saibam como ganhar dinheiro com o novo formato &ndash;, Schudson e Downie sugerem transforma&ccedil;&otilde;es radicais para manter vivas a reportagem isenta e investigativa.<\/p>\n<p>Afinal, dizem, a quantidade de jornalistas em reda&ccedil;&otilde;es grandes e m&eacute;dias nos EUA caiu de 60 mil, em 1992, para 40 mil em 2009.<\/p>\n<p>O relat&oacute;rio sugere sa&iacute;das pol&ecirc;micas, ao menos nos EUA, onde o Estado &eacute; n&atilde;o apenas temido como vilificado. Uma &eacute; transformar as empresas jornal&iacute;sticas em entidades de interesse p&uacute;blico, n&atilde;o lucrativas, como ONGs, cuja taxa&ccedil;&atilde;o de impostos seria revista pelo governo. Com isso poderiam at&eacute; aceitar doa&ccedil;&otilde;es de funda&ccedil;&otilde;es, entidades filantr&oacute;picas ou mesmo dinheiro p&uacute;blico, desde que fosse estabelecida uma f&oacute;rmula para manter a isen&ccedil;&atilde;o e imparcialidade das coberturas. Schudson explicou ao Globo os pontos mais importantes de seu relat&oacute;rio.<\/p>\n<p><strong>No estudo, o senhor afirma que menos jornalistas est&atilde;o cobrindo menos not&iacute;cias em menos p&aacute;ginas. E que a hegemonia da qual o monop&oacute;lio dos grandes jornais metropolitanos gozou no fim do s&eacute;culo passado est&aacute; acabando, especialmente pelo esgotamento do modelo de financiamento por meio de anunciantes. Quanto tempo as reda&ccedil;&otilde;es ainda t&ecirc;m?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Michael Schudson<\/strong> &ndash; Algumas d&eacute;cadas? As grandes reda&ccedil;&otilde;es de jornal americanas entraram num processo de encolhimento radical. Temos hoje menos um ter&ccedil;o dos jornalistas e voltamos a patamares dos anos 1970. Mas h&aacute; novos modelos de produ&ccedil;&atilde;o na internet, ainda que eu n&atilde;o ache que a rede, em si, v&aacute; sufocar totalmente os jornais impressos.<\/p>\n<p>Afinal, grande parte do que &eacute; escrito em blogs e sites &eacute; a repeti&ccedil;&atilde;o ou resumo, com coment&aacute;rios, do que a grande imprensa produz. A maioria n&atilde;o tem a estrutura e os recursos necess&aacute;rios &agrave; pr&aacute;tica do jornalismo isento e investigativo.<\/p>\n<p><strong>Quais s&atilde;o os novos modelos?<\/strong><\/p>\n<p><strong>M.S.<\/strong> &ndash; Blogs financiados por empresas filantr&oacute;picas ou comerciais e a produ&ccedil;&atilde;o on-line de universidades e centros de pesquisa que se pautam pela isen&ccedil;&atilde;o e objetividade. N&atilde;o falo de blogs de v&iacute;nculo partid&aacute;rio ou na defesa de interesse de grupos. Falo da produ&ccedil;&atilde;o de not&iacute;cias com o mesmo zelo e t&eacute;cnicas de apura&ccedil;&atilde;o isenta, pesquisa esmerada e &eacute;tica que pautam, de modo geral, os grandes jornais. Tanto que muitos destes passaram a publicar artigos de blogs e sites, e viceversa.<\/p>\n<p>Sem grandes escrit&oacute;rios, pap&eacute;is, caminh&otilde;es de entrega, &eacute; poss&iacute;vel fazer um bom jornalismo investigativo, se houver o m&iacute;nimo de financiamento.<\/p>\n<p>Mas, no relat&oacute;rio, os senhores alertam para o fim progressivo do modelo de an&uacute;ncios bancando jornais impressos e prop&otilde;em sa&iacute;das pol&ecirc;micas. E o modelo de an&uacute;ncios na rede tamb&eacute;m n&atilde;o chegou a decolar.<br \/><strong><br \/>M.S.<\/strong> &ndash; &Eacute; verdade, mas eu encaro a produ&ccedil;&atilde;o de not&iacute;cias jornal&iacute;sticas isentas como um bem p&uacute;blico que precisa ser protegido, ainda que haja interesses comerciais por tr&aacute;s das empresas. Tem sido assim nos EUA por pelo menos meio s&eacute;culo. Mas isso pode ser minimizado com transforma&ccedil;&otilde;es radicais. Uma delas &eacute; trocar a natureza das empresas jornal&iacute;sticas comerciais lucrativas de hoje por um modelo n&atilde;o lucrativo, ou de lucro baixo, esp&eacute;cie de ONGs, taxadas de forma diferente pelo governo, com isen&ccedil;&otilde;es. Com base em regras claras de conduta do ponto de vista da cobertura isenta, investigativa e ampla, poder&iacute;amos permitir que essas empresas recebessem dinheiro diretamente de institui&ccedil;&otilde;es filantr&oacute;picas, outras empresas e at&eacute; do pr&oacute;prio governo, que poderia bancar jornais locais, com mais foco nas necessidades da popula&ccedil;&atilde;o.<br \/><strong><br \/>O senhor tem no&ccedil;&atilde;o do que &eacute; propor um jornalismo subsidiado pelo governo nos EUA? E o governo aceitaria ser investigado colocando dinheiro na empresa?<\/strong><\/p>\n<p><strong>M.S.<\/strong> &ndash; &Eacute; quase imposs&iacute;vel hoje, eu sei, mas o que percebemos &eacute; que as empresas est&atilde;o se movimentando. Para evitar ficar na m&atilde;o de um s&oacute; doador, multiplicam-se as parcerias. Uma das que emergem &eacute; com as universidades, que poderiam financiar em parte a cobertura e o debate de temas que considerem importantes, como ci&ecirc;ncia ou estudos sociais. E a investiga&ccedil;&atilde;o jornal&iacute;stica &eacute; um bem para a democracia e para o pr&oacute;prio governo. Esse trabalho dos jornais j&aacute; &eacute; avalizado pela sociedade.<br \/><strong><br \/>Praticamente todos os grupos jornal&iacute;sticos americanos fundiram suas opera&ccedil;&otilde;es na internet com as tradicionais, para ganhar escala. O jornal tende a ser mais anal&iacute;tico e a internet, mais imediatista. &Eacute; esse o caminho?<\/strong><\/p>\n<p><strong>M.S.<\/strong> &ndash; Acho que sim, por&eacute;m tanto a internet quanto o impresso t&ecirc;m de ser anal&iacute;ticos. Mas o impresso pode ser mais investigativo e substancial, levar mais tempo na produ&ccedil;&atilde;o de not&iacute;cias de peso. O jornalismo n&atilde;o &eacute; s&oacute; dar a not&iacute;cia na frente. &Eacute; tamb&eacute;m o furo investigativo ou novas abordagens de assuntos que est&atilde;o a&iacute;, mas que as reda&ccedil;&otilde;es n&atilde;o t&ecirc;m tempo ou espa&ccedil;o para abordar.<br \/><strong><br \/>E como evitar que os recursos injetados nos jornais por empresas e governo n&atilde;o interfiram na produ&ccedil;&atilde;o de not&iacute;cias?<\/strong><\/p>\n<p><strong>M.S.<\/strong> &ndash; Como j&aacute; disse, com regras claras. Como acontece hoje, ali&aacute;s, no formato dos an&uacute;ncios, que s&atilde;o empresas e governos colocando dinheiro nos jornais. Nos EUA, vemos jornais criticando empresas que anunciam em suas p&aacute;ginas, e isso n&atilde;o faz com que elas deixem de anunciar.<\/p>\n<p><strong>Muitas empresas jornal&iacute;sticas est&atilde;o passando a cobrar por conte&uacute;do na rede. O que est&aacute; acontecendo?<\/strong><\/p>\n<p><strong>M.S.<\/strong> &ndash; S&atilde;o novos modelos sendo testados. O que parece estar se desenhando &eacute; um modelo em que parte do conte&uacute;do permanecer&aacute; aberto e parte passar&aacute; a ser cobrado, como reportagens e an&aacute;lises especiais. Alguns jornais americanos j&aacute; pensam em criar assinaturas especiais on-line, que dariam direito a acesso irrestrito e participa&ccedil;&atilde;o em debates de jornalistas com determinadas fontes, ou em mesas-redondas, numa esp&eacute;cie de clube de assinantes.<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p><span class=\"padrao\">Professor de Columbia sugere que jornais se transformem em empresas n&atilde;o lucrativas, recebendo recursos at&eacute; do governo<\/span><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[43],"tags":[1144],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/23496"}],"collection":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=23496"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/23496\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=23496"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=23496"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=23496"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}